terça-feira, 4 de março de 2003

O que fazer em Santiago de Cuba

Hotel Casa Granda, ponto de encontro dos gringos (todos nós) em Santiago de Cuba
Em 1986, eu era repórter do Caderno de Cultura da Tribuna da Bahia e passei cerca de uma semana acompanhando o trabalho do grande documentarista cubano Santiago Alvarez em Salvador. Ele estava rodando um filme chamado Bras-Cuba, em parceria com o cineasta baiano Orlando Senna — Alvarez registrou Salvador, Senna registrou Santiago de Cuba.

Vinha dessa época meu desejo de conhecer a cidade. Alvarez e sua mulher, Lazara, pareciam deslumbrados com as imensas semelhanças entre a cidade deles e a minha — a única coisa destoante, diziam, era eu, que parecia mais austríaca do que outra coisa (embora eu continue discordando).

Parque Céspedes, no centro de Santiago
Até o jeito das pessoas balançarem o corpo enquanto caminhavam, diziam Lazara e Alvarez, era igual em Santiago e em Salvador. A explicação, segundo eles, é que os navios negreiros procuravam separar as famílias, de modo a alquebrar ainda mais o moral dos cativos. Com isso, muitos irmãos, filhos e pais de prisioneiros escravizados em Santiago de Cuba teriam vindo penar nas lavouras do Recôncavo Baiano. Nunca apurei essa história, mas não tenho razões para duvidar das fontes.

Pois bastou pôr o pé em Santiago para entender que eu não estava vendo uma cidade, mas um espelho da minha terra natal. Andando pela rua, mais de uma vez achei que ia dobrar a esquina e encontrar o Elevador Lacerda. A semelhança do povo é tão forte que por várias vezes eu esquecia que estava a quase seis mil quilômetros (em linha reta) de casa.

O que ver em Santiago de Cuba

Desbotadas pelo tempo, as fotos escaneadas dão apenas uma pálida ideia da beleza da Baía de Santiago vista do alto da Fortaleza de San Pedro de la Roca
Quartel de Moncada, onde tudo começou
Avenida Moncada, hoje Museu Escola 26 de Julio

O Quartel de Moncada ainda preserva as marcas dos tiros trocados no combate de 26 de Julho de 1956. Essa foto, assim como outras deste post, foi feita por minha amiga Simone Souza, em uma viagem de 2015
Seis anos antes do triunfo da Revolução, 166 jovens cubanos tentaram uma manobra ousada contra a ditadura de Fulgencio Batista: às 5:30h do dia 26 de julhos de 1956—uma manhã de Carnaval — eles invadiram dois importantes quartéis de Santiago de Cuba, Moncada e Céspedes. O objetivo, além de capturar as armas dos arsenais, era estimular a população a se levantar contra o regime.

Fidel Castro, então prestes a completar 30 anos, liderou a tentativa de invasão de Moncada, que tinha a cobertura de dois outros grupos armados, liderados por Raul Castro e por Abel Santamaria. O ataque foi detido, a maioria dos combatentes foi presa e posteriormente assassinada. Fidel foi condenado a 15 anos de prisão, mas o crescimento da mobilização popular no país, obrigou Fulgencio Batista a anistia-lo, dois anos depois.

Moncada é hoje uma curiosa combinação de escola e museu
O 26 de julho é considerado o início da Revolução Cubana e hoje Moncada é uma curiosa combinação de museu e escola, onde criancinhas com o característico uniforme dos estudantes cubanos, com o lenço vermelho dos pioneiros, assistem aulas e acenam para os visitantes.

O acervo do Museu de Moncada é muito simples—fotos, publicações, armas, uniformes — e fica exposto em alguns salões, organizado naquela museologia rudimentar cubana que ainda usa letra-set para identificar as peças. A visita, porém, é emocionante. A Revolução Cubana é um dos grandes épicos do Século 20 e ficar cara a cara com as pequenas relíquias dessa aventura é uma sensação inesquecível.

Fortaleza de San Pedro de la Roca
O Castillo del Morro, ou Fortaleza de San Pedro de la Roca, foi construído no Século 17 na estreita entrada da Baía de Santiago, para defender a povoação dos frequentes ataques de piratas. É Patrimônio Mundial pela Unesco e considerado um exemplares mais importantes da arquitetura militar espanhola nas Américas 
Para os íntimos — todos os santiagueros, que crescem à sombra de sua silhueta encarapitada nas alturas — ele é o Castillo del Morro, uma construção magnífica, iniciada no Século 16 para proteger a estreitíssima entrada da Baía de Santiago, que mais parece a embocadura de um rio.

A fortaleza está muito bem preservada e permite uma boa exploração de suas muralhas, arsenal, celas e antigos alojamentos militares. A vista lá de cima é impressionante. Vá no final da tarde, para emendar a visita com o pôr-do-sol (um dos mais lindos que já vi). Aproveite o bar que funciona ao lado da fortaleza para acompanhar o espetáculo com um mojito.

O castelo está muito bem preservado e é uma visita imperdível em Santiago de Cuba

Museu da Clandestinidade
Calle Rabí n° 1, entre Santa Rita y San Carlos, Tívoli

O Museu da Clandestinidade (à esquerda) e a rua Padre Picos
Instalado num casarão colonial onde funcionou o centro da repressão política no tempo de Fulgencio Batista, esse museu guarda objetos, mapas e fotografias que relembram o movimento de 26 de julho de 1956.

Por toda a região de Tívoli (abaixo), placas relembram os combatentes mortos dos primeiros dias da Revolução Cubana

O acervo de fotos é muito interessante e recorda principalmente os mortos no assalto a Moncada. A homenagem prossegue por toda a região de Tivoli, onde fica o museu — mais conhecida pela curiosa Calle Padre Picos, que na verdade é uma escadaria — onde placas nas paredes e muros das casas recordam os rostos, as idades e os sonhos dos combatentes.

Aproveite a visita para contemplar a bela vista da Baía de Santiago e da cidade que se tem em Tívoli.

Museo Casa Natal Antonio Maceo
Los Maceos n°207, entre Corona e Rastro

A casa simples onde viveu Antonio Maceo, herói da Independência de Cuba
Em uma vizinhança de moradias muito simples e mal conservadas fica a casinha singela onde nasceu Antonio Maceo, herói da Independência de Cuba.

O acervo não difere muito do repertório das casas-museu que existem pelo mundo, uma coleção de objetos pessoais, cartas e documentos do homenageado, contextualizados por mobiliário de época, mapas e painéis explicativos.

Não se engane com essa simplicidade e aproveite a oportunidade para descobrir um personagem pouco conhecido fora de Cuba, mas que merece figurar no panteão dos patriarcas da independência das Américas. Era filho de um militar venezuelano e de uma escrava alforriada (tanto seu pai quanto sua mãe eram descendentes de africanos ), foi criado em um ambiente de ideias arejadas e francamente mambise — designação dos partidários da independência.

Maceo foi um comandante obstinado nas batalhas contra os espanhóis pela independência de Cuba. Morreu lutando por essa causa, assim como seu pai e seus irmãos, e é considerado um dos grandes heróis do país.

Três lugares para dançar 

Casa de la Tradición: ótimo lugar para soltar a franga
Se você gosta de dançar, vai soltar a franga em Santiago, uma cidade musical e cheia de requebros — igualzinha a sua irmã de sangue, Salvador. Santiago é muito mais caribenha (no sentido de africana) do que Havana e você vai sentir essa energia por toda parte.

Fui a três casas noturnas de Santiago — a famosa e turística Casa de la Trova, a meio “intelectual” El Patio de los Abuelos e a totalmente roots, animadíssima e deliciosa Casa de La Tradición, a que eu mais gostei.

Quem me levou à Casa de la Tradicón foi Wilkins, taxista "alternativo" que conduz turistas num acachapante Chrisler Imperial 1957—um conversível rabo de peixe estalando de novo. Eu, na verdade, queria só passear na relíquia, mas ele falou tão bem do lugar que decidi ficar por lá depois de dar uma volta no carrão.

A Casa de La Tradición cobra US$ 1 pela entrada, funciona num casarão bem antigo e maltratado pelo tempo, bem pertinho do Museu da Clandestinidade. O salão é decorado por cartazes de shows e propaganda revolucionária.

Só pra os mais jovens terem uma ideia do que é um Chrysler Imperial 1957... :)
Como cheguei cedo, antes da apresentação dos músicos, tratei de bebericar um mojito, enquanto rolava o som mecânico. Seu Orlando, o porteiro muito velhinho, me viu sozinha na mesa e veio puxar papo. Ele falou do Brasil com uma paixão que me deixou com os olhos marejados. Recomendou que eu voltasse em julho, para o festival do Caribe e para o Carnaval de Santiago.

Uma coisa que me agradou muito no lugar é que lá não acontece o irritante assédio dos “galãs” caçadores de turistas que tanto me incomodou nessa passagem por Cuba. O ambiente na Casa de La Tradición é amistoso. Além de mim, havia uns três ou quatro europeus entre o público. Os demais eram evidentemente cubano, em suas roupas simples e gingado muito baiano.

Quando a música ao vivo começou, ninguém segurou a onda: a banda é muito boa. Não me fiz de rogada e caí na pista, dancei até cansar. A Casa de La Tradición fica na Calle General Rabi 154, entre Princesa y San Fernando.


A Casa de La Trova, na Calle Heredia (pertinho do Parque Céspedes), é o point dos gringos. Lugar tradicional par ouvir música cubana — o son — e para dançar. Fica na rua ao lado do Hotel Casa Granda. Os shows começam às 22 horas e a farra vai até às 2 da manhã.

El Pátio de Los Abuelos fica na Calle Perez Garbó nº 5, entre Garzón y Escario. É um lugar mais "autêntico". O nome é uma referencia ao avô negro e ao avô branco — as heranças espanhola e africana — evocados no poema de Nicolás Guillén: “Sombras que solo yo veo, me escoltan mis dos abuelos”. Música ao vivo só no final de semana.

Baía de Santiago
Onde me hospedei em Santiago

Hotel San Juan
Carretera Siboney, km 1 1/2

O hotel fica no meio de um parque muito bonito, a Loma de San Juan. Foi lá que, em 1898, americanos e espanhóis travaram a mais cruenta das batalhas por Santiago de Cuba, na Guerra Hispano-Americana.

São cerca de 80 apartamentos em casinhas geminadas, dispostas em meio às árvores. Na "casa grande" do hotel — a a antiga granja da Escola Agrícola Carlos Céspedes — funcionam, além da recepção, uma tienda (loja), uma sala de sinuca e dois restaurantes, o "Ceiba" e o "Leningrado". Aliás, o Hotel San Juan já foi o Hotel Leningrado. É meio fora de mão, em relação ao centro da cidade, mas seria muito agradável, não fosse o mau humor dos funcionários.

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