1 de julho de 2022

Dois de Julho: com tiranos não combinam brasileiros corações

Cabocla no desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia
O Caboclo representa os heróis anônimos que participaram das lutas pela Independência na Bahia

Música deste post: Hino ao Dois de Julho (Hino do Estado da Bahia)
Orquestra Sinfônica Juvenil 2 de Julho - Neojibá, sob a regência do maestro Yuri Azevedo, com vocal de Tatau. Arranjo do maestro Fred Dantas


Faz 31 anos que eu vivo fora da Bahia. Já me resignei a comer contrafações de acarajé, a refrear a irreverência e até a encontrar os amigos só com hora marcada. Mas tem um dia do ano em que eu não consigo evitar a melancolia dos exilados, apátridas e degredados em geral: no Dois de Julho, a vontade de estar em Salvador é uma voragem.

O Dois de Julho é a festa da Independência na Bahia. Não seria incorreto dizer que é uma celebração cívica, mas isso não explicaria nada. Num Brasil tão conformado em comemorar datas, fatos e personagens que parecem feitos e propriedade da meia dúzia do andar de cima, só indo lá pra ver o orgulho, a alegria e o escracho dos baianos e baianas se afirmando como donos de uma História.

É verdade que a Bahia é especial, mas a gente não criou a nossa própria festa de Independência só pra ser diferente. É que depois do 7 de setembro de 1822, nossos antigos colonizadores não estavam dispostos a largar o osso e se aferraram às terras baianas e outros torrões, reduzindo a proclamação de Pedro I às margens do Ipiranga a um grito retórico. 

Só em Dois de Julho 1823 é que o exército português seria finalmente mandado para casa, a muque, pelo povo da minha terra.

Maria Felipa, filha de sudaneses, liderou um grupo de mulheres que enfrentou marinheiros portugueses, frustrando um desembarque na Ilha de Itaparica. Mesmo assim, foram precisos 105 anos para que ela virasse nome de rua na cidade que ajudou a libertar. Joana Angélica era a abadessa do Convento da Lapa e foi assassinada por soldados portugueses tentando impedir a invasão da clausura
 
Estátua de Maria Quitéria em Salvador, Bahia
Maria Quitéria de disfarçou de homem, alistou-se nas tropas baianas e foi condecorada por bravura

Para saber mais sobre Mara Felipa: Itaparica, veraneio de antigamente

A Guerra de Independência da Bahia é um feito histórico dos mais importantes em nosso país. Pouco conhecido fora das fronteiras baianas, seria estudadíssimo nas escolas, se tivesse ocorrido no Sudeste. 

Mas meu chamego com o Dois de Julho é que ele nunca se limitou à vitória militar nas Colinas de Pirajá, em 1823, e sua celebração jamais se reduziu à estética ou à essência marcial.

Claro, bastaria o heroísmo anônimo, o protagonismo feminino — a Bahia sempre foi uma terra de mulheres retadas — e a “construção coletiva” pra merecer uma baita celebração da data. Mas para estar à altura do que foi na história, o Dois de Julho é uma grande festa popular, plural, uma solenidade irreverente que é a cara da Bahia.

Estátua do Corneteiro Lopes em Ipanema, Rio de Janeiro
Reza a lenda que um erro do Corneteiro Lopes determinou a vitória dos baianos sobre os portugueses, em Pirajá. Ele é um dos meus heróis favoritos do Dois de Julho. Essa estátua, desenhada pelo cartunista Ique, está instalada na esquina esquina da Visconde de Pirajá com a Garcia D'Ávila, em Ipanema, Rio de Janeiro

Sobre o Corneteiro Lopes, leia Dois de Julho em Ipanema

 Se você quer conhecer a Bahia, precisa participar de um desfile do Dois de Julho, ver passar (ou ajudar a empurrar) os carros da Cabocla e do Caboclo e cantar a plenos pulmões que "Com tiranos não combinam brasileiros corações", como proclama o nosso hino.

Veja que linda é essa celebração à identidade baiana. 

desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia
O Dois de Julho é muito mais do que uma solenidade oficial. É uma festa militante e plural
Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia
A história do Dois de Julho tem forte protagonismo feminino. A Bahia tem tradição de ser um terra de mulheres retadas
(foto de Kau Santana)

A Festa do Dois de Julho na Bahia

Amanhã, 2 de julho, Salvador vai amanhecer mais bonita e enfeitada do que em qualquer outro dia do ano. Às 5h da manhã, quando começaram a pipocar os rojões da alvorada, lá pras bandas da Lapinha, aposto que já vai ter muito baiano prontinho para a devoção: Dois de Julho é dia de acompanhar os carros da Cabocla e do Caboclo no desfile cívico mais sincrético, plural democrático e inclusivo deste país.

Sabe uma parada cívica? Esqueça. O Desfile do Dois de Julho é tudo, menos aquele rito engomadinho. A Bahia celebra sua data máxima gingando o corpo pelo calçamento irregular de ladeiras históricas, parando aqui e ali para um golinho e envergando as cores e adereços de sua predileção. 

O cortejo até tem governantes, bandas militares e solenidade. Mas o que tem mesmo é povo e muita farra.

Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia
O Dois de Julho tem espaço para protestos e celebrações

Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia

O Desfile de Dois de Julho é uma espécie de parada-mostruário das milhares formas de ser baiano. Os metais das bandas e fanfarras vindas de diversos pontos do estado soam lado a lado do toque dos afoxés. Os sindicatos, partidos políticos, igrejas e vêm no embalo. Tem as feministas, a comunidade LGBTQIA+, o Movimento Negro, os estudantes — carregando a bandeira da UNE ou envergando o uniforme escolar, em blocos liderados por balizas de saiotes e pompons.

E, no meio das organizações, tem os "independentes", como meu avô João Lima, que nunca perdeu um desfile de Dois de Julho enquanto esteve neste mundo. 

Desfile do Dois de Julho, Salvador Bahia
Quando chega no Terreiro de Jesus, o desfile faz uma pausa, antes de ser retomado, depois do almoço, para seguir até o Monumento dos Caboclos, no Campo Grande

Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia
O Pelourinho está na rota do desfile, que percorre 5 km pelo Centro antigo de Salvador

A caminhada começa cedo, às 8h da manhã, no Largo da Lapinha. É lá que “moram” os carros do Caboclo e da Cabocla, no Pavilhão Dois de Julho.

 Segundo historiadores, a origem do desfile foi a marcha do exército baiano de volta a Salvador, após a vitória sobre os portugueses em Pirajá, 11 km do campo de batalha até o Terreiro de Jesus.  

Hoje o cortejo começa na na Lapinha, sob as bênçãos de Maria Quitéria. A cachoeirana que se vestiu de homem para se alistar e lutar com as tropas brasileiras é homenageada no largo com uma estátua, onde é retratada envergando o saiote que passou a usar quando seus companheiros de armas descobriram que o bravo Soldado Medeiros era uma mulher.

Pavilhão Dois de Julho e Estátua do Caboclo da Independência, Salvador, Bahia
Ponto de partida e ponto de chegada. À esquerda, o Pavilhão Dois de Julho, na Lapinha. À direita, detalhe do Monumento à Independência, que a Bahia chama de Caboclo do Campo Grande — quando um baiano manda alguém ir chorar no pé do caboclo, versão polida para dane-se, a pessoa já sabe aonde ir

A caminhada do Dois de Julho percorre 5 km pelo Centro antigo de Salvador, da Lapinha ao Campo Grande, com uma parada para reabastecimento no Terreiro de Jesus, no meio do caminho.

Eu jamais consegui chegar na Lapinha a tempo de assistir à largada do Desfile do Dois de Julho. Não tem a menor importância, porque ninguém vai lá pra assistir nada. 

Quem vai à celebração, vai encontrar os companheiros, confraternizar, protestar, afirmar baianidade e jogar beijo para as senhorinhas de cabeça branca que enfeitam o peitoril de suas janelas do Santo Antônio e do Carmo com lindas colchas em Bordado Richelieu. 

Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia
 
Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia
Ainda criança, eu ficava emplogadíssima em ver a Cabocla, representação das mulheres que lutaram pela independência, ser reverenciada em pé de igualdade com o Caboclo

Problema, mesmo, é o tal intervalo no Terreiro de Jesus. Enquanto a “porção oficial” do cortejo se recolhe pra almoçar, é inevitável cair no cravinho, bebida típica do Centro Histórico de Salvador, sonsa que só ela, ainda mais caindo em estômagos vazios — é ocioso dizer que pra chegar à Lapinha às 8h, é preciso pular o café da manhã.

Para uma festa tão plural e passional, que junta dezenas de milhares de pessoas, o Dois de Julho é de uma tranquilidade e cordialidade impressionantes. 

Em décadas de participação, a única confusão que testemunhei (e na qual me envolvi com muita dedicação) foi em 1999, quando o governo carlista mandou a polícia barrar a passagem do gigantesco bloco de esquerda que integrava o cortejo.

Com presenças ilustres, como o futuro presidente Lula, a hoje deputada federal Luiza Erundina e o ex-governador Waldir Pires, nosso grupo ficou encurralado na estreita Rua Alfredo de Brito, passagem do Pelourinho para o Terreiro de Jesus, impedido de avançar pelo cordão policial e pressionando pela multidão que vinha atrás. Não demorou para os cassetetes começarem a baixar no nosso lombo, mas a gente conseguiu passar.

Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia

Desfile do Dois de Julho, Salvador, Bahia

Comecei a frequentar o desfile de Dois de Julho quando era criança. Ainda não caía na esbórnia, naturalmente. Mas, pra aquela menina privilegiada e protegida das intempéries sociais, esses encontros com o povo da minha terra foram decisivos. Foi lá que aprendi a amar a Bahia fora da minha bolha, da minha cor e da minha classe. E essa é uma viagem sem volta.

Amanhã é Dois de Julho e eu, mais uma vez, vou estar longe de Salvador. Vai ser inevitável cair na mesma fossa que o camarada lá de Portobello caiu. Mas sempre tem o ano que vem...

A Guerra da Independência na Bahia
Se você estudou em uma escola não-baiana, certamente aprendeu que a independência do Brasil foi quase um passe de mágica. Pedro de Alcântara gritou abracadabra — no caso, “Independência ou morte” — e fez-se a luz.

Marco do 25 de Junho em Cachoeira, Bahia
Em Cachoeira, no Recôncavo, os combates começaram em 25 de junho de 1822

O que você não aprendeu é que muito antes do grito do Ipiranga, baianos e baianAs já estavam engajados na porrada para assegurar um Brasil independente de Portugal. 

Tá, discurso e articulação pra isso tinha em tudo quanto é canto. Mas as vias de fato começaram e terminaram na Bahia.

Em fevereiro de 1822, Salvador já estava em clima de guerra civil contra o ato do governo português nomeando o tenente-coronel Madeira de Melo como comandante das armas na Província da Bahia.

Cachoeira vista de uma sacada da Câmara Municipal
Cachoeira vista de uma sacada da Câmara Municipal. O edifício era o principal alvo da canhoneira portuguesa

Foi durante as escaramuças de fevereiro entre baianos e as tropas da metrópole que a abadessa do Convento da Lapa, Joana Angélica, acabaria assassinada a golpes de baioneta por soldados portugueses. A versão mais aceita é que os lusitanos pretendiam invadir a clausura do convento, onde as freiras tinham dado refúgio a combatentes baianos.

Em 14 de junho de 1822, a Câmara de Santo Amaro da Purificação (a terra de Caetano Veloso e Maria Bethânia), no Recôncavo Baiano, proclamou um Brasil independente e unificado sob a autoridade de Pedro I. Vinte e um dias depois, a 40 km dali, a Vila de Cachoeira proclamaria um governo local independente de Portugal.

Carros das Caboclas da Independência de Itaparica e Cachoeira, Bahia
Itaparica (esq) e Cachoeira também desfilam suas Caboclas da Independência. Na Ilha, a festa é no dia 7 de janeiro, quando Maria Felipa botou os invasores pra correr com surra de cansanção. Em Cachoeira, no dia 25 de junho, quando o Tambor Soledade chamou o povo para calar a canhoneira 

O 25 de junho de 1822 em Cachoeira desencadeou uma feroz reação portuguesa. Uma canhoneira, ancorada no Rio Paraguaçu, abriu fogo sobre a cidade. A população reagiu e, armada com pouco mais do que foices e porretes, atacou e tomou a canhoneira. 

Contam os cachoeiranos que o povo foi reunido e chamado ao combate pelo Tambor Soledade, que acabaria morto, atingido pelo bombardeio português.

A data é celebrada todos os anos com a transferência da capita da Bahia para Cachoeira, que realiza um grande desfile comemorativo. 

Também é em Cachoeira que é aceso o fogo simbólico da Independência. De lá, a tocha é carregada por atletas até Pirajá, percorrendo cidades do Recôncavo. No final do percurso, é acesa uma pira, no dia 1º de julho.

A partir do levante de Cachoeira até a vitória final dos baianos, no Dois de Julho, a luta se espalhou pelo Recôncavo, contando principalmente com o esforço de escravos, alforriados e trabalhadores pobres. A presença das mulheres entre os combatentes era comum, como atestam as memorias de Maria Felipa e de Maria Quitéria.

Celebração da Independência da Bahia em Itaparica
Largo Tenente Botas, em Itaparica, que leva o nome do marujo que comandou uma flotilha de pequenas embarcações defendendo a Ilha e a Barra do Rio Paraguaçu contra as investidas da marinha portuguesa

Depois da proclamação de 7 de Setembro, chegou a ajuda de tropas e navios enviados pelo governo de Pedro I. Em terra, esses contingentes eram comandados pelo general francês Pierre Labatut. No mar, o comando foi entregue ao controvertidíssimo Thomas Cochrane — mas o grande nome da Batalha Naval de Itaparica é o tenente João das Botas

Ainda em vida, Cochrane era uma autêntica lenda maruja, por seu talento de navegador e guerreiro. Lutou nas Guerras Napoleônicas e nas guerras de independência do Chile (onde é o patrono da Marinha) e do Brasil. Ele caiu em desgraça com a Royal Navy (Marinha Britânica) por conta de um esquema de especulação com suprimentos de guerra na Bolsa de Londres. Quando estive no Pará, ouvi muitas histórias de atrocidades cometidas por ele contra os Cabanos.

Lord Cochrane é apontado como a principal inspiração para o personagem do Capitão Jack Aubrey, comandante da Fragata Surprise na série de livros do escritor irlandês Patrick O'Brian.

Revolta dos Búzios
24 anos antes do Grito do Ipiranga, a Revolta dos Búzios propunha Independência, República e fim da escravidão. O cartaz comemorativo é do tempo em que os Direitos Humanos tinham um ministério no Brasil

Muito antes de 1822

Não se iluda com a suavidade de João Gilberto cantando Avarandado: a Bahia é qualquer coisa, menos mansa. O dinheiro — que transitou do tráfico de escravos à petroquímica quase sem trocar de mãos — até fica quietinho, recostado em suas almofadas, mas minha terra é de luta.

Que o digam Ana Romana e Domingas Maria do Nascimento, mulheres negras alforriadas, os alfaiates João de Deus Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira e os soldados Lucas Dantas do Amorim Torres e Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, homens de pele parda. Elas e eles foram os líderes da Revolta dos Búzios, deflagrada em 12 de agosto de 1798.

“Animai-vos, povo bahiense, que está por chegar o tempo feliz da nossa liberdade: o tempo em que todos seremos iguais”, dizia o manifesto do movimento que propunha a Independência, a República e o fim da escravidão. A Conjuração Baiana terminou em forca, degredo e exílio para seus líderes de origem popular e escanteada nos livros de História, até muito recentemente.

Agradecimento
Este post só pode sair do forno with a little (big) help from my friends. Obrigada pela generosidade Eduardo Dias Lima, que me cedeu a maioria das fotos que ilustram o texto. Muito obrigada, também a Gina Maria Portela, que me ajudou a encontrar imagens do Dois de Julho, e a Kau Santana, autor da foto da Maria Quitéria com as caboclas.

Salvador na Fragata Surprise



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3 comentários:

  1. Belo trabalho, Parabéns!

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  2. Parabéns! Adorei!

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  3. Eu adorei obrigada por nos informar
    A nossa história desse Brasil.tão lindo
    Eu..apesar de tudo tenho orgulho de ser Brasileira..um abraço e fica com Deus.

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