domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ilha de Páscoa:
roteiro no "lado mais distante do mundo"

Tahai é o “Arpoador” da Ilha de Páscoa, quase no centrinho de Hanga Roa, o melhor camarote para pôr do sol
Acabei de chegar de Rapa Nui, a fascinante Ilha de Páscoa. Depois de décadas sonhando com uma visita ao mais remoto dos lugares habitados do planeta, finalmente finquei a minha bandeirinha nesse pontinho quase invisível do Pacífico, a 3.700 quilômetros da costa chilena e a 4.000 quilômetros do Taiti.

Para chegar lá, encarei 21 horas de viagem, com três voos e muito chá de aeroporto (bebidinha que está ficando cada vez mais amarga para o meu paladar). A Ilha de Páscoa, porém, compensa cada segundo dessa maratona.




Os moai estão por toda parte, ora castigados pelo erosão,
 como este, na praia de Pea...
... e até nas lápides do cemitério...
1º dia (25 de janeiro)
Brasília – Guarulhos – Santiago – Hanga Roa
Pesquisa daqui, pesquisa dali, consegui uma passagem bem em conta pela TAM/LAN (hoje Latan) para a Ilha de Páscoa (pouco mais de R$ 1.500)

Foram quase 30 horas, entre voos e esperas entre conexões. A mais longa dessas paradas foi em Santiago do Chile, onde meu tempo de espera antes do embarque para Hanga Roa foi de 6 horas —tempo demais para mofar e tempo de menos para arriscar um passeio na cidade.

... ou restaurados, como esses, próximos ao centrinho de Hanga Roa, a "capital" da ilha...
Embarquei em Brasília às 5 da manhã e cheguei à Ilha de Páscoa pouco depois da meia-noite, no horário local. Apesar da imensa distância para a costa chilena, a Ilha de Páscoa adota um fuso horário com apenas duas horas a menos que o de Santiago e Brasília.

Dica importante: com tantos voos e conexões, é mais importante do que nunca comprar todos os trechos no mesmo bilhete. Assim, em caso de atrasos e cancelamentos, a companhia aérea se responsabiliza em reorganizar seu itinerário. 


Do Centro de Hanga Roa, uma curta caminhada leva à Praia de Poko-Poko
Fiquei hospedada no Tupa Hotel, um dos mais tradicionais da ilha, que já recebeu até o famoso explorador norueguês Thor Heyerdahl, que singrou o Pacífico em uma balsa primitiva para provar que houve contato entre os habitantes da América do Sul e o povo polinésio (a célebre expedição Kon-Tiki).

Veja como foi a minha experiência no Tupa Hotel
Ilha de Páscoa: hospedagem em Hanga Roa

Esses "dedos" de pedra que avançam para o mar são característicos do litoral da Ilha de Páscoa. São lava solidificada, herança da intensa atividade vulcânica no passado de Rapa Nui

2º dia 
Hanga Roa, praia de Poko-Poko, pôr do sol no Ahu Tahai
Depois de um dia inteiro dedicado aos aviões e aeroportos, tudo o que eu queria era esticar as pernas em caminhadas despreocupadas, sem agenda fixa. Aproveitei para explorar Hanga Roa, o único centro urbano da Ilha de Páscoa e contratar alguns passeios com uma agência local (escolhi a Insular e gostei dos serviços).

Veja neste post os passeios que recomendo todas as dicas práticas sobre a ilha
Algumas coisinhas que aprendi sobre a Ilha de Páscoa

E minhas dicas de restaurantes:
Bela surpresa: a mesa Rapa Nui

Os 15 moai do Ahu Tongariki, uma visão acachapante
Tomei um super bem-vindo banho de mar na prainha de Poko-Poko, bem próxima ao centrinho da vila e, no final da tarde, fiz o que todos os visitantes fazem: assisti a um pôr do sol absolutamente arrebatador no Ahu (plataforma de moais) Tahai.

E essa uma dica pra a organização do seu roteiro: não marque passeios para o primeiro dia, porque você certamente estará cansada da viagem e sem a menor disposição para levantar cedinho e cumprir o roteiro de um tour.

Anakena: areia branquinha e mar muito azul

3º dia
“Fábrica de moai”, Ahu Tongariki , o “umbigo do mundo” e Praia de Anakena


Já bem descansada (e bastante encantada com a paisagem da ilha), embarquei no chamado "full day tour", roteiro que, como sugere o título, consiste em um dia inteiro de passeios por algumas das principais atrações locais. A partida é às 9h e o retorno às 18h. Custa US$ 60 nas agências.

As crateras alagadas dos vulcões Rano Raraku...
A primeira parada é no vulcão Rano Raraku, conhecido como "a fábrica de moai" porque era lá que eram esculpidas as famosas estátuas representando os ancestrais e que viraram logomarca da ilha. O material utilizado na confecção dos moai não é rocha, mas cinza vulcânica compactada, muito mais fácil de cinzelar.

A segunda escala é no Ahu Tongariki, talvez o mais deslumbrante da Ilha de Páscoa, com seus 15 imensos moais à beira mar.

Os gigantes de pedra na encosta do Vulcão Rano Raraku, onde eram esculpidos. Muitos moai estão semi-enterrados, só com as cabeças de fora. Arqueólogos e antropólogos não descobriram o motivo, mas resolveram deixar as estáttuas assim para preservá-las da erosão
Depois do almoço, é feita a visita ao Ahu Te Pito Kura, chamado de "o umbigo (centro) do mundo"), um local sagrado para os rapa nui. O passeio termina com um banho de mar na bela Praia de Anakena, que tem um belo ahu, está cercada por um coqueiral. A areia branquinha e o mar azul cristalino lembra o Caribe, mas a temperatura geladinha da água vai rapidamente lembrar que você está no Pacífico Sul. 😊

Veja esse e outros passeios em detalhes nesses posts:
O que fazer na Ilha de Páscoa


4º dia
Vulcão Rano Kau, vila cerimonial de Orongo e conjunto de cavernas Ana Kai Tangata (de manhã). Ahu Akivi e cavernas Te Pahu (à tarde)


Esses dois tours são perfeitamente combináveis e encaixá-los em um único dia é boa opção para quem tem pouco tempo na Ilha (eu teria apenas cinco dias “líquidos” por lá). 

... e Rano Kau
O vulcão Rano Kau está extinto e sua cratera é hoje um belo lago. A vista lá do alto é magnífica, mas o melhor é a visita à vila cerimonial de Orongo, no topo do vulcão e debruçada sobre o mar. Lá eram realizadas as cerimônias do Homem-Pássaro, uma competição esportiva/ritual que escolhia os governantes da ilha.

Veja como é essa visita:
Orongo, a cidadela do Homem Pássaro


As ilhotas sagradas vistas da vila cerimonial de Orongo

No retorno para a Hanga Roa há uma parada nas cavernas Ana Kai Tangata, cobertas de pinturas rupestres. Esse tour custou US$ 35. A partida do hotel é às 8h e o retorno por volta do meio-dia.

Depois do almoço em Hanga Roa, saí para a segunda excursão do dia — e acho que a combinação não é estranha, pois o grupo da tarde era praticamente o mesmo da manhã.

Los Siete, os únicos moai da ilha que estão voltados de frente para o mar
Nesta etapa, visitei o Ahu Akivi, ou “Los Siete”, conjunto de sete moai muito bem preservado, as únicas estátuas gigantes da ilha que estão voltadas para o mar. 

Depois disso, há uma parada na pedreira vulcânica Puna Pau, onde eram esculpidos os "chapeuzinhos" dos moai, a caminho do complexo de cavernas de Te Pahu, onde parte da população da ilha viveu na época das guerras tribais.

Esse tour também custa US$ 35. Partimos às 14h e retornamos às 18h.

Uma experiência inesquecível é avistar a Ilha de Páscoa do mar
5º dia
Passeio de barco aos motu, ilhotas usadas no ritual do Homem-Pássaro

No que teria sido o meu último dia em Rapa Nui, minha ideia era relaxar na beira da praia, mas descobri no hotel um passeio pra lá de emocionante: em um barquinho a motor, ver a ilha por outro ângulo (de dentro d’água), visitando as ilhotas aos pés da vila de Orongo onde os pássaros considerados sagrados põem seus ovos (que eram recolhidos pelos guerreiros durante o ritual).

Apesar do mar furioso e de um certo frio na barriga com o tamanho das ondas, eu amei a experiência, a mais fascinante de uma viagem que foi só encantamento.


Um dos encantos da ilha é a grande população de cavalos selvagens
6º dia (bônus)
A volta pra casa
Este dia acabou sendo um bônus no meu roteiro, já que o meu embarque de retorno estava previsto para a noite da véspera (dia 29 de janeiro). Mas, como não é raro acontecer na Ilha de Páscoa, meu voo foi cancelado (viu como é importante comprar todos os trechos no mesmo bilhete? ) e eu ganhei mais 24 horas para explorar as belezas locais.

Aproveitei para relaxar e me preparar para mais 30 horas de jornada, com um pernoite em Santiago (que não estava previsto). Foi dia de banho de mar na Praia de Pea, no centrinho de Hanga Roa, e de passear mais uma vez pelo belíssimo Ahu Tahai para me despedir do “lado mais distante do mundo”.

O pôr do sol na Ilha de Páscoa é sempre um grande espetáculo
O que esperar da Ilha de Páscoa

Claro que meu principal interesse na Ilha de Páscoa era ver os moai, as legendárias estátuas de pedra que são a logomarca da ilha. Quanto a isso, não há com o que se preocupar: há 887 deles, inclusive no centrinho da vila de Hanga Roa.

O que eu não esperava era dar de cara com uma paisagem tão arrebatadora. Praticamente toda a costa de Rapa Nui é tomada pela aspereza de penhascos batidos por ondas furiosas, como se a ilha tivesse acabado de emergir do Pacífico numa explosão vulcânica.

As rochas negras que avançam para a sanha das águas formam um quadro de beleza inquietante. Em contraste com esse cenário bravio, a placidez do verde, onde cavalos selvagens correm em bandos, agitando longas crinas douradas. Deslumbrante é pouco...



Um fator que contribui para reforçar a sensação de estar no lado mais distante do mundo é a estranha distribuição demográfica da ilha. "Descoberta" pelos europeus em 1772, Rapa Nui foi transformada, no final do Século XIX, numa imensa fazenda de criação de ovelhas, arrendada pelo governo chileno a uma empresa britânica.

Além de colocarem abaixo o que restava de mata nativa, para dar lugar às pastagens, os arrendatários confinaram a população nativa à vila de Hanga Roa — até hoje a única da ilha, com 7 mil moradores — privando-os do acesso à terra e gerando um conflito fundiário que ainda persiste.

A beleza de Tahai
O resultado é uma vastidão de horizontes que chegava a me deixar  meio tonta. Abstraindo a perversidade com que se deu a ocupação de Rapa Nui pelos europeus e chilenos, a rara presença humana fora de Hanga Roa quase me induzia à ilusão de estar na véspera do dia da criação.

E se o assunto é paraíso, Rapa Nui esbanja paisagens espetaculares num território menor que o da Ilha Grande (RJ). São pouco mais de 160 km², (a Ilha Grande tem 190 km²). E nem precisa ir muito longe. Basta olhar pela janela (qualquer uma).

O "lado mais distante do mundo": Rapa Nui está a 3.700 quilômetros da Costa Chilena
Nos próximos posts eu mostro mais desses e outros lindíssimos lugares de Rapa Nui e conto tudinho sobre como foi a minha viagem para lá. Quem sabe você não aproveita a queda vertiginosa nos preços das passagens para esse lado mais distante do mundo e se manda pra lá?

Veja meu roteiro no mapa (clique nos ícones para acessar os posts)



Mais sobre Rapa Nui (Ilha de Páscoa)

O Chile na Fragata Surprise

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4 comentários:

  1. Deslumbrante, é só o que posso dizer. Também "sonho" em ir um dia. Imaginei que seria muito caro, vou dar uma olhada....Lerei as outras postagens, a fim de ver a melhor época. Bjs.
    Ana Silvia

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  2. Ana, uma viagem Rapa Nui está cada dia mais acessível (veja o post sobre passagens aéreas). Só vamos torcer para o turismo não se tornar uma pressão excessiva sobre os recursos naturais da ilha. Estou escrevendo sobre isso. Não perca as próximas postagens. Bj

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  3. Nossa, fui pra lá esse ano, provavelmente na mesma época que vc!!! AMEI a ilha, é claro..

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    Respostas
    1. Rapa Nui é simplesmente maravilhosa, né´, Fernanda? Ainda que cinco dias tenham sido suficientes para ver bem os principais sítios arqueológicos e paisagens, eu queria ter ficado muito mais.

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