terça-feira, 2 de maio de 2017

Cidade do México: Centro Histórico - Zócalo e Alameda

Detalhe de Sonho de uma tarde dominical
na Alameda Central
, mural de Diego Rivera.
O artista representou a si mesmo como um menino
 de mãos dadas com a morte. Atrás dele está
sua companheira, Frida Kahlo
Nervoso, poluído e barulhento, o coração da Cidade do México pode não fazer o gênero idílico que se costuma associar à ideia de Centro Histórico — quem manda estar bem no meio da maior metrópole das Américas? —, mas ouso dizer que seu estado permanente de taquicardia urbana é um elemento essencial para se compreender o contexto do lugar.

Afinal, 700 anos depois de os astecas terem plantado ali sua capital, o lugar continua vivo e intenso, avesso ao formol cenográfico que pode tonar um cenário mais fotogênico, mas vazio de vitalidade. O Centro Histórico da Cidade do México é tudo ao mesmo tempo agora—e sempre em quantidades industriais.

A maravilhosa cúpula art déco do Palácio Nacional de Bellas Artes, uma grande atração do Centro Histórico - não estranhe se ele não aparece no texto. É que fiquei tão apaixonada e fiz tantas fotos que ele ganhou um post exclusivo 😊

Vestígios do Templo Mayor dos astecas
Do Templo Mayor de Tenochtitlán às deliciosas linhas Art Déco que marcaram a arquitetura do México pós-Revolução, a área traça um roteiro da história do país sem se preocupar muito com uma narrativa linear, onde o colonial seiscentista é vizinho da Art-Nouveau e o eclético oitocentista conversa alegremente com vestígios astecas, enquanto o caminhante se esforça para atravessar a multidão, desviar dos tabuleiros dos ambulantes e torcer para não ser atropelada por um motorista apressadinho.

Reserve um dia inteiro para passear no Centro Histórico da Cidade do México, que você não vai se arrepender. Veja algumas atrações:


A Alameda


A Alameda é o jardim público mais antigo das Américas, criado em 1592
Este foi o lugar que eu mais curti no Centro Histórico da Cidade do México — talvez por influência do magistral mural pintado por Diego Rivera que representou o agradável jardim como uma alegoria da história social do país.

Criada no finalzinho do Século 16, é apontada como jardim público mais antigo das Américas e não há dúvidas de que ela tem mesmo história para contar, testemunha de conchavos políticos, namoros, comícios e até da barbárie — era lá que a Inquisição montava suas fogueiras para os autos de fé.

Quem resiste ao toque romântico de um coreto?
Cercada pelo movimento intenso da metrópole, a Alameda é um recanto adorável — com ou sem mural de Rivera. Seu coreto, sua fonte e suas veredas sossegadas, que já foram um ponto de encontro quase exclusivo dos elegantes, hoje são desfrutados democraticamente por qualquer um em busca de refúgio do calor e da correria da metrópole.

Museu Mural Diego Rivera
Calle Balderas, esquina com Colón. De terça a domingo, das 10h às 18 horas. Entrada: 30 pesos (R$ 5). Permissão para fotografar: 5 pesos (R$ 0,85). 

Ainda não inventaram um adjetivo exato para essa obra de Rivera
Depois de caminhar pelas veredas da Alameda real, é um prazer indescritível ficar cara a cara com a metáfora primorosa composta por Diego Rivera sobre seu país, tomando emprestado o cenário do jardim. Poucas vezes na minha vida de apaixonada pela arte da pintura eu me vi diante de uma obra tão poderosa e instigante.

Ele está instalado em um museu exclusivo, na ponta Oeste da Alameda, desde sua restauração. Seu posto original era o restaurante do Hote del Prado, na vizinhança, onde foi duramente danificado pelo terremoto de 1985. O museu também abriga exposições temporárias, mas o mural de Diego é a única peça do acervo permanente. E não precisa mais.

Se você acha a capa do Sargeant Pepper’s genial (e eu acho muito), espere até botar os olhos sobre os 65 metros quadrados de puro virtuosismo que serviu de inspiração àquela ousadia dos Beatles. O resultado, pra mim, foi a mistura exata de espanto e euforia.

A elite passeia e o povo trabalha. À direita, a camponesa enfrenta o policial que não a quer "misturada" aos elegantes

O policial expulsa a família camponesa enquanto o exército de Zapata (ao fundo) inicia sua marcha 
A Alameda de Rivera – oficialmente Sonho de uma tarde dominical na Alameda Central — conta 400 anos de história do México numa mescla de lirismo, crueza e ironia da qual não se escapa ilesa. 

Pelo afresco de quase 16 metros de largura e mais de 4 metros de altura (15,67m x 4,17m, pra ser jornalisticamente exata 😊) desfilam o Hernán Cortés com as mãos sujas de sangue, o inquisidor e sua vítima, o terrateniente (latinfundiário) e os camponeses maltratados, o banqueiro, o militar...


As mãos sujas de sangue de Cortés e uma vítima rumo à fogueira da Inquisição. À direita, o austríaco Maximiliano de Habsburgo, importado pelos invasores franceses para ser imperador do México
Alegorias da conquista espanhola, das invasões francesa e norte-americana, da independência, das revoltas camponesas e da Revolução Mexicana irrompem como pano de fundo de um prosaico passeio dominical cuja figura central é a caveira La Catrina — representação do ciclo da vida, mais do que da morte, e que remonta às feições cadavéricas do deus Quetzalcóatl, a serpente emplumada, divindade maior de astecas e toltecas — de mãos dadas com o autor da obra que se representa como um menino que tem por trás a imagem de Frida Kahlo. 

Ainda não inventaram um adjetivo para resumir a Alameda de Rivera. Quando inventarem, eu atualizo o post 😉.
 
O Zócalo


A Catedral do México, construída sobre um antigo templo asteca
A Praça da Constituição, popularmente conhecida como El Zócalo, é o centro político, religioso e social da Cidade do México desde sua fundação, no Século 14, quando a capital ainda se chamava Tenochtitlán.

Conta a lenda que, depois de serem expulsos das alturas de Chapultepec (onde hoje está o castelo), os astecas foram guiados até uma ilha no Lago Texcoco por Huitzilopochtli, o “deus velho”, divindade da guerra e do fogo. Uma águia pousada sobre um cacto com uma serpente no fico — hoje escudo de armas do país — marcou o lugar onde deveria ser erguida a capital.

A vastidão do Zócalo
Os espanhóis chegaram, conquistaram e plantaram seus edifícios coloniais no mesmo lugar. A Praça, terceira maior do planeta (menor apenas que a Praça Vermelha de Moscou e Tiananmen, em Pequim), tem mais 30 mil metros de espaço aberto e é um mosaico de 700 anos de história da cidade.

Em seu entorno estão dispostas a Catedral, o Palácio Nacional (sede do governo do país) e o Palácio del Ayuntamiento (sede da Prefeitura). Mais adiante estão os vestígios do Templo Mayor de Tenochtitlán e seu museu.

Igrejas coloniais


Detalhes da fachada da Catedral

A Catedral 
Diariamente, das 8h às 20 horas, entrada gratuita

A construção da Catedral da Cidade do México foi iniciada ainda no Século 16, logo após a conquista espanhola, sobre um antigo templo asteca e só foi totalmente concluída no Século 19.

O Altar do Perdão

O Tabernáculo
A fachada imponente mirando o Zócalo guarda um interior relativamente simples — um incêndio, em 1962, danificou muito de sua decoração — mas é possível ter uma ideia do esplendor que ela deve ter ostentado diante do Altar do Perdão, logo na entrada do templo , e no altar-mor de 25 metros de altura, chamado de Altar dos Reis, duas peças monumentais, em estilo barroco, e totalmente recobertas de ouro.

Outro detalhe impressionante da catedral é a fachada barroca do seu batistério, o chamado Tabernáculo, uma profusão de entalhes em pedra.


Santa Veracruz
Santa Veracruz 
Calle 2 de Abril nº 6. Fechada às segundas e terças. Nos demais dias, a visita vai das 9h às 19 horas. Entrada gratuita.

Datada da segunda metade do Século 16 — embora suas feições atuais sejam obra de uma reforma radical empreendida no Século 18. Ela tem duas fachadas, uma de frente para a Alameda Central e outra, lateral, debruçada sobre a Praça de la Veracruz, uma cantinho sossegado com árvores, banquinhos e uma fonte, onde também está o Museu Franz Mayer, dedicado às artes decorativas.


O belo interior barroco da Igreja de La Enseñanza
La Enseñanza 
Calle de Donceles nº 104. Visitas de segunda a sábado, das 9:30h às 18:30h. Entrada gratuita.

Também conhecida como del Pilar, essa foi a igreja do Centro histórico do México que eu mais gostei. Ela fica  logo atrás da Catedral e sua fachada meio espremida entre os casarões pode passar meio despercebida, mas vale a pena entrar para ver o belo altar em estilo churrigueresco, uma vertente do barroco espanhol em voga no final do Século 18.


San Francisco foi construída sobre o zoológico do palácio de Moctezuma
San Francisco el Grande
Calle Francisco Madero nº 7. Aberta diariamente das 9h às 18 horas. Visita gratuita

Um portão monumental no meio da muvuca da Calle Francisco Madero — uma rua exclusiva para pedestres e de comércio muito concorrido—da acesso a essa igreja e convento do Século 18. O detalhe curioso é que os franciscanos ergueram sua primeira sede no México na área que era ocupada pelo Totocalli, uma espécie de jardim zoológico do palácio do imperador asteca Moctezuma.


Casarões coloniais


A Casa dos Azulejos, o casarão mais famoso do Centro Histórico da Cidade do México
Vale a pena reservar um tempinho para percorrer as ruas do Centro Histórico da capital descobrindo as fachadas e os detalhes de seus casarões. Não espere encontrar nada com aquela maquiagem de novinho em folha que se vê em outras cidades. Os velhos edifícios têm as marcas do tempo e da fuligem do trânsito bem evidentes em suas feições — e as exibem com grande dignidade.



Casarão na Calle de Donceles. Ao fundo, à esquerda, a Torre Latino-Americana, que já foi o edifício mais alto das Américas fora dos Estados Unidos. Com 204 metros de altura, seu mirante é uma tração turística bem concorrida
Um olhar mais “garimpeiro”, porém, encontra maravilhas. Não são construções cenográficas que se fingem de congeladas no tempo para agradar. São testemunhos de 500 anos de uso contínuo e esse é o encanto desse conjunto tombado como patrimônio da humanidade pela Unesco.

Praça da República
Para subir ao mirante, o ingresso custa 80 pesos (R$ 13,50). De segunda a quinta, o acesso é das 12h às 20 horas. Sextas e sábados, das 10 às 22h. Aos domingos, das 10h às 20.


O Zócalo parece ter feito escola, pois esta é mais uma praça do Centro Histórico da Cidade do México que impressiona pela vastidão. Ela tem uma história curiosa: o plano do ditador Porfírio Diáz era construir aí a sede do Parlamento mexicano e encomendou uma obra à imagem e semelhança do Capitólio de Washington (EUA). Não deu tempo: a Revolução Mexicana estourou quando apenas o arco central da obra de inspiração colonizada — e megalomaníaca — já estava de pé.

No topo do Monumento à Revolução há um mirante - e com elevador. Não é massa?
O Gran Casino e o edifício da Loteria Nacional
Os governos pós-revolucionários aproveitaram a estrutura para construir um Monumento à Revolução, que ganhou decoração em art déco castiço — o estilo é um dos emblemas de um México que se desejava contemporâneo e arejado, nos anos 30 do Século passado e está representado em diversos edifícios dessa área. Se você curte (eu amo e babo), não deixe de ver o lindo prédio da Loteria Nacional e o Gran Casino.

O Monumento à Revolução Mexicana tem um mirante famoso em seu topo e também um café com belas vistas para o Centro da Cidade do México.


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