7 de janeiro de 2012

Itaparica, Bahia - veraneio de antigamente

Forte de São Lourenço, Itaparica, Bahia
A Ponta da Baleia e o Forte de São Lourenço: 
para ver o cair da tarde em Itaparica
Dia 7 de Janeiro é dia de empurrar carro de caboclo, reverenciar heróis que só a Bahia conhece e festejar a audácia do povo do Recôncavo.

Foi nesta data, em 1823, que a cidade de Itaparica venceu a esquadra portuguesa que tentava ocupar a Ilha, num dos episódios mais empolgantes da Guerra de Independência.

Largo Tenente Botas, Itaparica, Bahia
Largo Tenente Botas, tradicional ponto de encontro nos fins de tarde, ornamentado para a Festa da Independência
Nada impressionadas com o Grito do Ipiranga, as tropas lusitanas que enxameavam na Bahia precisaram ser mandadas de volta para o outro lado do Atlântico com um pouco mais de persuasão. Coube aos baianos fazer uma guerra para assegurar a Independência do Brasil, consolidada e 2 de Julho de 1823.

No 7 de Janeiro, o povo da Ilha de Itaparica fez bonito. No mar, uma flotilha de saveiros e canoas, comandada pelo marujo João das Botas, enfrentou e venceu a Marinha portuguesa. 

Em terra, as itaparicanas, lideradas pela marisqueira Maria Felipa, explicaram direitinho às tropas da Coroa o significado da expressão "mulher retada".

Carro da Cabocla da Independência, Itaparica, Bahia
O desfile do Carro do Caboclo é 
a melhor parte da festa
Celebrada com alvorada de fogos de artifício, festa de largo, banda de música, desfile de carro de caboclo, samba e folia, a Independência de Itaparica é o grande dia da Ilha e de sua "capital". Com festa ou sem festa, porém a cidade é sempre um delicioso pedacinho de antigamente. 


Eu convido vocês a um passeio em Itaparica. Bora?


O que ver em Itaparica
Em Itaparica, ainda ainda é de lei colocar as cadeiras na calçada para aproveitar a brisa do final da tarde. Afreguesa do acarajé conhece os veranistas frequentes pelo nome.

Famosa como estância hidromineral, a cidade de Itaparica é o veraneio mais tradicional da Bahia. 

Suas casas térreas — muitas delas com pelo menos uma frondosa mangueira no quintal — teimam na resistência discreta e firme à praga dos condomínios que assola a Ilha de Itaparica desde os anos 80.

Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, Itaparica, Bahia
Campanário da Matriz do Santíssimo Sacramento
A cordialidade de Itaparica resiste até mesmo ao crescimento escandaloso da criminalidade. Moradores e veranistas estão mais atentos, mas não abrem mão do passeio preguiçoso à beira mar, da passadinha na Praça Tenente Botas, para um sorvete ou uma cerveja à sombra das mangueiras, nem de bater o ponto no antigo cais da Companhia Baiana de Navegação para ver o pôr do sol. 

A sensação de veraneio de antigamente fica completa quando se ouve a algazarra das crianças brincando nas gangorras e balanços, em frente à Igreja Matriz.

Rua do Amparo, Itaparica
A cidade preserva casas antigas e o astral do veraneio de antigamente, como na Rua do Amparo
Sou veranista da ilha, do povoado de Gameleira, a sete quilômetros da cidade de Itaparica, desde 1972. Nesses 40 anos, criei meu roteiro clássico para as visitas à cidade  sempre à tardinha, porque Itaparica é uma fornalha, nos meses de verão. 

➡️A Fonte da Bica de Itaparica
Sempre começo os passeios em Itaparica me abastecendo de água mineral na Fonte da Bica, uma veneranda instituição itaparicana.

Fonte da Bica, Itaparica, Bahia
Fonte da Bica: água mineral de alta qualidade à disposição de todos
É lá que moradores e veranistas dos diversos pontos da Ilha vêm se abastecer de água mineral, servida livremente (grátis) nas torneiras.

A excelência da água da Bica é celebrada num antigo refrão, gravado nos azulejos da fonte: "Ê água fina/ Faz velha virá menina".

A Fonte da Bica já era conhecida no século 16, quando os jesuítas iniciaram a colonização da Ilha de Itaparica.

Igreja de São Lourenço, Itaparica, Bahia
A igrejinha de São Lourenço, do Século 18
➡️O centrinho de Itaparica
Itaparica tem três igrejas que merecem uma visita. A da Piedade, com sua fachada muito simples, é de meados do Século 19. A bela Matriz do Santíssimo Sacramento e a pequena e fofa Igreja de São Lourenço ficam uma em frente à outra e são ambas do Século 18. 

Também vale uma passadinha no Forte de São Lourenço (Século 17), na Ponta da Baleia, e pelo Sobrado Monsenhor Flaviano, no Largo da Piedade, onde eu adoro fotografar as linhas anos 50 do Hotel Icaraí

Fica tudo pertinho e o passeio é muito agradável, com a brisa que sopra do mar, no finzinho da tarde.

Igrejas de Itaparica: Igreja do Amparo e Igreja de São Lourenço
A Igreja da Piedade (esq) e o papo animado na Igreja de São Lourenço
Mas programão em Itaparica mesmo é sentar numa mesinha sombreada da Praça Tenente Botas e tomar um sorvete de mangaba ou tapioca da Sorveteria How Nice. É dali que se contempla o melhor pôr do sol da Ilha de Itaparica. 

Na Praça Tenente Botas também fica o Centro de Artesanato, que funciona no casarão onde João das Botas, herói da Independência, viveu seus últimos anos. A Fragata sempre presta seus respeitos a esse homem do mar. 

Centro Histórico de Itaparica, Bahia
Tem coisa melhor que 
brincar  de balanço na praça?
➡️Maria Felipa, heroína de Itaparica
A memória de outra heroína de Itaparica, a marisqueira Maria Felipa, porém, não é de pedra e cal. A valentia dessa mulher negra ficou esquecida por mais de um século. 

O historiador Ubaldo Osório (avô do também itaparicano escritor João Ubaldo Ribeiro) conta que Maria Felipa era versada nas artes da capoeira. Sabe-se que era marisqueira e descendente de escravos sudaneses. 

Maria Felipa, heroína da Independência da Bahia
E viva Maria Felipa!
Nos combates de Itaparica, em janeiro de 1823, ela liderou a destruição de 42 embarcações portuguesas, ancoradas próximas à praia — e teria dado uma surra de cansanção nos soldados que vigiavam os barcos.

Ainda assim, Maria Felipa esperou 184 anos para virar nome de rua na cidade que ajudou a libertar. Em 2007, a homenagem foi concretizada, atendendo a um abaixo assinado organizado pelos itaparicanos em 1905 (!).

Vez por outra, enquanto curto a brisa na praça, sou abordada por uma marisqueira da Ilha, que oferece siri catado, aratu ou outros irresistíveis bichinhos de concha, catados na maré baixa, sob o sol de rachar. É impossível não não reconhecer Maria Felipa.

O retrato de Maria Felipa foi feito pela artista plástica Filomena Orge, com base em relatos históricos, pesquisas e fotos de descendentes da heroína.

A história dessa reconstituição é comovente e quase tão épica quanto a personagem retratada. Para saber mais. leia o artigo  Retrato falado com retoques subjetivos de personagens históricos, publicada na revista do Departamento de Polícia Técnica da Bahia.

Hotel Icaraí, Itaparica, Bahia
O hotel Icaraí fica em frente ao melhor ponto da cidade para ver o pôr do sol
Como chegar a Itaparica
O jeito mais fácil de ir a Itaparica, para quem está de carro, é fazer a travessia da Baía de Todos os Santos com o Ferry Boat que parte do Terminal de São Joaquim, em Salvador.

Do Terminal de Bom Despacho, na Ilha, é só seguir a estrada até o entroncamento onde estão as entradas para Itaparica (à direita) e Mar Grande, à esquerda. De Bom Despacho a Itaparica são 7 km.

Os horários dos ferries variam de acordo com a estação. Em épocas mais fervidas, as partidas costumam ser de hora em hora. Na baixa estação podem ser até três horas de intervalo (também depende de haver alguma embarcação avariada, fora de serviço).

Meu conselho: informe-se antes, pois nem eu que cresci nesse vai e vem dos ferries da Baía de Todos os Santos consigo decorar a "dinâmica da coisa"...

Sobrado no Centro Histórico de Itaparica, Bahia
Um velho sobrado itaparicano e a sorveteria
É possível comprar a passagem do Ferry Boat Salvador-Ilha de Itaparica com hora marcada no site da Internacional Travessias, empresa que opera o serviço.

A passagem do Ferry Boat custa (atualizado em março de 2014) R$ 36 para automóveis pequenos nos dias de semana e R$ 47 nos fins de semana. Passageiros pagam R$ 3,95 durante a semana e R$ 4,95 aos sábados e domingos. Os motoristas e os passageiros maiores de 60 anos não pagam

Quem vai a pé pode optar entre viajar no ferry ou no catamarã, que é mais rápido e mais confortável. (não existe mais o serviço). Na chegada a Bom Despacho, há os ônibus e as vans que fazem o percurso até a cidade.



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