quinta-feira, 6 de março de 2003

O que fazer em Havana

Os coquitos, ou coco-táxis, são bem populares entre os turistas. As tarifas são bem mais baratas que as dos táxis oficiais e tem a graça de passear quase "ao ar livre"

Atualizado em julho de 2016
Havana está entre as duas ou três cidades coloniais mais lindas que já vi nessas Américas —  e olha que eu já acumulei certa "milhagem" nesse quesito, pois sou apaixonada pelo tema e pela arquitetura. A capital de Cuba é uma cidade de contradições e de contrastes.

É preciso entender o abismo profundo que separa a pobreza da miséria — exercício dificultado pelos privilégios de quem é classe média em diante — para compreender o prodígio alcançado por aquele povo tão parecido com os baianos. Você vai ver muita pobreza em Havana, mas não verá crianças nas ruas (só voltando da escola), pedintes e outras mazelas.

Para além das simpatias políticas — e as minhas estão francamente do lado cubano — Havana é uma cidade apaixonante. Listei neste post alguns passeios bacanas que fiz por lá.

Casa de las Américas
Avenida 3ra y G, Vedado
Casa de las Américas: bom passeio para quem gosta de livros
Famosa pelos cursos de cinema e por conceder um cobiçado prêmio literário anual, a Casa de las Américas é uma visita imperdível em Havana especialmente se você gostar de livros. A instituição edita autores do mundo inteiro e os exemplares têm preços muito em conta. O catálogo de publicações é respeitável, com muitos brasileiros — Machado de Assis, Jorge Amado, Rubem Fonseca...

Em sua sede em estilo art-deco, no bairro de Vedado, dá para conhecer um pouco do trabalho desenvolvido pela casa, que desmente, com sobras, a propaganda que tenta pintar Cuba como um "país atrasado". Voltada para o intercâmbio e a divulgação da produção artística da América Latina, foi fundada em 1959, nos primeiros meses da Revolução.

Fuçando as prateleiras da Casa de las Americas, descobri um jornalista cubano maravilhoso, chamado Pablo de la Torriente Brau. Sempre engajado na luta contra as ditaduras — na América Latina, nunca era uma só — Pablo produziu a maior parte de seu trabalho fora de Cuba, no exílio. Sem jamais permitir que o militante turvasse o cronista sensível e preciso, escreveu com aquela paixão indispensável ao jornalismo. Morreu em 1936, na defesa de Madri, durante a Guerra Civil Espanhola, sem ter assistido a aventura da Sierra Maestra.

Sorveteria Coppelia
Avenida 23 com Calle L, Vedado


A Coppelia, com sua arquitetura dos Jetsons
Os cubanos anunciam com orgulho os 26 sabores de sorvete desta instituição revolucionária, a Heladería Coppelia, fundada em 1966. Fica num parque muito agradável e seu prédio exibe arquitetura de uma modernidade com a cara do que se imaginava do futuro, nos anos 60. Impossível não pensar em "Jetsons Socialistas".

O projeto da Coppelia é do arquiteto Mario Girona Fernández, um dos poucos que não desertaram do país após a vitória da Revolução e, talvez por isso, seja praticamente desconhecido fora, a despeito de sua obra modernista instigante e fortemente influenciada pelo modernismo brasileiro, especialmente Oscar Niemeyer.
Sempre achei que a fila da Coppelia fosse lenda urbana. Mas olha ela lá, quilométrica. Fui para o fim da fila, mas meu mapinha e o bloco de anotações me denunciaram: "Estrangeiros entram pelo outro lado", explicou uma senhora. Fico meio sem graça de passar na frente de tanta gente, mas que jeito? Para pagar com dólares, só na entrada de gringos, onde fui prontamente atendida.

A fila da Coppelia não é lenda urbana
Para quem cresceu frequentando a Sorveteria da Ribeira, em Salvador, a Coppelia acaba sendo meio decepcionante como experiência gastronômica — embora seja um prato cheio em experiência antropológica. Como pode uma sorveteria ser orgulho nacional e símbolo revolucionário?

A fila de cubanos é extremamente democrática. Casais, jovens, idosos, crianças, todos muito ordeiros. E resignados: "Você precisa ver isso aqui no sábado", me responde uma moça, quando pergunto se não acha chato esperar. Observo os trajes e dá pra ver que não é um programa qualquer. É evidente que a maioria se produziu minimamente para pegar essa fila. O tom geral é de solenidade não-oficial, com um clima meio anos 50 e cheiro de matinê de cinema e de footing na pracinha.

Museu da Cidade
Palácio de los Capitanes Generales, Plaza de Armas, Habana Vieja
De terça a sábado, das 11:30h às 17:30 h. Domingos, das 9h às 12h.


Antiga sede do governo colonial, o Palácio dos Capitães-Gerais é um imponente edifício do Século 18, considerado o melhor exemplo de arquitetura barroca de Havana. O pátio central do edifício é encantador.

São cerca de 40 salas de exposição e o acervo é composto de peças de mobiliário antigo, carruagens, uniformes militares, armamento e armamento. Na área da pinacoteca, a coleção é composta por obras de artistas cubanos de diversos períodos, desde a colônia.

Preste atenção a uma placa na parede exterior do palácio, que dá conta da passagem Giuseppe Garibaldi por Cuba — ainda há controvérsias entre os historiadores se essa visita realmente aconteceu. De qualquer maneira, Havana homenageia o herói da unificação italiana, reproduzindo uma citação de José Marti: De una patria, como de una madre, nacen los hombres: la libertad, patria humana, tuvo un hijo, y fue Garibaldi...


Fortaleza de San Carlos de La Cabaña
Bateria de canhões em La Cabaña
Esse colosso da arquitetura militar colonial guarda a entrada da Baía de La Habana e reivindica o título de "o maior forte construído nas Américas"—seu concorrente é o Castelo de San Filipe, em Cartagena. Suas muralhas e fortificações abraçam um terreno de mais de 170 mil metros, de frente para a estreita barra da Baía.

A fortaleza tem muita história pra contar. É passeio para algumas horas, pois é um prazer explorar as muralhas, bastiões e salões dessa construção do Século 18, que oferece uma vista impressionante para a cidade. Além da função defensiva — Havana era cobiçadíssima por piratas ingleses — La Cabaña foi usada como prisão desde os tempos da colônia até após a Revolução Cubana. José Martí, líder do movimento pela independência, esteve confinado a uma das masmorras do forte. Muitos inimigos da ditadura de Fulgencio Batista despareceram entre aquelas muralhas.


La Cabaña foi tomada por Che Guevara em janeiro de 1959, nos primeiros dias da Revolução. De uma das salas — que ainda exibe a escrivaninha, telefone e papéis usados por ele — Che comandou o forte, convertido de prisão de Batista em prisão revolucionária.

Fiquei um bom tempo olhando a salinha espartana onde trabalhou o Che. Uma das coisas boas em viagem é deparar-me com lugares e coisas que evocam o banal em meio ao extraordinário: uma das maiores aventuras do Século 20 também precisou de canetas, blocos de anotações, relações de materiais, listas de funcionários... Fiquei imaginando o Che sentado naquela cadeira, falando ao telefone, tomando as decisões administrativas. É uma imagem comovente.

Playas de Este
Não é chique, mas é caribão legítimo
Havana não é louvada por suas praias, incapazes de competir com Varadero, Cayo Coco e outros balneários cubanos famosos e cheios de gringos. Mas essas prainhas sem frescura, a cerca de 20 km do Centro de Havana, têm tudo que a gente espera do Caribe: mar azulzão e cristalino, águas mornas e areia branquinha, salpicada de coqueiros. É lá que os cubanos se esbaldam no banho de mar. Não é chique, mas é Caribe legítimo.

De Havana Velha às praias são cerca de 20 minutos e US$ 10 de táxi. O motorista sugeriu que ficasse no trecho de areia em frente ao Hotel Marazur, que tem mais estrutura. Combinamos um horário para ele me apanhar, na volta e lá fui eu aproveitar meu caribão sem grife.

Apesar de ser um de semana, a praia estava cheia — imagino o que eles consideram uma "praia lotada", como me disseram que fica nos fins de semana — mas as coisas funcionaram direitinho: aluguel de espreguiçadeira e guarda-sol (US$ 5), um lindo prato de langostinos (US$ 10) para o almoço e um mojito, que ninguém é de ferro.

A única coisa que não funcionou foi a minha combinação com o motorista de táxi. O cara não apareceu na hora combinada. Sem tragédia: não foi difícil conseguir outro carro para me levar de volta ao Centro.

Dá para ir às Playas de Este de transporte público, com o ônibus que faz ponto no Paseo de Marti, ao lado do Capitólio, no Centro de Havana.

Museu da Revolução
Calle Refugio nº 1, entre Monserrate e Zulueta
Diariamente, das 10h às 17h. Entrada: CUC$ 8
O antigo Palácio Presidencial, hoje Museu da Revolução
Instalado no antigo Palácio Presidencial, inaugurado em 1920, o Museu da Revolução é uma visita imperdível em Cuba, um painel da história do país desde tempos pré-colombianos. Comece a visita pelo último andar, onde estão alguns achados arqueológicos e vá “descendo até o Século 20”, enquanto admira, além do acervo, a impressionante arquitetura do edifício neoclássico, que tem até trabalhos decorativos executados pela Tiffany’ & Co. de Nova York.

Detalhes do interior do museu. À direita, o sextante do Granma

O memorial do Granma: o barco fica exposto em um pavilhão nos jardins do museu
A parte mais emocionante, é claro, é a dedicada aos objetos pessoais de líderes revolucionários como Che Guevara (uma boina, a câmera fotográfica...) e Camilo Cienfuegos. O acervo tem muitas fotos, mapas, uniformes, armas e documentos expostos em vitrines e identificados por cartazes que parecem feitos na velha letra-set. Não tem importância: é emocionante.

Feira de Artesanato de Havana Velha
Chezinho, Fidelzinho e a Floridita de Hemingway na minha estante
Atrás da Catedral tem uma feira de artesanato bem simpática. Dá para encontrar toda sorte de lembranças de Cuba: bonequinhos de cerâmica de Fidel e Che (comprei vários, que, na volta, foram disputados a tapa pelos colegas de trabalho), miniaturas dos coquitos e até minha mania: casinhas — tenho mais de 200 trazidas de viagens, já foram até matéria do Correio Braziliense. Comprei uma miniatura da Floridita e outra da Bodeguita que acabariam se transformando nas mais queridas da minha coleção.

A Bodeguita del Medio da minha coleção. A de verdade vive lotada
Com o bloqueio econômico decretado pelos EUA, Cuba ficou restrita à importação de carros soviéticos. Sem ter como repor os carros americanos de antes da Revolução, os exemplares antigos foram preservados e viraram logomarca da ilha 

Passeio de carruagem por Havana Velha
É a coisa mais turística do planeta, mas às vezes eu sucumbo. Por US$ 10, você aluga uma carruagem — uma caleça, para ser exata — para dar a volta completa por La Habana Vieja, o Centro Histórico colonial de Havana. É uma graninha muito bem paga, porque permite ter um vislumbre da vida que rola no interior do bairro, mais a fundo do que vemos transitando pela casquinha turística das quadras restauradas.

Habana Vieja tem vários quarteirões ainda bastante degradados, que lembram muito o Pelourinho, em Salvador, antes de ser esterilizado por aquele projeto de reforma assassino, que transformou o bairro numa cidade cenográfica irritante. É uma região onde mora gente. Da caleça, dava para bisbilhotar através das janelas das casas e ver o movimento de uma vida normal num conjunto arquitetônico deslumbrante, embora mal tratado.

Plaza de Armas, em Havana Velha
Experimentar um paladar
Eu estava louca para comer moros y cristianos na Bodeguita del Medio, o legendário boteco frequentado por Hemingway e “pátria do mojito”. Mas a fila na porta, as multidões acotoveladas lá dentro e o calor me fizeram dar meia volta na meia dúzia de vezes que tentei entrar lá.

Moros y cristianos é um prato que eu poderia traduzir como “feijão (os “mouros”) e arroz (os cristãos. Mas a tradução não daria conta de explicar como essa mistura é especial, à moda da Ilha de Cuba. Depois de almoçar e jantar o prato praticamente todos os dias em restaurantes para turistas — os que aceitam dólares — resolvi testar a receita caseira em um paladar, restaurantes particulares, pagos em moeda local, geralmente instalados nas casas dos proprietários e frequentados por cubanos.

Por indicação da camareira do hotel, fui experimentar o Paladar Mammy's, em Miramar, a oeste de Vedado. Tudo bem caseirinho: feijão com arroz, as maravilhosas bananinhas fritas em rodelas, salgadinhas — ultimamente está na moda chamar de "bananas chips" — e uma bisteca de porco bem correta. A conta, porém, não chegou a ser uma pechincha, para padrões cubanos: US$ 18.

Em Cuba, uma série de estabelecimentos e serviços voltados para turistas só aceitam dólares. Isso os torna inacessíveis à maioria da população. Os Paladares costumavam ser restaurantes exclusivos para cubanos, aceitando apenas moeda local. Mas foram descobertos pelos gringos e, agora, Havana está tomada por esses "paladares híbridos", onde os preços já não diferem muito dos restaurantes convencionais para estrangeiros.

Onde me hospedei em Havana
Hotel Saint John's
Calle O e/ 23 y 25, Vedado

Hotelão bem turístico, padrão três estrelas. Passei com louvor por um teste de humor, quando me deixaram na recepção do hotel por quase três horas: o apartamento ainda estava sendo arrumado. Apesar da confusão na chegada, o serviço era razoável, mas o café da manhã era meio caidinho... 

O hotel fica em Vedado, a Oeste do Malecón. Explicam que esta era uma região elegante, antes da Revolução. Agora é só um bairro distante demais do Centro Histórico, para o meu gosto.

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2 comentários:

  1. Conheci Cuba ano passado, um sonho que tinha desde a faculdade. A estadia por lá só fez crescer minha admiração por aquele povo guerreiro. Fico me questionando como viverá a ilha após a reaproximação com os EUA. Brava e destemida, Cuba! Que consiga manter suas conquistas sociais e caminhar para a aquisição de outras conquistas sem ser, novamente, oprimida pelo vizinho que espreita do outro lado da baía de Havana.

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    1. Ana, ainda que a abertura para os EUA possa ter impactos na Ilha, acho que o povo cubano merece a suspensão do embargo americano, essa crueldade que tanto tem dificultado a vida por lá. Se eles resistiram a todas as hostilidades, tenho certeza que não será o fim das agressões que vai derrotá-los :)

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