30 de maio de 2017

Espanha: o que fazer em Toledo


O Alcázar, castelo renascentista que serviu como sede da corte de Espanha
Queridinha das escapadas bate e volta para quem visita Madri, Toledo rende muito mais que algumas horinhas de passeio. Já visitei a cidade duas vezes nesse esquema e acho que tem muito o que fazer em Toledo para que a gente dedique a essa linda apenas algumas horas de passeio.

Toledo é uma cidade de trajetória riquíssima, que remonta à ocupação romana na Península Ibérica. A cidade entrou para a história como um oásis de tolerância em plena Idade Média, um refúgio onde praticantes das três grandes religiões monoteístas — muçulmanos, cristãos e judeus — conviveram em paz durante os 400 anos de domínio mouro.

O resultado é que Toledo tem um patrimônio preservadíssimo, que reúne mesquitas (como a do Cristo de la Luz), sinagogas, palácios e igrejas de cair o queixo e que nem mesmo o fervor posterior à Reconquista Cristã e à ascensão da Inquisição conseguiu destruir.

O Tajo (Tejo) visto de um mirante na Judería de Toledo
Outro motivo para minha paixão pela cidade é que ela foi a casa do meu pintor preferido. Você, com certeza, vai ver mais obras dele no Museu do Prado, em Madri, mas dá pra imaginar a emoção de ver as obras de El Greco em Toledo, a cidade que ele adotou como lar?

Não bastasse isso tudo, Toledo ainda é bonita que chega a doer, encarapitada em um maciço rochoso que se eleva muito acima da curva do Rio Tajo (o mesmo Tejo português) que traça um contorno em formato de ferradura (como os arcos mudéjares de suas construções) em torno da cidade amuralhada.

O encanto das ruas muito estreitas da Judería
Na minha passagem por Madri, em janeiro, claro que fui lá rever a linda Toledo e aproveitei para anotar alguns programinhas imperdíveis na cidade — e acho que depois de ler o post você vai ficar na dúvida: será que não é o caso de ir além do bate e volta?

Catedral de Toledo, um dos edifícios góticos mais importantes da Península Ibérica
O que fazer em Toledo
⭐ Catedral de Toledo (Catedral de Santa Maria) 
Calle Cardenal Cisneros nº 1. De segunda a sábado, das 10h às 18h. Aos domingos, das 14h às 18h. Em datas de grandes celebrações, os horários são alterados, portanto consulte o site da catedral antes de ir. A entrada geral custa € 12,50, com audioguia incluído, e dá direito a subir a torre do campanário, ver o claustro, os museus e o Tesouro.

Construída entre os séculos 13 e 15, no fervor da Reconquista cristã da Península Ibérica, a Catedral de Toledo é apontada como a obra gótica mais significativa de toda a Espanha — e merece todas as honrarias e homenagens, pois poucas vezes na vida vi um edifício tão arrebatador.

A Catedral tem duas entradas. Pela Porta do Relógio (esq), o acesso é para a visita religiosa - você vê o interior do edifício, mas fica restrita a um cercadinho. Pela Calle Cisneros, a entrada é para a visita turística


A Catedral de Toledo ocupa o mais tradicional local de culto religioso da cidade: ali existiu a primeira catedral visigoda, depois a Mesquita Maior, durante os quatro séculos de dominação muçulmana.

Com a retomada da cidade pelos cristãos, no Século 11, o templo mouro foi reconvertido em catedral para ser, posteriormente, demolido e reconstruído. As feições atuais da Catedral de Toledo só começariam a ser traçadas 200 anos depois, com todo o fausto e requinte.

Duas fotinhas que consegui fazer do interior da Catedral: à esquerda, o coro com seus rebuscadíssimos entalhes. À direita, a Capela Maior
O interior da Catedral de Toledo não pode ser fotografado, exceto alguns poucos espaços. O resto, você vai ter que ir até lá conferir pessoalmente 😊.

Ainda que pudesse, duvido que as fotos dessem conta de reproduzir o espetáculo. Nada é minimalista: os altares laterais ricamente decorados, o coro impressionante, a profusão de vitrais... 

Decoração mudéjar no acesso à Sala Capitular, cujo teto (direita) exibe um sofisticado trabalho de encaixes de madeira. Abaixo, a galeria de retratos dos arcebispos da Toledo


Quando você for à Catedral de Toledo, preste atenção à Capela Maior, à magnífica Capela Moçárabe e ao altar barroco (Século 18) chamado de “El Transparente, do escultor Narciso Tomé, iluminado por uma engenhosa claraboia que dá a impressão de uma luz divina baixando sobre as imagens. 

As únicas partes liberadas para fotos são a Sala Capitular, onde se reunia a congregação e que está ornamentada com os retratos dos bispos de Toledo, a Sacristia, hoje convertida em uma senhora pinacoteca, com obras lindas de El Greco, e o Tesouro, com decoração mudéjar (estética moura). 

A Sacristia tem uma coleção robusta de quadros de El Greco e outros mestres

O Espólio, de El Greco, maior tesouro da coleção

O forro pintado por Luca Giordano
A Sacristia da Catedral de Toledo é um show à parte, com o forro pintado pelo renascentista italiano Luca Giordano. Entre as preciosas obras de El Greco expostas lá está O Espólio, um retábulo que mostra Cristo sendo despojado de suas vestes antes da crucificação — eu sou suspeita, porque morro de paixão pelo grego, mas essa obra é daquelas que a gente não consegue desgrudar os olhos, uma ousadia cheia de cores, movimento e expressões.

Acha que acabou? Pois a pinacoteca da Sacristia da Catedral de Toledo ainda tem um lindo São João Batista, de ninguém menos que Caravaggio.

O Alcázar de Toledo, a silhueta mais marcante da paisagem da cidade
⭐ Alcázar de Toledo
Calle Unión.  Fechado às quartas-feiras. Nos demais dias da semana, a visitação é das 11h às 17 horas. Entrada: € 5.

O Alcázar é a imagem mais marcante de Toledo, postado no ponto mais alto da cidade. E ouso dizer: por mais bonito que seja de perto, é contemplado de longe (da beira do Rio Tajo, vindo da Estação Ferroviária, ou do campanário da Igreja dos Jesuítas) que ele me encanta mais.


Como dá para deduzir por sua posição estratégica, o local onde está o Alcázar foi sede do poder político e militar da cidade desde os tempos romanos.

Visigodos e mouros também ocuparam o topo daquela escarpa que se despenha sobre o Rio Tajo com fortificações e residências oficiais.

O Alcázar que vemos hoje, porém, é uma obra iniciada após a Reconquista, quando a fortificação serviu como uma das sedes da corte de Castela.

Alicerces de construções moras e romanas no Alcázar

Coleção de armaduras no Museu do Exército
As feições atuais do Alcázar de Toledo são obra de Carlos V, neto dos Reis Católicos, sacro-imperador romano-germânico, primeiro rei Habsburgo da Espanha.

Carlos parece ter sido um sujeito que se amarrava em reformar edifícios — basta ver as alas que ele mandou acrescentar a lugares como a Alhambra de Granada, e o Alcázar de Sevilha.

Com a fixação da capital em Madri, o Alcázar de Toledo perdeu sua importância cerimonial, consolidando-se como instalação militar por 400 anos.

Estátua de Carlos V em um pátio do Alcázar, na ala construída por ordem do imperador 

A ala acrescentada por Carlos V
Em 1936, o Alcázar de Toledo serviu de base para apoiadores do golpe militar de Francisco Franco  contra a República Espanhola. Foram 70 dias de cerco, até que a fortaleza fosse retomada pelas tropas legalistas republicanas. Mas, como vocês sabem, the dark side ganhou a Guerra Civil Espanhola e Franco converteu o Alcázar em um dos símbolos de sua ditadura.

Esse encosto nem os 42 anos de redemocratização da Espanha conseguem exorcizar completamente. — hoje, a memória do Alcázar está muito ligada à ditadura franquista, o que empana bastante o prazer da visita. Em seus corredores e salões, ocupados pelo Museu do Exército, os letreiros das exposições parecem ainda falar de uma Espanha sombria.

Toledo e o Rio Tajo vistos do Alcázar
Por isso que eu volto a dizer: o Alcázar é muito mais bonito visto de fora. A visita vale muito pela beleza do edifício e pela paisagem que se descortina lá do alto, mas seu interior me deu um pouquinho de calafrios.

Esse quadro de El Greco paga a viagem à Espanha...
⭐ Igreja de San Tomé – O Enterro do Senhor de Orgaz
Plaza del Conde nº 4. Aberta diariamente. Horário de verão (1º de março a 15 de outubro): das 10h às 18:45h. Inverno (16 de outubro a 28/29 de fevereiro): das 10h às 17:45h. Entrada € 2,80.

Se você precisar um único motivo para ir a Toledo, lembre-se que esse foi o lar adotivo de um dos maiores gênios da pintura de todos os tempos, um certo Doménikos Theotokópoulos, imortalizado pela História como El Greco

Algumas de suas obras primas (como O Espólio, que está na Catedral) ficaram na cidade e é por causa de uma delas que uma igrejinha do Século 12 e mal disfarçadas feições mouras vive abarrotada de gente.

O campanário mudéjar de San Tomé (centro) visto da Praça da Catedral
A tela O Enterro do Senhor de Orgaz (ou do Conde de Orgaz, segundo alguns registros) fica logo na entrada da Igreja de São Tomé, na capela onde está sepultado Gonçalo Ruiz de Toledo — ele mesmo, o conde, um dos alcaldes (prefeito) da cidade, no início do Século 14.

Deve ter sido um bom prefeito, ao menos para a igreja, que 250 anos depois de sua morte encomendou a El Greco a tela monumental que adorna a capela. O quadro descreve o suposto milagre do aparecimento de Santo Estêvão e Santo Agostinho para conduzirem Ruiz ao reino dos céus na hora de sua morte.

Quer ver mais trabalhos do artista na cidade? Leia este post:
Onde ver a obra de El Greco em Toledo


O interior da Igreja de San Tomé e seus belos altares
Eu já tinha tido o prazer de ficar boquiaberta diante dessa obra de El Greco. Mas uma vez é muito pouco e lá fui eu de novo, me espremer com meia dúzia de excursões no espaço exíguo onde O Enterro do Senhor de Orgaz está exposta.

Nem a expressa proibição de fotografar a tela refreia o chilique de câmeras e celulares (eu respeitei) que servem de percussão para os ahs e ohs embasbacados.


Depois de fartar a alma com essa epifania (não do divino, mas do gênio humano), aproveite para ver o interior da igreja. São Tomé foi construída no Século 12, sobre uma antiga mesquita — e o sotaque dos traços de seu campanário não enganam. Os diversos altares vão do mudéjar ao barroco e ficam lindos banhados pelo sol da tarde, que entra pelas claraboias.

O Alcázar e a Torre da Catedral vistos do alto do campanário da Igreja dos Jesuítas
⭐ Igreja dos Jesuítas (San Ildefonso)
Plaza Padre Juan de Mariana nº 1. Diariamente, das 10h às 18:45h (de novembro a abril, apenas até as 17:45h). Entrada: € 2,80.

O mirante dono da vista mais arrebatadora de Toledo é o campanário dessa bela igreja barroca construída em um dos pontos mais altos da cidade e dedicada ao padroeiro da cidade.

A cúpula da Igreja dos Jesuítas vista da Plaza del Ayuntamiento
Visitei a Igreja de San Ildefonso e subi a seu campanário na minha primeira visita a Toledo. O panorama que se vê lá do lá do alto até hoje é a memória mais querida que eu carrego da cidade, a terra do meu bisavô (que veio menino para o Brasil e foi um danadinho de um agitador abolicionista).

A subida ao campanário de San Ildefonso até que não é das mais sofridas e eu recomendo fortemente que você não perca esse espetáculo.

Antes ou depois de encarar os degraus até o mirante da igreja, preste atenção à sua linda fachada em pedra talhada e ao interior onde estão belos altares barrocos cobertos de douramentos. 

La Blanca: uma beleza feita de cal e detalhes delicados
⭐ Sinagoga Santa Maria la Blanca
Calle de los Reyes Católicos nº 4. Diariamente, das 10h às 18:45h (abril a setembro) e das 10h às 17:45 (de outubro a março). Entrada: € 2,80.

A antiga Sinagoga de Ibn Shushan, do Século 11, é um dos testemunhos mais eloquentes (e mais belos) da tolerância religiosa que reinou em Toledo sob o governo muçulmano. 

Por 250 anos, a atual Santa Maria la Blanca foi o principal local do culto judaico em Toledo, a Sinagoga Mayor da cidade.

Essa posição explica a rara beleza dessa construção mudéjar de paredes imaculadamente brancas, ornamentação preciosa embora discretíssima, em motivos geométricos e vegetais. Santa Maria la Blanca é de fazer o coração dar uma paradinha de tão linda.

A decoração mudéjar resistiu às idas e vindas da política e à voragem do tempo
La Blanca é apontada como a mais antiga sinagoga da Europa ainda de pé. Sob governo cristão, foi convertida em igreja católica da Ordem de Calatrava (uma ordem de monges combatentes empenhada na Reconquista Cristã), na esteira das perseguições, conversões forçadas, assassinatos e expropriações do pogrom de 1391, um dos movimentos mais violentos contra a comunidade judaica na Península Ibérica. 

No Século 16, Santa Maria la Blanca foi transformada em asilo para prostitutas arrependidas. Depois disso, foi quartel, arsenal militar e, finalmente, foi convertida em museu, ainda que permaneça como propriedade da Igreja Católica.

A decoração preciosa da Sinagoga del Tránsito, que pertencia a um palácio
⭐ Sinagoga del Tránsito
Calle Samuel Levi, s/n. De terça a sábado, das 9:30h às 20h, de abril a setembro, e das 9:30h às 18:30h, de outubro a março. Domingos e feriados, das 10h às 15h. Entrada: € 3. Grátis aos sábados, depois das 14h, e aos domingos.

Ao lado do Museu Casa de El Greco e a poucos passos de Santa Maria La Blanca, esta sinagoga do Século 14 é mais um dos encantos que a gente encontra pelas ruas muito estreitas da Judería de Toledo. Ela era parte de um palácio que já não existe mais.

Ricamente decorada em estilo mudéjar, foi construída por Samuel ha-Leví, conselheiro do rei Pedro I de Castela, (Pedro, o Cruel, um dos grandes responsáveis pelo esplendor do Alcázar de Sevilha, e que, apesar do apelido, parece ter sido um entusiasta da tolerância religiosa).


Por fora, a sinagoga mantém as feições de igreja cristã que ganhou no Século 16
Ao contrário de Santa Maria la Blanca, a Sinagoga del Tránsito escapou ao pogrom de 1391 e só seria expropriada na expulsão dos judeus da Península Ibérica pelos Reis Católicos, em 1492.

Os beneficiados, novamente, foram os irmãos combatentes de Calatrava, que usaram o edifício como igreja-sede de sua ordem religiosa — as mudanças ainda são visíveis, no exterior da sinagoga, que ainda ostenta um crucifixo na fachada.

O nome da sinagoga vem da imagem do Trânsito (Ascenção) de Nossa Senhora, pintura do Século 17 que ficava no altar da igreja católica. 


Muito maltratado pelo tempo, a Sinagoga del Tránsito esteve à beira da ruína, até ser tombada, no final do Século 19.

O edifício teria que esperar ainda mais um século até a completa restauração, que permitiu sua reabertura, em 1971, como Museu Sefardita (comunidade judaica da Península Ibérica, com idioma próprio e costumes que os distinguem dos asquenazes, os judeus da Europa Central e Oriental), que exibe achados arqueológicos, trajes e objetos religiosos.

As fachadas e os pórticos do Zocodover. Ao fundo, o Alcázar
⭐ Praça do Zocodover
A poucos passos do Alcázar e acessível pela famosa Puerta de la Sangre, essa praça é o coração da vida civil e comercial de Toledo desde a o tempo dos mouros (Zocodover é uma corruptela do árabe sūq ad-dawābb, ou "mercado de animais de carga”). 

O pórticos que cercam a Praça do Zocodover abrigam lojas, cafés e as vitrines hipnóticas das confeitarias, lotadas de figurinhas coloridas de marzipán — o doce de amêndoas herdado dos árabes e marca registrada de Toledo.

A Porta de la Sangre
Se você vier da Estação Ferroviária de ônibus, certamente vai descer no Zocodoveri, ponto final das linhas regulares que fazem o trajeto até o Cetro de Toledo. Aproveite para olhar a bela arquitetura da praça de traçado regular e cercada por fachadas harmônicas, resultado da reforma realizada no Século 19.

Desde a Idade Média, o Zocodover é o ponto de encontro dos toledanos, local das festas profanas e religiosas, das feiras, touradas e até das fogueiras da Inquisição.

Mais sobre Toledo: minha primeira visita à cidade
Dicas práticas de Toledo

Minha rota em Toledo ⬇️



A Espanha na Fragata Surprise - post-índice



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