sábado, 24 de fevereiro de 2007

Como aproveitar uma conexão:
10 horas em Bogotá

Bairro de La Candelaria, Centro Histórico de Bogotá
O maior erro que cometi, nesta viagem à Colômbia, foi não reservar alguns dias para ver Bogotá. A capital do país em tudo me pareceu interessante: bonita, com seu relevo vertiginoso e o horizonte cortado por montanhas, cheia de opções de restaurantes bacanas, museus de cair o queixo e um centro histórico muitíssimo bem cuidado.

Sim, eu amei Cartagena e delirei com o Caribe das Ilhas do Rosário. Mas vou voltar para casa com saudade de Bogotá, uma cidade que eu apenas entrevi, no espaço que tive entre acordar e pegar o voo de volta para o Brasil (cheguei tarde de Cartagena). Mas pode me esperar porque logo, logo estou voltando.
O Museu Nacional, em Bogotá
Para quem nasceu e cresceu em Salvador, cidade de longo passado colonial, caminhar pelas ruas de La Candelaria, o Centro Histórico de Bogotá, é programa que desperta sensações conflitantes. Por um lado o encanto – sou uma apaixonada por projetos de revitalização de regiões históricas. Por outro, a constatação de que havia uma alternativa muito melhor do que a adotada na chamada “reforma do Pelourinho”.

La Candelaria é o avesso da concepção excludente e equivocada — para dizer o mínimo — que esterilizou o belo conjunto arquitetônico do Pelourinho, esvaído de sua gente e de seu jeito de ser para virar uma cidade cenográfica, a Disneylândia do axé. O Centro Histórico da capital colombiana guarda as origens da cidade, fundada onze anos antes de Salvador, em 1538. Hoje, está cercado pela quarta maior metrópole da América do Sul — Bogotá tem 8 milhões de habitantes — num país até recentemente assolado pela violência do crime organizado, dos paramilitares e das guerrilhas.

Os colombianos conseguiram, os baianos, não. Enquanto o Pelourinho grita sua inviabilidade, La Candelaria é uma comunidade, um bairro vivo, belo. Um lugar para se viver.


Os prédios restaurados abrigam domicílios para diversos padrões de renda. A região é sede de universidades, de uma das bibliotecas mais importantes da América Latina e de pelo menos um museu top de linha internacional, o Museu Do Ouro (que não pude visitar porque estava fechado. Mas já corrigi esta lacuna em meu retorno à cidade, em 2016, e fiquei extasiada com o acervo). O resultado é que, em meio aos turistas cativados pelas atrações da área, tem gente que passa com compras, crianças brincam na rua e moradores passeiam seus cachorros.

O elitismo baiano sempre acreditou que o Pelourinho caía aos pedaços porque lá moravam os pobres. Nos anos 90, o governo tirou os pobres, gastou fortunas reformando casarões, que seriam cedidos a bares e restaurantes — negócios montados com empréstimos oficiais, praticamente a fundo perdido. Rios de dinheiro público irrigaram, artificialmente, um tecido que já estava morto, pagando atrações culturais, a manutenção dos edifícios... Sustentabilidade que é bom, zero.

A Igreja de Las Águas é uma das mais antigas de Bogotá. O bairro que leva seu nome fica aos pés do Montserrate, vizinho da Candelaria
Caminhei por La Candelaria num misto de felicidade e melancolia. Testemunhei como um projeto inteligente é capaz de assegurar a preservação do belo patrimônio desta América do Sul, integrando-o ao cotidiano das pessoas, assegurando que sua preservação não seja uma tarefa excepcional, mas um processo. O tempo todo, me perguntava se os novos conceitos adotados no Brasil para o trato da memória conseguirão salvar o Pelourinho...


Algumas dicas de Bogotá

Onde ficar
Hotel Capital 
Avenida El Dorado nº 69A-51 Int 2 Bogotá

Reservei pela internet e consegui uma pechincha: US$ 100 pela diária single, com café da manhã e traslado de e para o aeroporto. O preço normal é de cerca de US$ 220. Fica numa região moderna de Bogotá, a 30 minutos da chamada Zona T, afastada do Centro Histórico, mas perto do aeroporto, com muitas lojas e restaurantes próximos. Tem quartos enormes e confortáveis, além do serviço muito atencioso.

Na reserva, é importante informar o horário do voo de chegada para o hotel providenciar o transfer incluído na diária. Essa comodidade é comum por aqui. No desembarque no aeroporto, havia uma funcionária do hotel para me receber. Ela me encaminhou para um micro-ônibus "hiperseguro": a bordo, tem um sujeito fortão, armado até os dentes (revólver na cintura e fuzil à bandoleira), segurando um pastor alemão com cara de poucos amigos.

Como eu era a única hóspede chegando, seguimos os três — eu, Maciste e o totó mal-humorado, no compartimento de passageiros. A cabine do motorista é separada por um vidro, suspeito eu que a prova de balas.


Segurança em Bogotá
Perguntei ao fortão do ônibus se o clima em Bogotá estava tão pesado que justificasse o aparato. Ele abriu o riso: “As coisas estão muito calmas por aqui, mas se não tiver segurança ostensiva, los gringos ficam achando que vão ser sequestrados a qualquer momento...”

Apesar do "aparato cenográfico", Bogotá é hoje uma cidade tão segura quanto qualquer grande cidade latino-americana, onde apenas é preciso tomar os cuidados básicos recomendáveis para qualquer lugar. As ruas são bem policiadas. À noite, é recomendável alguma cautela para circular por ruas menos movimentadas em La Candelaria.

Como circulei na cidade
Eu tinha pouco tempo para ver a cidade, apenas um dia (meu voo para o Brasil saía às 21 horas), por isso decidi contratar um taxista para rodar a cidade. Por indicação do hotel, escolhi os serviços de Leonardo Florez e acertei em cheio. Educado, atencioso, discreto e muito bem informado, ele foi um guia exemplar em meu passeio pelo Centro Histórico. Recomendo o trabalho de Leonardo, que pode ser contatado pelo e-mail leoflo2919@hotmail.com e pelos telefones 57-300-2135229 (celular) ou 57-1-6269567.

O que fazer em Bogotá
O que eu queria mesmo era ter ido ao Museo del Oro, considerado, junto com seu “irmão de Lima”, um dos principais acervos de maravilhas pré colombianas das Américas. Mas não gosto de ver museus com pressa, então resolvi fazer programinhas alternativos.

O primeiro foi uma visita ao Museu Quinta de Bolívar, que funciona na quinta doada como agradecimento ao Libertador pelo povo santafereño (o gentílico da capital colombiana vem do nome colonial da cidade, Santa Fé de Bogotá). É uma bela casa, com origens no Século 17, cercada por um parque de árvores frondosas e centenárias. Bolívar e Manuelita Sanz, sua companheira, viveram e passaram muitas temporadas aqui. O acervo é composto de móveis de época, objetos pessoais e documentos, mas o mais bacana mesmo é o velho solar, com suas portas abertas para o verde do parque.

A sala de jantar da Quinta de Bolívar
(Imagem de Pedro Felipe- WikiCommons)
Mesmo depois de convertida num plácido museu, a velha casa de Bolívar ainda seria cenário de aventuras. Em 1974, a quinta foi invadida por militantes do Movimento 19 de Abril, o M-19, grupo guerrilheiro de esquerda, que roubaram a espada do Libertador, deixando um bilhete: "Bolivar, sua espada retorna ao campo de batalha”. Apesar da reserva que eu percebi nos colombianos para falar da luta armada que conflagrou o país no passado recente, esse episódio foi contado com um discreto risinho cúmplice do meu interlocutor...

 Museu Quinta de Bolívar fica quase em frente ao teleférico para o Cerro Monserrate e funciona de terça a sexta, das 9h às 17h. Sábados e domingos das 10h às 16h. O ingresso custa 3 pesos e a entrada é franca aos domingos.

Depois dessa visita e de bater pernas por La Candelaria e pela Plaza Bolívar, porta de entrada para o bairro histórico, onde fica a Catedral, tive uma passagem meteórica pelo museu Casa de la Moneda — que tem um acervo espetacular — apenas para ver as maravilhosas, emudecedoras, acachapantes custódias cobertas de milhares de pedras preciosas que um dia já foram usadas em celebrações católicas, mas hoje são tratadas como tesouros do país e guardadas dentro de um cofre. São de cair o queixo, imperdíveis.

No começo da noite, saí correndo para o aeroporto morrendo de vontade de ficar em Bogotá.
 

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2 comentários:

  1. oi Cynthia:

    sou soteropolitana e estive recentemente na Colômbia a convite de uma amiga colombiana. Tive sentimentos semelhantes aos que você descreve no texto. Sinto uma dor enorme no coração quando vejo nossa história caindo aos pedaços. A Colômbia foi uma surpresa maravilhosa. Visitei o interior, onde a gerrilha é/era bem forte. Convivi um pouco com a história deles. Doi ainda mais perceber que é possível mudar as coisas e que nós estamos falhando constantemente. Senti algo parecido também quando visitei Córdoba, na Espanha. Todo o tempo que andei por ali, imaginei que algo semelhante poderia estar sendo feito no Pelo. Será que um dia conseguiremos salvar nosso belíssimo patrimônio histórico/cultural. beijos Ana

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  2. Oi, Ana,
    Eu sonho com a revitalização do Centro Histórico de Salvador, mas acho que isso só vai acontecer quando as autoridades tiverem a coragem de assumir que a esterilização do Pelô foi um erro, que expulsar os trabalhadores e a gente pobre que vivia lá-- e mantinha tudo de pé, do jeito que podia-- foi a perdição do lugar. Centros históricos muito mais antigos, na Europa, por exemplo, permanecem vivos porque têm gente, relações de vizinhança, laços comunitários.
    Projetos, há muitos, torço sinceramente que algum deles dê certo.
    Obrigada por viajar na Fragata. Beijo

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