sábado, 6 de abril de 2013

Não é sonho. É Meteora


Que país generoso é a Grécia! Nos vinte e poucos dias que estive por lá, perdi a conta de quantos sonhos meus aquela terra realizou. Como despedida, a Grécia me deu a alegria de ver Meteora, as impressionantes formações rochosas que brotam da planície da Tessália sem maior aviso e fazem o coração da gente dar uma paradinha quando dá de cara com elas pela primeira vez.

O mais fascinante é que está tudo lá, de verdade: desde Atenas, quando me vi aos pés da Acrópole, comecei a lidar com a ideia de que na Grécia, meus sonhos, por mais antigos que sejam, são absolutamente reais.

Agia Triada (Santíssima Trindade) é o mais famoso dos mosteiros de Meteora, já serviu até de cenário para as aventuras de James Bond (em For Your Eyes Only). Construído no Século XV, era acessível apenas por um sistema de cordas e roldanas. 
Em 1925, ganhou uma escadaria de acesso
Cheguei a Meteora no finzinho de uma tarde especialmente bonita e depois de percorrer quase 500 quilômetros, desde Atenas, com desvios para ver Delfos e as Termópilas. O restinho de sol não deixava dúvidas: eu estava diante de uma das paisagens mais lindas que vi na Grécia, um país que não economiza nesse quesito (estou tentando lembrar alguma coisa feia que eu tenha visto por lá, sem o menor sucesso...). Estava mortinha de cansada, mas não o suficiente para desprezar a lua ainda quase cheia que surgiu por trás das famosas rochas, diante da sacada do meu quarto de hotel.

É como se a Grécia soubesse que eu estava indo embora e fizesse questão de usar todos os seus artifícios para me fazer ficar.

As rochas brotam da planície da Tessália sem qualquer aviso.

Você, com certeza, já leu isso em algum lugar, mas Meteora deriva de “suspenso” e refere-se ao modo pelo qual se chegava ao topo das rochas, até bem recentemente: içado por cordas, acomodado numa cestinha. Hoje, o acesso aos mosteiros se dá por trilhas e escadarias escavadas na rocha — e, cá para nós, essa escalada deve ser a melhor parte da visita, mas não rola para quem vem em excursão :(

A programação do tour consiste na visita aos mosteiros de mais fácil acesso, Varlaam e Agios Stephanous, ligados por pontes à estrada. Bem mais rápido, embora não elimine completamente os degraus. Os dois mosteiros são muito interessantes, mas o espetáculo, mesmo, é a vista que se tem lá do alto. É que não dá mesmo para competir, quando a natureza resolve caprichar...


Nossa primeira parada foi em Varlaam, fundado em 1350 por um monge eremita que viveu sozinho, no alto da rocha, onde construiu três capelas. Depois de sua morte, o local ficou abandonado por cerca de 200 anos, até que foi fundado um mosteiro no local. Dizem que os construtores levaram 22 anos para içar todo o material de construção fosse até o topo do monte.

As escadarias que levam a Varlaam foram construídas no Século XIX. Antes disso, só se chegava ao topo suspenso pelo curioso sistema de roldanas e cordas, construído no Século XIV e que continuou sendo usado até a Década de 60, para o transporte de mantimentos.

Varlaam
Hoje, apenas sete monges vivem no local — eu esperava velhinhos, com longas barbas brancas, mas um deles era muito jovem. O lugar é famoso pelos afrescos da igreja principal, pintados no Século XVI por Frangos Katelanos, artista de Tebas célebre em sua época, e pela coleção de manuscritos.

Agios Stephanous (Santo Estevão), 
fundado em 1400
Entre um mosteiro e outro, fizemos uma parada num mirante inacreditável, onde é possível chegar até a beirinha do precipício para admirar as formações rochosas que, há milhões de anos, foram esculpidas pelo acúmulo de sedimentos no fundo do mar que um dia cobriu toda a atual Planície da Tessália.

A ocupação do topo dessas rochas foi iniciada por eremitas, ainda no Século XI. Só a partir Século XIV a Igreja iniciaria o “processo de institucionalização” dessas iniciativas independentes, com a construção dos primeiros mosteiros, que, no Século XVII, chegaram a ser mais de 20. Hoje, apenas seis estão inteiros — uma das atividades mais recomendadas por quem teve a sorte de passar mais tempo em Meteora é visitar as ruínas dessas velhas construções.


Nossa segunda visita foi a Agios Stephanous, fundado em 1400 e com uma história bem mais movimentada que os demais: durante a Guerra Civil Grega (1946-1949), chegou a servir como praça forte aos guerrilheiros comunistas por um breve período. Só voltaria a ser usado como retiro religioso nos Anos 60, quando passou abrigar uma congregação de monjas. São dessa época a maior parte das pinturas de cores vivas que adornam todo o interior da igreja — segundo Zuli, nossa guia, as freiras queriam “imagens mais alegres”, mas eu não consigo ver muita alegria em gente sendo esfolada, queimada e decapitada, como aparecem nas representações hagiográficas que recobrem as paredes do templo.


Dicas para organizar uma viagem à Grécia

Informações práticas
Uma ponte meio Indiana Jones é o acesso 
mais fácil ao Mosteiro de Varlaam
Como chegar
Meteora fica na Tessália, a cerca de 350 quilômetros de Atenas, ao lado da vila de Kastraki. A principal referência, porém, é a cidade de Kalambaka (você também verá esse nome transliterado como Kalampaka — os equivalentes a M e P, juntos, têm som de B, em grego). Os ônibus da capital partem do Terminal B e chegam só até a vizinha Trikala, a 30 km, onde é preciso tomar outro transporte para chegar aos mosteiros. A viagem Atenas – Trikala custa € 28 e leva em torno de 4 horas e meia.


Onde Ficar
Trikala e Kalambaka têm opções de hospedagem bem decentes, mas sem luxo. Fiquei hospedada no Orpheas Hotel, com vista para as rochas de Meteora e uma piscina, que pode quebrar um super galho no calor (cheguei lá dia 1° de outubro e já estava começando a fazer um friozinho).

Gostei do apartamento, amplo, confortável, com varanda e banheiro grandão, além do WiFi gratuito e veloz. A diária estava incluída no preço do tour, mas o quarto single custa € 50.

Orfeas Hotel: acomodações simples e confortáveis e piscina para espantar o calor
Hospedagem comentada – índice reúne todos os posts sobre o tema publicados no blog

Para quem pretende organizar uma visita independente à região, pode ser útil consultar o site Visit Meteora, com dicas de atividades, transporte, hospedagem e restaurantes.

Este murante na beira da estrada
deixa a gente de cara para as rochas

Como viajei
Como já contei aqui, estive em Delfos e Meteora com uma excursão da Keytours, contratada de última hora pelo site Get Your Guide. Não é a melhor maneira de ver o lugar, mas, se você estiver com o tempo apertado, pode ser uma opção.

O sistema rudimentar para içar pessoas e objetos
ao topo do Mosteiro de Agios Stephanos ainda
desperta a curiosidade dos visitantes
Visitação
Seis mosteiros estão abertos à visitação. Alguns fecham para o almoço e cada um tem seu dia da semana de folga dos turistas. O preço da entrada varia entre €2 e €3. Lembre-se que igrejas e mosteiros ortodoxos têm um código rígido em relação aos trajes dos visitantes. Mangas longas são obrigatórias, assim com as saias para as mulheres e calças compridas para homens. A alternativa para quem não está vestido de acordo é usar os xales e "cangas" emprestados pelos monges.

Já pensou chegar a Agios Stephanous
 içada por esse gancho?

Megalos (“grande”) Meteoros
Também conhecido como Mosteiro da Transfiguração de Cristo, é o mais antigo e maior deles, fundado na primeira metade do Século XIV. Seus destaques são a torre, do Século XVI e a Igreja da Transfiguração. Funciona das 9h às 17h e fecha às terças.

Agia Triada (Santíssima Trindade) 
Abre das 9h às 15h e fecha às quintas. Com a localização mais impressionante entre seus colegas, esse mosteiro já estava em funcionamento em 1362, data do mais antigo registro de atividades no local a chegar aos nossos dias.

A igreja do Mosteiro de Varlaam (à esquerda) e o campanário de Agios Stephanous
O acesso a Varlaam

Varlaam
Um dos que eu visitei, funciona das 9h às 16h e fecha às sextas.

Mosteiro de Rossanou
Roussanou
Abre das 9h às 18h e fecha às quartas. Este é o caçula dos mosteiros remanescentes em Meteora, construído no Século XVI. Todos os dias 4 de Dezembro, é palco de uma grande celebração a Agia Varvara (Santa Bárbara).

Agios Nikolaos Anapafsas
Funciona das 9h às 17 e fecha às sextas. Fundado no Século XIV, destaca-se pelos diversos níveis de suas construções.

O acesso a Agios Stephanous não exige nenhuma estripulia

Agios Stephanous (Santo Estevão)
Que também visitei. Funciona das 9:30h às 13:30h e das 15:30h às 17:30h. Fecha às segundas.

2 comentários:

  1. OLá Cyntia,

    Antes de mais, muitos parabéns pelo belíssimo blog, ou melhor, como tu dizes, um grande bloco de notas.

    Andámos a bisbilhotar o teu espaço e a viajar contigo. Também adoramos viajar, aqui, em Portugal, ou por esse mundo fora. Recentemente também andámos pela Grécia. A julgar pelos teus posts a nossa visão da Grécia foi um pouco diferente. Vá-se lá saber porquê... Apesar de termos gostado, desiludiu-nos um pouco... Mas a viagem é mesmo isto, ir à descoberta.

    Um abraço,
    Sérgio
    www.osmeutrilhos.pt

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    1. Oi, Sérgio, obrigada por navegar com a Fragata!
      Fico tentando imaginar o que causou essa desilusão de vocês com a Grécia. Eu voltei de lá completamente apaixonada, mas gostaria de saber como foi sua experiência.
      abs

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