11 de maio de 2018

O que ver em Machu Picchu


Machu Picchu, Peru - Praça Principal e terraços de cultivo
Machu Picchu: 100 mil m² de belezas: com um pouquinho de organização, dá pra ver todos os pontos importantes
A área de Machu Picchu tem cerca de 100 mil metros quadrados. Se fosse plana e estivesse no nível do mar, já exigiria um pouquinho (muito) de energia para ser explorada.

Agora, imagine o sobe e desce — por degraus muito irregulares — a 2.400 metros de altitude

Machu Picchu tem cerca de 170 espaços diferentes e fascinantes abertos à visitação. É muito provável que você não consiga ver tuuuudo em uma única visita.

Eu já estive quatro vezes na cidade sagrada dos incas e ainda não posso afirmar que esgotei tudo o que ver em Machu Picchu.

Mas não se angustie. Nas seis horas que agora duram os turnos das visitas a Machu Picchu, dá para ver o principal e ainda tirar um tempinho para a contemplação sossegada, porque admirar o conjunto da cidade e as montanhas ao redor é o que há de mais gostoso pra fazer por lá.

Neste post eu organizei informações sobre as principais estruturas de Machu Picchu e algumas dicas para você organizar sua visita. Bora?

 O que ver em Machu Picchu - como organizar a visita


Machu Picchu, Peru - Templo do Sol
Essa estrutura em pedra polida, no centro da foto, é o Templo do Sol
➡️ Trilhas demarcadas em Machu Picchu

Pelas novas regras de visitação a Machu Picchu é preciso seguir as trilhas demarcadas no interior do sítio arqueológico. Parece engessado, mas não se assuste. 

Essas regras servem para ajudar na preservação das ruínas e facilitar o trânsito de pessoas.

O visitante continua podendo entrar nas construções, subir e descer, explorar as diversas áreas de Machu Picchu. É só seguir o percurso demarcado, que geralmente é de “mão única”.

Machu Picchu, Peru - mapa dos circuitos demarcados
Na entrada do sítio arqueológico, o mapa de Machu Picchu com os três circuitos de visitação 
➡️ Circuitos de Machu Picchu
Segundo as regras, é preciso escolher um dos três circuitos demarcados que se vai percorrer durante a vista a Machu Picchu.

 Se você tem um mínimo de preparo físico e subir escadarias irregulares não é um problema, escolha o Circuito 1, que é o mais abrangente, contorna toda a cidade, subindo à parte mais alta (onde se faz aquela foto ahazante, com toda a cidade a nossos pés) e depois baixando à área agrícola e terraços de cultivo.

A duração estimada dessa caminhada é de 3 horas. 

O Circuito 2 de Machu Picchu explora a parte inferior das ruínas e dura cerca de 2h30.

O Circuito 3 é o mais curto, sem muitas subidas e descidas e dura em torno de 2 horas.

Ingresso para Machu Picchu
Ingresso a Machu Picchu
➡️ Como é a visita com guia a Machu Picchu

A obrigatoriedade de estar acompanhada por um guia para entrar em Machu Picchu ainda não estava sendo cumprida a risca em fevereiro de 2018.

Nós, por exemplo, entramos sem guia. Mas eu recomendo vivamente que você contrate um, se for a sua primeira visita, mesmo que não cobrem isso na portaria.

Atualização - a exigência de guia está sendo aplicada, em 2019.

Machu Picchu é linda e seduz até o olhar mais desavisado sobre seu significado. Mas compreender o que se está vendo amplia sensivelmente o prazer da contemplação.

Você pode contratar um guia particular ou se somar aos grupos que se formam lá mesmo, na portaria do sítio arqueológico.

O tour guiado leva entre duas horas e três horas, dependendo do circuito que você escolha.

Depois, você fica à vontade para explorar Machu Picchu por sua conta. Para isso, um bom mapa é fundamental.

Pra entender essa parte, aposto que esse post vai ajudar: 
Machu Picchu - como organizar a viagem com as novas regras de visitação

Onde fazer a melhor foto em Machu Picchu
Uma das memórias mais fortes que tenho de Machu Picchu é do enlevo de ver as nuvens se dissipando aos pouquinhos, de manhãzinha, como as cortinas de um teatro, para dar início a um espetáculo. À direita, a clássica foto, na parte mais alta da cidade, onde ficavam os postos de vigia. Esses dois cliques foram feitos em 2002 pelo meu querido amigo William Aguiar

➡️ Que horário escolher para sua visita a Machu Picchu
Quem escolher o primeiro turno de visita (das 6h ao meio-dia) muito provavelmente vai entrar em Machu Picchu quando a cidade ainda está completamente envolta em brumas.

 Lembre-se que a localização do sítio arqueológico — na zona de transição da Cordilheira dos Andes para a Floresta Tropical — é certeza de muita umidade e nuvens o ano inteiro, ainda mais ao amanhecer.

Longe de ser um problema, isso é um encanto a mais: é como estar diante de um palco e ver as “cortinas” se abrindo aos pouquinhos para o espetáculo. 

Só alerto que, pelos relatos dos viajantes que encontrei por lá e pelo que li na internet, é de manhã cedo que as filas do ônibus para subir à cidadela costumam estar maiores, em Águas Calientes.

Machu Picchu vista do "setor nobre"
Carolina e Bruno, meus sobrinhos e companheiros de viagem em 2018, recebidos por uma chuvarada em Machu Picchu
Minha tendência, portanto, é recomendar a visita a Machu Picchu no turno da tarde.

 Dá tempo de acordar em Águas Calientes, tomar café com calma e ir para a fila do ônibus lá pelas 10h/10:30h, quando ela está pequena (a turma que vai subir para a visita a partir do meio-dia ainda não terá chegado).

Daí, é só aguardar o horário de entrada, já nas imediações da portaria de Machu Picchu.

Tem uma lanchonete bem legal, o Mapi Snack Bar, ao lado da entrada de Machu Picchu. Antigamente, o serviço era caro e ruim. Agora não está barato, mas a qualidade dos produtos melhorou muito.

A visita a Machu Picchu no turno da tarde também é a escolha mais recomendável para quem pernoita em Ollantaytambo e vai pegar o trem das 9h, ou vem direto de Cusco. 

Vista geral de Machu Picchu
Depois de percorrer a cidade, guarde um tempinho para sentar e contemplar
(Foto: Ana Rosa de Morais, março de 2002)
➡️ Atrações imperdíveis em Machu Picchu

Machu Picchu está dividida em duas áreas bem distintas:

A zona agrícola e de trabalho, com edificações mais rústicas para armazéns, alojamentos de trabalhadores, oficinas e os famosos terraços de cultivo.

A zona residencial e cerimonial fica na parte mais alta — e quanto mais você sobe, mais requintadas vão ficando as famosas paredes incas, com encaixes cada vez mais perfeitos e pedras cuidadosamente polidas.

Terraços de cultivo de Machu Picchu
Os terraços de cultivo garantiam o abastecimento e a contenção das encostas
⭐ Terraços de cultivo de Machu Picchu

Os terraços de cultivo de Machu Picchu são um prodígio. Eles permitiram o aproveitamento de cada pedacinho de encosta para a plantação de alimentos e também abrigavam lindos jardins.

Os incas desenvolveram um sistema eficiente de drenagem do solo e de aproveitamento das águas da chuva para irrigação. Você verá estruturas de canalização de água cortando alguns dos terraços de Machu Picchu.

Outra função dos terraços de cultivo é a contenção, evitando que a água da chuva desça pela encosta em aluvião, provocando a erosão do solo. Mais um exemplo da sofisticada engenharia desenvolvida pelos incas em Machu Picchu.

Fonte de água em Machu Picchu
Deitar na grama era bom, mas deixava o casaco cheio de lama. O jeito era usar as fontes de Machu Picchu pra limpar a bagunça
(Foto: Ana Rosa de Morais)
⭐ Fontes de água e canais de Machu Picchu

Outro exemplo impressionante da engenharia inca são os canais de drenagem e as fontes artificiais construídas em Machu Picchu.

Além de se abastecer do lençol freático, essas fontes aproveitam as águas das chuvas — várias delas ainda estão funcionamento.

Isso garantia o abastecimento das residências e outros edifícios da cidade-santuário e a irrigação das plantações que alimentavam seus habitantes.

Templo do Sol de Machu Picchu
O Templo do Sol se destaca entre as construções pela forma curva e pelo refinado polimento de suas paredes
⭐ Templo do Sol de Machu Picchu

Uma das estruturas mais famosas de Machu Picchu é o Templo do Sol, facilmente reconhecível por suas paredes curvas, cuidadosamente polidas e com encaixes impecáveis, como era praxe se fazer nos edifícios mais importantes da cultura inca.

Templo do Sol de Machu Picchu
O Templo do Sol
As janelas do Templo do Sol de Machu Picchu estão dispostas de modo a serem atravessadas pelo sol nascente no Solstício de Inverno — o dia em que Inti, o Deus Sol, pai dos incas, está mais distante da Terra e precisa ser chamado de volta com preces, rituais e homenagens.

A planta curva do Templo do Sol — meio em forma de ferradura — aproveita a forma natural da rocha onde ele se assenta.

No mesmo complexo, repare nos vestígios do templo de Pachamama (a “Mãe Terra”).

Tumba Real de Machu Picchu
A Tumba Real, abaixo do Templo do Sol
Tumba Real
Sob o Templo do Sol há uma espécie de cripta onde se supõe que fossem realizados sepultamentos, possivelmente de Incas.

(Inca é o termo que designa imperadores, mas acabou virando sinônimo de quéchua, que é o nome do povo que construiu o famoso império).

A Tumba Real de Machu Picchu tem uma abertura cortada em forma de dentes ascendentes. É possível que esse desenho seja uma representação dos três planos da existência em que acreditavam os quéchua: o mundo subterrâneo, que representa a morte, a existência terrena e o mundo celestial, onde vivem as divindades.

Praça Sagrada de Machu Picchu
A Praça Sagrada (e o toró bíblico que pegamos em Machu Picchu): ao fundo, o Templo de Wiracocha e, lá no alto, o Observatório Astronômico
Praça Sagrada e Templo Principal

Caminhando para o Norte, a partir do Templo do Sol, uma escadaria íngreme leva à chamada Praça Sagrada de Machu Picchu.

Nesta praça está o Templo Principal, dedicado a Wiracocha, o criador do universo e pai de todos os deuses do panteão quéchua.

Templo de Wiracocha ou Templo Principal de Machu Picchu
Templo de Wiracocha (Templo Principal)
O templo era o local de celebração dos rituais religiosos mais importantes em Machu Picchu, com a participação apenas de altos dignatários.

O Templo Principal de Machu Picchu, aberto para a Praça Sagrada (teria ficado inacabado?), tem uma espécie de altar na sua entrada, um bloco de pedra tralhada  onde estaria representada a Chakaná, representação da Via Láctea e dos três planos da existência.

Templo das Três Janelas de Machu Picchu
Apesar de ter apenas duas janelas na foto, esse é o Templo das Três Janelas 😊
Templo das Três Janelas
Na mesma Praça Sagrada está o Templo das Três Janelas (Tres Ventanas), voltado para o Apu Putucusi.

Os quéchua acreditavam que as montanhas mais altas, especialmente as que mantêm neves eternas, eram divindades, encarnações de espíritos ancestrais, os apus.

Templo das Três Janelas, Machu Picchu
O templo das Três Janelas visto por outro ângulo
Além de uma vista espetacular para Machu Picchu e as montanhas, o Templo das Três Janelas é um perfeito exemplo do requinte das construções incas.

Repare na perfeição dos encaixes dos imensos blocos de pedra e  no requinte do polimento das peças .
As três aberturas do Templo das Três Janelas, voltadas para o vale, também seriam uma representação dos três planos da existência.

Templo do Condor, Machu Picchu
O Condor: demora um pouquinho pra a gente acertar o ângulo de observação e enxergar o bichinho com suas asas, que são as grades pedras ao fundo
Templo do Condor

Outra estrutura famosa é o Templo do Condor — confesso que precisei de três visitas a Machu Picchu para, finalmente, ver a ave talhada na pedra, mas, sim, ela está lá 😉.

Na cosmogonia quéchua, o Condor representa Hanan Pacha, um dos três planos espirituais — o mundo divino, celestial.

Templo do Condor, Machu Picchu
O Templo do Condor, com terraços de cultivo ao fundo
O plano terreno, dos homens, (Kay Pacha) é representado pelo Puma e o “inframundo”, o plano dos mortos (Uku Pacha) é representado pela serpente.

Neste templo de Machu Picchu, a cabeça e o corpo do Condor estão gravadas em uma pedra no chão e duas grandes pedras que se elevam do chão seriam as suas asas.

Tente “enxergar” o a ave sagrada dos incas mudando o ângulo de contemplação. Uma hora, vai dar clique 😊.

Espelhos d'água para observação astronômica em Machu Picchu
Os sacerdotes incas também usavam espelhos d'água para observar as estrelas
Espelhos d'água

Nas construções que se acredita serviram de moradia aos sacerdotes de Machu Picchu, preste atenção às pequenas “bacias” de pedra, esculpidas no chão.

Um recurso muito comum usado nos rituais incas era exatamente ter recipientes que, cheios d’água, refletiam as estrelas e permitiam a observação astronômica.

Intihuatana, "pedra de amarrar o sol", Machu Picchu
A Intihuatana, um calendário agrícola
⭐Observatório astronômico e Intihuatana

No ponto mais alto da cidade de Machu Picchu, os incas construíram um observatório astronômico.

 No centro desse espaço fica a Intihuatana ("pedra de amarrar o sol"), um calendário solar destinado ao planejamento agrícola.

A elevação onde está o observatório foi escavada para ganhar a forma de pirâmide.

A Intihuatana é uma pedra esculpida em formato de “prato”, com um “pino” no meio e cuja sombra, ao nascer do sol, aponta a estação do ano, de acordo com a direção em que se projeta.

Observatório Astronômico de Machu Picchu
O observatório astronômico e a Intihuatana
 Palácio do Inca
No ponto mais alto do setor residencial, esse palácio servia de retiro para o Inca, sua família e entourage.

 Praça Principal de Machu Picchu
A Praça Principal vista do setor residencial. Do outro lado, a área de trabalho
⭐ Praça Principal de Machu Picchu

Sabe aquele gramadão no meio de Machu Picchu, sempre frequentado por lhaminhas fofas que pastam despreocupadas?

Então, esse cenário bucólico e fotogênico era o local das grandes celebrações religiosas em Machu Picchu, com a participação de toda a comunidade, em oposição às cerimônias mais seletas ndo Templo Principal.

Quando eu digo “toda a comunidade”, não imaginem a sociedade inca como uma democracia moderna, pois ela absolutamente estratificada e escravos e servos não eram incluídos nessa “população” — como também não eram na democracia ateniense.

Praça Principal de Machu Picchu

A principal função dessa ágora inca talvez fosse mesmo expressar a estratificação social daquela sociedade.

A Praça Principal divide a cidade, distribuindo os espaços de acordo com sua utilização.

Ao Norte da praça, na parte alta de Machu Picchu, estão os espaços cerimoniais/sagrados, como o Observatório Astronômico, o Templo Principal e o Templo das Três Janelas.

Ao Sul da praça, ficam as oficinas, alojamentos de trabalhadores e a prisão.

A Oeste, o Setor Residencial, o Palácio do Inca e os templos do Sol e de Pachamama.

Praça Principal de Machu Picchu
Euzinha no tempo em que ainda se ouvia música no discman e era permitido deitar na grama em Machu Picchu. Foto de Ana Rosa Morais
Nos bons velhos tempos mais hippies de Machu Picchu, o gramado da Praça Principal era o paraíso pra se deitar e rolar, fazer piquenique e até tirar um cochilo, depois de explorar a cidade.

Agora, é espaço privativo das lhamas e das memórias. Já não é permitido sequer pisar no gramado da Praça Principal de Machu Picchu.

Wank’a, Rocha Sagrada de Machu Picchu
A Rocha Sagrada, um altar para oferendas
⭐ Rocha Sagrada

No extremo Oeste da cidade de Machu Picchu, pertinho do portão que dá acesso à trilha para Waynapicchu, a Wank’a, ou Rocha Sagrada passa meio despercebida.

Ela fica em frente à área onde os visitantes  disputam os bancos à sombra, em duas construções cobertas de palha (um dos poucos lugares onde se pode descansar com um mínimo de conforto nessa “nova” Machu Picchu cheia de regras — necessárias, mas meio extenuantes😊).

A Rocha Sagrada tem a forma de uma montanha e servia como altar para oferendas a Pachamama e aos Apus para assegurar a fertilidade da terra e boas colheitas.

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