domingo, 17 de julho de 2016

Portugal: o que ver no Mosteiro da Batalha

O Mosteiro da Batalha é o terceiro monumento mais visitado de Portugal
Quando uma construção consegue colocar uma vila de apenas 2 mil habitantes no mapa de viajantes de todos os quadrantes do mundo, a gente já desconfia que ela deve ser mesmo espetacular. É o caso do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ou Mosteiro da Batalha, o terceiro monumento mais visitado de Portugal, que fica a 120 quilômetros de Lisboa e vale cada pedacinho de estrada que você vai percorrer até lá.

Eu visitei o mosteiro agora em  junho e anotei todas as dicas para facilitar a sua visita a esse lugar lindo, que conta um episódio fundamental da história portuguesa. Bora até lá comigo?

A igreja da Mosteiro da Batalha: imponência é isso
O Mosteiro da Batalha é um agradecimento do rei D. João I pela vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota, que livrou o país de voltar a ser um vassalo do reino de Castela. Dedicado a Nossa Senhora, essa beleza talhada em calcário cor de mel, pedra abundante na região, começou a ser construída no Século 14.

Apesar de dedicado à santa, o mosteiro foi concebido muito mais como um símbolo do poder real do que como um local de devoção religiosa. A Ordem Beneditina foi a encarregada de administrar o mosteiro.

A visita ao Mosteiro da Batalha se divide em quatro etapas: a Igreja, a Capela do Fundador, os claustros e as Capelas Imperfeitas. É importante não esquecer disso, porque você vai ter que apresentar seu ingresso na entrada de cada uma dessas áreas.


O exterior do mosteiro foi realizado no estilo gótico-flamejante
Assim como em Alcobaça, a igreja é o espaço com a decoração mais sóbria de todo o mosteiro. Uma combinação de pedra e de luz, filtrada pelos vitrais que resulta em uma visão impressionante. Ao entrar, prepare-se para o impacto da beleza de suas colunas, que se alongam a mais de 30 metros de altura sobre o vão que se estende por mais de 80 metros comprimento, da porta principal até o altar.

A igreja é o “cartão de visitas” de um monumento todo pensado para afirmar a majestade da Casa de Avis, que chegou ao trono português após a morte de Fernando I, último rei da Casa de Borgonha, que não deixou herdeiros. A nova dinastia foi iniciada exatamente por D. João I, irmão bastardo de Fernando, que teve que disputar com os castelhanos o direito de subir ao trono.

Pedra e luz, receita de beleza da igreja gótica
João I e seus filhos estão sepultados na Capela do Fundador, uma cripta espetacular que se comunica com a igreja por um portal rebuscadíssimo (onde você terá que mostrar seu ingresso).

Os túmulos de D. João e de sua rainha, Felipa de Lencastre, ficam bem no centro do belo salão octogonal, decorado com intrincados entalhes. Preste atenção ao túmulo de um dos filhos do rei, o Infante navegador D. Henrique, herói da conquista de Ceuta e grande incentivador das explorações marítimas. 

A Capela do Fundador, panteão da Casa de Avis. No centro do espaço octogonal estão os túmulos de D. João I e da rainha Felipa de Lencastre (esquerda). À direita, a bela decoração do teto da capela

Os túmulos dos filhos de D. João I, com destaque (à direita), para o do Infante D. Henrique
Nem todos os vitrais da Capela do Fundador são originais, já que todo o Mosteiro da Batalha sofreu grandes estragos com o terremoto de 1755 (aquele que arrasou Lisboa) e com a depredação das tropas napoleônicas, no início do Século 19. Mesmo assim, o efeito da luz filtrada pelas cores suaves é impressionante. E não deixe de olhar para cima, para ver o rendilhado que decora o teto da capela.

O Claustro Real, já com franco sotaque manuelino, é um dos pontos altos da visita
Uma porta próxima ao altar da igreja dá acesso ao interior do mosteiro (novamente, você terá que mostrar seu ingresso). Atravessando a antiga sacristia, você chega ao Claustro Real. 

Essa parte do mosteiro é do Século 14, mas sua decoração foi concluída no comecinho do Século 16 e já é escancaradamente manuelina, com aquelas colunas retorcidas e profusão de entalhes com temas florais e marítimos que a gente vê também no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.


A antiga Sala do Capítulo abriga o Túmulo do Soldado Desconhecido 
Em torno do Claustro Real estão as principais dependências do mosteiro. A antiga Sala do Capítulo (espaço onde os religiosos se reuniam para ouvir a leitura das escrituras) é hoje o abrigo do Túmulo do Soldado Desconhecido de Portugal. No antigo dormitório dos frades há uma pequena exposição de esculturas sacras.

A peça mais bonita do Claustro Real é o lavatório manuelino, onde jorra a água canalizada de uma nascente próxima e onde os monges se lavavam antes das refeições e das orações.

O lavatório
O Claustro Real se comunica com o Claustro de D. Afonso, de aspecto muito mais severo, praticamente sem decoração.

De lá, é preciso sair do mosteiro para a última etapa da visita, as espetaculares Capelas imperfeitas — no sentido de “inacabadas”, embora isso não tenha a menor importância, pois a visão é de deixar o visitante sem palavras. Novamente, você terá que apresentar o seu ingresso para entrar nesse espaço.

O claustro de D. Afonso é bem mais simples que o Claustro Real. O segundo pavimento foi uma novidade arquitetônica, usado pela primeira vez em Portugal
São sete capelas, organizadas em uma planta octogonal, construídas para abrigar o Panteão de D. Duarte (filho e herdeiro de D. João I).  

Apesar de iniciadas no Século 15, as obra jamais foram concluídas. Com a morte de D. Duarte, as obras foram desaceleradas (também porque o artista responsável, Huguet, morreu logo em seguida). No Século 16, D. Manuel e D. João III deixaram alguns “palpites” na construção, sem, contudo, concluí-la.  

As Capelas Imperfeitas
O soberano seguinte, D. Sebastião, estava mais preocupado em conquistar a glória militar — o resultado disso a gente já sabe: ele morreu tentando conquistar o Marrocos, deixou Portugal sem herdeiro do trono e o país caiu sob domínio espanhol, concretizando o desastre evitado em Aljubarrota, 193 anos antes.

O Túmulo de D. Duarte e da rainha  Leonor (esq) e o belo portal manuelino que dá acesso às Capelas Imperfeitas
Um pouquinho de história
Mosteiro da Batalha é a celebração da “segunda independência” de Portugal, assegurada com a vitória decisiva e quase inacreditável da Batalha de Aljubarrota.

No confronto, pouco mais de seis mil portugueses, apoiados por uma centena de arqueiros ingleses, derrotaram 30 mil homens das tropas invasoras de Castela, inclusive dois mil integrantes da temida cavalaria francesa, que apoiava as forças espanholas.

Detalhes da decoração das Capelas Imperfeitas
Corria o ano de 1383 e Portugal corria o risco de voltar a ser súdito da Coroa de Castela, já que o rei Fernando I (filho de Pedro I, famoso pelo romance com Inês de Castro) morreu sem deixar herdeiro masculino. Sua filha Beatriz estava casada com o João I, rei castelhano, que reivindicava o trono lusitano — a mania de fazer acordos matrimoniais com os vizinhos deixou Portugal em maus lençóis mais de uma vez, como veríamos daí a menos de 200 anos, no célebre caso de D. Sebastião... Da reivindicação do trono à invasão foi um pulo.

O desejo português era que o trono fosse passado a um irmão do rei morto, o futuro João I, filho bastardo do rei Pedro I. João era o mestre da Ordem de Avis, uma organização religiosa de monges combatentes, no estilo dos templários. Foi ele quem comandou as tropas portuguesas contra os invasores, ao lado do Condestável (título que era dado ao comandante militar supremo) Nuno Álvares Pereira.

O Claustro Real
Embora em minoria, os portugueses contaram com a vantagem de escolher o terreno onde esperariam o confronto com os inimigos, o Campo de São Jorge, uma elevação que, em segredo, trataram de fortificar, o que acabou sendo mortal para a cavalaria franco-castelhana.

Os arqueiros ingleses e portugueses se encarregaram de dar o golpe final nos cavaleiros que, sob pesadas armaduras, precisavam apear das montarias para prosseguir no terreno coalhado de trincheiras.

A Capela do Fundador
Foi um massacre. O exército castelhano contabilizou 5 mil mortos e 4 mil prisioneiros — outros 5 mil seriam massacrados ao longo da fuga para a fronteira. Portugal perdeu cerca de 1.000 homens em Aljubarrota, mas conquistou o direito de coroar seu rei, D. João I, fundador da Dinastia de Avis, que mandou construir o Mosteiro de Santa Maria da Vitória nas imediações do campo de batalha.

Dicas práticas
A Igreja Matriz da Vila de Batalha
Bem menorzinha que Alcobaça, a Vila de Batalha tem cerca de 2 mil moradores. Além do mosteiro, ela tem um museu interativo que conta a história da região desde sua formação geológica, o Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, não cheguei a visitar, mas é bem elogiado. Também no centrinho de Batalha, preste atenção ao bonito portal manuelino da Igreja da Exaltação de Santa Cruz, a matriz da vila.

Para ver o Mosteiro da Batalha com tranquilidade, reserve três horas para esse passeio. Em frente ao monumento, o centrinho bem arrumado da vila conta com restaurantes, lanchonetes e lojinhas de suvenir. Nós almoçamos lá, no Pap Oliva. Sem queixas, mas nada memorável.

A estátua do Condestável Nuno Álvares Pereira, comandante militar em Aljubarrota
Um passeio interessante, caso queira saber mais sobre a história que inspirou a construção do mosteiro, é visitar o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, uma exposição multimídia e de objetos históricos, a 3 km de distância, na freguesia (distrito) de São Jorge.

Como chegar
Batalha está a 122 km de Lisboa. A principal cidade nas proximidades de vila é Leiria, que está a 14 km.

Eu visitei Batalha saindo de Alcobaça, que fica a 20 km e tem boas opções de restaurantes e hospedagem e também um mosteiro belíssimo e imperdível. Vale muito a pena combinar a visita aos dois monumentos. Para quem está de carro (e conseguir sair cedinho de Lisboa), é possível fazer tudo em um bate e volta.

O vitral da direita está na Capela do Fundador. O da esquerda é do Século 15 e está na Sala do Capítulo
Para quem preferir usar o transporte público, a Rede Expressos (ônibus) tem cinco partidas diárias de Lisboa para Batalha e a viagem leva duas horas. Entre Alcobaça e Batalha não há transporte direto, mas é possível contratar um táxi.

Mosteiro da Batalha
Largo do Infante D. Henrique

Horários: de outubro a março, das 9h às 18h. De abril a setembro, das 9h às 19h. Fechado em 1º de Janeiro, Domingo de Páscoa, 1º de Maio, 20 de Agosto e 25 de Dezembro.

Ingressos: €6. Maiores de 65 e estudantes pagam meia entrada. Gratuito no primeiro domingo do mês.

Do início de sua construção, no Século 14, até o Século 19, o mosteiro sofreu muitas alterações, mas continuou sendo o exemplar máximo da arte gótica em Portugal
Centro de Interpretação – Fundação Batalha de Aljubarrota
Avenida D. Nuno Álvares Pereira, nº 120, Vila de São Jorge

Horário: 10h às 17h30. Fechado às segundas-feiras. Espetáculos multimídia aos sábados, domingos e feriados às 11:30h, às 15h e às 16:30h. É possível agendar uma apresentação fora desses dias e horários para grupos. Entre em contato com a Fundação (fone 244-480-062 ou e-mail servico.educativo@fundacao-aljubarrota.pt ) para saber mais.

Ingresso: €7. Aluguel de audioguia: €3.

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4 comentários:

  1. Lindo lugar!!!!! Tô doida pra voltar a Portugal, não conheci esse mosteiro.

    Bjs!

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    Respostas
    1. Vale a pena a esticadinha, Karla. Com um pouquinho de disposição para acordar cedo, dá pra fazer o passeio em bate e volta a partir de Lisboa :)

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  2. Cyntia,a empresa de ônibus RodoTejo faz a ligação entre Alcobaça e Batalha.A viagem dura uns 40 minutos e há diversos horários de saída,é só olhar no site da empresa.

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    1. Boa dica essa da Rodotejo!! Todas as minhas pesquisas indicaram a necessidade de trocar de ônibus em Rio Maior, o que consumia muito tempo.

      Então, interessados em ir de ônibus de Batalha a Alcobaça (e vice-versa),já sabem como fazer :)

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