domingo, 2 de março de 2003

Cuba - o estranho caminho de Santiago

Catedral de Santiago de Cuba, no Parque Céspedes. Ela era amarelinha quando visitei a cidade, em 2003. Agora, ganhou restauração e pintura nova. Esta imagem é de novembro/2015
Cinco da manhã, Havana, finalmente. Na imigração, o militar dentro de um aquário pede que eu tire os óculos. Quer conferir se sou eu mesma na foto do passaporte. Dá vontade de dizer: "Moço, não são os óculos. Eu fico mesmo com essa cara, quando estou sem dormir". Felizmente, parece que minha versão Mrs. Hide parece comigo e fui formalmente admitida na República de Cuba.

Menos de cinco minutos e já estou num táxi, uma espécie de Land Rover amarelo, rumo ao setor doméstico do Aeroporto Internacional José Marti, de onde sai meu vôo para Santiago.
Os típicos coquitos,
carrocerias de fibra de vidro 

montadas sobre triciclos,
são táxis muito usados 

pelos turistas em Cuba
O Aeroporto fica a 25 quilômetros do centro de Havana. O Terminal Internacional é moderno e confortável, mas parece que todos os funcionários com quem tive que tratar dormiram menos do que eu.

A primeira visão de Cuba é uma neblina espessa. O calor, a essa hora, já é insuportável. Acho que é herança do avião apertado, abafado e excepcionalmente quente.

Chegamos ao Terminal Doméstico, bastante caído, semelhante a uma Estação Rodoviária do interior do Nordeste. Um monte de gente nas filas, com bagagens improvisadas: caixas, sacos, sacolas. Mala, mesmo, só dos poucos estrangeiros.

Na minha frente está uma senhora, acompanhada de uma adolescente e de uma menininha de um ano e pouco. A adolescente carrega uma sacola com uma inscrição curiosa: "No me robes. Solo traigo libros". Caramba, será que aqui também? O que houve com o socialismo?

Um sujeito branco, cinqüentão e baixote fura a fila, bem na minha frente. Não tem passagem nem mostra qualquer documento. É conhecido da compañera Comissária Para Emissão de Cartões de Embarque. Aluga um monte — além da conversa fiada, o sistema está lento — e uma meia hora depois ele sai, saltitante, com seu cartão de embarque.

E eu continuo sem dormir, prestes a um upgrade de Mrs. Hide para Mrs. Hulk. E quase acontece:  quando chega a minha vez de ser atendida, a compañera me informa que meu voo só sai às 8h e, portanto, só posso fazer o check-in às 7h.

Vou tomar café, arrastando a mala. Uma funcionária de uniforme listradinho de branco e azul-bebê tenta me explicar, naquele castelhano sem consoantes, que a cafeteria é no andar de cima. Sete mesas de fórmica, música sertaneja brasileira e até Celine Dion no alto falante. Café, que é bom, nada. Nem chocolate, nem chá... Pergunto ao pressuroso atendente o que é que tem para comer. Ele aponta com o beiço o cartaz que anuncia uns sandubas. Um homem grisalho, numa voz muito grave, pede "dolár", esfregando o polegar no indicador. A vantagem é que se pode fumar  e se fuma  em tudo quanto é canto deste aeroporto.

Check-in feito, finalmente, descubro "o aeroporto oculto": passado o portão de embarque, atravessamos para outra dimensão, com ar-condicionado, café, restaurante. Agora eu entendi o que a funcionária de uniforme listradinho quis dizer, quando falou que eu tinha que fazer check-in, pra poder tomar café...

O nevoeiro não dá trégua. O aeroporto está fechado. Sem esperança de decolar às 8h. Mato o tempo olhando um garotinho de uns seis anos, no máximo, muito orgulhoso, desfilando um casaco de camuflagem US Army, com direito a bandeira americana na manga e distintivo.

É curioso: os cubanos não parecem anacrônicos no vestir. Pobres, sim. Mas estão na última moda, ou no arremedo da última moda: tênis vistosos, calças cargo... Raros são os relógios de pulso. Em compensação, há uma profusão de camisas listradas. Parece que ACM é personal stylist por aqui.

Passa um pouco das 8h e começam a chamar para o embarque. O avião para Santiago é uma coisa russa com hélices, que meu sono não me permite identificar melhor. A decoração interior é totalmente Anos 60, em tons de azul turquesa, como os banheiros das casas "moderninhas" da época.

Dormi como uma pedra. Só despertei para ver Santiago pela janelinha do avião.

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