28 de setembro de 2014

Paris: um passeio em Montmartre

Paris vista de Montmartre
Por mais de 100 anos Montmartre foi sinônimo de arte, boemia e vanguarda. Desde os primórdios da escola Impressionista de Pintura até os anos 60 do Século passado, esse pedacinho de Paris atraiu gente pouco convencional que criou coisas geniais.

Um passeio por Montmartre leva o viajante a encontrar as memórias de grandes artistas e o clima romântico de um tempo que ficou para trás.

O melhor jeito de explorar Montmartre é ir desvendando as ladeiras  e escadarias, sem pressa de chegar a algum lugar específico
Gosto de subir a pé até as alturas de Montmartre, meio que tentando me perder por suas ladeiras e escadarias. 

É assim que aos pouquinhos, vou traçando meu mapa afetivo do bairro a cada visita. Uma rota que nunca é igual à anterior — e que, por isso mesmo, tem sempre as alegrias do reencontro e da descoberta.

Uma soleira que é a cara de Montmartre  e o horizonte típico do bairro
O que nunca falta no meu passeio por Montmartre são as paradinhas para admirar os ícones da boemia e da intensa produção artística do bairro. Antes de subir, vale passar pelo famoso cabaré Moulin Rouge, no Boulevard de Clichy.

Depois, tem o Au Lapin Agile (na Rue des Saules), uma taberna/cabaré frequentada (e pintada) por Picasso, o Theatre de l'Atelier (na Place Charles Dullin), o primeiro do bairro, inaugurado em 1822, e Le Bateau Lavoir, onde viveu Picasso.

Montmartre ainda abriga muitos teatros independentes. À direita, o decano do bairro, o Theatre de L'Atelier, inaugurado em 1822, segue em plena atividade
No mapa abaixo, marquei todos os lugares mencionados neste post. Mas minha sugestão é que você o use apenas como orientação inicial. 

A graça de Montmartre é explorar e descobrir as muitas referências importantes do bairro (algumas assinaladas com plaquinhas do Patrimônio Histórico francês). Vamos passear?

Art Noveau na Estação Abbesses do Metrô e na fachada de Saint-Jean de Montmartre
⭐ Cartão de visitas Art Nouveau
Montmartre já é bacana na chegada, nas linhas Art Nouveau da Estação Abbesses do metrô. Do outro lado da Rue des Abbesse, o charme Belle Époque prossegue na fachada da Igreja de Saint Jean de Montmartre, de 1904, construída no mesmo estilo. 

É o cartão de visitas exato para um bairro que encarna tão bem o entusiasmo e a efervescência da virada do Século 19.

Picasso morou aqui. Modigliani e Matisse eram visitantes assíduos
⭐Le Bateau Lavoir
Place Émile Goudeau
Tenho um afeto especial pelo predinho apelidado de Le Bateau Lavoir, uma residência artística avant la lettre onde moraram ou acamparam gênios do quilate de Picasso , Juan Gris, Matisse, Braque, Modigliani e Gertrude Stein — imaginem a farra...

A casa já caía aos pedaços quando começou a ser ocupada por pintores, escritores e atores, no final do Século 19 (a ideia de batizá-lo como um barco veio do tanto que o prédio rangia nas noites de vento forte).

Quem hoje passa distraído pelo edifício de proporções modestas corre o risco de nem se tocar que ali era a sede do Parnasso Belle Époque, o berçário do Cubismo, onde Pablo Picasso pintou Les Demoiselles d'Avignon, considerado o marco inaugural dessa escola…

O Bateau foi bem danificado por um incêndio, nos anos 70, e posteriormente reconstruído. Apesar disso, não tem nada de cenográfico.

Dos impressionistas à street art: Montmartre tem um caso de amor com a pintura
⭐ Place du Tertre
Apesar da fama boemia, a origem de Montmartre é das mais piedosas (o povoado surgiu ao redor de uma abadia beneditina do Século 12, cujas ruínas deram lugar a um vinhedo, ainda vivo).


A bucólica comunidade, porém, foi convertida à boemia ainda antes da turma de Picasso aparecer por lá. A simplicidade da vida rural tinha um tremendo apelo entre intelectuais e artistas do Século 19, atraídos também pela singeleza dos bailes e festejos dos trabalhadores que frequentavam a área.

Um pouco desse clima (talvez estilizado demais) ainda suspira na Place du Tertre, o coração do bairro, sempre congestionada de barraquinhas de artesãos e artistas que pintam os retratos dos turistas (não torça o nariz: gênios como Toulouse-Lautrec e Modiglinai também já pagaram as contas fazendo exatamente isso).

Place du Tertre, coração de Montmartre
⭐ Moulin de la Gallette
83 Rue Lepic

Foram os impressionistas, anteriores à comunidade do Bateau Lavoir, os responsáveis por colocar Montmartre no mapa imaginário boêmio. Esses artistas começaram a frequentar as encostas da butte (colina) para pintar e farrear nas tabernas e cabarés locais.

Um dos mais famosos ainda está de pé, o Moulin de la Galette, do Século 17, que foi um moinho de verdade até ser transformado em um restaurante, lugar de alegres bailes e reuniões populares — Renoir, Pisarro e Toulouse-Lautrec pintaram essas cenas. 

Fotografadíssimo, o Moulin de la Galette ainda frequenta as ladeiras do bairro, embora tenha sido transplantado de seu sítio original
A tela de Renoir O Baile no Moulin de la Galette, estrela do Museu D'Orsay, está para o Impressionismo como as Demoiselles de Picasso estão para o Cubismo. O quadro de Picasso é um dos destaques do MoMA de Nova York.

Quantos bairros do planeta podem se gabar de terem inspirado as telas inaugurais de duas das escolas de pintura mais importantes e instigantes que a humanidade já criou? (Embora o mote das Demoiselles tenha sido um bordel da Carrer de Avinyó, em Barcelona).

Made in Montmartre: dois marcos fundadores de grandes escolas de pintura, O Baile no Moulin de la Galette, de Renoir, e as Senhoritas de Avignon, de Picasso
O Moulin de la Galette já não ocupa sua sua localização original no bairro. Está instalado agora no meio de uma ladeira sempre cheia de turistas, que o fotografam sofregamente, talvez sem lembrar que aquelas pás já posaram para Van Gogh.

O restaurante que usa o moinho como adorno não tem nada a ver com a velha taberna, mas quando você der de cara com esse velho senhor, parado naquela esquina de Montmartre, faça ao menos uma paradinha para prestar seus respeitos. Aquelas pás, hoje quietinhas, são parte da História.

Escadaria de Sacre Coeur: a melhor arquibancada para "assistir" Paris

O jardim em frente à Basílica é um refúgio gostoso 
⭐ Basílica de Sacre Coeur
Eu tenho uma relação curiosa com Montmartre: adoro o bairro, mas não consigo achar a menor graça em sua principal atração, a Basílica de Sacre Coeur — acho que vou apanhar, mas, do ponto de vista arquitetônico, o edifício me parece uma tentativa mal sucedida de copiar o Taj Mahal .

Mas mesmo esta ranzinza aqui tem que admitir que a escadaria de Sacre Coeur é a melhor arquibancada para assistir o espetáculo que é Paris. Fora que aquele monte de gente suspirando pela cidade conjura um astral de encantamento irrepetível...

O jeito mais usual de chegar a Montmartre é pelo jardim 
aos pés de Sacre Coeur. Mas fique atenta aos achacadores de turistas
➡️ Como chegar a Montmartre
O jeito mais usual de chegar a Montmartre é descer na Estação Anvers do metrô (Linha 2), que fica bem pertinho da imensa escadaria ajardinada que leva a Sacre Coeur. 

De lá, dá para subir a pé ou tomar o Funicular. Essa opção poupa tempo e já te deixa de cara para a basílica.



Meu jeito preferido, porém, é pegar o metrô até a Estação Abbesses (Linha 12) e daí ir subindo sem prestar muita atenção ao mapa, alternando ladeiras e escadarias. 

Dá para voltar pelo mesmo ponto, ou pegar o metrô na Estação Lamarck - Caulaincourt (também da Linha 12), que fica perto do Museu de Montmartre.

Assim é mais divertido
➡️ Segurança em Montmartre
Se você chegar ao bairro pela Estação Anvers do metrô, prefira subir com o funicular. É que as escadarias que dão acesso ao bairro, neste trecho, estão sempre apinhadas de achacadores de turistas. Eles são chatos, insistentes e até meio agressivos.

O golpe que aplicam é famoso: amarram uma pulseira em seu braço e depois cobram caro por ela.

Nesta passagem por Montmartre, desci do bairro pela escadaria e tive que rosnar para uns três que insistiam em vender coisinhas e me "dar um presente" — um deles chegou a tentar segurar o meu braço.

Se for abordada, não dê trela. Seja firme, não se intimide e não pare para discutir.

➡️ Onde comer em Montmartre
No post sobre onde comer em Paris eu falei da Galette du Moulin, onde comi um ótimo croque monsieur. Montmartre é muito bem servida de cafés e restaurantes. 

➡️ O café de Amélie Poulain
Ultimamente, parece que Montmartre foi inventada pelo filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, como se o bairro se resumisse ao tal café onde trabalha a personagem principal. Eu vi o fim, acho bacaninha, mas nunca fui ao café Le Deux Moulins (muita muvuca). Mas se você quiser dar uma passada, o endereço é o número 15 da Rue Lepic .



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6 comentários:

  1. Sabe que também achei a Sacre Cour meio sem graça? O bairro em si é muito mais charmoso e interessante - e claro, dá pra ir no café onde gravaram Amélia Poulain! :)

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    1. Eu não fui ao café de Amélie Poulain, Bárbara. Acho que o filme é muito mais recente que as minhas referências preferidas do bairro, rsss
      Acho que Sacre Couer tem um problema de falta de personalidade arquitetônica. Sou meio implicante com pastiches (a catedral "gótica" de Quito, do começo do século 20,com gárgulas "tropicais", por exemplo, me deixou com dor de cabeça) e a ideia de construir cúpulas bizantinas em uma cidade que não tem nada a ver com esse estilo me desagrada profundamente. Mas eu gosto de ver a silhueta da basílica no horizonte da cidade (de longe).

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  2. Fiquei em Pigalle. Rue des Martyrs. Foi muito legal. Andei muito por lá. Não fui na Basílica. Sem grandes interesses.
    Cláudia Maas

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    1. Acho a Basílica a parte menos interessante do bairro, Cláudia, mas a vista de lá é muito bonita :)

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  3. Cyntia
    Montmartre é sempre um grande prazer visitar. Mesmo conhecendo o bairro há anos, fiz um passeio guiado pelo bairro. Meus restôs prediletos são Le Relais Gascon , Le Poulbot e recentemente descobori La villa des Abesses.

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    1. Jorge, já anotei suas dicas para a próxima visita :)

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