sábado, 3 de novembro de 2012

Troia: o poder da palavra

Troia: a força de uma história bem contada
O caminho é árduo. Cinco horas de ônibus, mais outro tanto na volta, sem contar as travessias de ferryboat e mais o trecho de van até as ruínas. A paisagem é árida. Quase só arbustos retorcidos e o solo pedregoso, calcinados pelo sol de verão. O cenário é pobre: restos de muros, alicerces e destroços em processo de catalogação.

O que importa aqui são as palavras. É a força de um relato, composto há quase três mil anos, que torna o sítio arqueológico de Troia absolutamente arrebatador.

Troia tem pelo menos nove camadas de cidades sobrepostas, atestando a antiguidade da sucessiva ocupação do local por diferentes povos. Esses vestígios na imagem são romanos e datam da nona povoação da área
Os algarismos romanos demarcam as diversas camadas de Troia. Guerras, tsunamis e malária devastaram as sucessivas povoações assentadas no local, uma posição estratégica dominando a entrada do Estreito de Dardanelos. No quebra cabeças arqueológico, a majestosa Troia homérica teria sido a sétima cidade erguida no local
Talvez no mundo regular uma imagem valha mais que mil palavras. Estamos com pressa e a imagem — essa fração de segundo que promete descrever tudo — nos conforta. Felizmente, há uma outra vida onde as palavras formam realidades infinitas, desenham universos e tornam lúdica e lírica até mesmo a objetividade da imagem (sei que vou apanhar, mas sustento que, até no cinema, o princípio era o verbo).
Um anfiteatro
A "réplica" do Cavalo concebido 
por Odisseu faz mais 
sucesso que os verdadeiros 
vestígios de Troia

Troia não é atração turística. O quebra cabeça arqueológico de suas nove camadas não tem esplendores arquitetônicos para oferecer à contemplação —muito menos às poses para as fotos: o entusiasmo nos cliques cessa logo que os grupos de excursionistas atravessam os portões do sítio histórico, deixando para trás um cavalo de madeira meio cafona, mas muito disputado.

Não há muito o que ver. São apenas pedras e fragmentos de História de nove ocupações humanas. Assentamentos que teimaram em florescer nessa faixa de terra estratégica, à beira do Estreito de Dardanelos, para, um dia, serem varridas por maremotos, guerras ou epidemias.

A Troia de Heitor teria sido a sétima — e a mais poderosa — cidade erguida aqui. A última, romana, pereceu de pragmatismo, ofuscada pelo o esplendor de Constantinopla, pelo deslocamento das rotas comerciais e consequente esvaziamento da importância militar da região.

Tudo isso vai sendo lembrado pela descrição monocórdia do guia turístico. Mas essas palavras objetivas, acessórias à imagem imediata, logo emudecem. Aqui, quem canta é a Musa.

Restos de muros troianos contemplam o Estreito de Dardanelos. Na narrativa de Homero, foi neste pedaço de terra que Aquiles e Heitor se enfrentaram
A Arqueologia ainda não encontrou um modo seguro de escavar Troia sem danificar as diversas camadas de cidades assentadas aqui. A maioria dos vestígios é da cidadela romana. 
Mas os trabalhos prosseguem
Andando em silêncio pelas trilhas do parque, são as palavras mágicas de Homero que reconstroem as imagens do mito e da história. Lá adiante está o mar, de onde chegaram os atreus "no côncavo de suas negras naus". Lá estão as areias que receberam corpo mutilado de Heitor. São as palavras que reerguem as muralhas e reeditam o assédio, que repovoam esse campo onde “muitas almas de heróis desceram à casa de Hades”.

Em Troia, minha alma estava voando.


Dicas práticas
O Sítio Arqueológico de Troia fica 30 quilômetros ao Sul da cidade de Çanakkale, na Anatólia, na margem asiática do Estreito de Dardanelos.

A marina de Çanakkale
Porto de Eceabat
A maioria das agências de turismo de Istambul vende excursões a Troia, que podem ser combinadas com visitas a outras atrações, como Gallipoli e as praias da região de Kuşadasi.

Há pacotes com um ou mais pernoites, mas eu optei por um bate e volta, para ver apenas Troia (mais de dez horas de estrada, contando a ida e a volta). É uma pedreira que só vale a pena para quem se interessa pela história e pelo mito — sem contar o preço, uma paulada de €99 pela excursão com ida e volta no mesmo dia. Para mim, porém, foi um dos pontos altos dos meus 27 dias entre a Turquia e a Grécia.

Em Dardanelos, a Turquia cultua muito mais a memória de Gallipoli que a de Troia, À esquerda, monumento homenageia os mortos naquela batalha. À direita, estátua de Ataturk, fundador do moderno Estado turco, com o Grand Eceabat Hotel ao fundo
Eu viajei com a Insider Travel. Comprei a excursão no Hotel Agan, onde estava hospedada em Istambul, e o garoto da portaria fez uma confusão, me colocando no grupo que ia para Gallipoli, mas foi tudo resolvido sem nenhum estresse.

O ônibus recolhe os passageiros no hotel e segue para Eceabat, cidadezinha praiana e simpática, na margem europeia de Dardanelos, de onde partem os ferries para o lado asiático. Apesar das cinco horas de percurso, a viagem de Istambul até lá é bem agradável, com belas paisagens do Mar de Mármara e uma estrada que é um tapete.

O ferry que cruza Dardanelos, entre Eceabat e Çanakkale
A travessia de ferry entre Eceabat a Çanakkale, no lado asiático, leva cerca de 20 minutos. Depois, são mais 30 minutos de estrada ate o Sítio Arqueológico de Troia.

Para quem faz a viagem de modo independente, Eceabat pode ser uma boa base para pernoite, especialmente se a ideia for também visitar as trincheiras e demais vestígios de guerra em Gallipoli (Gelibolu, em turco), que fica a 44 quilômetros ao Norte da cidade.

Mais uma homenagem à vitória turca em Gallipoli
O cenário da trágica batalha, travada na I Guerra Mundial, é um dos orgulhos nacionais turcos, que, aliados aos russos, venceram as forças aliadas de franceses, ingleses, australianos, canadenses e neozelandeses  Quatrocentos mil combatentes, de ambos os lados, morreram em Galipoli.


Visitação
O ingresso para o Sítio Arqueológico de Troia custa 15 Liras Turcas (R$ 17) e as visitas podem ser feitas diariamente, das 8h às 19 (no inverno, só até as 17h).



Como chegar sem excursão
Do principal terminal rodoviário de Istambul ( Büyük Otogar) partem ônibus regulares para Çanakkale, de onde é possível conseguir transporte para Troia (Truva, em turco). As informações na internet, em geral, estão disponíveis apenas na língua local.

O site Turkish Travel Planner, em inglês, é meio confuso, mas me quebrou alguns galhos na organização da viagem.A empresa que faz o percurso Istambul Çanakkale é a Truva Turizm. Para ir sem excursão, leve em conta as trocas de transporte que já descrevi e pense em dormir em Dardanelos.

Hospedagem
 quantidade e variedade, tanto em Eceabat quanto em Çannakale, embora essa última pareça ter uma estrutura mais organizada para o turismo. A empresa de turismo com a qual viajei a Troia opera com o Grand Eceabat Hotel.

Não me hospedei aqui, mas almocei no restaurante do hotel, que me pareceu bem decente (mas não vi os quartos) e tem quatro estrelinhas nas resenhas do Tripadvisor. As diárias para casal, com café da manhã, custam em torno de R$ 150,00. Uma vantagem é que ele fica bem em frente ao terminal de ferryboat (Feribot karşısı).


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