domingo, 26 de novembro de 2017

O que fazer na Cidade da Guatemala

Museu de Arqueologia:  uma aulinha de cultura maia bem bacana
A Cidade da Guatemala (Guate, para os locais) costuma ser tratada como um ponto de passagem para quem vai explorar os grandes destinos turísticos do país. É verdade que a capital não é páreo para Antigua, Chichicastenango, Lago Atitlan e Tikal, mas dizer que a bichinha é desprovida de atrações é um equívoco.

Se você tiver um tempinho para explorar Guate — e, provavelmente terá, na chegada ou na saída do país — aposto que vai encontrar o que fazer. Eu gostei de passear a pé pela Zona Viva (Zona 10, onde se concentram os hotéis mais bacanas, o comércio de primeira linha e bons restaurantes). Também curti as ruas e avenidas muito arborizadas e museus que valem a visita.

Veja o que descobri de interessante na Cidade da Guatemala:

Que tal aprender mais sobre as técnicas tradicionais de tecelagem? O Museu Ixchel oferece oficinas sobre o tema
O que esperar da Cidade da Guatemala  e como se virar por lá

Guate não é fácil. O trânsito faz São Paulo parecer uma cidade saudável — as horas do rush da manhã quase emendam com as do final da tarde, em engarrafamentos infinitos, com direito a buzinaço. Além disso, é apontada como uma das capitais mais perigosas da América Latina — e é mesmo um lugar onde se deve andar com cuidado, especialmente à noite.

Em meus dois dias de passeios por Guate, usei o Uber para os deslocamentos. Antes de sair do hotel, sempre buscava me informar direitinho sobre a segurança nas áreas que pretendia visitar. Com precauções básicas como essas, minha temporadinha na capital da Guatemala foi tranquila e bem divertida.

O que ver em Guate


Pátio interno do Museu de Arqueologia
Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia
6ª calle com 7ª avenida, Finca la Aurora, zona 13. Funciona de terça a sexta, das 9h às 16h, e sábados e domingos, das 9h às 12h e das 13h às 16h. Fecha às segundas-feiras e nos feriados de Natal e Ano Novo. Ingresso para estrangeiros: 60 quetzales (R$ 26).

Dono de uma coleção com mais de 50 mil peças, esse museu é um interessante prólogo para o que o visitante encontrará nos sítios arqueológicos guatemaltecos como Tikal, Quiriguá e Kaminaljuyú — este último, é bom você saber, fica dentro da Cidade da Guatemala, na Zona 7, e também está aberto à visitação.

O museu está instalado na Finca la Aurora, um grande parque muito próximo à Zona Viva e ao aeroporto, onde também está o Jardim Zoológico. Além de exibir achados arqueológicos escavados em diversas partes da Guatemala, também funciona como centro de restauro e de estudos.

O acervo do museu é composto de peças escavadas em sítios arqueológicos guatemaltecos, como Tikal, Kaminaljuyú e Quiriguá


O percurso museológico é bem didático, mostrando a trajetória humana no território que hoje conhecemos como Guatemala, desde os primeiros de caçadores coletores, que teriam chegado àquela porção do planeta na longa jornada pelo Estreito de Behring, até o esplendor da Cultura Maia, uma das mais sofisticadas de seu tempo e que ainda hoje sobrevive, de certa forma, entre os diversos povos que partilham sua herança.

Pedra cerimonial e estelas com inscrições maias. À direita, máscara funerária esculpida em jade encontrada em Tikal
A elegante cerâmica maia


No setor destinado à etnologia, é possível descobrir um pouco da diversidade e da riqueza das etnias presentes na Guatemala, seus rituais e costumes.

O ideal é visitar o museu antes de ir aos sítios arqueológicos. Eu fiz a rota inversa, primeiro Tikal, depois o museu, mas eu já tinha assistido a uma aula magna sobre cultura Maia (e outras culturas pré-colombianas), explorando o Museu Nacional de Antropologia do México, então a visita ao Museu de Arqueologia da Guatemala, uma espécie de irmão caçula, valeu para “repassar os apontamentos”.

No setor de Etnologia, o museu exibe uma bela coleção do vestuário tradicional de diversas comunidades 

Museu Nacional de Arte Moderna Carlos Mérida
Finca la Aurora, em frente ao Museu de Arqueologia. De terça a sexta, das 9h às 16, e aos sábados e domingos, das 9h às 12h e das 13 às 16h. O ingresso para estrangeiros custa 50 quetzales (R$ 22).

Reconstituição do ateliê de Carlos Mérida, considerado o maior artista plástico guatemalteco e integrante do movimento muralista mexicano
Uma coisa de que estou cada vez mais fã é descobrir artistas bacanas cuja obra não tem muita divulgação fora de seus países. Na América Latina, estou convencida que os melhores lugares pra isso são os museus dedicados à Arte Moderna, o que atesta o vigor que teve o modernismo aqui pelas nossas bandas.

O Museu Nacional de Arte Moderna da Guatemala é pequeno, tem um acervo bem enxuto, mas me apresentou a dois artistas muito interessantes. 

O trabalho e o descanso: um tema fundamental na pintura figurativa de Mérida é o povo da América Central

Mural de Carlos Mérida na entrada da sala em homenagem ao artista
O primeiro é Carlos Mérida (1891-1984), que dá seu nome à instituição e é apontado como o mais importante pintor guatemalteco. 

 Mérida viveu entre Guatemala e México, país onde trabalhou com Diego Rivera e integrou o movimento muralista — embora não compartilhasse do fervor revolucionário do grupo. Influenciado pelo cubismo, surrealismo e outras escolas marcantes do Século 20, o artista sempre buscou uma leitura desses estilos a partir do olhar herdado de sua origem Quiché (povo descendente dos maias).

O Conselho da Tias, de Roberto Ossaye

Pintura 1, de Roberto Ossaye, e Índia, de Mérida
A segunda descoberta prazerosa foi Roberto Ossaye, que transitou entre o cubismo e o realismo socialista. Ele viveu apenas 27 anos, metade deles sob a cruel ditadura do General Ubico, que por 13 anos (1931-1944) aterrorizou a Guatemala. Ossaye foi um artista engajado e brilhante, como se pode ver em suas obras expostas no Museu de Arte Moderna guatemalteco.
Sua obra mais famosa, O Calvário (1954), está exposta lá — e é uma autêntica Guernica chapín (gíria local que significa “guatemalteco). Também fiquei encantada com O Conselho das Tias.

Museu Ixchel do Traje Indígena
6 calle final, zona 10, Centro Cultural da Universidade Francisco Marroquín. De segunda a sexta, das 9h às 17h. Sábados, das 9h às 13h. Ingresso: 35 quetzales (R$ 15).

Centro Cultural da Universidade Francisco Marroquín, que abriga o Museu Ixchel e o Museu Popol Vuh
A coleção de peças de vestuário tradicional deste museu contempla todas as comunidades indígenas da Guatemala, um painel riquíssimo e de uma beleza impressionante. O acervo do Ixchel tem quase 8 mil exemplares da arte produzida no país em teares rústicos e com técnicas ancestrais. As peças mais antigas datam do Século 19.

O huipil é a túnica tradicional trajada pelas mulheres guatemaltecas. São feitos em teares domésticos e cada comunidade utiliza um padrão de cores e desenhos distintos. Este da foto é da região de Chimaltenango


Cada comunidade indígena da Guatemala utiliza seu próprio sistema de cores e desenhos nas vestimentas tradicionais que são produzidas em dois tipos de tear artesanal. O tear de cintura tem uma extremidade atada ao corpo da tecelã e a outra a um apoio, como uma coluna. O tear de pé, herdado dos colonizadores espanhóis, tem uma estrutura fixa, como um bastidor. 

Antes de iniciar seu percurso pelo museu, não deixe de assistir aos vídeos muito bem produzidos, que funcionam como ótima introdução à arte da tecelagem guatemalteca. Depois, esbalde-se nas salas de exposição, onde se pode aprende a compreender o papel da vestimenta na expressão da identidade de cada comunidade guatemalteca.


Uma mostra muito interessante é a dedicada às irmandades religiosas, organizações que mantém vivas devoções fortemente sincretizadas da fé ancestral com o catolicismo. Através da exibição de trajes cerimoniais desses grupos a gente faz um breve, mas instigante mergulho na cultura local. 

Por fim, tente se controlar para não estourar o orçamento na excelente loja do Museu Ixchel, onde estão à venda diversos exemplos do requinte e da delicadeza dos tecidos guatemaltecos. Você vai encontrar colchas, xales e huipiles maravilhosos, além de uma série de objetos mais contemporâneos que utilizam a trama saída de teares ancestrais.

Museu Ixchel: exposição dedicada às irmandades religiosas e aos trajes cerimoniais usados nas celebrações dos padroeiros das comunidades, com forte sincretismo entre rituais ancestrais e católicos 


Ao lado do Museu Ixchel funciona o bem reputado Museu Popol Vuh, que tem uma boa coleção de objetos e artefatos dos povos originais da Guatemala. Infelizmente, ele estava fechado para reparos na rede elétrica, no dia da minha visita. Mas fica a dica pra você. (Em tempo: Popol Vuh é o "Livro da Comunidade", registro da cultura Maia elaborado no Século 16 a partir de narrativas orais).
Paseo Cayalá
15, Bulevar Rafael Landivar 10-05, Zona 16
Paseo Cayalá, a "cidade" artificial 
Essa mistura de shopping center, condomínio residencial e complexo de escritórios fica na periferia elegante da Cidade da Guatemala, a cerca de 30 minutos da Zona Viva (se o trânsito tiver clemência) e é uma verdadeira ode à gentrificação. 

A visita é uma experiência antropológica: lá, como cá, “superar problemas sociais” pode ser simplesmente se fechar em uma redoma, para quem pode pagar por isso.


Inventado pelos magnatas do setor imobiliário, Paseo Cayalá pretende ser um espécie de Elysium para a elite guatemalteca, uma cidade artificial, limpíssima, ordenadíssima e muito segura — deixando a cidade real e seus problemas para o resto da população.

Os edifícios branquinhos do shopping/cidade lembram uma povoação colonial. Lojas de marcas famosas, cinemas, hotéis e restaurantes chiques estão distribuídos por “ruas” exclusivas para pedestres discretamente policiadas por seguranças particulares.

O melhor desse passeio: o sorvete da Gelatiamo
Dei uma volta por lá na minha última tarde na cidade. Almocei na Pizzaria Vezuvio, pizza à moda napolitana, bem correta. A refeição custou 77 quetzales (R$ 34). Dei uma olhada nas lojas (marcas chiquérrimas) e tomei o melhor sorvete desta viagem na Gelatiamo (chocolate amargo e frutas vermelhas). 

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2 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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