1 de maio de 2018

O que fazer em Cusco – como aproveitar a capital dos incas

Haucaypata (Praça de Armas), o coração da cidade desde o tempo dos incas
Encarapitada entre as montanhas andinas, a 3.400 metros de altitude, Cusco é fortíssima candidata a principal atração do Peru. A capital dos incas — e, posteriormente, sede do poder colonial espanhol na região— é mais que uma cidade. É um universo de tradições, saberes ancestrais, monumentos arrebatadores e um povo que preserva tudo isso, assegurado que sua cultura continue viva no cotidiano, e não na apenas nas vitrines dos museus.

A cidade merece uma temporadinha mais esticada. Quatro dias é um intervalo legal para aproveitar o melhor da capital dos incas: tem muito o que fazer em Cusco.

Estive em Cusco pela quarta vez, agora em fevereiro/2018, e continuo tão encantada por ela como na primeira visita. Algumas atrações são sabidas de cor: o magnífico Qorikancha, o Templo do Sol dos incas, e a Catedral Católica, a majestosa Haucaypata/Praça de Armas, centro do poder andino e colonial, as igrejas de La Compañia e de São Francisco, os palácios incas e suas paredes de encaixes perfeitos, à prova de terremotos, os templos nas montanhas que circundam a cidade.

Euzinha na terceira viagem a Cusco, em 2010, mais hippie impossível, com minhas calças coloridas
Mas aqueles 3 mil anos de história sempre dão um jeito de aprontar novas surpresas a velhos visitantes. A Cusco que encontrei agora está muito mais amigável ao turista que gosta de conforto, organização e boa gastronomia. A capital dos incas ainda recebe multidões de mochileiros, mas ganhou em infraestrutura hoteleira, restaurantes e regras que contribuem para a preservação de seu patrimônio.

Veja minhas dicas para montar seu roteiro em Cusco e aproveitar ao máximo o patrimônio, a cultura e as novidades dessa cidade única:

O Qorikancha (Templo do Sol), centro espiritual da cultura quéchua
⇨ Um pouquinho da história de Cusco
Cusco, o “umbigo do mundo" para o povo quéchua (que a gente aprende a chamar de “os incas”, por causa do título usado por seus imperadores), começou a ser povoada por volta do ano 1.000 antes de Cristo.

Segundo a tradição, os irmãos Manco Capac e Mama Occlo, filhos do Sol, teriam despachado dois condores para buscarem o local onde fundariam uma cidade e dariam início a uma nova civilização — a lenda é intrigantemente parecida com a da fundação de Delfos, o centro espiritual do mundo helênico, cuja localização teria sido escolhida por duas águias enviadas por Apolo para circundar a Terra em sentido oposto e que se teriam encontrado aos pés do Monte Parnaso.

Eu e minha irmã, Simone, no monumento a Manco Capac e Mama Ocllo, a quem a mitologia atribui a fundação da cidade
(foto de novembro de 2010)
A povoação, aninhada no fundo de uma “panela” cercada por montanhas, só ganharia importância a partir do Século 13, com a ascensão de Tahuantinsuyu (o Império Inca), que fez de Cusco sua capital.

Por 300 anos, até o Séculos 16, os quéchua foram os senhores do Andes e além, estendendo seus domínios a territórios que hoje pertencem ao Equador, Bolívia, Argentina, Chile e Colômbia — o maior império da América antes da chegada dos espanhóis.


É claro que tanto poder só poderia ter dotado Cusco de todo o esplendor ainda visível — ou ao menos decifrável — em suas feições. Os espanhóis chegaram em 1532 e também legaram à cidade construções magníficas — muitas vezes cobrindo com elas os traços do poder dos incas. Essa mescla, que dialoga e se contrapõe, compõe uma narrativa histórica fascinante e resulta em uma beleza rara.

Essa placa na Praça de Armas homenageia a resistência dos povos dos Andes à invasão espanhola. Uma coisa cativante em Cusco e região é o orgulho do povo por sua história e cultura
O que fazer em Cusco - e como se organizar

⇨ Quanto tempo ficar em Cusco
O maior erro que se pode cometer em relação a Cusco é encarar a cidade como uma simples base para visitar Machu Picchu. A cidade e seus arredores têm atrações que preenchem, fácil fácil, três ou quatro dias de atividades intensas.

Convém lembrar, ainda, que se você vai fazer a Trilha Inca a pé, até Machu Picchu, é essencial fazer um período de aclimatação na altitude, de quatro a cinco dias.

⇨ Antes de ir, leia sobre a história de Cusco e do Peru
Para apreciar mais plenamente as belezas da antiga capital dos incas, recomendo um pouquinho de leitura prévia — o prazer de ver a cidade cresce na proporção da nossa capacidade de entender contextos, reconhecer personagens e cenários.

A fonte da Praça de Armas ganhou a imagem do Inca Pachakuteq, considerado o fundador do Tawantinsuyu. Repare na foto à esquerda que a estátua não estava lá, em 2010
Tem muita coisa publicada sobre a história de Cusco. Uma boa pesquisa na internet, em sites de livrarias, é indispensável. A maioria das obras está disponível principalmente em espanhol e inglês, mas várias delas foram traduzidas para o portugês.

Talvez a obra mais importante sobre as tradições da Cordilheira, escrita ainda no período colonial, sejam os Comentários Reales de los Incas, de Inca Garcilaso de la Vega, filho de uma princesa quéchua e um comandante espanhol.

Entalhes espanhóis e paredes incas no antigo Convento das Nazarenas, hoje um hotel de luxo
Garcilaso é considerado um fundador da literatura peruana, um pioneiro entre os escritores americanos e sua obra é absolutamente fascinante: o autor carrega em si o olhar dos dois mundos que se encontraram e se chocaram no alto da Cordilheira. São cerca de 600 páginas com grande poder hipnótico. Recomendo fortemente.

⇨ Contrate um guia em Cusco
Outra boa fonte de informação são os guias locais, muitos deles estudantes e até professores de história e antropologia, todos muito apaixonados e orgulhosos do passado do povo quéchua. 

Ainda que você prefira fazer passeios independentes, o acompanhamento de um bom guia vai enriquecer muito a sua experiência. Peça indicações no escritório de turismo da cidade.


⇨ Compre o Boleto Turístico de Cusco
Um ingresso, 16 atrações. O Boleto (bilhete) Turístico de Cusco é imprescindível para ver alguns dos lugares mais espetaculares da cidade, arredores e Vale Sagrado dos Incas.

O bilhete geral custa 130 soles para viajantes estrangeiros e tem validade de 10 dias. Nesta modalidade, há descontos para estudantes (fica por 70 soles) que apresentem a carteirinha válida para o período da viagem.

Uma novidade legal é que agora existem mais três modalidades de boleto turístico. São mais baratas (custam 70 soles para estrangeiros, sem descontos para estudantes), dão acesso a menos atrações, mas são uma mão na roda para quem não tem tempo de ver tudo que Cusco e região oferecem. São um fracionamento do boleto geral.

Meus sobrinhos Bruno e Carolina, no cantinho esquerdo da imagem, em nossa visita a Sacsayhuaman, em fevereiro de 2018
⇨ O Circuito 1 (que foi o bilhete que comprei agora, nesta viagem de 2018) dá acesso ao templos que ficam no entorno de Cusco (Sacsayhuaman, Q’enko, Puka Pukará e Tambomachay), que fazem parte do clássico city tour pela cidade e arredores (o Qorikancha, também integrante desses roteiros, cobram ingressos à parte).

⇨ O Circuito 2 é a rota dos museus. Esse bilhete dá acesso ao Museu de Arte Contemporânea, Museu Histórico Regional, Museu de Arte Popular, Museu do Sítio de Qoricancha, Centro Qosqo de Arte Nativa, Monumento ao Inka Pachacuteq, Pikillaqta e Tipón.

⇨  Circuito 3 vale para as atrações do Vale Sagrado dos Incas (Ollantaytambo, Moray, Pisac e Chinchero), outro passeio muito popular — e imperdível — para quem visita Cusco.

Expliquei direitinho como funciona o Boleto Turístico e quais as atrações incluídas neste post:
Cusco: desvendando o boleto turístico

Um ladeira cusquenha e detalhe do claustro de La Merced
⇨ Cuidados com a altitude em Cusco
Pegue leve: a cidade está a 3.400 metros de altitude e, nos primeiros dias, o soroche (mal da altitude) pode bater forte. Mais uma razão para você esticar um pouquinho a estada, já que querer ver tudo em ritmo de gincana põe qualquer um a nocaute.

Para amenizar o mal estar com a altitude, prefira comidas leves, durma quando e quanto o corpo pedir e pode abusar do chá de coca (mate de coca, como dizem por lá), que não dá barato e ajuda na digestão, reduzindo o enjoo e a dor de cabeça.


⇨ O que ver em Cusco
☆ Qorikancha (Templo do Sol)/ Igreja de Santo Domingo
Não está incluído no boleto turístico. A entrada custa 15 soles. De segunda a sábado, das 8:30h às 17:30h. Domingos, das 14h às 17h.

O Qorikancha é o monumento mais espetacular de Cusco, não só pelo requinte de sua construção, mas também pela importância cultural e religiosa que teve para os incas e por sua história posterior à colonização.

Detalhe da fachada da Igreja de São Domingos, construída sobre o Templo do Sol
O Sol (Inti) era a divindade máxima do povo quéchua, o pai de todos eles, e seu templo era o centro da vida religiosa de Cusco.

Com a chegada dos espanhóis, o Templo do Sol foi parcialmente desmontado para dar lugar à Igreja de São Domingos e suas belas paredes incas foram usadas como base para a construção católica. Um terremoto se encarregou de botar abaixo parte do edifício colonial trazendo o Qorikancha de volta à luz.

Leia mais sobre o Qorikancha e sobre a Catedral neste post:
Cusco - o Templo do Sol e outras "camadas" da história



☆ Catedral de Cusco
Praça de Armas. A entrada não está incluída no boleto turístico e custa 25 soles. Diariamente, das 10h às 18.

Mais uma visita imperdível em Cusco. Ligeiramente elevada sobre a Praça de Armas, a Catedral ocupa o local do antigo Templo de Wiracocha (o deus da criação, para os incas) e incorpora uma série de elementos do imaginário quéchua em sua decoração interior. 

O complexo da catedral abarca, ainda, as igrejas contíguas do Triunfo e da Sagrada Família. Preste atenção à belíssima coleção de pintura cusquenha que faz parte do acervo da catedral.


☆ Haucaypata (Praça de Armas)
Cercada por monumentos religiosos (Catedral, Igreja da Companhia de Jesus) e por vistosos palácios coloniais sobre arcadas, a Praça de Armas de Cusco permanece como o centro da vida social, cívica e religiosa da cidade, condição que conquistou ainda na era inca.

Pelo tamanho do sorriso, dá pra ver que eu estava muito feliz nesse meu primeiro encontro com a Praça de Armas de Cusco, em março de 2002
O melhor jeito de curtir a beleza e a harmonia arquitetônica de Haucaypata é escolher uma mesa em um dos muitos bares e restaurantes que funcionam nos balcões coloniais debruçados sobre a praça e ver a luz da tarde caindo sobre os belos edifícios que a circundam.

La Compañia, na Praça de Armas
☆ Igreja da Companhia de Jesus (La Compañia)
Plaza de Armas s/n. Diariamente, das 9h às 11:30h e das 13h às 17:30h. Também não faz parte de boleto turístico. A entrada custa 10 soles.

Construída no final do Século 16 sobre o antigo palácio do Inca (imperador) Huayna Cápac e reconstruída no Século 17, após ser arrasada por um terremoto, essa igreja barroca de Cusco já impressiona pela fachada em pedra finamente talhada.

O interior da Igreja da Companhia de Jesus de Cusco é um verdadeiro museu de arte sacra, com um belíssimo altar-mor, altares laterais barrocos e platerescos e uma representativa coleção de pinturas da escola cusquenha.

Menos famoso que outras atrações, La Merced tem um claustro belíssimo e uma preciosa coleção de arte sacra
☆ Igreja e Convento de La Merced
Calle Mantas s/n. De segunda a sábado das 8h às 12h e das 14h às 17h. Entrada: 6 soles

Fiquei encantada com a beleza de La Merced, um conjunto barroco do Século 17 que está entre as atrações mais bonitas de Cusco.

O ponto alto de La Merced, sem dúvida é o belíssimo claustro ajardinado do convento, cercado por dois pisos de galerias ricamente decoradas.

Detalhes do claustro do Convento de La Merced
Entre as muitas obras de arte guardadas em La Merced, não deixe de ver a custódia de ouro e pedras preciosas com de 1,30 metros de altura, onde se destaca a segunda maior pérola já encontrada na planeta.

Lhamas pastam placidamente no complexo do Kusicancha
☆ Kusicancha
Calle Mauri s/n, de segunda a sexta, das 7h às 14:45h. Entrada gratuita

Ao lado do Templo do Sol, o sítio arqueológico de Kusicancha exibe os restos de uma espécie de centro ritual onde eram produzidos os materiais para as cerimônias no Qorikancha.

Cerâmicas, tecidos, bebida e comida eram preparados em diferentes pavilhões do Kusicancha. No local também foram encontradas tumbas, possivelmente de sacerdotes.

Atualmente, Kusicancha também abriga um escritório de turismo onde você pode comprar ingressos para Machu Picchu

São Francisco: a fachada rústica abriga uma boa pinacoteca
☆ Igreja e Convento de San Francisco
Plaza San Francisco s/n. De segunda a sexta, das 9h às 12h. e das 15h às 17:45h. Sábado, das 9h às 12h. Entrada gratuita.

A Igreja de São Francisco de Cusco abriga uma autêntica pinacoteca de mestres da pintura cusquenha. O destaque é a tela de 12 x 9 metros retratando a genealogia da ordem franciscana.

As meninas fazem pode em frente à famosa parede do Palácio de Inca Roca, na Hatun Rumiyoc
☆ Calle Hatun Rumiyoc
Ligando a Plaza de Armas ao Bairro de San Blás, essa rua era o início da antiga rota inca que levava ao Antisuyo — a “província” amazônica do império.

A rua é mais famosa pela impressionante parede inca do antigo Palácio de Inca Roca, que toma a extensão de todo um quarteirão. O edifício inca foi convertido no Palácio Arquiepiscopal, no Século 16.

Repare no eterno aglomerado de turistas em frente a um trecho da parede: é a célebre pedra de 12 ângulos, um enorme bloco que exemplifica perfeitamente o primor de engenharia que são as paredes incas. A peça realmente tem 12 quinas que se encaixam precisamente nos blocos ao redor.

Estreita e íngreme, a Rua Hatun Rumiyoc era o início de uma antiga rota inca
Aproveite o passeio pela Calle Hatun Rumiyoc para comprar artesanato nas muitas lojinhas que funcionam nessa rua e em suas transversais.


A igrejinha de San Blas, bairro de artesãos e de bons restaurantes
☆ Bairro de San Blas
Boêmio, charmoso e menos muvucado que o Centro de Cusco, o bairro de San Blas rende um ótimo passeio e combina com almoço ou jantar mais relaxado e menos turístico em um dos bons restaurantes da vizinhança.

San Blás é o bairro dos artesãos, cheio de pequenos ateliês onde trabalham nomes famosos e anônimos. Não deixe de dar uma olhada na Igreja de San Blas, do Século 16, que tem um púlpito em madeira talhada famoso.

Guarde um tempo para andar sem agenda por Cusco e ver a vida real além dos monumentos
☆ Duas excursões clássicas em cusco
Os arredores de Cusco rendem uma infinidade de passeios. Duas excursões, porém, já viraram clássicas e estão na agenda de praticamente todo mudo que visita a cidade e região. E razões pra isso não faltam. Elas funcionam como aulas preparatórias para se compreender melhor a cultura inca e sua história. 

☆ City Tour de Cusco
Esse roteiro, feito em um turno, começa na Praça de Armas, segue para o Qorikancha e depois para as quatro construções incas que ficam nas montanhas que cercam a cidade, Sacsayhuaman, Q'enko, Puka-Pukará e Tambomachay. (Essas atrações vão ganhar um post exclusivo).

Toda a beleza de Sacsayhuaman
O city tour de Cusco custa 30 soles. O preço inclui transporte e guia, os ingressos são pagos a parte. Vale a pena principalmente pela presença do guia, que ajuda a destrinchar tudo que a gente vai vendo ao longo da visita.

Se você não quiser ir em grupo, contrate um motorista e um guia. Só não vale deixar essas atrações fora do seu roteiro.

Saiba mais: Como é o city tour de Cusco - e por que vale a pena


☆ Tour ao Vale Sagrado dos Incas (Vale do Urubamba) 
Esta excursão passa pelo mercado de artesanato e pelo sítio arqueológico de Pisác, pela fortaleza de Ollantaytambo e pela vila indígena de Chinchero. Alguns roteiros também incluem os sítios de Maras e Moray.

O tour ao Vale Sagrado dos Incas é um passeio de dia inteiro, custa 70 soles, inclui transporte, guia e um almoço simples. 

Já fiz o tour do Vale do Urubamba três vezes e recomendo. Veja como é o passeio:
Um dia no Vale Sagrado dos Incas

O Peru na Fragata Surprise
Todas as dicas de viagem ao Peru - post-índice
Peru: roteiro de 10 dias com Lima, Cusco e Machu Picchu
Peru e Bolívia – roteiro de La Paz a Machu Picchu


Minha vida com Gastón (Acúrio) – as aventuras da Fragata nos restaurantes do chef-celebridade

Lima
Machu Picchu

Ollantaytambo
Puno
Andahuaylillas, Pukará e Raqchi
Vale do Urubamba (Písac, Ollantaytambo e Chinchero)


Todas as dicas de Cusco
Onde comer em Cusco
O que ver em Cusco – o Qorikancha e a Catedral
Cusco: desvendando o boleto turístico
Cusco: Inti Raymi, a Festa do Sol

Dica de hotel bom e barato em Cusco - La Casona de Rimacpampa
Um dia no Vale Sagrado dos Incas
De Puno a Cusco – como é a viagem no ônibus turístico
Aiôôô, Silver! Passeio a cavalo pelas montanhas de Cusco



Curtiu este post? Deixe seu comentário na caixinha abaixo. Sua participação ajuda a melhorar e a dar vida ao blog. Se tiver alguma dúvida, eu respondo rapidinho. Por favor, não poste propaganda ou links, pois esse tipo de publicação vai direto para a caixa de spam.
Navegue com a Fragata Surprise 
Twitter     Instagram    Facebook    Google+

Nenhum comentário:

Postar um comentário