29 de setembro de 2010

Fim de ano em Barcelona

Gaudí em Barcelona: Casa Battló e La Pedrera
A Casa Batlló (esq) e La Pedrera, de Gaudí: as filas do fim de ano em Barcelona só me deixaram vê-las pelo lado de fora

Atualizado em outubro de 2019

Que Barcelona é uma muvuca turística, todo mundo já sabe. No intervalo entre o Natal e o Ano Novo (2007/2008), quando estive lá pela primeira vez, a cidade estava à beira de um ataque de nervos de tão lotada.

A folga de de fim de ano na Espanha é longa. O recesso começa antes do Natal e se estica até o Dia de Reis (6 de janeiro). Os espanhóis aproveitam mesmo pra passear — isso vale para Barcelona, Madri, Sevilha, Santiago de Compostela e todas as demais cidades espanholas que já visitei nesse período. Somem-se a eles os visitantes estrangeiros e está feita a multidão.

Plaça Reial, Barcelona
Com um lindo céu azul e um friozinho camarada, foi um prazer passear por Barcelona, mesmo com a "lotação esgotada". Na foto, a Plaça Reial, ao lado das Ramblas

O fim de ano em Barcelona é tão movimentado que precisa de uma estratégia especial para aproveitar a cidade nessa época. A sorte é que Barcelona é tão bonita que a gente nem precisa entrar nas atrações (embora deva!) pra se divertir e ficar apaixonada pela cidade.

Veja como foi meu fim de ano em Barcelona e como aproveitar a cidade driblando as multidões:

Fim de ano em Barcelona

Museu Picasso de Barcelona
O Museu Picasso de Barcelona, na Carrer de Montcada, funciona em um conjunto de belos edifícios góticos
Guia de sobrevivência turística em Barcelona
Se eu soubesse o que sei agora, jamais teria marcado a minha primeira visita para o período do fim de ano em Barcelona. Eu vi muita coisa bonita na cidade, na semana que passei lá, mas não consegui entrar nas principais atrações.

Para quem não faz questão de museus e assemelhados, pode não fazer muita diferença. Mas, pra mim, foi um pouco frustrante. Por exemplo: tentamos ir ao Museu Picasso, mas muito antes de chegarmos à porta do museu, a Carrer de Montcada já estava tomada por uma fila inacreditável.

Interior da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona
O interior da Sagrada Família: só na minha segunda visita a Barcelona eu consegui ver essa maravilha

A situação era a mesma no Quadrat D’Or, aquele pedacinho do Passeig de Gràcia onde estão alguns dos mais famosos edifícios do modernismo catalão. As filas para ver a Casa Batlló e a Casa Millá (La Pedrera), de Gaudí, eram imensas. O mesmo quadro registrado a 2 km dali, no entorno da Basílica da Sagrada Família.

Bater pernas por Barcelona, porém, é sempre uma delícia. Se não deu para ver suas maravilhas por dentro, felizmente eu pude me encantar com as belas fachadas dos edifícios góticos e modernistas, os dois traços arquitetônicos mais marcantes da cidade.

Carrer d'Avinyó, no Bairro Gótico de Barcelona
Não são muitas cidades do mundo onde ruas sem qualquer beleza especial fazem o coração da gente disparar

Mesmo com lotação esgotada, Barcelona é absolutamente cativante. A capital catalã está carregada de referências pra mim. Caminhar pela cidade é lembrar a defesa heroica de seus limites, na Guerra Civil Espanhola, da teimosia catalã em manter seu idioma e sua cultura, sob décadas de ditadura franquista.

Só mesmo em Barcelona o coração da gente pode dar aquela paradinha diante da placa que identifica uma ruazinha totalmente sem graça: Carrer d'Avinyó.

Grafite recorda a pintura "As Senhoritas de Avignon", de Picasso, no Bairro Gótico de Barcelona
As senhoritas de Picasso lembradas por um grafite na Carrer d'Avinyó
Era nessa rua do Bairro Gótico, uma transversal da Carrer de Ferrán, que funcionava o bordel que inspirou Pablo Picasso a criar suas Demoiselles D'Avignon ("Senhoritas de Avignon") que é apenas a tela inaugural da pintura moderna — a obra foi pintada em Montmartre, Paris, no mambembe Bateau Lavoir onde Picasso morava, mas sua alma está em Barcelona.

Como escapar das multidões no fim de ano em Barcelona

Museu de História da Catalunha, em Barcelona
O Museu de História da Catalunha, na Barceloneta

⭐Museu d'Història de Catalunya (MHCAT)
Plaça de Pau Vila nº 3, Barceloneta
De terça a sábado, das 10h às 19h. Quartas, das 10h às 20h. Domingos e feriados, das 10h às 14:30h.
Entrada: € 6.

Se as atrações famosonas estão lotadas, o que não falta são museus menos badalados — mas muito interessantes — para ver em Barcelona. É o caso Museu d'Història de Catalunya (Museu de História da Catalunha, não confunda com o Museu de História de Barcelona, que é outro show de bola).

Museu de História da Catalunha, em Barcelona
O museu é uma aula de história interessantíssima e ainda tem uma coleção de arte com várias telas de Miró
O MHCAT traça um painel interessantíssimo sobre a História da Catalunha, desde o tempo dos Ibéricos até os dias de hoje e é pensado como um centro de referência para divulgar a trajetória e a cultura do povo catalão. Está instalado em antigos armazéns do Porto de Barcelona — de cara para o mar, como convém a uma instituição que se ocupa da história da cidade.

Além de painéis expositivos com achados arqueológicos, documentos e peças históricas, o Museu d'Història de Catalunya também tem uma coleção de arte interessante, onde se destacam várias telas de Miró.

Plaça de Sant Felip Neri (Praça de São Felipe Neri), Barcelona
Plaça de Sant Felip Neri. No detalhe, a fachada da igreja marcada pelas bombas franquistas

⭐ Plaça de Sant Felip Neri
Mesmo lotadíssima nos feriados de fim de ano, Barcelona tem pequenos oásis. A Plaça de Sant Felip Neri, no Bairro Gótico, é um deles.

Acessada pela Carrer de Sant Felip Neri, uma transversal da Carrer de Sant Sever — ou, melhor ainda, por uma romântica arcada sobre a Carrer de Montjuic del Bisbe, que deixa a praça ainda mais misteriosa e encantadora — a Plaça de San Felipe Neri é um larguinho de pouco mais de 250 metros quadrados que se abre diante da igreja do santo que lhe dá o nome.

A Igreja de São Felipe Néri é do Século 18 e, anexo a ela, funciona um convento. As paredes do templo estão profundamente marcadas pelo bombardeio que a aviação fascista de Franco despejou sobre Barcelona em 30 de janeiro de 1938, que matou 42 pessoas, em sua maioria crianças.

Praça de São Felipe Néri (Plaça de Sant Felip Neri), Barcelona
Entrar na Plaça de Sant Felip Neri por esta arcada tem um encanto especial

No centro da praça, um singelo chafariz e uma frondosa acácia desenham um cenário de profundo sossego.

Uma dica da historiadora e guia turística Cristina Rosa, minha querida amiga que escreve o excelente blog Sol de Barcelona: a Igreja de São Felipe Neri só abre aos domingos pela manhã, para a missa.

Para bebericar enquanto curte o sossego da praça, o charmosíssimo Hotel Neri, que faz parte da associação Relais & Chateaux, costuma colocar mesinhas de seu bar e restaurante (também chamado Neri) ao ar livre, num cantinho do largo. A entrada oficial do hotel é pela Carrer de Sant Sever n° 5.

Altar-mor da Igreja de Santa Maria del Pi, em Barcelona
A beleza despojada do interior da Igreja de Santa Maria del Pi

⭐Plaça de Sant Josep Oriol
O Bairro Gótico é o meu grande xodó em Barcelona (vocês já sabem que eu não resisto a cenários medievais) e outro bom lugar para curtir a atmosfera dessa área é a Plaça de Sant Josep Oriol, diante da bela Igreja de Santa Maria del Pi, uma das joias do gótico catalão na cidade.

“Santa Maria del Pi” significa Santa Maria do Pinho: acredita-se que a imagem que hoje adorna o altar da igreja foi encontrada dentro do tronco de um pinheiro, daí o nome.

A primeira vez que entrei nessa bela construção do Século 15 foi para assistir ao recital de um violonista, na minha segunda noite em Barcelona. Santa Maria del Pi promove muitos concertos e, por mais que a programação possa soar meio “para turistas”, ouvir o Concerto de Aranjuez entre aquelas paredes foi bem comovente.

Fachada e um altar da Igreja de Santa Maria del Pi, em Barcelona
A fachada da igreja e um de seus preciosos altares laterais
O interior da Igreja de Santa Maria del Pi parece muito despojado, o que torna os poucos adornos ainda mais tocantes da nave principal — como um lindo vitral sobre a porta de entrada.

A pedra nua em contraste com as poucas imagens do altar-mor, onde está a imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços, tem uma tremenda eloquência, até para ateias, como eu. Parte desta singeleza é resultado de bombardeios e também de um terremoto.

Vitral da Igreja de Santa Maria del Pi, em Barcelona
O vitral sobre a entrada principal de Santa Maria del Pi

Mas não deixe de prestar atenção aos magníficos altares laterais da igreja de Santa Maria del Pi, que são preciosos.

Na Plaça de Sant Josep Oriol, alguns bares e restaurantes mais sossegados convidam a uma pausa relaxada, entre tapas e drinques. Não vou recomendar nenhum específico, porque o restaurante onde jantei (bem) nessa praça, o El Pi Antic, já não existe mais.

➡️Basílica de Santa Maria del Pi
Plaça Sant Josep Oriol
Visitas: diariamente, das 10h às 18h. Fechada dias 25 e 26 de dezembro e 12 de maio.
Entrada: € 4,50 (visita à igreja, cripta, tesouro e museu). A visita guiada com subida ao campanário custa € 9.


⭐El Xampanyet
Carrer de Montcada nº 22, El Born
Aberto de terça a sábado, do meio-dia às 15:30h e das 19h às 23h. Aos domingos, apenas das 12h às 15:30h

Um jeito bom de escapulir das multidões em Barcelona é escolher uma mesinha ou um cantinho em um balcão, pedir tapas (tira-gostos à moda da cidade) e arrematar tudo com uma (ou várias) taça de cava, o espumante catalão. É tiro e queda para realçar o prazer de estar na cidade.

El Xampanyet, champanheria tradicional de Barcelona
Eu (de pé) cazamiga em El Xampanyet. O brinde foi pra comemorar a sorte de encontrar uma mesa em um lugar que vive lotado 😂

Uma dessas escapadas foi surpreendentemente: encontramos uma mesa vaga na El Xampanyet (\o/), a mais tradicional das casas de cava de Barcelona — que vive cheia, e com toda razão.

Fundada em 1929, na histórica Carrer de Montcada (a rua medieval mais preservada de Barcelona), El Xampanyet tem aquela cara de taberna, com barris à vista do freguês, e atendimento inesperadamente simpático, para um lugar tão turístico.

É o típico caso de um bar que vira atração turística — mas, felizmente, não perde o bom astral.

Barcelona, Mercado da Boqueria
Mercado da Boqueria: é turístico, mas é maravilhoso

⭐Mercado da Boqueria
La Rambla nº 91
De segunda a sábado, das 8h às 20:30h

Por falar em atração turística que não perde o bom astral, não tem lotação esgotada que impeça uma visita ao Mercado da Boqueria (Mercat de la Boqueria), outra instituição de Barcelona.

Postado estrategicamente nas Ramblas, à vista das hordas de turistas, o Mercado da Boqueria lugar ferve a qualquer hora, mas sempre se dá um jeito de encontrar um cantinho espremido em um balcão de seus restaurantes para provar frutos do mar irrepreensíveis e uma taça de cava.

Barcelona: Mercado da Boqueria
Eu nem tento resistir às tentações do Mercado da Boqueria

Para compras, então, o Mercado da Boqueria é uma festa: cerejas perfeitas, framboesas idem, uvas dos deuses, porções de jamón... E os queijos, ah, os queijos...

Fiquei particularmente viciada em um queijo manchego curado, que cai perfeitinho com as frutas da Boqueria para acompanhar o cava ou o vermout. Os manchegos são feitos com o leite das ovelhas de La Mancha, terra de D. Quixote, e parece que trazem os moinhos de vento no sabor, de tão leves e saborosos.

Barcelona, Mercado da Boqueria

O Mercado da Boqueria talvez seja a única atração turística de Barcelona que você pode virar do avesso, por mais lotada que esteja a cidade. Mesmo no meio da multidão, que olha os produtos como se fossem telas num museu, os vendedores atendem com simpatia e presteza — como será que eles conseguem?

Quando cansava da muvuca das ruas, era só fazer a feira no mercado e fugir para o terraço do apartamento onde estava hospedada, ali do ladinho, na Carrer de Barberá, para ver o sol cair sobre os telhados do Raval.


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