15 de maio de 2013

5 razões para gostar de Quito

Virgem Quitenha, Quito, Equador
Senhor horizonte: a Virgem Quiteña e a moldura das montanhas
Quito é uma cidade única e surpreendente. Mesmo quem está acostumada às paisagens e costumes andinos percebe, logo na chegada, que a capital do Equador até lembra outros cenários sul-americanos, mas tem traços de personalidade muito fortes e só dela.

Tem muito o que fazer em Quito e garanto que você vai se apaixonar e encontrar muito mais do que essas 5 razões para gostar da cidade que listei aqui.

La Ronda, rua de bares e restaurantes no Centro Histórico de Quito
La Ronda é a rua boêmia do Centro Histórico de Quito
Comece olhando o horizonte de Quito, o mais desafiador que já vi na vida. Depois, repare no profundo respeito que a contemporaneidade presta a todos os aspectos das tradições andinas.

Os costumes indígenas, em Quito, não são “exóticos”, eles estão impregnados na pele da cidade. 

O mesmo acontece com seu riquíssimo patrimônio histórico. Quito tem o maior conjunto arquitetônico colonial das Américas e esse tesouro permanece em uso, numa relação “coloquial” com a cidade.

basílica do Voto Nacional, Quito, Equador
Cenas de Quito: roupinhas típicas para aniversários de criança e as "gárgulas tropicais" da Basílica do Voto Nacional, um templo neogótico que substitui os monstros por tamanduás, jacarés e macacos  
Outro encanto de Quito é sua culinária feita de pratos de sabor forte, doces com gosto de casa da avó e um encontro feliz entre os sabores dos Andes, do mar e dos colonizadores espanhóis.

Se não bastasse tudo isso, em Quito a gente está mais perto do céu: a linha do Equador é o ponto mais alto do planeta e ela passa exatamente pela capital do Equador.

Veja minhas 5 razões para gostar de Quito:
Ladeiras: o crescimento urbano de Quito desafiou a gravidade, montanha acima, para compor um horizonte muito peculiar (parece o Rio, mas a altura é muito maior)
⭐O horizonte único de Quito
A primeira vez que eu vi o horizonte de Quito foi num filme meio ruinzinho (Prova de Vida, de 2000, com Russel Crowe e Meg Ryan), salvo exatamente pela tomada aérea final.

Um helicóptero sobrevoa a cidade e descortina a inclinação aguda das montanhas, as casinhas penduradas no abismo e a imagem quase inquietante da Virgem Quiteña, uma figura alada que paira sobre Quito e parece pousar sobre todas as cúpulas e campanários do Centro Histórico.

Esse mesmo quadro, ao vivo, sob um céu indeciso e encantador, compunha a cena de boas vindas que a capital equatoriana armou para mim, na minha primeira manhã na cidade.

Ladeiras de Quito, Equador
Uma ladeira de Quito (esq) e a cidade vista da janela do meu quarto de hotel
O horizonte de Quito é único graças à localização da cidade e à forma como se deu sua expansão urbana.

Ela foi fundada à sombra do vulcão Pichincha (4.700 metros de altura), espremida entre três outras montanhas.

O aglomerado urbano de Quito nunca fez cerimônia para se expandir nesse terreno aparentemente limitado: o lago, formado aos pés das montanhas pelos pequenos riachos que desciam das encostas, foi sendo drenado aos poucos, até virar apenas uma memória.

Centro Histórico de Quito, Equador

Sem a menor cerimônia, Quito foi se enroscando pelas alturas até construir um quadriculado miúdo de casinhas que desafiam a lógica e tornam-se parte das montanhas.

Quando a noite vai chegando, é delicioso parar em um terraço e ver as encostas acendendo aos poucos, desenhadas contra a escuridão pelas casinhas atrevidas.

⭐ O respeito à cultura tradicional em Quito
Minha primeira impressão do Equador foi uma entrevista do procurador-geral do país, Galo Chiriboga. Falando à TV estatal, ele explicava como o Estado iria tratar um crime ambiental praticado por integrantes de uma comunidade indígena.

Placa trilíngue (espanhol, inglês e quíchua) no Palácio de Carondelet, sede do governo equatoriano
Placa em castelhano, inglês e quíchua informa 
sobre as regras de visitação ao Palácio de Carondelet, 
sede do governo equatoriano
Todo o tempo, chamava a atenção da "sociedade mestiça" para a necessidade de compreender o ato (a caça de um condor, ave símbolo dos Andes, ameaçada de extinção) à luz da lógica e dos códigos ancestrais, lembrando que os valores ocidentais não podem esmagar outras maneiras de entender e estar no mundo.

Adoro os Andes por isso: já comentei, aqui na Fragata, que na Sierra, os indígenas não são eles. Eles são nós

Mulheres indígenas na Plaza San Francisco, Centro Histórico de Quito
"Se retoca toda classe de imagenes. Se cura cicatrices", diz o cartaz do ateliê sob a Igreja de San Francisco, um dos monumentos mais significativos da cidade
Em países como o Equador, a cultura indígena não é um exotismo distante, tratada com condescendência (no máximo) ou xenofobia, como acontece aqui, no nível do mar.

Quito, a cidade apinhada, de trânsito furioso e aspirações cosmopolitas, aceita perfeitamente ser contemporânea das mulheres de saias bordadas, cabelos trançados e embornal nas costas, carregando suas crias.

Elas não estão lá para os turistas. Estão porque estão. Porque a cidade também é delas.

La Ronda, rua boêmia do Centro Histórico de Quito
A placidez de La Ronda, antes da chegada dos notívagos

Centro Histórico de Quito, Igreja de La Compañia
O Centro Histórico de Quito é o maior conjunto arquitetônico colonial das Américas. Na imagem, a bandeira da cidade e, ao fundo, a fachada e a cúpula de La Compañia, a igreja dos Jesuítas
O patrimônio histórico integrado à vida cotidiana de Quito
Moradias, escritórios, comércio popular, quitandas e mercadinhos. Nada da vida real é estranho ao Centro Histórico de Quito.

Esse conjunto colonial é tão importante que foi o primeiro a receber o tombamento da Unesco como Patrimônio da Humanidade, em 1978.

Rua do Centro Histórico de Quito, Equador
Uma rua do Centro Histórico de Quito
O cotidiano é o personagem principal entre as paredes seculares, que trazem, sim, as marcas do uso, da convivência com a cidade.

Eu, que sou traumatizada pela assepsia que matou o Pelourinho, em Salvador, vibrei com a vitalidade do Centro Histórico de Quito.

A área ainda está passando por um processo de restauração, recuperando, aos poucos, a segurança e a capacidade de atrair os visitantes, mas numa rota que entende o humano como fundamental.

Oficina de conserto de pianos em La Ronda, Quito
Uma oficina de conserto de pianos em La Ronda, 
a rua boêmia do Centro do Quito
⭐A culinária de Quito
Já conhecia a fama dos doces quiteños e, claro, cheguei à cidade doida para prová-los.

Estava especialmente ansiosa para provar as quesadillas, feitas de farinha, ovos e queijo cremoso. Descobri, também, o manjar de leite e o meu preferido, o quimbolito, feito de farinha de milho, leite e passas, enrolado numa folha, como um abará, mas com um recorte meio parecido com a bandeira do Brasil.

Comidas típicas do equador: quimbolito e ceviche equatoriano
O incrível quimbolito (esquerda) e o ceviche equatoriano,
com um molho escuro, à base de tomate
Pelas ruas do Centro Histórico, é fácil tropeçar nas portinhas onde as famílias montam balcões improvisados para vender o amendoim confeitado, bem parecido com o oferecido pelo baleiros de antigamente, nas portas dos circos e dos cinemas.

Tem também o doce de goiaba (bem parecido com o nosso cascão) e os turrones.

O que me surpreendeu foi encontrar em Quito cocadas iguaizinhas às do tabuleiro da baiana de Salvador. São secas, para comer quebrando os pedacinhos, deixando a cobertura de açúcar derreter aos pouquinhos na boca, libertando as lasquinhas de coco.

Comida típica do Equador: chugchucaras
Chugchucaras do restaurante Meridien, 
na Ciudad Mitad del Mundo
No capítulo salgados, amei os ceviches equatorianos, bem diferentes dos peruanos, servidos no caldo forte e escuro à base de tomate.

Experimentei um ceviche equatoriano com camarões, peixe e caranguejo de rasgar a roupa, num restaurante muito simples e disputadíssimo pelos quiteños, na hora do almoço, chamado Puerto Manabi.

Outro prato de responsa são as chugchucaras, pedaços de porco frito, servidos com banana frita, bolinho de batata, pipoca, palta (abacate) e salada.

Sem contar as empanadas, tamales, camarões ao aji...

Quito - Equador - Monumento "Mitad del Mundo", na Linha do Equador
O Norte não é "em cima". Ele é apenas "para lá" 
(Monumento Mitad del Mundo, nos arredores de Quito)
⭐A linha do Equador em Quito
Antes de pisar em Quito, eu nunca tinha parado muito para pensar na Linha do Equador.

Até já tinha tirado uma clássica foto no “meio do mundo”, no monumento que marca a divisão entre os hemisférios próximo a Macapá, lá se vão 20 anos.

Para mim, a Linha do Equador era uma fronteira que eu vivia cruzando, geralmente de avião, e só.

Fui visitar a Ciudad Mitad Del Mundo, espécie de parque temático nos arredores de Quito, meio com o pé atrás.

Quito: monumento "Mitad del Mundo" marcando a Linha do Equador
Latitude zero: a Linha do Equador passa aqui
Acabei surpreendida pelas exposições interessantes que há nos pavilhões montados por lá e que narram a tarefa meio heroica da missão de cientistas que trabalhou na demarcação da Linha do Equador.

Foi só lá na Ciudad Mitad Del Mundo que me caiu a ficha: devido ao achatamento dos polos, quanto mais próximos da Linha do equador estamos, mais perto do céu.

Claro que isso passa pela aposentadoria da noção eurocêntrica de que o Norte está “em cima”.

Em cima, mesmo, está a fronteira entre os hemisférios, onde o planeta é mais “largo” e onde sua crosta está mais distante do centro da terra. A Linha do Equador é o topo do mundo e eu adorei estar lá.

Monumento "Mitad del Mundo" marca a Linha do Equador, nos arredores de Quito
Norte e Sul: meus pezinhos plantados nos dois hemisférios
Endereços em Quito
➡️ Restaurante Puerto Manabi 
Calle Ulpiano Paez, entre Alonso Mercadillo e Luís Cordero.

O restaurante é muito simples, com algumas mesas de plástico e atendimento informal. Rocío, a dona da casa, apresenta-se como chef e está certíssima: seus ceviches são um arraso. Você vai ter que comer muito para gastar mais de US$ 15 nesse restaurante.

➡️ Juan Valdez Café
Mariscal Foch, esquina com  Reina Victoria

Na famosa Plaza Foch, onde ferve a noite do bairro de La Mariscal, essa filial do Juan Valdez Café serve especializado em cafés colombianos, oferece WiFi grátis, tem serviço simpático, comidinhas  idem e um quimbolito de responsa.

➡️ Mitad del Mundo
Av. Manuel Córdova Galaraza, cerca de 13 km de Quito.
Abre diariamente, das 9h às 18 horas. Entrada US$ 3.

Mais sobre Quito

O Equador na Fragata Surprise

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5 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.

    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia Paulista

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  2. otimo relato, estive por la, fiquei encantado

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  3. Estive em julho deste ano em Quito. Enquanto lia seu relato, sentia o cheiro e ouvia o som do Centro Histórico e lembrava da beleza da Ciudad Mitad del Mundo. Adorei!

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    Respostas
    1. Quito é uma cidade fascinante. Ela vai pegando a gente aos pouquinhos, não tem aquele arrebatamento imediato. É uma sedutora habilidosa, essa Quito :)

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