6 de janeiro de 2019

Trilha sonora para Nashville - playlist pra embalar seus passeios na capital do Country


Seleção de músicas Country
Era para ser uma playlist de Country pra quem não gosta de Country - mas me convenci de que eu gosto 😁
Quando eu comecei a montar minhas playlists para embalar o roteiro musical nos Estados Unidos, achei que ia penar para reunir uma trilha sonora para Nashville. A grande marca musical da cidade é a Country Music, estilo que  —  já falei em outros posts  —  não é muito a minha praia.

Bastou um pouquinho de esforço, porém, para listar uma quantidade enorme de canções que adoro e, tecnicamente, podem ser catalogadas como Country Music.

No fim, o que deu trabalho não foi achar músicas para a playlist, mas fazer uma seleção entre elas —para este post não ficar excessivamente quilométrico 😃.

É verdade que minha trilha sonora para Nashville está longe de contemplar o mainstream do Country atual. Prefiro clássicos alternativos, como Willie Nelson, Patsy Cline e o maior de todos, Johnny Cash.

Elvis Presley no Hall da Fama da Música Country
Elvis no Hall da Fama do Country: a imagem pode até não estar muito fiel, mas o cara fez por merecer a homenagem
A playlist também tem pérolas do Rockabilly — um filhote musical do Country também muito associado a Nashville — como Carl PerkinsGene Vincent e Buddy Holly.

Minha trilha sonora para Nashville tem presenças inesperadas, como Carla Bruni. E tem amores que me acalentam em qualquer compasso (Ray Charles, Bob Dylan, Rolling Stones, Beatles, Van Morrison, Paul Simon, James Taylor e Art Garfunkel) que também arrasam no universo dos banjos e rabecas.

A moral da história é essa mesma: o estilo musical germinado nos campos do Sul dos EUA, típico de agricultores brancos e pobres, consegue transcender seu papel de trilha sonora do universo conservador e saudosista que ainda hoje se enrola em bandeiras Confederadas e cultua armas de fogo.

Cadillac de Elvis Presley no museu do Country Music Hall of Fame
O Cadillac de ouro de Elvis no museu do Country Music Hall of Fame. Presley é apenas um dos grandes roqueiros homenageados lá 
A Country Music é também uma influência fundamental na música do Século 20 e continua a fazer escola — não bastasse ser um dos gametas do Rock’n’Roll. Vida longa pra ela, portanto.

O que começou como uma playlist Country para quem não gosta de Country acabou virando meu testemunho de carinho e respeito pelo estilo que ajudou a formar gente essencial na minha vida, como Elvis Presley, Dylan e aqueles quatro meninos de Liverpool que me acompanham desde que me entendo por gente.

Siga o link para acessar minha playlist Nashville completa, no spotify, ou os links de cada canção (no spotify ou youtube). Divirta-se e inspire-se com minha trilha sonora para Nashville.

Johnny Cash - I walk the line
Johnny Cash, o homem de preto: o maior de todos
🎝 I walk the line - Johnny Cash
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“Porque você é minha, eu ando na linha”. Johnny Cash nunca foi santo e gostava de cultuar uma imagem ainda mais tranca-rua do que ele era na realidade. Nesta canção, de 1956, ele enaltece o amor e o casamento como talismãs que o mantêm longe de confusões. Mais Country, impossível 😊.

Um detalhe: a dona patroa que mantém o bad boy na linha não é June Carter, o grande amor da vida dele, mas a primeira esposa, Vivian Liberto, com quem foi casado entre 1954 e 1966.

Essa música me faz batucar os saltos do sapato no assoalho desde os primeiros acordes.

Buddy Holly - Oh Boy!
Buddy Holly teve apenas um ano e meio pra se tornar imortal
🎝 Oh Boy! - Buddy Holly
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A gente nunca vai saber aonde teria chegado Buddy Holly, se o avião que ele dividia com Richie Valens (La Bamba) e The Big Bopper (Chantilly Lace) não tivesse caído na fatídica noite de 3 de fevereiro de 1959.

O episódio, narrado na quase-saga American Pie, de Don McLean, ficou conhecido como "o dia em que a música morreu" e marcou toda uma geração de futuros roqueiros.

O que dá para saber é que, em apenas um ano e meio de carreira profissional, Buddy Holly emplacou sucessos ouvidos até hoje (Peggy Sue, Words of Love, gravada pelos Beatles, Not Fade Away, gravada pelos Stones, It's so easy, Raining in my heart...).

Holly também teve tempo de traçar as linhas mestras do Rockabilly, uma vertente fundamental do Rock’n’Roll, além de deixar uma herança para várias gerações de discípulos, entre eles os Beatles e os Rolling Stones. Um legado imenso para quem viveu apenas 22 anos.

Oh Boy! é pura energia à moda dos primórdios do Rock e ganhou covers/homenagens dos Everly Brothers, Skeeter Davis, The Shadows, Los Lobos, Stray Cats, Grateful Dead e mais uma pá de gente — nenhuma das versões se compara à de Buddy Holly.

Gene Vincent & His Blue Caps
Gene Vincent, gênio do Rockabilly
 🎝 Unchained Melody - Gene Vincent & His Blue Caps
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Desde que foi lançada, em 1955, essa canção já foi gravada por mais de 500 artistas — entre eles Elvis Presley, Cindy Lauper, Bing Crosby e o U2. A versão mais famosa é a dos Righteous Brothers, de 1965, que voltou a bombar ao ser incluída na trilha sonora do filme Ghost (1980).

Mas a minha interpretação preferida de Unchained Melody é essa versão low profile de Gene Vincent, acompanhado de seus Blue Caps. Sem contorcionismos vocais, Vincent deixa a melodia falar por si.

Repare que ele deixa de fora o refrão da canção (Lonely rivers flow/ To the sea, to the sea/ To the open arms of the sea/ Lonely rivers sigh/ "Wait for me, wait for me"/ I'll be coming home, wait for me).

Gene Vincent, o imortal intérprete original de Be Bob a Lula, é tão essencial ao Rock quanto Buddy Holly.

Everly Brothers e Elvis Presley
Everly Brothers e Elvis: roqueiros muito country
🎝 Wake up, Little Susie - The Everly Brothers
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Entre 1957 e 1962, os irmãos Don e Phil Everly emplacaram uma saraivada de sucessos que os coloca entre os artistas mais populares dos primeiros anos do Rock.

A lista de clássicos começa com Bye Bye, Love e segue com Crying in the rain, All I have todo is dream, (Till) I kissed you, só pra citar alguns hits planetários. Wake up, Little Susie é a minha favorita entre as mais dançantes.

Filhos de um mineiro de carvão e criados no estado de Iowa, a sonoridade dos Everly Brothers é profundamente marcada pela Country Music — os violões  as harmonias vocais chegam sem escalas de uma cantoria de trabalhadores rurais após a lida no campos.

Os Everly Brothers viveram vários anos em Nashville e foram assíduos nas gravações no legendário Estúdio B da RCA — uma das visitas mais impactantes que fiz na cidade. Sua música foi uma influência marcante sobre muita gente boa. Simon & Garfunkel, por exemplo. 

Pra entrar no clima ainda mais, ouça também Nashville Blues, gravada pelos irmãos em 1960 (tem no spotify e no youtube).

🎝 I washed my hands in muddy water - Elvis Presley
spotify | youtube |

Se Johnny Cash foi o mais roqueiro dos músicos country, Elvis com certeza foi o mais country dos roqueiros. E ele tinha todo o instrumental para isso, dada sua origem pobre no Sul dos EUA.

Igualmente influenciado pela Country Music dos brancos e o Blues dos negros — as duas escolas que forjaram o Rock’n’Roll —, Elvis personifica a síntese que ajudou a criar.

Sua gravação de That’s alright Mamma, um Rythm’n’Blues tocado com acompanhamento country, é considerada “o início de tudo”.

I washed my hands in muddy water foi gravada em 1971, no álbum Elvis Country (I'm 10,000 Years Old), uma das incursões mais escancaradas do Rei do Rock em um estilo que ele carregou na alma desde o bercinho.

Johnny Cash Museum
O Museu de Johnny Cash, visita obrigatória em Nashville
🎝 Hurt - Johnny Cash
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Hurt é tão a cara de Johnny Cash — de sua depressão, abuso de drogas e conduta autodestrutiva — que a gente até esquece que ele não é o autor da canção, escrita por Trent Razor, da banda Nine Inch Nails, e gravada originalmente em 1994.

Esse cover de Cash, porém, parece que nasceu grudado na pele do intérprete e virou um ícone do “Homem de Preto”, como ele era chamado.

A gravação de Johnny Cash é de 2002, um ano antes de sua morte, e ganhou um clipe mitológico—considerado um dos melhores videoclipes de todos os tempos — quase um testamento. Atualmente, a canção é mais lembrada por sua associação com o filme Logan.

Eu acho a interpretação de Johnny Cash em Hurt um soco no estômago. Coisa de gênio.

Bob Dylan e Johnny Cash - Girl from the North  Country
. O homem de preto recebe Bob Dylan em seu programa de TV para a célebre interpretação de Girl from the North Country
🎝 Girl from the North Country - Bob Dylan e Johnny Cash
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Quem me “apresentou” Johnny Cash foi Bob Dylan, que é fã entusiasmado do “Homem de Preto” — mais um motivo pra eu amar Mr. Zimmermann, né?

Essa versão de Girl from North Country, do disco Nashville Skyline (1969) é a regravação da música que já havia sido lançada em The Freewheelin’ Bob Dylan (1963) — e se você reparar direito, vai ver que é uma adaptação da canção folk inglesa Scarborough Fair, gravada por Simon & Garfunkel. 

A tietagem entre Dylan e Cash era mútua. Na verdade, o contato entre os dois foi iniciativa de Cash, como ele conta em sua autobiografia. Foi ele quem escreveu a Dylan falando de sua admiração —deve ter sido algo como eu receber uma carta de Mr Zimmermann dizendo que é leitor assíduo da Fragata 😅.

Além de gravar a canção em estúdio para o disco de Dylan, a dupla cantou Girl from the North Country no palco do Ryman Auditorium, em 1º de maio de 1969, para o primeiro episódio do programa de TV The Johnny Cash Show — um sucesso transmitido semanalmente, até 1971.

O disco Nashville Skyline é todo maravilhoso (acho que só perde para Blood on the tracks, meu favoritíssimo). A canção mais famosa do álbum é Lay Lady Lay, mas eu morro mesmo é por I threw it all away (ouça no spotify e no youtube). 

Carl Perkins - Honey don't
O inimitável e essencial Carl Perkins, o cara do sapato de camurça azul
🎝 Honey don't - Carl Perkins
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Estava sentindo falta de alguém nesta playlist? Claro que Carl Perkins jamais ficaria de fora de uma trilha sonora para Nashville.

Quando a gente pensa em Rockabilly e Rock’n’Roll, o cara dos blue suede shoes resplandece.

Apesar de ser mais associado a Memphis que a Nashville, Perkins foi um legítimo filho do Tenessi, nascido em Tiptonville, a 300 km de Nashville, filho de um pequeno arrendatário (os chamados sharecroppers, vínculo comum no início do Século 20, quando os camponeses pobres trabalhavam terras de grandes proprietários em troca de parte da colheita).

Ele cresceu ouvindo os Country e Blues que forjariam sua imprescindível produção musical. É impossível pensar em Rock’n’Roll sem lembrar imediatamente de Carl Perkins.

Honey don’t é uma delícia dançante, uma das várias canções de Carl Perkins gravadas pelos Beatles. Os FabFour eram muito fãs dele, especialmente George e Ringo, e prestaram muitos tributos a esse gênio do Rock.

Ouça também Perkins arrasando em Tennessee (no spotify e no youtube).

Allman Brothers, Midnight Rider

🎝 Midnight rider - Allman Brothers Band
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Pra falar a verdade, a discografia inteira dos Allman Brothers cabe em uma trilha sonora para Nashville, a cidade natal dos geniais irmãos Greg e Duane, fundadores da banda.

Estou destacando Midnight Rider pela temática do desperado, o fugitivo que é um dos arquétipos do imaginário Country/Western. 

Os Allman Brothers formaram uma das melhores bandas de Southern Rock de todos os tempos e Duane Allman, morto em 1971, com apenas 24 anos, foi um dos maiores guitarristas da História —basta lembrar sua participação no legendário disco de Eric Clapton, com a banda Derek & The Dominos, Layla and Other Assorted Love Songs.

No hostel onde me hospedei em Nashville, cada quarto é batizado em homenagem a um grande artista do universo Country. O meu era dedicado aos Allman Brothers. Considerei isso um sinal de boas vindas: sou fã devotada desses caras.

Creedence Clearwater Revival - Bad moon rising
O Creedence, o melhor em Country-Rock
🎝 Bad moon rising - Creedence Clearwater Revival
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Eu sou fã do Creedence desde criança e os discos deles continuam a tocar aqui em casa com a frequência e intimidade dos velhos amigos. 

Gosto tanto que me esbaldei no show dos remanescentes da banda (perdoando a ausência dos irmãos Fogherty) em São Paulo, há alguns anos.

Ninguém neste planeta fez Country-Rock tão bem quanto o Creedence, responsável por obras-primas como Lodi, Have you ever seen the rain, Who’ll stop the rain e a minha gravação favorita de I heard it through the grapevine (com todo respeito a Marvin Gaye).

Em Bad moon rising, esses californianos estão as country as it gets. E eu adoro!

Eagles, Desperado

🎝 Desperado - Eagles
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Taí mais uma banda que eu amo e que, sozinha, já renderia uma senhora playlist para quem viaja pelo universo Country.

Desperado é uma canção sobre a solidão e do lado nada glamoroso do herói erante consagrado no universo dos Westerns — dizem alguns que é uma metáfora sobre as agruras da vida na estrada que os roqueiros de antigamente levavam...

"Desperado, oh, you ain't gettin' no younger/ Your pain and your hunger, they're drivin' you home".

Rick Danco, Twilight

🎝 Twilight - Rick Danko
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Que Paul McCartney que nada. O baixista que fazia o meu coraçãozinho adolescente bater alucinado era Rick Danko, de The Band, um grupo que eu adoro — poderia listar uma tonelada de canções deles aqui.

O problema é que essa gravação solo de Twilight é infinitamente melhor que a versão original de The Band (não sei o que deu na cabeça dos caras pra fazer aquele arranjo reggaeiro balançadinho para uma canção tão linda e tão melancólica).

Além de lindo (como se pode ver nas fotos do clipe do youtube), Rick Danko era um músico talentosíssimo e um cantor maravilhoso (como a gente pode comprovar em It makes no difference, uma das melhores músicas de The Band, Stage fright e tantas outras).

Paul Simon e The Lunineers
Slip slidin' away nasceu totalmente country e The Lumineers é uma das boas notícias musicais recentes
🎝 Slip slidin' away - Paul Simon
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Se você conhece a versão original de estúdio desta música da fase solo de Paul Simon, deve estar me achando doida por incluir uma baladinha quase doo-wop nesta playlist.

Mas a ouça a versão demo (no link para o spotify) e me diga se a canção não nasceu com os dois pés no celeiro. Aliás, as versões ao vivo também entregam direitinho essa origem, sempre com um violãozinho acústico inconfundivelmente country.

Além do mais, essa é mais uma grande canção de Paul Simon — que bebeu muito na fonte do Folk e do Country e nunca negou as influências.

Ryman Auditorium, Nashville
O palco do Ryman Auditorium, onde todo músico country sonha se apresentar
🎝 Ho hey - The Lumineers
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Quando meu sobrinho era pequeno, ele me perguntou por que eu só “ouvia disco de gente morta”. Adorei a definição.

Embora haja uma pá de gente viva frequentando meu toca-discos, a produção musical dos anos mais recentes precisa mesmo extrapolar na excelência pra chamar minha atenção.

Palmas, então, para The Lumineers, que conquistaram meu coração com sua música, um Folk-Rock básico e instigante que bebe na fonte de gente que eu amo, como Bob Dylan e Leonard Cohen.

Keb' Mo', Life is Beautiful
Keb' Mo': fantástico
🎝 Life is beautiful - Keb' Mo'
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Onde eu estive a minha vida inteira, que só comecei a ouvir Keb’ Mo’ no ano passado? Pra compensar, estou ouvindo  muito esse grande bluesman californiano que vive e trabalha em Nashville. 

O cara é brilhante e estou descobrindo um monte de coisas ótimas feitas por ele. Esta canção é do álbum Suitcase, de 2006. 

Clare Bowen e Sam Palladio, da série de TV Nashville
Clare Bowen e Sam Palladio, atores/cantores da série de TV Nashville estão encantadores em Fade into you
🎝 Fade into you - Sam Palladio e Clare Bowen
spotify | youtube |

Country Music comercial é como um cupcake: é tanto creme e glacê e enfeite por cima que a gente não sente o gosto do bolinho.

Uma pena, porque o gênero é pródigo em melodias bonitas, que muitas vezes só ficam perceptíveis quando despidas do contorcionismo vocal, falsetes e corinhos com milhares de vozes (todas caprinas) ao fundo.

É o caso dessa canção da trilha sonora do seriado de TV Nashville, uma melodia doce e delicada tratada com o devido respeito.

Patsy Cline
A sensacional Patsy Cline: diva!!
🎝 Blue moon of Kentucky - Patsy Cline
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Talvez o maior presente que essa viagem a Nashville tenha me dado seja a descoberta dessa fantástica cantora. Patsy Cline transitou muito bem entre o Country tradicional e o Rockabilly e deixou uma discografia arrasante.

Esta interpretação de Blue Moon of Kentucky — o maior clássico do Bluegrass, escrito por Bill Monroe, considerado o criador do gênero — é simplesmente espetacular. E olha que a concorrência é dura, porque praticamente todos os pesos-pesados, Elvis e Paul McCartney incluídos, gravaram essa canção.

A discografia de Patsy Cline é uma sucessão de maravilhas. Experimente ouvir Crazy (no spotify e no youtube), seu sucesso mais emblemático, e depois me fale se não é gênia.

🎝 Stand by your man - Carla Bruni
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Eu sempre tive uma implicância irreconciliável com este standard, um dos mais manjados da Country Music, escrito e lançado pela estrela Tammy Wynette. Pra mim, é o hino planetário das amélias.

Esta gravação de Carla Bruni, porém, tem um toquezinho de sarcasmo que redime o espírito geral de “recatada e do lar” da música.

É pra cantar junto, com um risinho de canto de boca: “And if you love him oh be proud of him/ 'Cause after all he's just a man”.

James Taylor e Carla Bruni
James Taylor recorreu ao Country para escrever sua melhor canção e Carla Bruni dá outro espírito ao clássico de Tammy Wynette
🎝 Bartender's blues - James Taylor
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Sempre achei Bartender’s Blues a melhor canção de James Taylor. E calha de ela ser um country escancarado, fazer o quê, né?

Taylor raramente se aventurou no estilo de maneira literal, embora seu folk bitter-sweet seja bastante influenciado pelo gênero. Mas quando ele visita o celeiro, simplesmente dá aula.

A canção é do álbum JT, de 1977, um disco que parece fadado a contribuir com todas as playlists já publicadas na Fragata 😁 — e está longe de ser o melhor de James Taylor...



🎝 Man of constant sorrow - Jerry Garcia
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Essa canção tem mais de um século de idade, um folk de autoria desconhecida. Foi gravada por um monte de gente (Bob Dylan, Joan Baez e Peter, Paul and Mary, pra citar três versões que eu gosto).

A interpretação de Jerry Garcia, do Grateful Dead, é um show de bola. Faz parte do álbum The Pizza Tapes, registro de várias jams de estúdio feitas por ele com o bandolinista David Grisman e o violonista Tony Rice, em 1993.

O título The Pizza Tapes é uma referência ao roubo das fitas com as gravações por um entregador de pizza — o que gerou um tsunami incontrolável de tapes e CDs piratas. Uma história hilária e totalmente Jerry Garcia.

Ouça também a gravação de Amazing Grace, que está muito bonita.

Elvis no legendário show do Havaí: e não é que no meio de sua fase mais cafona o cara me saca uma pérola...
🎝 I'm so lonesome I could cry - Elvis Presley
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Composta por Hank Williams e lançada em 1949, essa é “provavelmente a canção mais triste que eu já ouvi”, como anuncia Elvis, ao apresenta-la no legendário Aloha from Hawaii, megashow de 1973, o primeiro evento de música popular a ser transmitido ao vivo pela TV para diversos países.

Embora já seja da fase glitter de Elvis (eu sei que vou levar uns tabefes antes do final deste post, mas OK), a interpretação é maravilhosa, contida, sem firulas... Elvis como ele merece ser lembrado: um puta cantor.

I'm easy - Nashville

🎝 I’m easy – Andrea Mingardi
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Antes de haver a série de TV, houve o filme Nashville, lançado em 1975. A obra de Robert Altman traçava um painel bem menos cor-de-rosa dos bastidores da indústria musical Country do que o que se vê no seriado e foi um grande sucesso de público e crítica.

Recheado de canções (quase uma hora de música), o Nashville de Altman é muito lembrado pela canção I’m easy, composta e interpretada no filme pelo ator Keith Carradine e vencedora do Oscar de Melhor Canção Original, em 1976.

É realmente uma bonita música, mas a gravação de Carradine é esmagada pelos confeitos sonoros típicos dos arranjos made in Nashville — há uma gravação original, basiquinha e muito melhor, mas não consigo encontrar em lugar nenhum.

Fiquemos, então, com a  versão do italiano (bolonhês) Andrea Mingardi, com um franco sotaque de Tom Waits, que é muito mais legal.


Willie Nelson - Red Headed Stranger

🎝 Blue eyes crying in the rain – Willie Nelson
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Essa canção lindíssima é um clássico do Country. Willie Nelson resgatou-a em seu legendário álbum Red Headed Stranger (1975), todo ele espetacular, de ouvir até furar (como se dizia no tempo agulha de vitrola).

Nelson é um opositor feroz daquele monte de lamê musical que lambuza a música mainstream produzida em Nashville. É daqueles caras que acreditam que uma boa canção precisa apenas do básico pra brilhar. Coisa de quem tem talento de verdade.

Talvez por isso Willie Nelson sempre tenha sido a exceção consciente na minha implicância com a Country Music — como estamos vendo neste post, eu gostava muitíssimo mais do gênero do que era capaz de perceber. Red Headed Stranger é o Sargeant Pepper’s dele.

Estique a jornada com Willie Nelson ouvindo sua magnífica versão para Always on my mind, melhor até que a de Elvis (no spotify e no youtube).

Ray Charles
Ray Charles no Country: tão bom que teve bis
🎝 Your cheating heart - Ray Charles
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Se você assistiu à cinebiografia de Ray Charles (Ray, 2004), vai lembrar a fúria despertada pelo cantor ao anunciar que ia gravar um disco dedicado à "música do inimigo”.

Em pleno turbilhão da luta contra a segregação racial e pelos Direitos Civis nos EUA, pouca gente entendeu (no início) por que alguém tão profundamente vitimado pelo racismo iria querer cantar a música dos sulistas brancos — justamente o segmento que mais brutalizava a população negra.

Na época, Ray afirmou que música era música e que queria “testar a tolerância” das plateias. Pra mim, ele estava dizendo aos hillbillies que era capaz de cantar a música deles bem melhor que eles mesmos.

Patrimônios do Country, como I can’t stop loving you (ouça no spotify e no youtube) e You don’t know me, ganharam interpretações definitivas em sua voz.

O álbum Modern Sounds in Country and Western Music fez tanto sucesso que ganhou um volume 2, que inclui o clássico de Hank Williams Your cheating heart, gravado por meio mundo, mas jamais com a genialidade de Ray Charles.

Pay the devil, Van Morrison
Van Morrison também arrebentou em seu álbum Country
🎝 Half as much - Van Morrison
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Pra entrar no clima da viagem a Nashville, uma das coisas que mais escutei enquanto organizava meu roteiro musical nos EUA foi Pay the Devil, álbum de Van Morrison lançado em 2006 e dedicado ao universo Country — como se eu precisasse de desculpas pra ouvir esse irlandês fenomenal.

Half as much (composta por Curly Williams e gravada originalmente em 1951) virou minha canção favorita em um disco memorável. 

Morrison arrasa como sempre em tributos aos grandes nomes da Country Music, como Hank Williams (Your cheating heart), e ainda manda muito bem nas três canções que ele mesmo compôs especialmente para o álbum (Playhouse, Pay the Devil e This Has Got to Stop). 

Fazer o quê, né? O cara é um gênio…

James Taylor, Art Garfunkel e os Blues Brothers
Garfunkel e James Taylor no clipe de Crying in the Rain. À direita, os Blues Brothers John Belushi e Dan Aykroyd, protagonistas do musical mais hilário da história do cinema
🎝 Crying in the rain - James Taylor e Art Garfunkel
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Acho que o exercício mais frequente dos fãs de James Taylor e de Simon & Garfunkel é ficar imaginando porque eles nunca se juntaram em um trio — seria um luxo, como fica claro na versão espetacular de Wonderful World feita pela trinca.

Mesmo sem Simon, essa gravação de Crying in the rain, standard imortalizado pelos Everly Brothers, é simplesmente maravilhosa. Definitiva.

A canção é uma parceria de Howard Greenfield com Carole King, que além de ser excelente cantora é uma prolífica compositora “de estúdio” (aquela profissional que escreve música para outros intérpretes). 

Além de pérolas como You've got a Friend e It’s too late, que ela mesma gravou, King emplacou nada menos que 118 canções nas paradas de sucesso, entre os anos 50 e 70 do século passado.

 🎝 Theme from Rawhide - The Blues Brothers
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Lançado em 1980, o filme The Blues Brothers (que no Brasil ganhou o título idiota de Os Irmãos Cara de Pau) quase me matou de rir quando o vi no cinema e até hoje me arranca gargalhadas em várias passagens.

Por exemplo, na cena em que a dupla encarnada por John Belushi e Dan Aykroyd canta o tema de abertura do seriado Rawhide, exibido na TV americana entre 1959 e 1965 e responsável por projetar Clint Eastwood ao estrelato. A cena está no link para o youtube, acima.

O tema de Rawhide era a única coisa country que os irmãos blueseiros sabiam cantar — e eles cantam até ficar roucos pra escapar com vida de uma plateia redneck enfurecida com a profanação de seu habitat.

Além de me fazer rolar de rir, The Blues Brothers tem uma trilha sonora primorosa e participações muito especiais de James Brown, Aretha Franklin, Ray Charles, John Lee Hooker, Joe Walsh (do Eagles) e mais um monte de gente.

Dead Flowers, The Rolling Stones
Dead Flowers é apenas uma das grandes canções de Sticky Fingers, meu álbum favorito dos Stones
🎝 Dead Flowers - The Rolling Stones
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Sticky Fingers (1971), com sua capa provocativa — nas edições mais antigas, o jeans que embala o LP tinha um zíper de verdade que, aberto, revelava uma cuequinha branca — é o melhor álbum dos Rolling Stones. Tarefa dificílima, dada a qualidade geral da produção dos caras.

E, no meio de uma verdadeira constelação de pérolas, minha música favorita é a countríssima Dead Flowers (tarefa mais dura ainda, considerando que o álbum também tem I got the blues)

I feel like a hillbilly”, confessa Mick Jagger após cantar Dead Flowers, na versão que integra o álbum ao vivo Stripped (1995). 

Não que os Stones sejam estranhos à Country Music. A maior banda de Blues e Rythm’n’Blues de todos os tempos (se eu apanhar, OK, I stick to my principles) sempre soube transitar entre os dois lados da linha do trem com imensa desenvoltura.

Outra prova é a belíssima Wild Horses, do mesmo Sticky Fingers. Pra continuar no clima, ouça também Honky Tonk Women e sua versão banjo e rabeca Country Honk ( Let it Bleed, 1969), Sweet Virginia (Exile on Main Street, 1972), Dear Doctor (Beggars Banquet, 1968), Time is on my side (12 x 5, 1964)… a lista é enorme.

Beatles for Sale
Meus maiores queridos também se aventuraram bonitinhos pelos compassos do Country 
🎝 I don't want to spoil the party - The Beatles
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Beatles for Sale é o mais hillbilly dos álbuns dos Beatles. A gente sente claramente o cheiro do feno em I’m a looser, Baby’s in black e I'll Follow the Sun

Sem contar as três geniais regravações dos clássicos Rockabilly de Words of Love (de Buddy Holly), Everybody's Trying to Be My Baby e Honey Don't (de Carl Perkins).

Mas vamos combinar que em I don’t want to spoil de party Lennon meteu a botinha na jaca do Country sem dó nem piedade. Eu adoro essa canção transbordante de dor de cotovelo altruísta.

Beatles for Sale foi lançado em dezembro de 1964. Em fevereiro daquele ano, os meninos tinham sua primeira invasão às terras yankees com muito sucesso e talvez a intenção de consolidar aquele mercado tenha influenciado no repertório do disco. 

Mas não esqueçamos que a Country Music é uma filha dileta das canções folk inglesas, escocesas e inglesas que não eram nada estranhas ao universo musical de Liverpool. Então, está tudo em casa.

Outras menções honrosa entre os momentos Beatles no celeiro são o folk I've just seen a face e Act Naturally (Help, de 1965), I’ll cry instead (A Hard Day’s Night, 1964), What goes on (Rubber Soul, 1966), Rocky Racoon e Don’t pass me by (Álbum Branco, 1968).

🎝 She thinks I still care - James Taylor
spotify | youtube |

Esta canção de 1962 tem uma lista interminável de versões. Foi gravada por Elvis, Bill Haley, Jerry Lee Lewis, Cher, Leon Russel, John Fogherty (do Creedence)…

Minha interpretação preferida é essa de James Taylor (do disco Live, de 1993), um cara que incursionou pouquíssimo pelo Country, mas sempre arrebentou nessas aventuras.

🎝 Further On Up The Road - Johnny Cash
spotify | youtube |

E terminamos como começamos: com Johnny Cash. O título da canção é idêntico ao de um grande sucesso de Eric Clapton, mas são músicas diferentes. 

Esta foi escrita por Bruce Springsteen e ficou um arraso na interpretação do Homem de Preto. Como sempre.



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