3 de junho de 2012

Os 12 Profetas de Aleijadinho

Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais
A Basílica de Bom Jesus de Matosinhos e os 12 profetas,
 obra-prima de Aleijadinho

Na primeira vez que vi a Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, tive a impressão de algo muito importante estava acontecendo lá. 

Foi em janeiro de 1970 e eu ainda ia fazer nove anos de idade. Na quela época, chegava-se ao santuário por uma ladeira íngreme, que terminava aos pés do Jardim dos Passos da Paixão, onde estão dispostas as seis capelinhas da Via Crucis. 


Estátua do Profeta Isaías, de Aleijadinho, na Basílica do Bom Jesus de Matosinhos
O profeta Isaías contempla a cidade e as montanhas de Minas Gerais
Lá no alto, no adro da igreja, a disposição das estátuas dos profetas e o gestual das imagens formavam uma cena viva e intensa. Era como se tivéssemos chegado no meio de um acalorado debate.

Os 12 Profetas de Aleijadinho são uma visão poderosa e um dos mais importantes conjuntos da arte sacra brasileira.

Veja as dicas visitar a obra-prima de Antonio Francisco de Lisboa, o Aleijadinho, o maior nome do Barroco Mineiro:



Os 12 Profetas de Aleijadinho em Congonhas, Minas Gerais


Estátuas dos profetas na Basília do Bom Jesus de Matosinhos
A força do gênio do escultor faz a pedra sabão quase "pulsar"
Congonhas do Campo cresceu muito, construções comuns engolfaram a visão dramática que se tinha dos profetas, desde grade distância.

Hoje, quem chega de carro acessa o topo do Morro do Maranhão por trás da Basílica, aproximação que retira muito do impacto cênico criado pelo gênio de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Ainda assim, o efeito é acachapante. 

Dizem que ao concluir a imagem de Moisés, (exposta na Igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma), Michelangelo teria dado uma palmadinha amigável no joelho da estátua: Parla!” ("fala"!), teria dito o escultor, encantado com a vida que extraiu do mármore. 


Estátuas dos profetas em Congonhas do Campo



Revendo a pulsação que Aleijadinho fez brotar da pedra sabão em seus 12 profetas, fiquei tentada a pedir: “Falem um de cada vez, Senhores”. Aquelas estátuas são uma algaravia, de tão vivas...

Considerados a última grande expressão do barroco brasileiro, os 12 profetas de Aleijadinho foram esculpidos em pedra sabão entre 1800 e 1805, quando o artista já estava muito doente. 

Antes disso, ele e sua equipe esculpiram as 64 imagens em madeira expostas nas seis capelas dos Passos da Paixão, a Via Crucis, que ladeiam o caminho calçado por pedras irregulares que leva até o adro da igreja.



Cena da Via Crucis de Aleijadinho, Congonhas, Minas Gerais
A Santa Ceia, conjunto de esculturas em madeira exposto em uma das capelas que ladeiam a subida à Basílica de Bom Jesus de Matosinhos
As imagens de Aleijadinho são o maior tesouro da cidade de Congonhas, mas não são sua principal fonte de renda. As obras figuram como Patrimônio da Humanidade desde 1985.

O município, hoje com mais de 60 mil habitantes, continua a viver principalmente da mineração, como no Século 18.

As bateias do garimpo rudimentar, porém, há muito foram substituídas pelo processo industrial de extração do minério de ferro, cuja poeira é uma ameaça permanente às estátuas dos 12 Profetas de Aleijadinho.

Obras de Aleijadinho na Via Crucis de Congonhas, Minas Gerais
64 imagens em madeira recriam cenas da vida de Cristo nas seis capelas dos Passos da Paixão. Na Via Crucis, Cristo é despojado de suas vestes pelos soldados romanos (esq). A refeição servida na Santa Ceia de Aleijadinho é um leitãozinho bem mineiro — imensa liberdade artística, se a gente lembrar que os judeus, como eram Jesus e seus apóstolos, em geral não comem carne de porco

A constante agressão da poluição às esculturas mantém viva a polêmica sobre a conveniência de substituí-las por réplicas, no adro do santuário.

O exemplo citado é o Davi, de Michelangelo, hoje abrigado das intempéries na sala principal da Galleria dell'Accademia, em Florença — uma reprodução da estátua foi colocada no posto original, a Piazza della Signoria, aparentemente sem maiores traumas...

Os moradores de Congonhas, porém, não demonstram o menor entusiasmo pela ideia de retirada das estátuas originais. 

Cidade de Congonhas do Campo, Minas Gerais
Congonhas vista do adro da basílica. À esquerda, a última capela da Via Crucis
Os 12 Profetas de Aleijadinho passam por uma limpeza a cada cinco anos. Além de remover as marcas da poluição, a faxina também recorre a um biocida para exterminar líquens e fungos que ameaçam a integridade da obra prima que Antonio Francisco Lisboa nos legou há mais de 200 anos.


Como chegar e circular em Congonhas 
Congonhas fica a 78 quilômetros de Belo Horizonte, pela BR-040.

➡️ De Belo Horizonte a Congonhas de ônibus
A Viação Sandra tem dois horários diários para Congonhas, partindo da Rodoviária de Belo Horizonte (7h e 10:15h. Aos domingos apenas às 10:15h).


Estátua do profeta Daniel em Congonhas do Campo
Daniel e o leão

Outra possibilidade é pegar o ônibus para Conselheiro Lafaiete (diversos horários saindo de BH) e descer no entroncamento de Congonhas.

As passagens custam R$ 21,20 (ida) e R$ 19,50 (volta).

➡️ A chegada a Congonhas do Campo
Ir para Congonhas de ônibus foi fácil. Difícil foi me entender com o transporte público da cidade, que é pouco preparada para viajantes independentes.


Estátuas dos profetas Ezequiel e Oseias, de Aleijadinho
Ezequiel e Oseias

Na chegada, dei a maior sorte: peguei o único táxi que havia na estação rodoviária de Congonhas do Campo e rumei para a Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, que fica afastada do Centro, no alto do Morro do Maranhão.

A região da basílica já é bem povoada, mas pobre em opções de bares, cafés ou qualquer lugarzinho simpático para a gente sentar e admirar o belo conjunto formado pela igreja e os profetas — Congonhas parece acreditar que todo mundo vai até lá em excursão.

Depois da visita aos 12 Profetas de Aleijadinho, almocei e voltei mais cedo para BH, pela absoluta falta de informações sobre o que fazer na cidade.

Congonhas do Campo, Minas Gerais
Congonhas e seu horizonte

Depois de admirar os profetas e as esculturas de Aleijadinho nas Capelas da Via Crucis, quem caiu na via crucis fui eu: simplesmente não não havia transporte circulando nas redondezas para voltar à rodoviária.

Quando as excursões começaram a ir embora, o entorno da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos começou a ficar meio deserto e eu, meio cabreira.

Fui salva por um carrinho de placa vermelha que apareceu na ladeira. Fiz sinal e o motorista me explicou que tinha acabado de comprar o carro, um ex-táxi do qual ainda não tinha tido tempo de trocar a placa. Depois, pensou melhor e fez questão de me dar uma carona até a rodoviária.


Obras de Aleijadinho em Congonhas do Campo, Minas Gerais
A subida íngreme até a basílica onde ficam as capelas da Via Crucis se chama oficialmente Jardim dos Passos da Paixão. A outra opção para chegar a pé é esse ladeirão da foto à direita

Obrigada, Seu Toninho, por ter gasto um pedacinho do seu domingo para socorrer uma viajante em apuros. E viva a simpatia mineira!

Só depois de voltar a BH é que descobri que há um ônibus regular que vai da rodoviária à igreja.

Ah, as agências de receptivo de BH incluem Congonhas num tour de dia inteiro que vai a São João del Rey e Tiradentes.




Onde comer em Congonhas do Campo
No entorno da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, a única opção é o Restaurante Cova do Daniel (Praça da Basílica 76). 

Anexo ao Hotel Colonial, o restaurante tem ambiente simples e cardápio regional. 

O atendimento é competente e dá conta das enormes mesas de excursionistas sem perder o rebolado. 

Obras de Aleijadinho em Congonhas do Campo, Minas Gerais


Pedi um tutu à mineira que não chegou a comprometer, mas ficou devendo um temperinho mais caprichado. Com refrigerante, a refeição custou R$ 30.


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2 comentários:

  1. Que delicia rever esse cenario que descobri não ha muito tempo, quando ainda morava em Minas, em companhia da minha mãe. Fomos num bate-volta num domingo besta, e ficamos encantadas com a obra, mas concordo com a total falta de estrutura e preparação para lidar com o turismo fora de pacote. Espero que os proximos eventos esportivos impulsionem mudanças positivas nesse aspecto :)

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    1. Uma coisa que o Brasil precisa aprender com a Grécia, Natalia, é a ter linhas de ônibus direto para esse tipo de atração. Seria tão legal pegar o ônibus em BH e descer direto na Basílica, sem passar pela rodoviária. Na Grécia, eu pegava o ônibus e descia direto nos sítios arqueológicos (Micenas, Epidauros). facilita um bocado a vida do turista que gosta de usar transporte público, como eu :)

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