sábado, 10 de novembro de 2007

Trastevere, minha casa em Roma

Detalhe de uma fachada no bairro de Trastevere
Atualizado em janeiro de 2017

Na minha segunda visita a Roma, em 2007, escolhi me hospedar no Trastevere. Nem tanto pela ilusão de encontrar a tal da “Roma profunda” que o clichê associa ao bairro, mas, principalmente, por achar a região simpática.

Das áreas centrais da capital italiana, o bairro, assim como o Testaccio, consegue preservar aquela cara de lugar onde mora gente que eu vivo buscando. Depois de uma semana no Trastevere, já me sentia em casa, especialmente quando recebia o bom dia animado do dono da tabacaria onde comprava os bilhetes para o ônibus, ou quando a vizinha da minha pousada sorria para mim, quando eu passava por sua porta.

Veja como foi minha experiência:



A Ponte Sisto, porta de entrada para o Trastevere
Bairro de pescadores, marinheiros e da plebe, o Trastevere já esnobava o esplendor de Roma 500 anos antes da nossa era. A área a Oeste do Tibre, na verdade, só passou a ser considerada parte da cidade durante o Império.

Foi nessa época que a área começou a ser cobiçada pelos patrícios (a elite romana) para a construção de suas moradias imponentes, como a villa onde viveram Cecília e Valeriano, martirizados ao aderirem ao Cristianismo — ela  virou santa, padroeira dos músicos, e sua antiga casa foi substituída pela linda basílica dedicada a ela, que, junto com Santa Maria in Trastevere, está entre as mais antigas igrejas de Roma.

A Igreja de Santa Cecília foi erguida sobre a villa onde a mártir viveu, no Século 2 da nossa era
Talvez a rebeldia trasteverina explique o fato de a região abrigar algumas das pioneiras entre as igrejas cristãs da cidade (o Cristianismo já foi transgressor!!). O fato é que o bairro sempre gostou de manter uma personalidade própria, um astral quase napolitano, com suas ruas muito estreitas, as “roupas comuns dependuradas na corda, qual bandeiras agitadas”. 

Santa Maria in Trastevere
Mas o Trastevere está longe de ser um “estranho festival”. É muito mais uma vizinhança que se debate para preservar sua identidade e a vida normal em meio ao clichê inventado principalmente pelo cinema. 

Um bairro onde se pode ouvir o ruído das panelas que preparam o almoço saindo por uma janela, ao mesmo tempo em que se é abordado pelo acordeonista tocando O Sole Mio em busca de uns trocados (se os filmes americanos botam venezianos para dançar tarantela, por que o músico de rua trasteverino deveria recusar a canzoneta napolitana, tão clichê da Itália?).

Dicas práticas
Muito mais que um clichê trasteverino: as roupas secando na fachada dão um toque de sinceridade que humaniza o bairro
Como chegar

O interior do Trem FR1, que liga o Aeroporto de Fiumicino ao Trastevere
Do Aeroporto Leonardo da Vinci (Fiumicino), a melhor opção para chegar ao Trastevere é o Trem Metropolitano FR1, que faz uma parada na estação do bairro. O bilhete custa € 8.

Atenção: não vale a pena pegar o Expresso Leonardo. Esse trem, o famosão que liga Fiumicino ao Centro de Roma, vai direto para a Estação de Termini e você vai precisar voltar para o Trastevere, que está a 4,5 km de distância.

O FR1 faz o trajeto até o Trastevere em cerca de 30 minutos.

Onde ficar

Até existem alguns hotéis do tipo convencional no Trastevere, mas o forte da hospedagem na área são as pousadas (guesthouses). Elas ocupam apartamentos em casarões antigos, adaptados para a função. É sempre bom se certificar em que andar ficam e se tem elevador, especialmente se você tiver alguma dificuldade de locomoção ou viajar com malas enormes. Dificilmente essas pousadas terão garagem própria (mas a última coisa que você deve fazer em Roma é alugar um carro para explorar a cidade 😉).

Quando me hospedei no Trastevere, escolhi o Tamara's Suites, na Piazza San Cosimato, bem pertinho de Santa Maria in Trastevere, e que continua em funcionamento. Ele é um bed&breakfast instalado no segundo andar de um prédio tipicamente romano, com ares de palazzo e com um elevador minúsculo, adaptado ao vão da escada.


O quarto e o banheiro também eram bem apertadinhos, basiquíssimos (só uma TV, cama, armário pequeno). Em novembro de 2007, paguei € 80 por diária, com café da manhã servido no quarto. O hóspede recebia um papeleta para marcar suas opções (pães, suco, fruta e iogurte) e recebia a bandeja com a refeição na hora marcada.

A localização do B&B é é ótima, perto do transporte público, restaurantes e bares, mas em um trecho bem sossegado do bairro. Também gostei muito do atendimento. Os funcionários são muito solícitos e eficientes. A grande vantagem do Tamara’s é o silêncio, uma preciosidade em Roma. Não se corre o menor risco de ouvir os onipresentes motorinos (as lambretas e vespas) que são uma praga na cidade.

Olha só que ideia bacana, o "Ônibus Escolar a Pé": as crianças esperam na parada a passagem de um grupo, sempre acompanhado por um adulto, e caminham juntas para a escola
Onde comer

Alle Frate de Trastevere
Via delle Fratte di Trastevere, 49

Tradicionalíssimo no bairro, o lugar é tudo que você imagina de um restaurante romano: sem frescuras, aconchegante, com cara de casa de avó. Fui recebida na porta pelo dono, um velhinho na casa dos 80, muito compenetrado em seu colete de flanela. Pedi massa com abóbora (abóbora MESMO, não é zuchinni, abobrinha) e frutos do mar como primo piatto. De secondo, a trippa alla romana, que é dobradinha feita em molho de tomate. Ao ouvir o pedido, o velhinho se iluminou: "É minha mulher quem faz!".

O prato é uma emblemática receita romana, mas imagino que poucos estrangeiros arrisquem. Pois deviam: estava divina. A massa estava correta, mas não inesquecível. O tiramisú de sobremesa é que foi de gritar, de tão bom. "Ho mangiatto veramente come una principessa" por 28 Euros, com vinho, limoncello e café.

Voltei uma segunda vez e também gostei do saltimbocca.

O melhor dos restaurantes da Piazza Santa Maria
 in Trastevere é a vista 
para a bela fachada da igreja
Galeassi
Piazza Santa Maria in Trastevere 3

Este é um restaurante mais arrumadinho, com mesas externas e boa vista para a bela praça. Pedi uma lasanha ao ragu muito correta e um ossobuco muito bom. Com vinho, sobremesa, café e pãezinhos, paguei 39 Euros.

Ripa 12
Via San Francesco a Ripa 12

Aqui eu comi uma pasta com frutos do mar muito boa. É elegante, sem ostentação. Bom lugar para jantar. A conta fica em torno de 40 Euros por pessoa, com primeiro e segundo prato, sobremesa, vinho, café e licor.

Couscous 

Não vou lembrar o nome do lugar, mas fica na Via Natale del Grande (que tem cerca de 100 metros), quase chegando na Piazza San Cosimato. É uma espécie de mercearia turca que serve refeições. O couscous de vegetais delicioso, a 5 Euros.

O Trastevere é pra ser desvendado a pé
Como circular
O Trastevere é para ser desvendado a pé. O bairro é dividido ao meio pela Viale di Trastevere, que concentra o comércio e onde passam o bonde que vai para o Centro (até o Largo de Torre Argentina) e os ônibus.

A Oeste dessa rua fica a parte mais fervida do bairro, com muitos bares, restaurantes e uma certa cenografia trasteverina  mais turística.  Do outro lado da Viale di Trastevere, a área tem uma cara mais autêntica, com aquele jeitão de lugar onde mora gente (e os varais nas fachadas não parecem cenográficos). 

Além de ser uma delícia caminhar sem rumo por aqui, nada se compara à felicidade de chegar a pé à beira do Tibre, atravessar a Ponte Sisto ou a Isola Tiberina, e namorar a beleza única de Roma.


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2 comentários:

  1. Ai, que vontade de estar em Roma! Te ler é sempre um bálsamo, Campos. A Fragata Surprise é uma delícia. Beijos.

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