quarta-feira, 12 de julho de 2017

5 passeios em Roma: receita de paixão

A Fontana di Trevi, uma das imagens mais marcantes de Roma

Música deste post: La Dolce Vita, Nino Rota

“Roma. Definitivamente, Roma”. É assim que a princesa vivida por Audrey Hepburn declara seu amor à cidade, na cena final de Roman Holiday (“A princesa e o plebeu”, de William Wyler, 1953), quebrando o protocolo que exigia dela, em visita de Estado a várias capitais da Europa, uma resposta anódina e diplomática.

Pois eu nem precisei andar de lambreta com Gregory Peck, como Audrey no filme, para cair de paixão por Roma. Menos de meia hora depois de tê-la visto pela primeira vez, em 2003, já tinha decidido era a cidade mais bonita do planeta — e olha que eu estava chegando de Paris.

Roma é um mundo de atrações. Das clássicas — Fontana de Trevi, Fórum, Coliseu — às menos badaladas, a cidade é quase inesgotável. Neste post eu listei cinco passeios que adoro e já repeti algumas vezes, em minhas passagens pela cidade.

Além da fonte imortalizada por Fellini (no filme A Doce Vida, de 1960), tem o pouco visitado e espetacular Museu Nacional Etrusco, do ladinho da Villa Borghese, os encantos pouco óbvios da região do Ghetto e o charme (com guloseimas) do Campo dei Fiori e da Piazza Navona.  Por fim, o mitológico Monte Palatino, onde a lenda diz que a cidade nasceu e onde nasceram e viveram imperadores.

Calce um sapato confortável e bora passear comigo.




Fontana di Trevi
Piazza di Trevi (Metrô Barberini)


Vá de manhã cedo ou no finzinho do dia, se não quiser encontrar essa muvuca
Na primeira vez que pisei em Roma, mal arriei a bagagem no hotel e já tratei de rumar para a fonte mais famosa do planeta. Estava quase anoitecendo quando cheguei à Fontana de Trevi e me deparar com ela — linda, banhada pelo sol da tardinha — contribuiu decisivamente no meu amor à primeira vista pela capital italiana.

São 26 metros de altura e 20 metros de largura de um “palco” onde Netuno, deus dos oceanos, comanda sua corte marinha para deleite de milhares de olhos extasiados dos turistas que diariamente sitiam o monumento, inaugurado em 1762.

A fonte é linda, sim, mas não deixe de prestar atenção aos detalhes dos edifícios próximos

Oratório na Villa della Stamperia, na esquina da Piazza di Trevi
A mística da fonte, porém, deve muito mais ao celuloide que aos cinzéis de seus escultores. Desde que Anita Ekberg decidiu se refrescar em suas águas, elegantíssima em seu vestido de noite e na luxuosa companhia de Marcello Mastroiani, em A Doce Vida, a Fontana di Trevi é uma das imagens mais reconhecíveis da Itália e assídua frequentadora da imaginação ocidental.

O costume de jogar uma moeda na fonte para garantir o retorno a Roma também foi popularizado pelo cinema, na comédia romântica A Fonte dos Desejos (Three Coins in the Fountain, de Jean Negulescu, de 1954).

Todo mundo quer jogar uma moedinha na fonte
É interessante saber que, apesar de todo o charme hedonista que a dança de Anita e Marcello associa à imagem de Trevi, a origem do lugar é absolutamente funcional. Muito antes dos adornos monumentais erguidos no Século 18, a fonte fez parte da rede de abastecimento da cidade, ponto final da água que corria pelo Acqua Vergine, um dos aquedutos mais antigos de Roma, construído no comecinho do período imperial. 


  Museu Nacional Etrusco (Villa Giulia)
Piazzale di Villa Giulia, 9 (Villa Borghese - zona Belle Arti). De terça a domingo, das 8:30h às 18h:30h. Entrada: 6 Euros. Duas linhas de bonde têm paradas na porta do museu: a nº 3, que sai do Trastevere, e ao nº 19, que tem conexão com as estações de metrô Ottaviano (quase no Vaticano), Lepanto e Piazzale Flaminio.

Reconstituição de um templo etrusco nos jardins da Villa Giulia
A Villa Giulia era a casa de campo do Papa Julio III um amante das artes. O prédio foi construído no Século 16, com a contribuição de arquitetos como Vasari e até uma mãozinha de Michelangelo. O resultado é lindo, especialmente o Nymphaeum, um pátio interno com o piso recoberto em mosaicos retratando um grupo de ninfas.

O Companheiro Morto, fragmento de uma tampa de caixa etrusca
O acervo do Museu Etrusco , porém, consegue ser ainda mais arrebatador. Peças como o Sarcófago de Marido e Mulher, as estátuas de Hércules e de Apolo e muitos detalhes, frontispícios e outras peças de construções etruscas mostram o grau de sofisticação e delicadeza artística desse povo, que os romanos (que monopolizavam os meios de comunicação da época) fizeram entrar para a história como sinônimo de “toscos”. O ponto alto do acervo da Villa Giulia é um lindo templo etrusco reconstruído em um dos jardins.

Um passeio na região do Ghetto
Portico d'Ottavia

O Ghetto Romano é o segundo mais antigo da Europa. Foi no Século 16 que a Igreja Católica decidiu confinar os judeus de Roma nessa região às margens do Tibre, tradicionalmente ocupada por pescadores pobres, como atesta a fachada muito simples da igreja de Sant'Angelo in Pescheria, do Século 8.

A construção mais conhecida da área fica bem ao lado da igreja e é bem anterior. O Portico d'Ottavia, do Século 1 d.C. foi construído em homenagem à irmã do imperador Augusto -- aquela que foi abandonada por Marco Antonio por causa de Cleópatra.

Teatro di Marcello
Um pouco mais distante, fica o Teatro di Marcello, também construído no reinado de Augusto e dedicado a mais um parente, desta vez um sobrinho. Na Idade Média, virou um favelão, depois foi convertido em fortaleza e até num palácio. Hoje é um dos grande monumentos do temos áureos do Império fora do Foro Romano.

Quem chega ao Ghetto pela Via Arenula não pode deixar de dar uma paradinha na simpática Piazza Mattei, com sua bela Fontana delle Tartarughe (Fonte das Tartarugas), do Século 17. A pracinha parece um oásis de silêncio no meio de toda a balbúrdia do trânsito é é um bom lugar para uma pausa.

Fontana delle Tartarughe, na Piazza Mattei
Mas o principal motivo para visitar o Ghetto é uma das maiores obras de arte de Roma. Não é uma tela, construção ou escultura. Chama-se Carciofo alla Giudia, alcachofra à moda judaica (ou, pelo menos, à moda judaico-romana).

Vestígios antigos na fachada de um bar do Ghetto
O prato é simples, basicamente, alcachofras fritas no azeite de oliva, douradas, crocantes, cheirosas, irresistíveis. Os carcioffi são servidos na maioria dos restaurantes da área. Eu experimentei no Da Gigetto, tradicionalíssimo, e recomendo.

Da Gigetto- Via Portico d'Ottavia 21A. Acho que já louvei suficientemente o carciofo alla giudia, mas devo acrescentar que a pasta com frutos do mar também estava ótima. O almoço com entrada, prato principal, sobremesa, café e licor custou 25 Euros.



Campo de' Fiori e Piazza Navona

Piazza Navona, um dos mais belos conjuntos barrocos de Roma
Cerca de 300 metros separam essas praças romanas, mas percorrer as ruelas que ligam as duas é como a travessia entre dois mundos.

O Campo de’Fiori (“campo de flores”) é popular, aconchegante e boêmio e um dos lugares preferidos dos turistas para bebericar no final da tarde. Eu prefiro ir de manhã cedo, para encontrar as barracas de seu concorrido mercado de rua a pleno vapor, como é tradição desde o Século 15.

Mercado à parte, o Campo de’Fiori entrou para a história como o local onde a Inquisição queimou, em 1600, o teólogo dominicano Giordano Bruno, acusado de heresia. Ele é homenageado com uma estátua no meio da praça e acaba parecendo bem prosaico no meio das hortaliças, frutas e doces artesanais — e os melhores biscoitos de limão que já provei na vida.

Fontana dei Quattro Fiumi. A obra de Bernini representa quatro continentes e seus rios: do mundo cortados por seus principais rios: o Nilo, na África, o Ganges, na Ásia, o Prata, na América e o Danúbio, na Europa
Já a Piazza Navona é a personificação da elegância. Seu formato oblongo (faz décadas que espero a oportunidade de usar essa palavra 😁😁😁) é herança do antigo Estádio de Domiciano, do Século 1 de nossa era e sobre cujos vestígios foi construída a praça.

Com o fim das competições no estádio, o espaço começou a ser ocupado por moradias. Antes de serem transferidos para o Campo de’Fiori, no Século 15, era na antiga arena que os mercadores ofereciam seus produtos à população da cidade. No Século 17, o papa Inocêncio X determinou a remodelação da praça, transformando-a num dos mais belos conjuntos barrocos de Roma.

Igreja de Sant'Agnese (Santa Inês) e outro ângulo da fonte de Bernini
No centro da praça, a Fontana dei Quattro Fiumi (“fonte dos quatro rios”), de Lorenzo Bernini (célebre por seu trabalho na Basílica de São Pedro, no Vaticano) se exibe para as janelas dos palácios barrocos que cercam a antiga arena de competições.

Entre esses edifícios, preste atenção à igreja de Sant'Agnese in Agone, com projeto de Francesco Borromini (o grande rival de Bernini) e ao Palácio Pamphilj, do Século 17, hoje sede da embaixada do Brasil na Itália.

O cair da tarde no Fórum e no Monte Palatino
O Fórum Romano, com o sol caindo
sobre o Monte Palatino, ao fundo
Eu adorava ir ao Fórum Romano ao cair da tarde, para ver os mármores milenares mudando de cor. Vale pagar ingresso para caminhar entre as ruínas ou pegar um lugarzinho no "camarote", a balaustrada do pátio do Palácio do Campidoglio, que se debruça sobre elas.

O Fórum está sempre tomado por turistas, mas fica delicioso no final do dia. A qualquer hora, é possível se distanciar das multidões fazendo roteiros menos ortodoxos.

O fundamental é trazer um bom mapa/guia, com referências que permitam compreender o que se está vendo. Além das muitas atrações a céu aberto, não deixe de ver o Cárcere Mamertino, uma masmorra claustrofóbica, onde o líder gaulês Vercingetorix (citado nos quadrinhos de Asterix) passou seus últimos dias, antes de ser executado (e também São Pedro e muitos outros inimigos de Roma).

Outro ângulo do Fórum. Ao fundo (centro), o Coliseu
Atrás do Fórum, para quem vem do Campidoglio, está o Monte Palatino (onde a entrada é paga, o bilhete também dá acesso ao Coliseu), que é alcançado por uma trilha. O lugar teria sido a morada de Rômulo e Remo e era a área residencial das elites romanas. O Imperador Augusto nasceu lá.

Além das ruínas dos palácios, o Palatino tem jardins deliciosos, onde banquinhos convidam ao sossego e à contemplação. Não consigo imaginar lugar mais delicioso em Roma para ver o cair da tarde, entre árvores frutíferas e sob um silêncio que não é deste mundo.

Adoro o entardecer no Palatino
Numa dessas visitas ao Fórum, resolvi fazer um caminho diferente e achei uma "passagem secreta", uma trilha que sobe do Fórum para o Campidoglio, alcançando uma rua sem movimento, por trás dos museus.

Seguindo essa ruazinha, deparei-me com a vizinhança mais fofa, um larguinho tranquilo, silencioso cercado por um belo casario. Escolhi uma mesinha na calçada do Café San Teodoro e encerrei o dia com alguns cálices de limoncello, celebrando o prazer de estar em Roma.

O Fórum e o Campidolio: a "passagem secreta" fica bem aqui 
Café San Teodoro- Via dei Fienili, 49. Tem uma irmã siamesa, a elegante Trattoria San Teodoro, que não experimentei. Mas o lugar é charmosíssimo, um cantinho bonito sossegado que convida a ficar horas pensando na vida.


2 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

    ResponderExcluir