terça-feira, 9 de novembro de 2010

Peru: as Ilhas Flutuantes dos Uros

As ilhas ficam a 30 minutos de Puno
Era uma vez um povo muito forte, imune ao raio e ao trovão. Tão forte que podia viver sob  as águas, sem se afogar. Essa gente habitou a terra muito cedo, antes da chegada do sol, e viveu em paz. Até cometer o erro de misturar-se aos humanos, perdendo, assim, sua terra e seu poder. Passaram a viver exilados da mãe-terra, sobre ilhas feitas de junco.

Essa é a lenda dos Uros, povo que hoje fala a língua Aymara — seu Uruquilla é um idioma extinto — que que vive nas 70 ilhas artificiais feitas de totora, ao largo de Puno. São cerca de 1.800 indivíduos vivendo, basicamente, do turismo.

A luz do Titicaca voltou
As Ilhas Flutuantes dos Uros são a principal atração de Puno. A viagem de lancha até as ilhas dura cerca de 30 minutos e a área é extremamente bonita, ao cair da tarde — de repente, a luz dourada do Titicaca voltou...

A visita, porém, me deixou extremamente deprimida. Não é a primeira vez que vejo uma comunidade arremedando sua própria cultura para vendê-la aos turistas. Quem já visitou aldeias indígenas reduzidas a favelas, como as que há nas proximidades de Porto Seguro, sabe do que estou falando.



Nada conta os Uros. São extremamente simpáticos, sorridentes, calorosos. Mas a “vida” nas ilhas parece seguir um script preparado para se desenrolar nas duas horas de “antropologia McDonnald’s” que vamos fazer lá.

Mal chegamos e as mulheres correm para posar de “bordadeiras” de trabalhos produzidos industrialmente —rigorosamente idênticos aos que se encontra em qualquer tienda turística do Peru.

O guia começa a explicar a construção das ilhas e logo está armado o mercadinho de artesanato, que vai capturar alguns soles para as famílias do lugar.



As ilhas podem se dividir e se unir a outras, de acordo com a conveniência das famílias moradoras. Sua construção é realmente muito engenhosa: as raízes da totora são semelhantes ao xaxim, chegando à espessura de um metro ou mais. Os blocos desse “xaxim” são cortados e atravessados por uma estaca, que permite a amarração de um bloco ao outro, formando o “território” dos Uros.

Sobre tudo isso, são espalhadas camadas e mais camadas de hastes de totora, num processo permanente, deixando as ilhas sempre com espessuras de mais de dois metros.

O fogão precisa ficar ao ar livre
As casas são construídas com o mesmo material e, naturalmente, o grande perigo por aqui é o fogo. Os fogões a lenha ficam ao ar livre, acomodados sobre camadas de pedra. Imagino que o tabagismo seja um hábito desconhecido entre os moradores...

É claro que a beleza e o engenho das casinhas de totora já não são a única maneira de viver, aqui nas ilhas. Na parte de trás das ilhas, longe do olhar turístico, já há muitas casas feitas de chapa de zinco, uma favela de lata flutuante, provavelmente mais confortável que a simplicidade primitiva.

Ao fundo (desculpem o contra-luz), a "favela de lata"
A divindade principal dos Uros era a Lua, mas eles adoravam o puma, a serpente e o condor (as divindades dos três planos, representados na Chakaná). Hoje, porém, a única marca visível de religião, na ilha que visitei, era um templo Mórmon, erguido em totora.

Nossa brava remadora
Além da breve explanação sobre as ilhas, a visita nos permite provar o caule da totora — parece aquela parte branca de uma cebolinha verde, com gosto de nada — e dar uma volta no lago numa embarcação que eles chamam de “Mercedes Benz”, uma espécie de galera, movida pelo esforço de dois remadores e adornada por figuras de proa que achei meio vikings.

"Twingle, twingle, little star"...
Ao nos despedirmos das ilhas, as mulheres cantavam para os turistas, na esperança de receber alguma gorjeta. Primeiro, uma canção em Aymará. Depois, algo mais ao gosto gringo: “Twingle, twingle, little star”. Voltei na lancha pensando que os Uros fizeram um péssimo negócio misturando-se aos humanos...

Uma das escolas da comunidade
Informações práticas

Como chegar
O passeio às ilhas flutuantes é a grande atração da cidade de Puno, com 100 mil habitantes, a 1300 km de Lima e com boa infraestrutura turística. Nós chegamos a Puno vindas de Copacabana, Bolívia, uma viagem de cerca de duas horas de ônibus, atravessando a fronteira em Yunguyo, Peru (veja detalhes aqui). Nosso bilhete de ônibus foi comprado pela Stop Tours, a agência que cuidou de nosso trajeto até a Ilha do Sol, a partir de La Paz.

O porto em Puno, de onde partem as excursões às ilhas flutuantes
Analisando as demais opções para chegar a Puno, creio que chegar via La Paz e Copacabana é o modo mais interessante (até porque o Titicaca Boliviano é demais!).

Também dá para chegar a Puno a partir de Cusco
Há ônibus comuns ou no ônibus turístico (fizemos a viagem inversa, de Puno a Cusco,  e achei bem interessante) ou de trem, que custa quase dez vezes mais (veja no site da PeruRail (Atualização: para maio de 2014, as passagens custam US$ 268 partindo de Wanchaq, a estação central de Cusco, e US$ 161, para fazer o trajeto inverso, partindo de Puno).

De avião
Outra possibilidade é chegar de avião a Juliaca, a 50 quilômetros de Puno (o Aeroporto Inca Manco Capac recebe voos de Lima, Arequipa e Cusco).

Eu, esperando o embarque
Como chegar às ilhas
O mais comum é contratar um tour com alguma agência local, que, por cerca de US$ 10,  se encarrega de levar o turista até o porto, embarcá-lo em uma lancha e acompanhá-lo durante a estada nas  ilhas (as visitas duram cerca de três a quatro horas, dependendo da programação). Foi assim que fizemos a nossa visita, já organizada pela Stop Tours. Se você quiser ir de maneira independente, contrate o serviço no próprio ancoradouro de Puno, onde alguns moradores das ilhas levam turistas para o passeio. Os preços são similares e você estará contribuindo diretamente para a comunidade dos Uros.

Eu e Simone navegando no barquinho de totora
Onde Ficar
Nós ficamos e recomendamos muito o Hotel Camino Real Turístico. Veja detalhes neste post

Confira todas as dicas, planejamento e roteiro desta viagem:
Peru e Bolívia: Roteiro de La Paz a Machu Picchu

O Peru na Fragata Surprise
Andahuaylillas, Raqchi e Pucará
Cusco
Lima
Machu Picchu
Puno
Vale do Urubamba (Ollantaytambo, Pisac, Chinchero)

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