quinta-feira, 7 de abril de 2016

O que fazer em Villa de Leyva

Lua cheia em Villa de Leyva:
daquelas cenas que fazem a vida valer a pena
Se você gosta de cidades coloniais, Villa de Leyva precisa entrar urgente na sua lista. Essa perolazinha do Século 16 está assentada em um vale andino na região de Boyacá, na Colômbia, e preserva muito da arquitetura e do sossego de e tempos passados. Uma escapada bacana para quem vai a Bogotá.

O melhor da cidade é caminhar à toa por suas ruas de calçamento irregular, à sombra das paredes de taipa dos casarões seculares. A Villa de Leyva encanta e se aproxima do visitante nos pequenos detalhes, ao mesmo tempo em que me deixava muda pela imponência e harmonia do conjunto. Muito preservada, cercada de montanhas e com um astral animado (esse por conta da grande quantidade de turistas que chegaram para o feriado da Semana Santa), a cidadezinha é um retrato vivo da colonização espanhola.

Neste post, você vai conhecer um pouquinho da história da Villa de Leyva e passear comigo por alguns de seus recantos mais bonitos. Bora?

Na vila, tudo começa e termina na Plaza Mayor

A Vila de Santa Maria de Leyva foi fundada em 1572 para alojar (e manter ocupados) parte dos grandes contingentes militares espanhóis que atravessaram o Atlântico para lutar na conquista do Novo Mundo. Consolidada a conquista, era preciso empregar as mãos e as cabeças de tantos soldados, que ganhavam glebas, tornavam-se agricultores e senhores de terras.

As dimensões da Plaza Mayor da vila atestam o tamanho e poder desses exércitos: os impressionantes 14 mil metros quadrados — hoje placidamente percorridos por turistas e embevecidos — eram usados para os exercícios de ordem unida das tropas.

Imagine a quantidade de soldados necessária para preencher esse espaço
Muitos dos casarões da praça hoje abrigam bares e restaurantes. À noite, é bacana escolher uma mesa em um dos balcões e observar o movimento
E é na Plaza Mayor que eu recomendo que você comece seu passeio por essa cidade pequenininha, mas cheia de coisas lindas para ver. O calçamento da praça, em pedras irregulares, é famoso e impressionante. Ele havia sido retirado da área para que o espaço pudesse ser usado como mercado ao ar livre, mas foi reconstituído nos anos 60 do século passado, para a alegria dos nossos olhos — se não tanto dos nossos joelhos.

A Igreja do Rosário e o Cabildo, com o busto de D. Andrés na fachada

Em torno da Plaza Mayor estão algumas das construções mais importantes de Villa de Leyva: a Igreja do Rosário, que faz as vezes de catedral, e a sede do Cabildo (governo local, na época da colônia), logo ao lado. Solares centenários, em sua maioria convertidos em pousadas, restaurantes e museus (como o Museu Casa de Luiz Roberto Acuña), completam os limites do quadrilátero monumental, um grande espaço vazio pontuado apenas por uma fonte em estilo mudéjar de linhas sóbrias.

Até queria fazer fotos melhores do altar dourado da Igreja do Rosário, mas toda vez que passava por lá estava sendo rezada uma missa...

Perdi a conta de quantas vezes dei a volta na praça, admirando a harmonia de suas linhas e a vastidão daquele pedacinho intocado do passado colonial.

O nome da vila vem do presidente da Real Audiência (uma espécie de Suprema Corte de Justiça, no Império Espanhol) do Reino de Nova Granada, Andrés Díaz Venero de Leyva, o que também atesta sua importância política e militar na marcha da conquista europeia sobre aquele trecho dos Andes. Don Andrés é devidamente homenageado por um marco de pedra, na entrada do Cabildo.

A Calle Caliente de manhã bem cedinho, antes das lojas abrirem. À direita, o belo portal do Museu Casa Luiz Roberto Acuña
De combatentes a agricultores, os primeiros assentados de Leyva deram apenas continuidade à tradição da região, antes um importante centro agrícola do povo Muísca (o mesmo que povoava a região de Bogotá), os últimos grandes senhores do altiplano da Cordilheira Oriental até a chegada dos espanhóis.

A presença humana na área remonta a pelo menos 12 mil anos e os arredores da vila preservam vários sítios pré-colombianos, como um observatório astronômico (El Infiernito) e grutas com pinturas rupestres. Antes do Homo-Sapiens andar por lá, há milhões de anos, a região foi um caudaloso mar, o que explica também a grande quantidade de achados fósseis. Mas os arredores de Leyva vão ganhar um post só pra eles :)

Plaza del Carmén

Detalhe da Igreja del Carmén, no Convento das Carmelitas Descalças
A agricultura  levou a Villa de Leyva a seu esplendor, ao longo do Século 17. A cultura do trigo, importada da Europa, abastecia vastas áreas do Reino de Nova Granada e assegurava a pujança que fez surgir as primeiras casas senhoriais e imponentes edifícios públicos, geralmente erguidos em taipa e com o onipresente pátio central, herdado de romanos e árabes, que caracteriza a arquitetura espanhola de então.

O Século 17 também legou à vila duas construções religiosas importantes. A primeira é o Convento das Carmelitas Descalças, de 1645 (dizem que o claustro é deslumbrante, mas não está aberto à visitação). A pracinha onde está o convento, que reveza o chão batido com gramado tímido, parece um quintalzinho íntimo, comparada com a vastidão da Plaza Mayor — e talvez por isso tenha uma beleza tão tocante.

Igreja de São Francisco

O Claustro de São Francisco está em reformas, mas permanece aberto ao público e com o jardim muito bem cuidado
Em frente à igreja do convento fica um Museu de Arte Sacra que, infelizmente, não pude visitar por conta dos feriados da Semana Santa. O acervo, porém, é bem reputado.

Outro cantinho encantador é a Praça de São Francisco, com a igrejinha de 1614, de traços muito simples, e o claustro que hoje abriga repartições públicas.

Também dessa época, mas com destinações muito mais profanas, o imponente edifício da Fábrica Real de Licores ainda exibe o brasão da Coroa Espanhola.

Calle Caliente

Fábrica Real de Licores
Uma rua que merece ser percorrida da Plaza Mayor até o finalzinho, onde a cidade “acaba” é a Calle Caliente, nome do trecho da Carrera 9 que começa depois da Igreja Paroquial e segue na direção Leste. Com o calçamento original e cortada por uma ponte colonial, a via concentra uma série de construções muito bem preservadas, hoje transformada em lojas de artesanato, pousadas e restaurantes.

A abundância, porém, não durou muito. Os últimos anos do Século 17 marcaram o declínio das lavouras de trigo, atacadas por uma praga devastadora — segundo os Muíscas, uma vingança do milho, filho da terra, desprezado por aquela gente de pele branca e hábitos estranhos. Bem que um eclipse total do sol tentou avisar sobre o que estava por vir, mas a derrocada foi inevitável e, como sempre acontece, a decadência econômica adormeceu a cidade para estancar o que alguns chamam de “progresso” e as mudanças de suas feições.

Ponte de San Agustín - e algum gaiato achou de passar batom no santo

E ainda tem brechozinhos legais pra garimpar 
Em síntese: é possível que se já tivessem inventado os agrotóxicos no Século 17, Villa de Leyva fosse hoje uma cidade de trânsito nervoso e ainda mais quente, calcinada pelos reflexos das esquadrias de alumínio e vidros fumê. Por via das dúvidas, em Leyva são populares os dois tipos de arepas (o pãozinho dos colombianos), feitas de milho, como é comum no resto do país, ou de trigo, à moda boyacense.

Para ter uma ideia do jeito de viver da Villa de Leyva, recomendo uma visita a três museus-casas da cidade (como vocês já leram aqui na Fragata, sou fã dessa modalidade museológica). O primeiro é o Museu Antonio Ricaurte, que homenageia o líder independentista mártir da Batalha de San Mateo, filho da cidade.

Monumento lembra Antonio Ricaurte, capitão das forças independentistas. Cercado pelos espanhóis na Batalha de San Mateo, ele preferiu explodir um paiol de pólvora a se entregar
O segundo é a Casa de Antonio Nariño, que chegaria a presidente da República da Colômbia e passou a morar na vila, nos períodos em que estava fora da prisão – de seus 58 anos de vida, ele passou 21 atrás das grades, muito por sua obstinação em divulgar a Declaração dos Direitos do Homem gestada na Revolução Francesa. O terceiro é a Casa de Luiz Roberto Acuña, um belo solar da Plaza Mayor que guarda parte da obra do pintor - esses três museus ganharam um post só pra eles:

A história da Colômbia em três museus de Villa de Leyva
 
Mais sobre Villa de Leyva
A Colômbia na Fragata Surprise

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