24 de fevereiro de 2013

Orongo e o Ritual do Homem-Pássaro na Ilha de Páscoa

Os motu Nui (o maior), Iti e Kao Kao (o pontiagudo), contemplados do alto de 300 metros  de escarpa, em Orongo
Antes da chegada dos europeus, o povo Rapa Nui, habitantes originais da Ilha de Páscoa, organizava-se em sete clãs que nem sempre estiveram em paz. Os ilhéus contam sobre um “tempo de guerras” que levou à derrubada dos moai (as grandes estátuas de pedra dedicadas aos ancestrais) e obrigou grandes grupos de pessoas a buscarem refúgio sob a terra, como no impressionante conjunto cavernas e túneis vulcânicos de Te Pahu

Não se sabe exatamente quando o povo da Ilha de Páscoa decidiu substituir o conflito armado por uma espécie de “triatlo místico” para decidir qual clã iria mandar nos outros.

As câmaras que serviam de alojamento aos guerreiros, semienterradas, com uma entrada de um metro de altura, para garantir a segurança
Esse "triatlo" era o Ritual do Homem Pássaro e era celebrado na vila cerimonial de Orongo, hoje um dos sítios arqueológicos mais interessantes da Ilha de Páscoa, aberto à visitação e dono de um museu pequeno, mas bem didático.

A cratera do vulcão  Rano Kau
Todos os anos, em setembro, os guerreiros dos sete clãs da Ilha de Páscoa reuniam-se na vila ritual de Orongo, no alto do vulcão Rano Kau. Cada grupo tinha o seu campeão, que competia para ser o primeiro a trazer o ovo do Manutara, o pássaro sagrado, que fazia seu ninho no Motu Nui. 

Os motu ("ilhota"), são três rochedos que afloram do Pacífico, aos pés do vertiginoso paredão sobre o qual está Orongo.

O vencedor da competição garantia ao chefe de seu clã o poder de reinar sobre toda a Ilha de Páscoa até o ano seguinte.


Orongo está a 300 metros de altura, diante do penhasco  (à direita na foto), debruçada sobre esse mar furioso, que eu enfrentei no meu barquinho (mas esse é assunto para o próximo post)
➡️ Como era o ritual do Homem-Pássaro na Ilha de Páscoa
Os guerreiros escolhidos para representar cada um dos sete clãs da Ilha de Páscoa, então chamada de Rapa Nui ("Ilha Grande") precisavam descer os 300 metros da escarpa sobre a qual se assenta a vila de Orongo. A trilha pelo paredão de pedra exigia muita perícia.

Chegando ao final da trilha, os guerreiros tinham que enfrentar enfrentar as ondas furiosas que se arremessam contra o paredão de pedra e até o motu (ilhota), nadando sobre um cilindro de totora trançada, que ajudava na flutuação — a totora é uma espécie de junco, a mesma usada para construir as ilhas flutuantes dos Uros, no Lago Titicaca, na província de Puno, Peru.

Ao chegar ao Moto Nui, era preciso colher um ovo do Manutara e fazer o mesmo caminho perigoso de volta. Para que o ovo do pássaro sagrado chegasse intacto, no regresso a Orongo, os guerreiros Rapa Nui usavam na cabeça uma espécie de diadema de palha, onde havia uma "cestinha" para acondicionar a prenda.

O primeiro guerreiro a chegar a Orongo com o ovo do Manutara campeão era sagrado Tangata Manu (homem-pássaro) e coberto de honras. O chefe de seu clã ganhava o direito de governar a Ilha de Páscoa pelo período de um ano, até a realização de novo ritual.

Alojamento dos competidores do ritual do Homem-Pássaro
➡️Como chegar à vila de Orongo
É possível ir a Orongo a pé, percorrendo uma trilha que começa logo depois da pista do Aeroporto de Mataveri (para quem vem de Hanga Roa). O caminho, bem sinalizado, sobe a encosta do vulcão Rano Kau, com um visual cada vez mais lindo.

Eu, comportadinha, fui com um grupo, de micro-ônibus. A vantagem foi contar com os relatos e explicações do nosso guia, John.

O sítio arqueológico de Orongo tem um centro de visitantes bem didático, com ilustrações, linha do tempo e boas explicações sobre a tradição do homem-pássaro na Ilha de Páscoa.

No sítio arqueológico, você verá as curiosas casas que serviam de alojamento aos guerreiros Rapa Nui, construídas com lascas de pedra superpostas.

Espalhados pelo terreno estão diversos conjuntos de petróglifos feitos em homenagem aos Tangata Manu (os campeões do ritual do homem-pássaro), uma crônica ainda não completamente decifrada, mas muito valiosa para antropólogos e arqueólogos que trabalham na área.

Uma trilha parte dos arredores do aeroporto até o topo do vulcão, onde está a vila cerimonial de Orongo
Outro atração imperdível pra quem visita Orongo é a cratera inundada do vulcão Rano Kau, um viveiro de plantas aquáticas, como a totora. 

Nas águas da cratera também são criados peixes da espécie gambusia. Originários da América do Norte, esses bichinhos são tiro e queda para comer as larvas do mosquito Nau Nau (aedes aegypti).

Muito graças aos peixinhos gambusia, tão pequenininhos (atingem no máximo 6 centímetros de comprimento), a Iha de Páscoa, que já sofreu muito com a doença, não registra um único caso de dengue há quatro anos. 


➡️ Ingresso para a vila cerimonial de Orongo
Para visitar a vila cerimonial de Orongo, é preciso ter o ingresso dos parques nacionais de Rapa Nui, o mesmo que dá acesso a Rano Raraku. O bilhete custa US$ 60, ou US$ 50, se comprado no aeroporto, e tem validade para cinco dias. Não é necessário pagar ingresso para ver a cratera do vulcão.

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