domingo, 14 de agosto de 2016

Portugal - um bate e volta a Braga

Praça da República, onde todo mundo se encontra
Apontada como uma das cidades mais interessantes do Norte de Portugal, Braga é uma ótima opção de bate e volta para quem está no Porto. São só 50 quilômetros de distância por uma estrada impecável, o que torna a escapadinha perfeita para quem está de carro. Mesmo de transporte público, é um passeio bem confortável: os trens rápidos fazem o percurso em menos de 40 minutos e os ônibus deixam você lá em cerca de uma hora.

A cidade é famosa por sua catedral milenar, a Sé de Braga, Mas há muito mais para ver por lá, como eu pude comprovar no bate e volta que fiz à cidade, partindo do Porto, agora em junho. O centro histórico reúne belas fachadas barrocas e uma coleção de igrejas que convivem placidamente com animados cafés de sotaque Belle Époque.

A famosa e milenar Sé de Braga, do Século 11

Nessa passagem pela cidade, deu para ver o básico e constatar que Braga merece um par de dias de visita para ser explorada com mais calma e atenção. Bora passear um pouquinho?

O Arco da Porta Nova, do Século 16, era uma das portas da muralha medieval, ligando o núcleo mais antigo de Braga aos bairros que iam surgindo com o crescimento da cidade
Detalhe de uma fachada em azulejos. À direita, a Torre de Menagem, meio escondidinha entre construções mais recentes
Braga é um encontro de antiguidade e juventude. Os mais de dois mil anos de história de Bracara Augusta, fundada pelos romanos no ano 16 a.C., abraçam uma população que está entre as mais jovens de Portugal, graças à condição de cidade universitária. A Universidade do Minho tem seu maior campus lá e dados populacionais de de 2014 registram 19 mil estudantes universitários vivendo em Braga, que tem 137 mil moradores na área urbana.

Já que falei de Bracara Augusta, o nome antigo da cidade, é importante destacar que a herança romana é um orgulho local. Bracara Augusta foi construída sobre um castro (povoação fortificada) do povo brácaro, de origem celta, para se tornar a capital da província romana da Galécia e uma das mais desenvolvidas da Península Ibérica em seu tempo. Os vestígios das termas romanas, a 500 metros da famosa catedral, são a marca mais preservada dessa época.



A sensação é que em Braga há uma igreja em cada esquina. Do Século 12 ao Século 19, a cidade foi propriedade da Igreja Católica
O apelido da cidade, porém, não tem nada a ver com esse passado. Braga é chamada de "Roma Portuguesa" pela grande concentração de igrejas em seu Centro Histórico — não chegam a ser as 365 que Caymmi contou em Salvador, mas dão a impressão de estar em cada esquina. As feições da cidade, também, já não lembram Bracara Augusta e são francamente barrocas, fruto de uma ambiciosa reforma urbana realizada no Século 18.

Quando ainda não existia Portugal, Braga foi dada como dote a Teresa de Aragão, filha do rei de Castela, que casou com Henrique de Borgonha, senhor do Condado Portucalense, uma ponta de lança cristã na luta contra os mouros naquelas terras, no Século 11. O casal acabou doando a cidade à Igreja Católica, que mantinha um importante arcebispado lá. Teresa e Henrique, pais do primeiro rei português, Afonso Henriques, estão sepultados na Sé de Braga.


Inscrição Romana em uma parede da Catedral de Braga
O acervo da Sé de Braga guarda descobertas arqueológicas romanas e celtas

Apesar de sua importância na Idade Média e na Reconquista Cristã (a luta pela expulsão dos mouros da Península Ibérica), a reforma barroca deixou poucos testemunhos arquitetônicos desta época. Meio escondida por trás da Igreja do Pilar ainda é possível ver a Torre de Menagem, que integrava as fortificações do Castelo de Braga, do Século 13. O complexo de construções do Paço Arquiepiscopal também mantém características da Reconquista.

Dividi meu tempo em Braga entre uma visita a famosa Catedral e ao Santuário de Bom Jesus do Monte, nos arredores da cidade, o segundo local de peregrinação mais visitado de Portugal, depois de Fátima. Entre uma e outro, aproveitei para fazer um passeio despreocupado pelas ruas do Centro Histórico.


Jardins de Santa Bárbara e o Paço Arquiepiscopal 

Praça do Muicípio

Nesse passeio, fiquei especialmente encantada com o Jardim de Santa Bárbara e o Paço Arquiepiscopal.

Também recomendo uma pausa gostosa em uma mesa dos cafés tradicionais, como o Café Vianna, coladinho à Igreja da Lapa, ou o Café A Brasileira. Os dois ficam no entorno da Praça da República, que se derrama na larga esplanada do Jardim da Avenida Central, um bulevar de pedestres margeado por lojas, restaurantes e sorveterias. Quando caminhar por lá, observe, ao longe, o Santuário de Bom Jesus do Monte, que olha a cidade lá das alturas.


A Igreja do Pilar e o Café Vianna, na Praça da República
Café A Brasileira

A Sé de Braga
O interior da Catedral de Braga é um mostruário de estilos, do românico ao barroco

Não é à toa que a Catedral de Braga virou símbolo de coisa antiga (na expressão “mais velho que a Sé de Braga”). Ela tem pelo menos mil anos de idade, se considerarmos o início da construção do edifício atual, que é 54 anos anterior à fundação de Portugal.

O terreno onde ela se assenta, porém, é local de culto há muito mais tempo: os romanos mantinham ali um templo dedicado a Ísis, substituído, nos primórdios da cristianização da cidade, por um primitivo templo católico.


O acesso à Catedral, por um pátio lateral

A Sé de Braga é um monumento religioso e, ao mesmo tempo, um manifesto político, onde a grandiosidade arquitetônica estava a serviço da afirmação da identidade cristã em uma Península Ibérica ainda majoritariamente sob controle muçulmano. Ela começa a ser erguida no final do Século 11, quando a chamada Reconquista está a pleno vapor, e os traços românicos dessa época ainda podem ser “lidos” em um edifício que passou por inúmeras alterações ao longo de seu milênio de vida. 

Com a declaração de independência do Condado Portucalense, elevado a Reino de Portugal, a igreja ganha ainda um significado maior, que é a afirmação da identidade cristã e europeia de um jovem país em combate contra os mouros e ainda lutando contra a sombra do domínio de Castela.


Altar românico e o claustro central da Sé de Braga

Logo no acesso à Catedral, em um pátio lateral, inscrições romanas talhadas na pedra nos lembram que estamos em Bracara Augusta, a praça forte que o imperador Augusto mandou construir em antigo território celta para afirmar o poder de Roma por aquelas bandas. 

E nos lembram, também, que no andar da carruagem da História nada se desperdiça: o bloco de pedra com a inscrição certamente foi pilhado de algum antigo edifício mais antigo e reaproveitado na construção — que o digam as colunas gregas que sustentam abóbadas em incontáveis igrejas europeias e as paredes incas reaproveitadas em Cusco, só para ficar em dois exemplos...


No Claustro Central da Sé e em alguns pátios laterais estão á mostra diversos achados arqueológicos. Na imagem, capitéis de colunas com motivos cristãos e romanos

A própria Catedral é um desfile de estilos arquitetônicos, do românico ao barroco, passando pela decoração vivamente mourisca da Capela da Glória, pelo gótico flamejante do altar-mor, dedicado a Santa Maria, e pelas curiosas esculturas das peças de sustentação externa do telhado, chamadas de “cachorros”.




É tanta coisa para ver, e são tantos os detalhes, que me arrependi de não ter contratado um guia para a visita, pois as leituras prévias que fiz sobre a Sé de Braga ainda ficaram devendo uma compreensão mais profunda da diversidade de elementos que encontrei por lá.

O interior da Catedral visto do Coro Alto

Detalhe das cadeiras do Coro Alto (esq) e um altar lateral da Catedral
A única parte guiada da nossa vista foi ao Coro Alto (é obrigatório estar acompanhada por um funcionário da Catedral nessa área). Para chegar lá é preciso subir uma escadaria cascuda, mas compensa. O coro é aquele “mezanino” que as igrejas costumam ter, no espaço oposto ao altar-mor, onde costuma estar o órgão e onde fica o coral que canta durante as celebrações.

Debruçados sobre a nave central, os coros costumam ser os melhores camarotes para apreciar uma igreja e o da Sé de Braga é simplesmente espetacular, não só pela perspectiva que oferecem para o interior do templo, mas também pela decoração riquíssima feita de entalhes e douramentos, como manda a melhor tradição barroca.

Peças sacras do Tesouro-Museu da Sé de Braga



Não deixe de visitar o Tesouro-Museu da Catedral, que tem um acervo impressionante de arte sacra. Retábulos preciosos, imagens, custódias e outros objetos de culto contam um pouco da história da Sé de Braga.

Preste atenção ao Cálice de São Geraldo, a peça de ourivesaria mais antiga já encontrada em território português, com mais de mil anos de idade (e que não pode ser fotografado). Pertenceu aos condes de Portucale e era usado nas missas para servir o vinho e decorado com motivos marcadamente influenciados pela estética moura. Um pequeno notável.



Catedral de Braga
Rua Dom Paio Mendes, Centro

Diariamente, das 8:30h às 18:30h (acesso à igreja). Entrada € 2. Para ver também o Museu, o Tesouro e o Coro Alto (valem muito a pena), há um ingresso combinado que custa € 4. Essas visitas são realizadas de terça-feira a domingo, das 9h às 12:30h e das 14h às 17:30h (até 18:30h, no verão). A subida ao Coro Alto é sempre acompanhada por um guia da catedral.

O Santuário de Bom Jesus do Monte
Bom Jesus do Monte : uma vista maravilhosa para a cidade 
O Santuário do Bom Jesus do Monte é o tipo de lugar que não exige motivações religiosas para entrar em qualquer lista de lugares imperdíveis para se ver em Portugal. Plantado no alto de um morro muito alto, cercado por um denso bosque e com uma vista escandalosa para a cidade (especialmente ao cair da tarde, quando o sol está no ângulo certo), o conjunto de escadarias, jardins e igreja é de uma beleza arrebatadora.

A igreja do Século 18

Os jardins de Bom Jesus do Monte são deliciosos
O morro onde se assenta o santuário é local de culto desde o Século 14, mas o que você vai encontrar lá, atualmente, é fruto de um projeto levado a cabo no Século 18. 

A principal atração, sem dúvida, é a belíssima escadaria de acesso, entremeada por patamares, adornada por fontes e estátuas e cercada de verde. São 670 degraus, que vencem 116 metros de subida formando um desenho simétrico encantador que reproduz uma Via Sacra. As fontes têm toda uma simbologia, representando os cinco sentidos e as três virtudes (fé, esperança e caridade).


Detalhe do teto da igreja de Bom Jesus e o órgão 
A escadaria é a principal atração do santuário
A concepção cênica de Bom Jesus do Monte teria influenciado a construção da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG), ondeestão os 12 profetas de Aleijadinho. A semelhança, realmente é grande, como a igreja no alto do morro adornada pelas estátuas e as capelas da Via Sacra ladeando o caminho.


Bom Jesus do Monte é um grande lugar para encerrar a visita a Braga

O funicular é a salvação para quem não quer encarar 670 degraus
No calor que estava fazendo em Braga, apesar da tarde já bem avançada, eu não quis nem pensar em subir a tal escadaria. Nessas horas, o funicular que parte da base do morro quebra um galhão.

Além da escadaria (que eu explorei numa descida parcial), o que mais gostei no Bom Jesus foi dos jardins deliciosos, frescos e sombreados, perfeitos para relaxar depois de um dia de passeios. Um jeito muito gostoso de encerrar a visita a Braga.

Dicas práticas
Onde comer em Braga



Churrasqueira da Sé
Rua D. Paio Mendes nº 25. Fecha às quartas-feiras. Nos demais dias, funciona das 9:30h às 23:30h.

Escolhemos este restaurante ao acaso e tivemos uma ótima surpresa. O ambiente é simples e agradável, o atendimento é simpático e a comida estava maravilhosa. A casa, como diz o nome, é especializada em pratos feitos na brasa e fica a cerca de 100 metros da catedral.


Pedimos um dos carros chefes do restaurante, o bacalhau assado no braseiro, acompanhado de batatas ao murro, que estava simplesmente de chorar. A porção era gigantesca, tanto que nós três (eu, minha mãe e minha sobrinha Carolina) não conseguimos dar conta, muito por culpa do festival de bolinhos de bacalhau que pedimos de entrada.

Os preços também são muito convidativos: essa farra para três custou € 50.

Como chegar a Braga
Largo do Paço
De carro 
Braga está a 54 km do Porto, uma viagem rápida e confortável de menos de uma hora pela Rodovia A3 (pedagiada). A cidade está a 360 km da capital, Lisboa.


De trem 
Da Estação de Campanhã , no Porto, a CP tem diversas frequências diárias para Braga. A duração da viagem depende do tipo de composição. Há desde o rapidíssimo Alfa-Pendular (AP), que faz o trajeto em 39 minutos, aos pinga-pinga regional da Linha de Braga, que leva cerca de 1h50min para cumprir o percurso.

O preço do bilhete também varia de acordo com o trem escolhido e com a antecedência da compra. Pesquisando agora, para viajar no mesmo dia, o bilhete de ida e volta no AP sai por €14,20, na segunda classe.

Um altar barroco da Sé de Braga
De Lisboa, o percurso no Alfa-Pendular consome 3h25min (não vale a pena o bate e volta) e o bilhete ida e volta custa €32,80.

A estação ferroviária da cidade está a 750 metros da Sé de Braga.

De ônibus 
A viagem de Lisboa a Braga, pela Rede Expressos, leva cinco horas e o bilhete ida e volta custa € 35.80. Saindo do Porto, também com a Rede Expressos, o trajeto até Braga leva 1h10min e o bilhete ida e volta custa € 12. A estação rodoviária de Braga está a 850 metros da catedral.

Como chegar a Bom Jesus do Monte


O santuário está a 7 km do centro de Braga. Se for de carro, use o Googlemaps ou GPS, porque a sinalização é meio confusa. No sopé do monte, há uma área gratuita para estacionamento, em frente à estação do funicular. Se quiser subir a pé, a escadaria fica bem ao lado. 

A subida do funicular de Bom Jesus do Monte
Eu subi de funicular (bilhete ida e volta € 2), com planos de descer a pé, mas o sol estava ainda inclemente às 18 horas, quando resolvemos ir embora, então, resolvi voltar no bondinho. 

Do Centro de Braga, pelo menos quatro linhas de ônibus levam a Bom Jesus do Monte (83, 88, 2 e 41). O tempo de percurso é de cerca de 30 minutos.


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4 comentários:

  1. Cyntia, encantada neste post! Estou pesquisando bastante sobre Portugal, onde irei com a família em dezembro e ficaremos 45 dias perambulando pelo país. Vou ler todos os posts e queria fazer uma pergunta. Essas informações que você deu sobre a cidade (super completas para quem ficou só um dia lá), você pesquisou antes? Onde buscou as informações?

    Parabéns!

    Claudia Bins
    @AsPasseadeiras e @MezzoMondo

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    Respostas
    1. Oi, Claudia, obrigada :)
      Faz um bom tempo que eu venho lendo muita coisa sobre a História de Portugal e da Espanha (por prazer mesmo, nenhum projeto acadêmico, rsss). Se você quiser ler um livro básico, rápido e escrito por um jornalista (texto sem muita empolação), experimente "A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o mundo", do inglês Martin Page. Ele traça um painel interessante da história portuguesa, desde Afonso Henriques até os anos 80 do Século 20. Page tem uma visão conservadora, que fica bem explícita quando trata do período mais recente, mas fez o deverzinho de casa.

      Sobre os pontos turísticos de Braga, pesquisei em blogs de viagem. Na página da Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem (RBBBV) tem uma lista de links para blogs que escreveram sobre a cidade: http://www.rbbv.com.br/destinos-de-viagens/europa/europa-sul/portugal/

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    2. Ah, e esqueci de dizer que uma parte fundamental dos meus planejamentos de viagem é ler jornais do país pra onde estou indo, quando entendo o idioma. Ajuda muito a ter uma noção mais imediata do que vou encontrar. Uma coisa sobre Braga que esqueci de dizer no post é que ela é apontada como a cidade com a melhor qualidade de vida em Portugal :)

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  2. Olá Cynthia! Parabéns por este artigo sobre a minha cidade. Gostei da descrição histórica e dos pontos de interesse que apresentaste. Tocaste no essencial. Já agora aproveito para deixar o meu roteiro sobre Braga, espero que gostes:http://www.espiritoviajante.com/visitar-braga-roteiro-de-2-dias/

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