quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Guatemala - o que fazer em Antigua

Antigua: uma das cidades coloniais mais lindas que já vi
No meio do caminho tinha um terremoto. A história de Antigua é uma gangorra entre a pujança de capital colonial (reinando sobre um território de 600 mil km²) e a devastação periódica que os incontáveis abalos sísmicos provocavam no esplendor decorrente dessa condição. 

As mais belas igrejas, os mais imponentes palácios e solares dos senhores da então Capitania Geral da Guatemala estavam lá — e seus alicerces jamais foram páreo para o desassossego das entranhas da terra naquele pedaço de mundo.

A Catedral de Antigua vista do balcão do Palácio do Ayuntamiento
Antigua, porém, é teimosa. Nem os sucessivos tremores, nem o abandono “definitivo”, após ser reduzida a escombros por um cataclismo especialmente furioso, conseguiram varrê-la do mapa. Santa tenacidade: aquela moldura de montanhas e vulcões de seu horizonte merecia mesmo uma bela cidade para compor o quadro. E a velha capital da Guatemala cumpre a missão com maestria.

Conhecer Antigua (finalmente!) foi um presente que me dei, agora nas férias de setembro. Eu já sabia que ia gostar, mas fiquei foi muito apaixonada. Reconstruída, resistente, obstinada, Antigua é uma beleza que desafia terremotos e provoca sérios abalos no coração dos visitantes.

Bora dar uma volta por lá?

Pátio do Colégio dos Jesuítas
Um pouquinho de história: como Santiago virou Antígua
Entre o fausto e ruína, a cidade de Santiago de los Caballeros conheceu de tudo em seus quase cinco séculos de história. Fundada em 1542 como sede do poder espanhol na América Central, ela viveu dois séculos de importância política e econômica — receita infalível para dotar uma povoação de maravilhas de pedra e cal e efervescência cultural.

No final do Século 18, porém, Santiago foi vencida pelos chamados “terremotos de Santa Catalina” – os sismos guatemaltecos de antigamente tinham nomes de santos, referindo-se não à ira dos deuses, mas ao santo do dia em que ocorreu o tremor. A coroa espanhola jogou a toalha, determinando a construção de uma nova capital, Nova Guatemala da Assunção (hoje Cidade da Guatemala). 

Parte da Catedral permanece em ruínas e virou museu. À direita, um detalhe da fachada
Muito danificada, Santiago foi abandonada pela maioria da população, perdeu o posto, a importância econômica e até o nome. Virou uma velha memória, a antiga (antigua, em espanhol) capital.

A cidade insistente, porém, renasceu quase que imediatamente após ser oficialmente desertada. Aos pouquinhos, foi sendo reocupada. Parte significativa de suas construções foram restauradas, outras permanecem em ruínas, acentuando ainda mais os traços incrivelmente românticos de Antigua.

Arco de Santa Catalina, o postal mais famoso de Antigua
O que ver em Antigua
Arco de Santa Catalina
Essa passagem coberta, construída no final do Século 17, é a imagem mais marcante de Antigua.  E é tanta gente querendo fotografá-la que o lugar virou um ponto de encontro, cercado de bares e cafés, um espécie de centro informal da vida social dos turistas que visitam a cidade — a sensação é que está todo mundo na expectativa de que as nuvens deem uma trégua para que se possa clicar o arco com as montanhas ao fundo.


A passagem foi construída para interligar as duas alas do Convento de Santa Catarina Virgem e Mártir — uma de cada lado da rua —, permitindo que as que as freiras encerradas na clausura pudessem atravessar sem ver ou serem vistas. O arco não está aberto ao público e a ala onde estava o claustro principal do mosteiro é hoje um hotel.

Danificado pelo terremoto de 1773, o Arco de Santa Catalina foi restaurado no final do Século 19, quando ganhou a torre do relógio.

A Catedral sobreviveu a muitos terremotos

Catedral de San José
Diariamente, das 9h às 18h. Entrada: 1 quetzal

Quando Antigua ainda se chamava Santiago de los Caballeros, sua Catedral era o edifício religioso mais suntuoso da vasta Capitania Geral da Guatemala (possessão espanhola que abarcava toda a América Central).

O edifício original, de meados do Século 16, frequentemente sacudido por terremotos, deu lugar à construção barroca do final do Século 17. Ornada em ouro, entalhes de madeiras nobres e delicados trabalhos em marfim — tudo que o poder colonial podia pagar — a igreja era descrita com espanto pelos visitantes da época.

A entrada para o museu (ruínas) está na lateral da igreja
Nada disso, porém, resistiu à sanha dos terremotos que, no Século 18, tentaram e quase conseguiram tirar Antigua do mapa. Seu templo católico principal não escapou da devastação e acabou abandonado, com suas ruínas usadas como cemitério.

O interior do museu
Parte da estrutura da Catedral está hoje restaurada e em uso corrente. A maior parte da igreja, porém, permanece em ruínas, perfeitamente estabilizadas e transformadas em um museu. Essa é a parte mais impressionante da visita, aliás.

Com entrada pela 5ª Calle Oriente (à direita de quem está diante da fachada principal), os vestígios do velho templo lembram as ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, também resultado de um terremoto. As imponentes estruturas, expostas em seu esqueleto, ganham um tom poético, sem perder a majestade.


Pátio interno do antigo Colégio dos Jesuítas
Colégio dos Jesuítas
6ª Avenida Norte, esquina com 3ª Calle Poniente. Diariamente, das 9h às 18h. Entrada gratuita

O antigo colégio e convento dos Jesuítas foi uma das melhores surpresas que tive em Antigua. Por trás da fachada bastante maltratada pelo tempo, terremotos e abandono, encontrei um belo conjunto colonial com pátios e balcões floridos, um pequeno, mas interessante museu de arte pré-colombiana e um café adorável e sossegado.

A fachada da igreja do Colégio dos Jesuítas


No Século 18, o colégio dos jesuítas era o mais prestigiado da Guatemala, centro formador dos filhos dos grandes senhores locais. 

Os terremotos de Santa Marta destruíram parcialmente o conjunto e, logo depois, a expulsão da Companhia de Jesus das terras espanholas selou o destino do lugar, que posteriormente foi usado como fábrica de tecidos e mercado de hortaliças e feira de artesanato.

O antigo colégio encanta com seus balcões e pátios floridos 

O pequeno museu de arte pré-colombiana tem peças muito interessantes


O colégio hoje abriga Centro de Formação e Cooperação Espanhola na Guatemala, um espaço cultural que promove cursos e mantém uma biblioteca muito usada pelos estudantes locais. O vem e vem dos alunos mantém o lugar vivo e interessante.

Tem entrada gratuita e promove exposições temporárias e outras atividades culturais. Bom lugar para passar a tarde. O Caféce (misto de bistrô e café) tem uma cozinha bem reputada e é boa opção para o almoço.

As ruínas do Convento de La Merced: lindo mirante para as montanhas
Igreja e ruínas de la Merced
6ª Avenida Norte, esquina com 1ª Calle Poniente. Diariamente, das 9h às 18. A igreja tem entrada gratuita. Para ver as ruínas, o ingresso custa 15 quetzales (R$ 6,60)

A fachada de La Merced é considerada um ícone do barroco guatemalteco. Pintada de amarelo vivo com detalhes em estuque branco, ela chama a atenção de longe, com seus dois campanários atarracados, praticamente engolidos pelo corpo da construção.

A Igreja La Merced é uma das poucas construções coloniais de Antigua a escapar quase ilesa aos terremotos do Século 18, mas o mesmo não ocorreu com o mosteiro adjacente, cujo pavimento superior, reduzido a ruínas, acabou virando um belíssimo terraço com vista privilegiada para as montanhas que cercam a cidade.



Em terra de terremotos, os campanários não se atrevem a subir além do corpo da construção 
Além da vista, outra grande atração no interior do mosteiro é a Fonte dos Peixes, instalada em um pátio. A estrutura grandiosa (27 metros de diâmetro) tem o formato de uma ninfeia (lírio aquático), abundante nos lagos da região do Petén, no Norte da Guatemala. Para os maias, essa flor é o símbolo da criação e origem dos deuses, que teriam sido gestados entre suas pétalas.

Sincretismo e grandiosidade na Fonte dos Peixes
A citação à ninfeia não é a única aproximação com o universo espiritual dos povos originais da Guatemala em La Merced. No delicado rendilhado que adorna sua fachada, dizem que as ramagens que se enroscam nas colunas seriam plantas alucinógenas, usadas em rituais ancestrais de aproximação com os deuses. 


A antiga Plaza Mayor, hoje chamada de Parque Central
Parque Central
Como uma legítima Plaza Mayor de cidade espanhola, a praça principal de Santiago de los Caballeros abrigava as sedes-símbolo do poder temporal e religioso. Lá estão a Catedral, o Palácio dos Capitães Gerais (a Guatemala era uma capitania-geral) e a Casa do Cabildo (uma espécie de parlamento colonial), hoje sede do Ayuntamiento (governo municipal).



O antigo Cabildo continua abrigando o parlamento local. Abaixo, o Palácio dos Capitães Gerais



Esse desenho traçado nos tempos de Santiago persiste em Antigua, com algumas adaptações. A Plaza Mayor já não tem aquela vastidão quase intimidante de suas irmãs de outras plagas, convertida em um espaço sombreado por árvores frondosas, refrescado por fontes e pontuado por banquinhos onde os moradores da cidade se encontram e os turistas descansam depois de uma caminhada.

Em torno da praça/parque há um autêntico cinturão de bares, cafés e restaurantes. Bom lugar para emendar um drinque ou uma refeição depois de visitar a sede do Ayuntamiento, a Catedral e seu museu—o Palácio dos Capitães Gerais não está aberto ao público. 

O Cabildo/Ayuntamiento está aberto ao público. A Varanda do pavimento superior oferece uma boa vista para todo o Parque Central

Igreja de São Francisco
1ª Avenida Sur. Diariamente das 8h às 18h. Entrada gratuita. É proibido fotografar o interior da igreja

Os franciscanos foram a primeira ordem religiosa católica e erguer um templo em Santiago de los Caballeros (o nome original de Antigua), no Século16. A primeira igreja de São Francisco, porém, não resistiu a um terremoto e foi substituída pela construção atual, de 1702, ela também destroçada pelos sismos que atormentam no século 18 e determinaram a transferência da capital para a Cidade da Guatemala — o que vemos hoje é uma reconstrução feita no Século 20.

Igreja de São Francisco: o exterior simplezinho esconde altares impressionantes
Uma coisa, porém, os terremotos não destruíram: os espetaculares altares cobertos de ouro e entalhes que adornam seu interior. Vendo a igreja por fora, nem dá muita curiosidade de entrar, de tão maltrada que está a bichinha, mas o guia com quem eu fiz um passeio a pé pela cidade me poupou do vexame de não ver essas maravilhas.

A Igreja de São Francisco é possivelmente a mais popular de Antigua. No dia em que estive lá, estava lotada de devotos que pediam graças ao Hermano Pedro, o primeiro santo centro-americano, cujo túmulo está em uma capela no interior do templo. Pedro foi um missionário franciscano com fama de milagreiro e atuação muito parecida com a do jesuíta José de Anchieta, que viveu na mesma época. A devoção a ele, em toda a Guatemala, é muito forte.

A fachada do Museu de Arte Colonial, antiga Universidade de San Carlos
Museu de Arte Colonial
5ª Calle Oriente nº 5. De terça a sexta, das 9h às 16h. Sábados e domingos, das 9h às 12h e das 14h às 16h. Ingresso: 50 quetzales (R$22). Aos domingos a entrada é grátis

Este museu vale tanto pelo acervo, composto principalmente por pinturas e esculturas sacras do Século 16 ao 18, quanto pelo bonito edifício onde está instalado, a antiga sede da Universidade de San Carlos, a primeira da América Central.

O pátio interno da antiga universidade. Abaixo, detalhes do pórtico de entrada e das arcadas do pátio
A coleção é pequena e pode ser vista em 30 ou 40 minutos, mas a visita vale a pena. O que mais gostei foram as imensas pinturas murais descrevendo as cerimônias de admissão na Universidade e a proclamação dos novos doutores, ocasiões de grande pompa. As formaturas, por exemplo, eram anunciadas em grandes desfiles pelas ruas da cidade.


Pena que não é permitido fotografar o interior das salas de exposição.


Mercado de Artesanato de El Carmen
Avenida 3ª, esquina com 3ª Calle Oriente

Se você gosta de garimpar lembrancinhas de viagem, vai curtir o Mercado de El Carmen. São mais de 120 postos de venda, uma profissão de cores no escurinho de uma construção meio mambembe que já abrigou uma serraria.

Mercado de El Carmen: vá com tempo e olho clínico para garimpar lembrancinhas
Os vendedores do mercado são oriundos de várias aldeias e povoados na região de Antigua. Em meio a produtos claramente industrializados, é possível encontrar artesanato de verdade, a preços sempre negociáveis — a pechincha parece ser o esporte local. Vá com tempo e divirta-se.


Um autêntico tear de cintura e as pilhas hipnóticas de tecidos guatemaltecos 
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