segunda-feira, 3 de março de 2003

Santiago de Cuba: primeiras impressões

Propaganda revolucionária próxima ao Castillo del Morro
Propaganda revolucionária próxima ao Castillo del Morro 
Santo Mojito, este que está me devolvendo à forma humana, neste fim de tarde em Santiago de Cuba! Estou na varanda do Hotel Casa Granda, na praça principal da cidade, refugiada do calor. Nas outras mesas, só estrangeiros. Gente de tudo quanto é canto do mundo. O ventilador gira bem devagar — ou sou eu que preciso de mais vento... Já vi esse filme.

Só que, aqui, o "galã" Louis Renault não é um francês de bigodinhos, escorado no poder da Prefeitura de Polícia. O assédio insuportável da oferta de "companhia" vem de jovens cubanos, ávidos por um vislumbre do "outro lado" deste país de vida dupla: os bares, os confortos e o glamour dos ambientes pagos em dólar, onde moeda cubana e gente cubana não entram. Mais "Casablanca" impossível.

A Catedral de Santiago de Cuba, no Parque Céspedes, vista da varanda do Hotel Casa Granda
Compreender a motivação é uma coisa, aturar a pentelhação é outra. Logo na chegada ao Hotel San Juan, onde fiquei hospedada, o primeiro estresse: o vendedor de artesanato me "marcou" como alvo, desde que entrei para fazer check-in. Quando saí para almoçar, dobrou o tabuleiro e grudou no meu pé, com um papo de "mostrar a cidade e "salir a bailar". Um saco.

Na varanda do Hotel Casa Granda não há assédio, mas é como estar em outro planeta. O lugar é um camarote, de onde os gringos observam os "nativos", lá em baixo. Uma espécie de ilha, um clubinho, como aqueles frequentados por correspondentes de guerra em filmes sobre revoluções e massacres no terceiro mundo — estou tentando decidir quem eu quero que sente na mesa ao lado: William Holden, de Love is a Many Splendored Thing ou Mel Gibson de The Year of Living Dangerously?

O para-brisa trincado do Leika
Nem Gibson, nem Holden. Quem puxa papo comigo é Francisco, senhor na casa dos 70, líder da banda santiagera que toca — aliás, muito bem — aqui na varanda do Casa Granda. "Play it again, Fran" é uma tentação, mas eu resisto — ninguém fala essa frase em Casablanca, mesmo... O papo com Francisco é sobre política. Ele fala do Brasil, de Lula e da enorme esperança dos cubanos em nosso novo governo.
Como todos os cubanos mais velhos, ou mais comprometidos com a Revolução, Francisco sente um enorme constrangimento com o turismo sexual que assola Cuba. "Essas pessoas fazem meu país parecer o bordel que era, antes de Fidel".

O castelo está muito bem preservado e é uma visita imperdível em Santiago de Cuba
Mas não pensem que Santiago é só assédio. Já fiz meus primeiros amigos por aqui. No meu primeiro dia na cidade, dei com a cara na porta no Castillo del Morro ("castelo do morro", em espanhol), fechado para visitas. Tive certa dificuldade de encontrar um táxi que me trouxesse de volta ao centro de Santiago, quando, de repente, surgiu um Lada amarelinho, com o pára-brisa meio estilhaçado. O motorista era Joel Montero, oficialmente, um funcionário público. Na vida real, ele dirige o táxi "clandestino" que me resgatou da Roca de San Pedro, onde fica o castelo.

No caminho para o Centro, Joel foi se mostrando um ótimo guia turístico. Passamos pelo Barrio Técnico, cujas chaminés enfeiam a paisagem da bela Baía de Santiago. Lá estão a geradora de energia, a refinaria e a fábrica de cimento. Mais adiante, o Parque Frank País, homenagem a um dos líderes do movimento de 26 de julho de 1953. Descendo a longa pista que vem do Castelo, chega-se à prainha de Los Aguaderos, ou "La Langosta", onde os pescadores clandestinos driblam a obrigação de vender o produto de seus mergulhos ao mercado estatal. Segundo Joel, antes da Revolução toda essa área era La Olla de Battle, "uma das maiores propriedades do mundo".

A praia de Los Aguaderos
Acabei contratando Joel para me levar nos passeios pela cidade. É inacreditável, mas por US$ 15 por dia você pode ter um motorista-guia particular em Santiago de Cuba. Joel é bom companheiro, simpático e bem informado, me mostrou toda a cidade nos dois dias que trabalhou para mim. Também era craque em afastar os "caçadores de turistas", os Louis Renault que viraram uma praga em Cuba e tornam quase impossível a uma mulher sozinha caminhar em paz pelas cidades.

A facilidade de me deslocar por Santiago, as informações e o bom humor de Joel foram fundamentais para que eu me despedisse da Mrs. Hide que desembarcara em Cuba, na véspera.


Banho de mar em Los Aguaderos (sou eu!)
(foto: Joel Montero)

Meu almoço simples e delicioso
 no "restaurante" de Negro
O Lada, modelo Leika 1980, é um dos orgulhos de Joel: "Vinte e três anos e ainda está novo". Além do pára-brisa quebrado, tem os bancos forrados de pelo de um bicho não identificado. Outros orgulhos são o pai, ex-dirigente do partido, e sua descendência dos Maceo, família que perdeu cinco filhos na Guerra da Independência. "Eram Maçons, como Marti, gente de la Loja".

Joel tem uma filha de 17 anos e um filho de 14, de mães diferentes. A mãe do garoto é médica pneumologista, em Santiago. Joel tem quase 40, estuda à noite para ser engenheiro. É técnico agrícola, com um emprego estatal. Mas seu trabalho, mesmo, é fazer ponto com o Lada amarelinho no Hotel Balcón del Caribe, perto do Castelo.

Joel me apresentou a Negro, que serve lagostas no "restaurante clandestino" que mantém em casa. Já na quadra dos 60, Negro foi dono de paladar, restaurante particular, até adoecer e perder a licença. Mas não deixou o ramo de atividade. Mora exatamente em La Langosta, a prainha que me chamou a atenção, no caminho da Fortaleza de la Roca para o Centro.

Resolvi almoçar no restaurante clandestino de Negro e aproveitar a deixa para um banho de mar. Santiago não é especialmente bem aquinhoada no capítulo praias. A areia é pedregosa, nada caribenha e a água não tem a transparência característica da região. Mas a água é morna e calma, como eu gosto.

O banho de mar foi revigorante. Mas genial, mesmo, foi o almoço no "restaurante" de Negro — varanda da casinha meio de madeira, meio de alvenaria, onde ele vive, em frente ao mar. A comunidade de La Langosta é uma favelinha, arejada pela brisa do mar e sem o adensamento sufocante de favelas convencionais. Sentada na varandinha, tomando meu Mojito, comecei verdadeiramente a saborear Santiago.

Eu disse almoço? Deveria ter dito banquete: risoto de mariscos, peixe frito, bananas fritas (as "convencionais", que comemos no Brasil, e as maricotas, verdes, deliciosas). Preço total da farra: US$ 13.

O transporte público em Santiago de Cuba é feito também em caminhões e em um tipo de riquixá
Uma coisa impressionante em Santiago é a "criatividade" do transporte público: além dos ônibus velhos, são usados caminhões com banquinhos e até em uma espécie de riquixá movido a pedal. Os coquitos, ou coco-táxi (triciclos com carroceria em fibra de vidro), e os taxis (oficiais e clandestinos) são usados quase que só pelos estrangeiros.

A cidade é pobre, mas jamais vi uma criança na rua que não estivesse envergando o uniformezinho escolar antiquado, com gravatinha para meninos e meninas. Sempre com cara de quem vai ou volta da escola — de manhã cedo, em torno da hora do almoço ou no fim da tarde. Fora desses horários, as ruas dão a impressão de que Cuba é um país só de adultos.

A cidade vista pelo para-brisa estilhaçado do Lada de Joel
Outra coisa que chama a atenção é o sorriso dos santiagueros: mesmo os muito mais velhos têm todos os dentes. Aquelas dentaduras perfeitas e reluzentes são como um lembrete permanente de que não estou numa cidade qualquer do Terceiro Mundo. E me fazem remoer a eterna pergunta: como eles fazem tanto com tão pouco?

As chaminés do Barrio Técnico destoam da beleza da Baía de Santiago

Os coquitos são táxis usados
 quase que exclusivamente
por estrangeiros
Esmagados por um bloqueio econômico e pela dependência do defunto bloco socialista, os cubanos me deixam com vergonha da pobreza que vejo no Brasil. Eles me animam, com tapinhas camaradas nas costas: "Alguns anos de Lula e vocês também vão melhorar".

Não percebo condescendência nessa declaração quase inevitável, toda vez que alguém descobre que sou brasileira. Aliás, a eleição de Lula faz dos brasileiros uma espécie de pop-stars por aqui. Todo mundo quer conversar, desejar boa sorte, dar conselhos. Eles estão orgulhosos de nós.

Um dos primeiros cubanos com quem conversei foi Felipe, logo que cheguei a Santiago. Ele me levou num “coquito” até o Castelo. Na casa dos 40, ele é um entusiasta da Revolução e vai logo avisando: tem cubano reclamando de barriga cheia. “La gente no tiene hambre. Lo que hay es solo hambre de pollo y de jamón”.

Doce Cuba, onde frango e presunto são luxos, mas saúde, educação e dentes perfeitos são meros dados de realidade, que o povo nem se lembra de louvar...

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