14 de janeiro de 2018

Guatemala: a paisagem encantadora do Lago de Atitlán

Atracadouro da vila de Santiago, no Lago Atitlán, Guatemala
Atracadouro de Santiago Atitlán, o maior povoado à beira do Lago de Atitlán

A paisagem que eu mais queria ver na Guatemala era o Lago de Atitlán, a majestosa porção de água cercada por montanhas e pelos vulcões Atitlán, San Pedro e Toliman.

O horizonte dramático do Lago de Atitlán e a cultura maia, muito viva e presente no cotidiano dos povoados da região, me proporcionaram uma bela experiência.

O Lago de Atitlán é um destino para todos os públicos. Os românticos adoram os hotéis charmosos à beira d’água, de cara para os vulcões. A galera mais espiritualista curte o astral zen dos retiros neo-hippies de San Marcos, os animados se esbaldam em San Pedro.

Povoados do Lago de Atitlán, Guatemala
No sentido horário: a orla do lago em Panajachel, a feira improvisada em uma rua de San Pedro, o Vulcão San Pedro visto do atracadouro de San Marcos la Laguna e um atracadouro em San Juan

Curiosos, como eu, se encantam com a paisagem e a cultura da gente que vive à beira do lago.

Quando você for à Guatemala (e o país merece muito sua visita), ponha o Lago de Atitlán em seu roteiro e aposto que você vai amar.

Aqui neste post eu conto como foi minha experiência por lá, como chegar, como se virar e minhas impressões sobre a cidade de Panajachel, a porta de entrada para o Lago de Atitlán, e sobre os povoados que visitei — San Marcos, San Juan, San Pedro la Laguna e Santiago Atitlán.

Lago de Atitlán, Guatemala
Uma trégua das nuvens para que eu pudesse clicar as montanhas que cercam o Atitlán. Este é o atracadouro do povoado de San Pedro

Lago de Atitlán, Guatemala

Foram necessárias pelo menos quatro erupções vulcânicas para moldar a imensa cratera que deu origem ao Lago de Atitlán.

Ele é o maior lago da Guatemala (126 km² e 12 km de uma margem à outra, em sua maior largura) e o mais profundo da América Central (a medição de sua profundidade ainda não foi concluída, mas já há registros de 340 metros de fundura).

Lago de Atitlán, Guatemala
A natureza precisou de pelo menos quatro erupções vulcânicas para moldar o leito do Lago de Atitlán

Em torno desse colosso, floresceram diversas povoações que aproveitaram a abundância de água e a terra fertilizada pelos vulcões para tocar sua vidinha desde o período chamado pré-clássico mesoamericano, 2 mil anos antes de Cristo.

Hoje, a região próxima ao Lago de Atitlán é povoada majoritariamente pelos povos Tsutuil e Caqchiquel, dois dos ramos em que se dividiu a grande Civilização Maia — em Antigua e Chichicastenango, predomina o maior desses grupos de herdeiros dos maias, o povo Quiché.

Panajachel
Com cerca de 16 mil habitantes, Panajachel é o ponto de partida mais prático para quem quer explorar as belezas do Lago de Atitlán.

A paisagem do lago compensa a feiura e o caos urbano de Pana (para os "íntimos). Mas o visual da cidade pode ser bem desanimador para quem chega buscando paisagens estonteantes e costumes ancestrais em pleno uso.

O centrinho de Panajachel não empolga, visualmente, mas a orla do lago é bonita e bem cuidada

Panajachel lembra muito a velha Águas Calientes, ponto de chegada do trem para Machu Picchu, ainda que a vila andina, agora rebatizada de “Machu Picchu Pueblo”, tenha melhorado um bocado em aspecto, desde a primeira vez que estive lá.

Panajachel é um emaranhado de construções improvisadas —“Aqui tudo parece/ Que era ainda construção/ E já é ruína”, como diz Caetano.

Povoado de Panajachel, Lago de Atitlán, Guatemala
A primeira visão que tive de Panajachel foi ainda na estrada, na van que me trouxe de Antigua. De perto, a cidade decepciona, pelo comércio e construções desordenados. Nada que um pulinho na beira d'água não resolva

O Lago de Atitlán, Guatemala, no povoado de Panajachel


As mercadorias que extravasam das lojas/barracas inundam as calçadas. O vai e vem dos tuk-tuks disputando espaço com os automóveis deixa a gente tonta. A insistência dos ambulantes que tentam vender “artesanato” fabricado em série dá um pouco de aflição...

Panajachel é um ponto de passagem onde a necessidade de ganhar uma grana com o turismo derrotou o urbanismo, a estética e o silêncio.

Povoado de Panajachel, Lago de Atitlán, Guatemala
Panajachel lembra a velha Águas Calientes, porta de entrada para Machu Picchu

A orla de Pana é mais arrumadinha, com um calçadão à beira-lago que leva aos atracadouros, margeado por bares e restaurantes.

Essa é a parte mais agradável de Panajachel e, não fosse a chuva que caía numa intensidade digna do Velho Testamento, certamente eu teria aproveitado mais o lugar e a vista para os vulcões.

Vulcão San Pedro visto de San Marcos la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
O vulcão San Pedro fazendo um rápido strip-tease de nuvens para ser clicado do embarcadouro de San Marcos la Laguna

Os povoados do Lago de Atitlán
Por causa da chuva, acabei fazendo apenas o passeio basicão pelo Lago de Atitlán, de lancha, parando em alguns povoados.

Se você for ficar mais tempo no lago, pode pegar o transporte até San Marcos e de lá seguir a trilha que segue até San Pedro la Laguna. Em um dia de sol, deve ser um lindo passeio — antes de ir, porém, informe-se sobre a segurança, tá?

San Marcos la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
As "ruas" de San Marcos la Laguna

San Marcos la Laguna
Minha primeira parada no Lago de Atitlán foi nesta espécie de refúgio zen. Charmosinho e sossegado, o povoado de San Marcos atrai gente do mundo inteiro para seus ashrams e centros holísticos.

Se seu barato é meditar, fazer yoga e experimentar terapias alternativas, San Marcos é o seu lugar.

Centro de terapias holísticas em San Marcos la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
Se você curte um clima zen, San Marcos é seu lugar
Mistura guatemalteca de Arembepe anos 70 com San Francisco anos 60, San Marcos la Laguna tem cerca de 2.500 habitantes — o que parece pouco, mas é uma multidão, comparada à quantidade de pessoas que você verá circulando pelas estreitíssimas veredas cercadas de verde que fazem o papel de ruas no povoado.

A povoação é muito antiga, com registros de ocupação pré-colombiana (do povo Kachiquele) e, posteriormente, como uma encomenda, um tipo de assentamento usado por colonizadores para reunir populações indígenas — e controlá-las com mais facilidade.

Povoado de San Marcos la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
O sossego de San Marcos la Laguna atrai gente do mundo inteiro para seus centros de meditação e terapias

Povoado de San Marcos la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
Artesanato à venda em San Marcos

Mas o que você vai encontrar mesmo em San Marcos la Laguna não é história ou arqueologia, mas uma infinidade de pousadas holísticas, centros de terapias alternativas, espaços de meditação... Tudo isso sempre meio escondido em meio à vistosa vegetação que margeia suas “ruas”.

Em Panajachel, conheci gente de várias partes do mundo que estavam indo ou voltando de temporadas de meditação e relax em San Marcos.

San Juan la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
Em San Juan la Laguna você vai encontrar descendentes dos maias falando sua língua ancestral

San Juan la Laguna 
A segunda escala da lanchinha foi em San Juan la Laguna, uma comunidade bem mais autêntica.

Em vez de gringos com três metros de altura praticando tai-chi (cena típica de San Marcos), em San Juan la Laguna você encontrará descendentes dos maias falando seu idioma ancestral.

San Juan la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
A vidinha pacata em San Juan la Laguna

San Juan la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala


Um passeio rápidos pelas ruas do povoado revela algumas tecelagens tradicionais, onde você pode comprar artesanato de primeira qualidade.

Outra pedida interessante é parar em um café para experimentar uma xícara de bom chocolate preparado conforme a receita que os maias usavam antes da chegada de Colombo.

O lago de Atitlán visto da base do Vulcão San Pedro, em San Pedro la Laguna
Em San Pedro la Laguna, fiz um passeio de tuc-tuc até a base do Vulcão San Pedro para ver o lago lá do alto

San Pedro la Laguna
Esse povoado virou reduto de mochileiros do mundo inteiro e é famoso pelas agitada vida noturna — e, dizem, pela oferta de maconha de boa qualidade.

Como eu não fumo, aproveitei a parada em San Pedro la Laguna  para ir até a base do Vulcão San Pedro, onde há um mirante. A vista para o Lago de Atitlán lá do alto é deslumbrante.

San Pedro la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
A bordo do tuc-tuc (no alto, à esquerda) e um pouco da vida no povoado
Parada de tuc-tucs em San Pedro la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
Parada de tuk-tuks em San Pedro

Perto do embarcadouro de San Pedro la Laguna, os motoristas de tuk-tuk oferecem o passeio ao vulcão (com guia) por US$ 10.

Dispensei o guia — nem a pau eu iria sozinha até um lugar ermo em um país com altos índices de violência sexista acompanhada por dois homens desconhecidos.


Santiago Atitlán, Lago de Atitlán, Guatemala
Santiago Atitlán tem larga tradição de tecelagem e foi a principal povoação do povo Tsutuil

Santiago Atitlán
É é o maior povoado da beira-lago e o que eu mais tinha curiosidade de conhecer.

Plantado diante de uma pequena enseada entre os vulcões San Pedro e Toliman, Santiago Atitlán foi a principal cidade do povo Tsutuil.

Esse é um bom lugar para aprender mais sobre a técnica ancestral das tecelãs dessa etnia, no Centro de Tecelagem e Museu Cojolya.

Santiago Atitlán, Lago de Atitlán, Guatemala
De todos os povoados que visitei, achei a paisagem de Santiago a mais bonita

Mas o principal motivo da minha curiosidade sobre Santiago Atitlán é que a povoação foi um centro de forte resistência à violência governamental durante a Guerra Civil guatemalteca.

Em retaliação, Santiago foi alvo frequente das ações criminosas dos paramilitares de ultra-direita. A antiga capital Tsutuil é um símbolo da luta democrática na Guatemala.

Santiago Atitlán, Lago de Atitlán, Guatemala
Plaquinha de boas vindas bilíngue (espanhol e tsutuil) em Santiago

Como chegar ao Lago de Atitlán
O jeito mais prático de chegar ao Lago de Atitlán é mesmo ir a Panajachel e de lá seguir para os povoados.

Pana está a 113 km da Cidade da Guatemala e a 80 km de Antigua. Das duas cidades dá para contratar um shuttle compartilhado. O serviço feito em vans e custa em torno de US$ 20 por pessoa.

As distâncias são curtas, mas lembre-se que as estradas da Guatemala são tudo, menos uma reta.

A sucessão de curvas e o sobe e desce, os engarrafamentos em plena rodovia, a neblina nas montanhas e a chuva costumam tornar qualquer viagem no Altiplano Guatemalteco muito mais demorada do que sugere a quilometragem.

Passeio de barco no Lago de Atitlán, Guatemala
A bordo da lanchinha que faz o passeio aos povoados

Eu cheguei a Pana vinda de Antigua. Para percorrer os 80 km que separam as duas cidades, a viagem durou cerca de 2h30. Havia um protesto bloqueando a rodovia e a van precisou buscar uma rota alternativa.

Já a viagem de Panajachel à Cidade da Guatemala foi épica. Para vencer os pouco mais de 100 km, passei quase 5 horas na estrada, por conta dos congestionamentos demenciais que são uma rotina na Guatemala.

Porto de Panajachel, local de partida das embarcações para os povoados do Lago de Atitlán, Guatemala
Do porto de Panajachel partem embarcações para todos os povoados às margens do Lago de Atitlán

Como ir de Panajachel aos povoados do Lago de Atitlán

Uma vez em Panajachel, é fácil seguir para os povoados à beira do Lago de Atitlán.

Lanchinhas com motor de popa ou embarcações maiores fazem o transporte regular (como linhas de ônibus aquáticos).

O valor da passagem depende do destino. De Panajachel a San Marco, a viagem custa 25 quetzales.

Também há a possibilidade de contratar um serviço privado para percorrer o lago, se seu orçamento permitir: custa entre US$ 70 e US$ 80.

Passeio de barco aos povoados do Lago de Atitlán, Guatemala
O passeio oferecido pelas agências de turismo geralmente é feito em lanchinhas pequenas, como esta que me levou aos povoados

A terceira alternativa para explorar os povoados do Lago de Atitlán são os passeios de lancha oferecidos pelas empresas de turismo.

Esses passeios param em várias localidades e dão um tempinho para uma voltinha básica pelos povoados. As agências cobram US$ 20 por esse serviço.

Prefira navegar pelo Lago de Atitlán de manhã, pois à tarde as águas tendem a ficar mais agitadas. As embarcações, especialmente as menores, batem um bocado, subindo e descendo a marola.

Lanchas que fazem transporte regular entre os povoados do Lago de Atitlán, Guatemala
O transporte regular entre as comunidades do lago também conta com embarcações maiores

Quando ir ao Lago de Atitlán
A melhor época vai de novembro a abril, a temporada seca, quando o céu está mais limpo. Aposto que vai ser muito mais legal contemplar a paisagem.

Eu fui em setembro, uma época ruim para toda a Guatemala, e curti muito todo o meu roteiro (Tikal, Antigua, Chichicastenango e Cidade da Guatemala), sem aguaceiros que estragassem os passeios.

Mas no lago eu senti o baque. O horizonte nublado só me permitiu breves vislumbres dos vulcões — os safadinhos saíam de traz das nuvens por alguns minutos, mostravam o corpinho e logo voltavam a se vestir 😀.

Por conta disso, acabei encurtando a estadia em Pana de dois dias e meio para um dia e meio.

San Pedro la Laguna, Lago de Atitlán, Guatemala
Feira improvisada no centrinho de San Pedro la Laguna

O que eu mudaria na minha programação no Lago de Atitlán
Se eu soubesse o que sei agora, tem duas coisas que eu faria diferente:

- Deixaria para ir ao Lago de Atitlán na temporada seca, de novembro a abril

- Teria me hospedado fora de Panajachel, em algum dos povoados. Ouvi falar muito bem de Santa Calina de Palopó, que tem hotéis chiques e caros, mas também opções charmosas e mais em conta.

Dinheiro, câmbio e cartões de crédito
Leve quetzales para o Lago de Atitlán, pois a taxa de câmbio (para o dólar) em Panajachel não me pareceu vantajosa.

Os passeios e traslados podem ser pagos em dólar. Os estabelecimentos maiores de Panajachel aceitam cartões de crédito, mas não conte com eles nos povoados.

Hotel em Panajachel, Lago de Atitlán: Regis Hotel & Spa
Regis Hotel e Spa: cara de casa de veraneio




Hospedagem no Lago de Atitlán
⭐Regis Hotel Spa
Calle Santander, 3 Ave 3-47 zona 2. 

Classificado no Booking como “fabuloso (nota 8,7 dada pelos hóspedes). Em setembro/2107, paguei US$ 43 pela diária em acomodação single, sem café da manhã. Para este mês de janeiro (alta estação), a tarifa é de US$ 50 para o apartamento duplo.

O “spa” no nome do hotel é justificado pelas piscinas de águas termais oferecidas aos hospedes — e na chuvarada que peguei em setembro/2017, esse confortinho foi salvador... — uma sauna e uma área de massagem.

Mas não espere nada chique, o Regis é caseirão, simples e meio carente de uma reforma nos apartamentos, cujo mobiliário já viu dias mais gloriosos.

Hotel em Panajachel, Lago de Atitlán: Regis Hotel & Spa
O quarto é amplo e tem lareira, mas a mobília é caída. O banheiro é novo e está bem cuidado

Pelo que vi da hotelaria em Panajachel, porém, o Regis Hotel Spa é uma boa opção de hospedagem, embora sem vista para o lago.

O Régis está a cerca de 500 metros do embarcadouro às margens do Atitlán.

Embora localizado na Calle Santander, a rua principal e mais muvucada de Panajachel, o hotel é bem sossegado, graças aos bonitos jardins que cercam o edifício térreo, com cara de casa de veraneio.

Hotel em Panajachel, Lago de Atitlán: Regis Hotel & Spa
Os quartos do hotel dão para uma varanda muito gostosa

Os quartos são bastante amplos, mas não dá para classifica-los como confortáveis porque, como já disse, a mobília não coopera.

A TV é do Século 20 (daquelas bundudas), contemporânea dos estofados. Não experimentei a lareira. O que mais gostei no apartamento foi a ampla varanda, comum a todos os hóspedes.

Hotel em Panajachel, Lago de Atitlán: Regis Hotel & Spa
A área verde do hotel
O banheiro é grande, novinho e básico. Leve todo o seu kit de toalete, porque o hotel só fornece sabonetes. O chuveiro esquentou direitinho (estava fazendo frio em Pana).

O WiFi só funciona na área da recepção e no restaurante.

O Regis é uma opção barata, simples e decente. O melhor do hotel é a localização, a dois passos de bares, restaurantes, agências de turismo e comércio e bem pertinho do Lago de Atitlán.

Onde comer em Panajachel: El Patio e Café Chinitas
Meu almoço no El Patio e, à direita, o Café Chinitas

Onde comer em Panjachel
Eu experimentei um restaurante e um café bem simpatiquinhos que funcionam lado a lado em uma espécie de "shopping hipongo" da Calle Santander.

➡️O restaurante chama-se El Patio e tem um cardápio variado, comidinha saborosa e preços honestos.

➡️ O Café Chinitas foi meu refúgio na chuvarada da minha primeira tarde em Pana. Tem um astral bem agradável, sofás com muitas almofadas e parece reunir os estrangeiros e os descolados locais.

O cardápio é mais asiático que guatemalteco. Um destaque é a grande variedade de chás.

Santiago de Aitlán, Guatemala
Santiago Atitlán

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