sábado, 30 de março de 2013

Delfos, o centro do mundo

Delfos, na encosta do Parnasso, foi o centro
espiritual da cultura helênica
Depois das delícias do Peloponeso, estava chegando a hora de me despedir da Grécia. Hora de seguir para Delfos, um dos destinos inegociáveis na minha passagem pelo País — e só mesmo a vontade de ver o lugar que foi o centro espiritual da civilização grega para me arrancar do dolce far niente à beira mar, em Monemvasia, e me lançar pelas calorentas estradas gregas, rumo ao Norte.
Para driblar o cansaço de final de viagem e ganhar tempo nos deslocamentos, optei por pegar um tour de dois dias a Delfos e a Meteora. Por conta própria, eu até teria conseguido visitar os dois lugares, mas teria sofrido demais com a correria e as baldeações, num percurso de quase 1.200 quilômetros, a partir de Atenas, contando a ida e a volta. Ainda bem que eu venci meu preconceito com excursões: num país sempre tão impressionante e apaixonante como a Grécia, Delfos e Meteora são simplesmente top de linha entre tantas maravilhas. Valeu muito ter ido ver esses dois lugares.
O Templo de Apolo, em Delfos, construído no Século IV a.C.

À sombra  do Monte Parnasso — com 2.500 metros, é a segunda montanha mais alta da Grécia e morada das Musas, segundo a tradição — uma série de terraços abrigam os vestígios do complexo religioso de Delfos, cujas origens remontam ao Século XIV a.C. Durante a Civilização Micênica, essas encostas abrigaram um santuário dedicado a Gaia, a Mãe Terra, mais tarde convertido em local de culto a Apolo e sede do famoso Oráculo.

Para compreender melhor o que se vê em Delfos, é importante contratar um guia ou munir-se de um bom livro informativo sobre o lugar, já que ele não é tão bem sinalizado quanto Epidauros ou Micenas, por exemplo.



O defeito de vir com um grupo é o horário da visita. Chegamos ao sítio arqueológico perto do meio dia, quando Apolo, o deus sol, já estava rodando a baiana. Se você fizer a visita por conta própria, aproveite que a bilheteria abre às 8 horas e venha cedinho, para para não ter que se acotovelar com os muitos grupos de turistas e não ser torrada pelos exuberantes raios do dono da casa.

Conta a lenda que duas águias, comandadas por Zeus, teriam partido para dar a volta à Terra. Uma voou para o Leste, a outra para o Oeste. Encontraram-se em Delfos, “o centro do mundo”. Hoje, sabe-se que Delfos fica exatamente no local onde as placas tectônicas da Europa e da África se chocam, o que explicaria os constantes terremotos e também os misteriosos vapores que inspiravam as pitonisas que falavam pelo Oráculo, decidindo batalhas, conquistas e a sorte das cidades gregas.
Prepare-se para subir. A visita a Delfos consiste, basicamente, em seguir o Caminho Sagrado, uma série de rampas e escadarias que levam Templo de Apolo, local mais importante do Santuário de Delfos. Percorrer essa trilha era parte essencial da reverência aos deuses que antecedia a consulta à Pitonisa. A caminhada deveria ser feita sempre no nono dia de cada mês e, antes de ouvir o Oráculo, o consulente deveria sacrificar um animal. Ao longo do caminho, ficavam expostos ex-votos e oferendas das cidades.

O caminho sagrado: uma sucessão de rampas vai levando
 o visitante até o topo do santuário
Trinta e quatro séculos depois da devoção ao deus sol ter conquistado esta encosta, subir a trilha em ziguezague ainda tem o sabor de cumprir um ritual.

Seguindo a trilha, chega-se ao Anfiteatro (um dos mais bem conservados da Grécia) onde eram realizadas as competições de música em honra de Apolo, durante os Jogos Pítios, disputados no Estádio, que fica quase no topo da elevação.

O complexo religioso abrigava pequenos edifícios onde eram guardados ex-votos e oferendas enviadas ao Oráculo por cada cidade grega. Este é o Tesouro dos Atenienses, erguido para celebrar a vitória contra os persas em Maratona. Foi parcialmente reconstruído pelos arqueólogos para dar aos visitantes uma noção dessas estruturas

Apesar do sistema de rampas, a subida é árdua. A paisagem, porém, vai ficando cada vez mais bonita. E por mais alto que se chegue, lá está sempre o Monte Parnasso, erguendo-se sobre nós, imponente, olhando para os mortais, do alto do Liákoura, seu cume mais elevado.

De Leônidas de Esparta a Édipo, de Sócrates a Héracles, não há personagem grego, real ou maravilhoso, que não tenha buscado humildemente as predições da Pitonisa. Caminhar por Delfos é como ouvir fragmentos dos medos, esperanças e sonhos de todos esses heróis, sábios e semideuses. É poder imaginar que, por maior que fossem, eles não sabiam tudo, que também ficavam vulneráveis e, portanto, mais perto de mim.

Eu nem precisei consultar a Pitonisa: cada pedacinho de Delfos estava me dizendo que eu vou voltar lá. E quem sou eu para discutir com a sabedoria de pedras milenares?

Em Delfos também eram realizados os Jogos Pítios,  que só perdiam em importância, no mundo helênico, para os Jogos Olímpicos
Conta a lenda que Apolo conquistou Delfos como local de adoração após matar a serpente Python, que guardava a entrada do Templo de Gaia. Sob a forma de um golfinho, ele teria guiado os cretenses até esse lugar para que eles construíssem seu templo
Delfos foi o maior símbolo da unidade dos povos helênicos: independentemente da rivalidade que havia entre as cidades, elas eram unânimes na reverência ao poder do Oráculo
Como viajei
Pelo site Get Your Guide, contratei um tour de dois dias com a Keytours, partindo de Atenas, para visitar Delfos e Meteora. Viajar em excursão não é a minha praia, mas, depois de 25 dias na estrada, confesso que estava com uma preguiça louca de me virar sozinha. Descobri o Get Your Guide pelo Tripadvisor e achei o serviço bem prático e eficiente: eles têm uma lista enorme de opções de tour, com diversas agências. Basta escolher, fazer a pré reserva e em menos de 24 horas vem a confirmação, para pagamento com cartão de crédito, e o voucher para ser apresentado à empresa que vai fazer o tour.


Dei sorte com meus companheiros de viagem. Os 12 integrantes do meu grupo (da Índia, Itália, EUA e Argentina) eram pessoas muito bacanas, interessadas em História e Arqueologia e com um jeito de viajar parecido com o meu. A convivência foi excelente, o papo no ônibus e nas paradas para as refeições era ótimo e acabei me divertindo muito mais do que poderia imaginar. Nossa guia, Zuli, foi sempre solícita, fornecendo informações relevantes sobre os lugares visitados e a Grécia, em geral.


Claro que não é a maneira ideal de viajar — não deu para ver o Museu de Delfos, por exemplo. O que perdi em autonomia, porém, ganhei com o conforto de não ter que me preocupar com a mala, com os deslocamentos e tudo mais. Se estivesse um pouquinho menos cansada, jamais optaria pela excursão. Mas, para o finzinho da viagem, quando a gente já está louca para jogar a mala de uma ribanceira, foi uma ótima ideia.

O tour de dois dias custa €145 e inclui o transporte (que apanha os passageiros no hotel), ingressos para o sítio arqueológico de Delfos e dois mosteiros em Meteora, refeições e hotel três estrelas em Kalambaka (Meteora). Entre Delfos e Meteora, há uma parada de cerca de uma hora nas Termópilas, para uma breve visita ao monumento que homenageia Leônidas de Esparta e às fontes termais que dão o nome ao lugar.


O anfiteatro. As representações teatrais tinham um papel importante na expressão da espiritualidade helênica
Para ir por conta própria
Delfos (Delphi) está a cerca de 200 quilômetros de Atenas, na Fóquida, região que “olha” para o Peloponeso da margem Norte do Golfo de Corinto. A moderna cidade de Delfos, a 15 quilômetros do sítio arqueológico, é bem pequenininha e vive basicamente do movimento de turistas que visitam o santuário. Há também a alternativa de hospedagem em Arachova, cidade turística, “de serra”, a 12 quilômetros do santuário.
De Atenas, os ônibus para Delfos (Delphi) partem do Terminal B (veja como chegar lá e outras dicas de transporte em Atenas e arredores) em seis horários (às 7:30h, 10:30h, 13h, 15:30, 17:30h e 20h). As passagens custam € 15 e a viagem leva cerca de três horas.

O Parnasso é a morada mitológica de Apolo e das Musas, entidades que inspiram a criação artística
Visitação
O sítio arqueológico pode ser visto diariamente, das 8h às 15 horas. O Museu, considerado um dos mais importantes da Grécia, exibe achados arqueológicos da área, como os objetos doados pelas cidades ao santuário, antes guardados nos tesouros do templo. Pode ser visitado das 8h às 15h. No verão, (abril a outubro) esse horário é ampliado até às 20 horas, de quarta a sábado.

Para ver apenas o santuário, os ingressos custam €6. O bilhete combinado para o museu e o sítio arqueológico custa €9.

No final do Século XIX, os vestígios de Delfos começaram a ser escavados, sob a Vila de Kastro, totalmente removida pelo trabalho arqueológico. Junto com ela, foram perdidos importantes registros históricos

Dicas para organizar uma viagem à Grécia

A Grécia na Fragata Surprise

10 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? ;)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem. Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

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    1. Oi, Natalie, que legal! Adoro o VnV e fico superfeliz de estar no site de vocês. Abs

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  2. Una publicación interesante.
    Leer un aspecto interesante sobre los el Delphic ¨ E ¨ y "conócete a ti mismo":

    https://skydrive.live.com/view.aspx?cid=E39B50D7D9EA3235&resid=E39B50D7D9EA3235%21121&app=WordPdf

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  3. Cyntia, Boa tarde! Acabei de dar uma olhada rápida no seu blog. Estou indo para a Grecia em setembro sozinha. Cotei com uma empresa de turismo deiferente a ida para Delphos /Meteora. O que vc achou do hotel que ficou em Kalambaka? O da excursão não é bom( detestado pelos viajantes). Agora, outra pergunta que está me enlouquecendo: Aonde é melhor ficar uma pessoa sozinha em Santorini sem pretensão de baladas mas sem querer ficar lá no meio da lua de mel dos outros? Oía ou Fira? Obrigada!
    ass: Beatriz

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    1. Oi, Beatriz, achei o hotel de Kalambaka bem razoável. Não era luxuoso, mas era confortável. Falei dele neste post aqui: http://www.fragatasurprise.com/2013/04/nao-e-sonho-e-meteora.html
      Sobre Santorini, creio que não posso lhe ajudar muito, pois não estive lá — ainda :) Pelo que sei, Oia é muito mais bacana que Fira e eu ficaria lá, sem vacilar. Se eu fosse você, desencanava dessa história de estar “no meio da lua de mel dos outros”. A viagem é sua, relaxe e divirta-se. Eu, por exemplo, acho Veneza um dos melhores lugares do mundo para estar sozinha :)
      Aproveite a Grécia!

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  4. Que lugar maravilhoso, as fotos estão lindas...preciso visitar é muita história, parece um lugar místico...

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  5. oi, Cyntia, você sabe que adoro seus posts e fico viajando nas suas indicações. Este ano, deixei para definir minhas férias em cima da hora (outubro) e estou com medo de ir para a Europa e dar de cara com 1 euro na casa dos 5 reais (com taxas). Tirarei de 15 a 20 dias de férias e estou pensando em visitar uma amiga em Milão e de lá ir para a Grécia. Quero a sua opinião:vale mais a pena comprar as passagens para a Grécia do Brasil ou comprar trecho Salvador/Milão e em Milão comprar numa low coast para Atenas? beijos e obrigada - Cândida Silva

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    1. Cândida, você vai ter que fazer a cotação nos (muitos)sites de busca de passagens e ver como fica melhor. Confira o GoogleFlights, Kayak, Skyscanner e outros, pra ver a melhor opção. Tendo a achar que vai ficar mais barato ir pra Milão e lá pegar uma low cost pra Atenas, mas, talvez, vc enconte Alitália Guarulhos-Atenas, com stopover em Milão.
      Mesmo que o euro esteja salgadíssimo, a Grécia é muito barata. Só alerto que você não vai encontrar mais aquele climão gostoso de verão pra curtir a maioria das ilhas. Se quiser praia, sugiro o Sul do Peloponeso (Monemvasia é uma coooooisa) ou as Ilhas do Dodecaneso, onde o verão só acaba em novembro.

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  6. Oi Cintia. Primeiramente agradeço e parabenizo por seu blog. Queria saber se quando você foi pra Delphos manteve o quarto reservado Plaka ou foi com tudo e depois voltou pra Plaka. Estou sozinha e é difícil resolver com praticidade e economia né. Muito obrigada

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    1. Não mantive o quarto reservado. Fechei a conta. Mas não levei a bagagem toda, deixei no bagageiro do hotel e carreguei o mínimo indispensável. É muito comum os hotéis de Atenas guardarem as malas dos ex-hóspedes que vão às ilhas, por exemplo. Veja no lugar que você vai ficar se há esse serviço. É mais confortável viajar leve :)

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