13 de março de 2016

Bate e volta de Foz do Iguaçu à Missão Jesuítica de San Ignacio Miní

Ruínas da igreja da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní, chamada de "A Catedral"
A "catedral" de San Ignacio, construção que domina
 a praça principal da antiga missão
Atualizado em junho de 2018

Como é gostoso poder finalmente colocar a minha bandeirinha em um lugar que passei décadas querendo conhecer. As ruínas das missões jesuíticas estavam na minha lista há um tempão e, finalmente, desencantaram.

Aproveitei o feriadão de Carnaval em Foz do Iguaçu para visitar justamente uma das mais bonitas, San Ignacio Miní, na Argentina.

Organizar esse bate e volta de Foz do Iguaçu a San Ignacio Miní acabou sendo mais fácil do que eu imaginava.

Acesso às ruínas da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
O longo caminho arborizado que leva à Catedral da Missão de San Ignacio

Apesar da distância, cerca de 250 km, e da impossibilidade de usar um carro alugado — as locadoras de Foz do Iguaçu não permitem que a gente os leve tão longe da fronteira — deu tudo certo.

O que posso dizer é a beleza da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní compensa com sobras cada quilômetro de estrada percorrido.

Detalhes decorativos das construções da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Nas construções de San Ignacio foi muito utilizada uma pedra local, o asperón rojo, um tipo de arenito de tom avermelhado
A imagem da arquitetura Barroco-Guarani, cercada por árvores de copas generosas, e as memórias que nos acompanham durante o passeio formam um conjunto poderoso e deslumbrante.

Seguramente, uma das maiores atrações que já vi no nosso continente. Confira minhas dicas e prepare-se para ir à Missão Jesuítica de San Ignacio Mini. Garanto que você vai amar.


Um pouquinho de história das missões jesuíticas
O pressuposto é ruim — converter povos indígenas aos usos, costumes e crenças europeias, sem o menor respeito por suas tradições e imaginário.

Mas é inegável que, no contexto da época, as missões jesuíticas que floresceram no Cone Sul, entre os séculos 17 e 18, expressavam uma utopia.

As missões foram uma aposta da Companhia de Jesus em construir comunidades autônomas e autossuficientes entre os Guaranis, a quem as empresas coloniais só conseguiam enxergar como mão de obra a ser escravizada.

Decoração em motivos florais e representação de animais nas construções da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Uma característica marcante dos detalhes decorativos em san Ignacio Miní é a representação de motivos florais e de animais da região, como as abundantes borboletas 
Os jesuítas viam os indígenas como uma espécie de filhos do Éden, dotados de uma pureza de folha em branco onde seria possível redigir o script de um “homem novo”, devoto e livre das máculas da sociedade de então.

Nas missões, ou reduções jesuíticas, falavam-se os idiomas da terra, as tarefas eram divididas e a produção compartilhada com toda a comunidade.

A mentalidade colonial e não era nada fã dessa iniciativa dos jesuítas, mas ao longo de quase 100 anos eles conseguiram estender o modelo para diversas partes do Novo Mundo.

O estilo decorativo usado na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní, chamado de Barroco-Guarani
Detalhes da decoração utilizada nos edifícios da Missão de San Ignacio
As missões prosperaram até que a Companhia de Jesus fosse banida da Espanha, depois de Portugal. Por fim, a Ordem dos Jesuítas foi declarada proscrita pelo poder papal.

A dissolução da Companhia de Jesus foi a senha para as invasões e extermínio das missões, comandadas pelos grandes senhores de terras e traficantes de escravos — como na história contada no belo filme A Missão, de Roland Joffè, de 1986.

A missão jesuítica de San Ignacio Miní
San Ignacio Miní foi fundada no final do Século 17, a menos de três quilômetros das margens do Rio Paraná.

Vestígios de moradias na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Conjunto de moradias de San Ignacio Miní
Houve uma primeira tentativa de se estabelecer essa redução mais ao Norte, em território que hoje pertence ao Brasil, mas essa primeira povoação não vingou em decorrência dos ataques dos bandeirantes.

No território da atual Argentina, San Ignacio prosperou ao longo de 150 anos.

Vestígios das oficinas da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
As oficinas: as missões produziam praticamente tudo que precisavam 
A estrutura da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní se dividia de acordo com a destinação de cada espaço.

Há um setor de trabalho, onde ficavam as oficinas, o pomar, a horta e outras plantações. Também havia um setor de moradia e um setor de evangelização e culto, onde ficavam o Colégio dos Jesuítas, a igreja e as capelas.

Setor de moradias da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
O espaço das moradias seguia um arruamento retilíneo e bem organizado
A praça central de San Ignacio Miní— a Plaza Mayor — ainda hoje impressiona pelas dimensões. Esse espaço é dominado pelos restos do pórtico da grande igreja, ou “catedral”, como alguns se referem.

Era em torno da Plaza Mayor que que estavam o Cabildo (sede da junta governativa da missão) as moradias dos dirigentes da comunidade e dos membros mais proeminentes da comunidade.

Praça Maior da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
A Praça Maior, o centro da vida comunitária
O sistema de governo da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní era misto.

Uma espécie de junta civil, formada exclusivamente por indígenas, era responsável por cuidar das “questões terrenas”.

Uma comissão formada pelos jesuítas que cuidava das questões relativas à doutrina, à observância dos preceitos religiosos e das regras morais.

Restos de uma capela na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Uma capela na entrada da Praça Maior
A "catedral" da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
A "catedral"
San Ignacio Miní foi atacada e incendiada por tropas paraguaias em 1817 (o país já era independente). Os sobreviventes se dispersaram pela região ou foram tomados como escravos.

 A região passou décadas completamente esquecida, até começar a ser colonizada, no início do Século 20, por empreendimentos voltados para a produção de erva mate — foi assim que os pais de Che Guevara vieram parar na região, em 1928.

A nova cidade de San Ignacio formou-se em torno das ruínas (e não, sobre elas, felizmente) e hoje reúne menos de 7 mil moradores.

Pátio do Colégio dos Jesuítas na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
O Pátio do Colégio dos Jesuítas,
fechado nos quatro lados, como um claustro
Pátio interno do Colégio dos Jesuítas na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní

Colégio dos Jesuítas na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
As dependências do Colégio
Como chegar à Missão de San Ignacio Miní
As ruínas ficam bem no centro da cidade de San Ignacio, a 254 km de Foz do Iguaçu, 240 km de Puerto Iguazú e 64 km de Posadas.

Atravessando a fronteira do Brasil com a Argentina, siga pela Ruta 12.

Há um posto de pedágio na altura de Colonia Victoria (cerca de 100 km depois de Foz). Carros de passeio pagam 30 pesos.

Para atravessar a fronteira Brasil-Argentina é preciso apresentar passaporte ou RG. A carteira de motorista também é aceita (mas, como não é lei, eu não arriscaria ir só com ela).

Pórticos esculpidos em motivos florais na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Pórticos voltados para o Pátio do Colégio

Anjos esculpidos em arcadas na Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
San Ignacio é considerada o mais relevante exemplo da arte Barroca-Guarani
➡️ De carro entre Foz do Iguaçu e San Ignacio Miní
Locadoras brasileiras da região de Foz do Iguaçu não permitem que você leve o carro alugado além de 50 km da fronteira.

Essa, portanto, essa não é uma opção para ir à Missão Jesuítica de San Ignacio Miní.

É preciso estar com automóvel próprio ou contratar um transfer. 

Arcada que ligava o Colégio dos Jesuítas à igreja da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Acesso do Pátio do Colégio para a "catedral"
Nos dois casos, é imprescindível fazer a Carta Verde, seguro obrigatório para veículos que ingressam em países do Mercosul (o equivalente ao seguro que fazemos no Brasil para garantir danos causados a terceiros). O preço varia de acordo com a quantidade de dias de validade da carta.

Locadoras de Foz do Iguaçu oferecem pacotes com três dias de validade da Carta Verde por valores entre R$ 85 a R$ 95. 

Interior da igreja da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Espaço interno da igreja
Igreja da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní

➡️ Excursões à Missão de San Ignacio Miní
Os hotéis de Foz oferecem um tour para a Missão de San Ignacio na casa dos R$ 140 por pessoa.

As vans partem de manhã cedinho e voltam no final do dia. No hotel onde me hospedei (o San Martin), era necessário fechar um grupo com um mínimo de oito pessoas para a realização do passeio.

Como viajei a San Ignacio Miní
Contratei um transfer privado (R$ 570). É salgado, mas pra mim valeu muito a pena, por toda a vontade que eu tinha de conhecer a missão.

Quem me levou foi Roberto González, super boa praça, ótimo papo e motorista cuidadoso.

Interior da catedral da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
O interior da "catedral"
Foi graças a ele que descobri a casa de Che Guevara em Caraguatay, onde parei no caminho de volta a Foz para uma visita.

Recomendo muito o serviço de Roberto. Os contatos dele são os telefones 45-91527133 (Vivo), 45-99808198 (Tim) ou 45-30289679.

(Tenho recebido mensagens de leitores avisando que os telefones de Roberto não estão funcionando. Minha sugestão é que você contate o seu hotel antes da chegada a Foz e peça recomendação de um motorista de confiança para contratar a viagem)

Missão Jesuítica de San Ignacio Miní

Visita à Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
O ingresso às ruínas de San Ignacio Miní custa 130 pesos, para brasileiros (e demais cidadãos do Mercosul).

As ruínas de San Ignacio podem ser visitadas diariamente, das 7h às 19h.

Crianças até seis anos não pagam entrada.

O espetáculo de som e luz, realizado diariamente, a partir das 19 horas (ou às 20h, no verão. Se chover, a apresentação é suspensa) também custa 130 pesos.

A Missão Jesuítica de San Ignacio Miní é um misto de grandes descampados (como a Plaza Mayor da Missão) com áreas sombreadas por árvores centenárias, onde banquinhos de madeira convidam para uma pausa.

Antiga área de cultivo da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
Atrás do colégio ficava uma grande área de cultivo
Não há qualquer serviço de lanchonete no interior dar ruínas, portanto, leve seu suprimento de água (acredite, se for verão, você vai precisar muuuuuito).

A estrutura do lugar é muito simples. Os sanitários ficam logo na entrada das ruínas, logo depois da bilheteria. São limpos e bem cuidados.

O Museu da Missão de San Ignacio estava fechado para reformas, infelizmente.

Museu e mapa da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní
O museu, atualmente fechado para reformas, e o mapa das ruínas

Detalhes decorativos da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní

➡️ Quanto tempo dura a visita a San Ignacio Miní
Calcule pelo menos três horas e meia para ir, outro tanto para voltar, mais outras três horas para ver a área com calma.

É importante parar para descansar e ouvir o silêncio quase celestial que impera nas ruínas da Missão Jesuítica de San Ignacio Miní.

E lembre-se que tem o museu, onde estão expostas peças resgatadas das ruínas e onde se pode compreender melhor o contexto histórico das missões jesuíticas.

Pátio do Colégio dos Jesuítas na Missão Jesuítica de San Ignacio MiníSe você tiver mais tempo, durma na cidade para assistir ao espetáculo de som e luz, muito elogiado. 

➡️Recomendo, ainda, uma parada no sítio onde viviam os pais de Che Guevara quando ele nasceu. É um museusinho singelo, mas muito interessante.

A casa de Che Guevara fica no caminho entre Foz e San Ignacio, na altura da cidade de Caraguatay. Para mais informações, leia este post:
A casa de Che Guevara em Caraguatay, Argentina

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8 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  2. Uma outra opção é alugar um carro em Puerto Iguazu, do lado argentino - aí não há a vedação de 50 km.

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    1. Verdade, Dani, mas achei essa alternativa meio trabalhosa demais pra pegar e devolver o carro.

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    2. Verdade, Dani, mas achei essa alternativa meio trabalhosa demais pra pegar e devolver o carro.

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  3. Que lindo...quanta história neste lugar. No RS tem os 7 Povos das Missões, que eu não conheço. Que vergonha, né?!
    Adorei o post. Eu que amo história achei ele demais! Beijos

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    1. Também estou me devendo essa visita à Missão gaúcha, Ana. Morro de vontade, mas ainda não deu certo. Uma hora, acontece :)

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  4. Oi Cyntia.
    Faz alguns dias você me deu uma dica no Dubbi de como ir até as Missões Paraguaias a partir de Posadas.
    Estou embarcando nos próximos dias e montei uma rota de Salta até Posadas, de onde irei conhecer as Missões.
    Agradeço a dica e estou aproveitando para ler o teu relato das Missões
    beijo

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