domingo, 28 de setembro de 2014

Paris: um passeio em Montmartre

Paris vista de Montmartre
Eu tenho uma relação curiosa com Montmartre: adoro o bairro, mas não consigo achar a menor graça em sua principal atração, a Basílica de Sacre Couer — acho que vou apanhar, mas, do ponto de vista arquitetônico, o edifício me parece uma tentativa mal sucedida de copiar o Taj Mahal J. Claro que eu adoro a vista que se tem das escadarias da igreja, mas minha atração pela área se deve muito mais às memórias boemias que ainda sopram de suas ladeiras e escadarias.

Para sintonizar esse clima, gosto de subir o bairro a pé, meio que tentando me perder. É assim que aos pouquinhos, vou traçando meu mapa afetivo de Montmartre, em uma rota que nunca é igual à da visita anterior — e que, por isso mesmo, tem sempre as alegrias do reencontro e da descoberta.

Art Noveau na Estação Abbesses doMetrô
e na fachada de Saint-Jean de Montmartre
Montmartre já é bacana na chegada, nas linhas Art Nouveau da Estação Abbesses do metrô. Do outro lado da rua, o charme Belle Époque prossegue na igreja de Saint Jean de Montmartre, de 1904, construída no mesmo estilo. É o cartão de visitas exato para um bairro que encarna tão bem o entusiasmo e a efervescência da virada do Século 19.

O melhor jeito de explorar o bairro é ir desvendando as ladeiras
 e escadarias, sem pressa de chegar a algum lugar específico
Alguns ícones dessa época ainda estão lá. O famoso cabaré Moulin Rouge (no Boulevard de Clichy), Au Lapin Agile (na Rue des Saules), uma taberna/cabaré frequentada (e pintada) por Picassoo Theatre de l'Atelier (na Place Charles Dullin), o primeiro do bairro, inaugurado em 1822. Entre esses marcos, tenho especial afeto pelo edifício apelidado de Le Bateau Lavoir, na Place Emile Goudeau, uma residência artística avant la lettre, onde moraram ou acamparam caras como Picasso, Juan Gris, Matisse, Braque, Modigliani e Gertrude Stein — imaginem a farra... 

Picasso morou aqui. Modigliani e Matisse eram visitantes assíduos..
A casa já caía aos pedaços quando começou a ser ocupada por pintores, escritores e atores, no final do Século 19 (a ideia de batizá-lo como um barco veio do tanto que o prédio rangia nas noites de vento forte). Quem hoje passa distraído pelo edifício de proporções modestas corre o risco de nem se tocar que ali era a sede do Parnasso Belle Époque, o berçário do Cubismo, onde Pablo Picasso pintou Les Demoiselles d'Avignon, considerado o marco inaugural dessa escola… 

O Bateau foi bem danificado por um incêndio, nos anos 70, e posteriormente reconstruído. Apesar disso, não tem nada de cenográfico.

Uma soleira que é a cara de Montmartre
 e o horizonte típico do bairro
E tem grafite por toda parte
A origem de Montmartre é das mais piedosas (o povoado surgiu ao redor de uma abadia beneditina do Século 12, cujas ruínas deram lugar a um vinhedo, ainda vivo). A bucólica comunidade, porém, foi convertida à boemia ainda antes da turma de Picasso aparecer por lá. A simplicidade da vida rural tinha um tremendo apelo entre intelectuais e artistas do Século 19, atraídos também pela singeleza dos bailes e festejos dos trabalhadores que frequentavam a área.

Um pouco desse clima (talvez estilizado demais) ainda suspira na Place du Tertre, o coração do bairro, sempre congestionada de barraquinhas de artesãos e artistas que pintam os retratos dos turistas (não torça o nariz: gênios como Toulouse-Lautrec e Modiglinai também já pagaram as contas fazendo exatamente isso).

A Place du Tertre, coração de Montmartre
Montmartre também abriga uma série de teatros independentes. 
À direita, o decano do bairro, o Theatre de L'Atelier, inaugurado em 1822, segue em plena atividade
Foram os impressionistas, anteriores à comunidade do Bateau Lavoir, os responsáveis por colocar o bairro no mapa imaginário boêmio, quando começaram a frequentar as encostas da butte (colina) para pintar e farrear nas tabernas e cabarés locais. Um dos mais famosos ainda está de pé, o Moulin de la Galette, do Século 17, que foi um moinho de verdade até ser transformado em um restaurante, lugar de alegres bailes e reuniões populares — Renoir, Pisarro e Toulouse-Lautrec pintaram essas cenas. A tela de Renoir, estrela do Museu D'Orsay, está para o Impressionismo como as Demoiselles de Picasso estão para o Cubismo.

Fotografadíssimo, o Moulin de la Galette ainda frequenta as ladeiras do bairro, embora tenha sido transplantado de seu sítio original
Quantos bairros do planeta podem se gabar de terem inspirado as telas inaugurais de duas das escolas de pintura mais importantes e instigantes que a humanidade já criou? (Embora o mote das Demoiselles tenha sido um bordel da Carrer de Avinyó, em Barcelona).

O Moulin de la Galette já não ocupa sua sua localização original no bairro. Está instalado agora no meio de uma ladeira sempre cheia de turistas, que o fotografam sofregamente, talvez sem lembrar que aquelas pás já posaram para Van Gogh. O restaurante que usa o moinho como adorno não tem nada a ver com a velha taberna, mas quando você der de cara com esse velho senhor, parado naquela esquina de Montmartre, faça ao menos uma paradinha para prestar seus respeitos. Aquelas pás, hoje quietinhas, são parte da História.

O jardim em frente à Basílica é um refúgio gostoso 
Como chegar
O jeito mais usual de chegar a Montmartre é pelo jardim 
aos pés de Sacre Coeur

O jeito mais usual de chegar a Montmartre é descer na Estação Anvers do metrô (Linha 2), que fica bem pertinho da imensa escadaria ajardinada que leva a Sacre Couer. Você pode subir a pé ou tomar o Funicular. Essa opção poupa tempo e já te deixa de cara para a basílica.

Mas, francamente, acho essa opção muito sem graça, sem contar que é quase certo que você tenha que se desvencilhar dos achacadores de turistas que batem ponto na escadaria. Eles são chatos, insistentes e até meio agressivos. Nesta passagem por Montmartre, desci do bairro pela escadaria e tive que rosnar para uns três que insistiam em vender coisinhas e me "dar um presente" — um deles chegou a tentar segurar o meu braço.

Assim é mais divertido
Meu jeito preferido é pegar o metrô até a Estação Abbesses (Linha 12) e daí ir subindo sem prestar muita atenção ao mapa, alternando ladeiras e escadarias. Dá para voltar pelo mesmo ponto, ou pegar o metrô na Estação Lamarck - Caulaincourt (também da Linha 12), que fica perto do Museu de Montmartre.

Uma arquibancada para "assistir" Paris

Endereços
No mapinha abaixo, marquei todos os lugares mencionados neste post. Mas minha sugestão é que você o use apenas como orientação inicial. A graça de Montmartre é explorar e descobrir as muitas referências importantes do bairro (algumas assinaladas com plaquinhas do Patrimônio Histórico francês).

Se bater uma fominha
No post sobre onde comer em Paris eu falei da Galette du Moulin, onde comi um ótimo croque monsieur. Montmartre é muito bem servida de cafés e restaurantes. 





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6 comentários:

  1. Sabe que também achei a Sacre Cour meio sem graça? O bairro em si é muito mais charmoso e interessante - e claro, dá pra ir no café onde gravaram Amélia Poulain! :)

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    1. Eu não fui ao café de Amélie Poulain, Bárbara. Acho que o filme é muito mais recente que as minhas referências preferidas do bairro, rsss
      Acho que Sacre Couer tem um problema de falta de personalidade arquitetônica. Sou meio implicante com pastiches (a catedral "gótica" de Quito, do começo do século 20,com gárgulas "tropicais", por exemplo, me deixou com dor de cabeça) e a ideia de construir cúpulas bizantinas em uma cidade que não tem nada a ver com esse estilo me desagrada profundamente. Mas eu gosto de ver a silhueta da basílica no horizonte da cidade (de longe).

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  2. Fiquei em Pigalle. Rue des Martyrs. Foi muito legal. Andei muito por lá. Não fui na Basílica. Sem grandes interesses.
    Cláudia Maas

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    1. Acho a Basílica a parte menos interessante do bairro, Cláudia, mas a vista de lá é muito bonita :)

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  3. Cyntia
    Montmartre é sempre um grande prazer visitar. Mesmo conhecendo o bairro há anos, fiz um passeio guiado pelo bairro. Meus restôs prediletos são Le Relais Gascon , Le Poulbot e recentemente descobori La villa des Abesses.

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    1. Jorge, já anotei suas dicas para a próxima visita :)

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