quinta-feira, 13 de março de 2014

O Real Alcázar de Sevilha:
13 séculos de esplendor

Detalhe da galeria do Pátio de las Doncelas
Se eu tivesse que resumir Sevilha (toc, toc, toc, porque uma cidade como aquela não merece que lhe retirem um único tijolo), acho que iria buscar essa síntese no Real Alcázar, magnífico complexo de palácios, pátios e jardins que começou a ser engendrado no Século 8, com a tomada da cidade pelos mouros.

O Alcázar de Sevilha é uma visita essencial para quem vai à Andaluzia, um monumento onde as heranças árabe, mudéjar (a estética cristã sob influência moura) e renascentista se encontram em uma profusão de cores, detalhes, técnicas e texturas que resultam em puro deslumbramento.

Este não é um post para muitas palavras. O Alcázar é daqueles lugares que se apresentam olho no olho. Reuni aqui as dicas básicas pra você preparar sua visita e começar a se inspirar em muitas fotos.

O Palácio Mudéjar de Pedro I de Castela, um rei cristão do Século 14 que fez questão de preservar a estética herdada dos mouros

Os jardins do Alcázar são uma parte essencial do encantamento
Um pouquinho de história é essencial para a gente compreender a grandiosidade do lugar. Tudo começou com uma fortaleza, morada dos primeiros governantes da cidade (até hoje, o Alcázar é uma residência real, o mais antigo palácio real ainda em uso na Europa), que veio ganhando acréscimos ao longo dos séculos. 

Cada uma dessas etapas é uma talentosa narradora sobre a época em que foi incorporada ao conjunto. Reunidas, cobertas de adornos e detalhes que expressam a estética de seu tempo, elas compõem um painel sobre a trajetória da própria Sevilha.

O Pátio de las Doncelas já foi até "artista de cinema": 
aqui foram rodadas cenas do filme Cruzada 
(Kingdon of Heaven, 2005), de Ridley Scott. O Alcázar voltou a cartaz como o palácio do Reino de Dorne, em game of Thrones

Artesãos de Toledo e Granada foram trazidos a Sevilha para compor o hipnótico conjunto de detalhes que contam a história do Alcázar e de Sevilha
Do forte primitivo que deu origem ao Alcázar já não resta nada. Mas lá ainda estão o Pátio de Gesso (principal elemento que resta do Palácio Mouro), o Palácio de Pedro I, o cruel, em estilo mudéjar, e os acréscimos renascentistas feitos a partir do reinado dos Reis Católicos.

Isabel de Castela e Fernando de Aragão fizeram do Alcázar de Sevilha uma de suas principais residências e sede da corte, durante a campanha decisiva para expulsão dos mouros da Península Ibérica.

Um pátio do Alcázar, já incorporando elementos renascentistas 

Maquete de uma embarcação do Século 15 e a imagem da Virgem dos Mareantes, pintada por Alejo Fernández, no salão onde funcionou a Casa de Contratação
Em uma das alas do Alcázar está a sala onde funcionou a Casa de Contratação, de onde a rainha Isabel despachava frotas para as Américas — antes disso, Cristóvão Colombo levou muito chá de cadeira nos corredores dos palácios, tentando convencer a soberana a despachá-lo`mar afora.

Muitas expedições ao Novo Mundo foram decididas e contratadas nesse local, a mais célebre delas foi a primeira viagem de circum-navegação da terra, levada a cabo por Fernão de Magalhães, um português a serviço da Coroa de Castela, a partir de 1519 — fala se não dá um friozinho na barriga de se imaginar no mesmo espaço 😉.

O Pátio das Montarias e o Palácio Mudéjar

O principal acréscimo renascentista ao Alcázar é o salão de Carlos V, neto dos Reis Católicos e Imperador do Sacro Império Germânico, primeiro rei Habsburgo da Espanha. Os jardins herdados dos mouros também receberam um toque desse estilo.

As alterações e acréscimos ao Alcázar, porém, prosseguiram até recentemente: parte das estruturas medievais foram substituídas por um palácio barroco, no Século 18, mesmo estilo que predomina no Quarto Real Alto (aposentos ainda uados pela monarquia espanhola).

Os jardins do Alcázar têm um ar quase tropical, com palmeiras e laranjeiras. As fontes ajudam a refrescar o calor inclemente dos verões andaluzes

A Fonte de Netuno, no Jardim do Príncipe
Nada no Alcázar é mais Sevilha que o palácio de Pedro, o cruel. Em pleno fervor religioso e político da Reconquista, que mantinha cristãos e muçulmanos em pé de guerra, esse rei teve a capacidade de entender que o povo andaluz não ia virar visigodo e católico por decreto.

A cidade havia sido tomada pelos cristãos em 1248, depois de mais de 500 anos de domínio mouro — período em que Sevilha floresceu, ganhou importância econômica e política e seus principais monumentos arquitetônicos, como a mesquita a Torre da Giralda.

Tetos, pisos e paredes: nada escapou ao capricho decorativo no Palácio Mudéjar



Ao assumir o trono, Pedro I de Castela fez questão de incorporar diversos elementos da cultura e da estética herdada dos muçulmanos, respeitando o imaginário e as tradições de seus súditos e a principal testemunha disso é seu lindo palácio no Alcázar.

(Pedro daquelas figuras que intrigam a gente. Pelo epíteto que seus contemporâneos lhe deram, já dá para deduzir que o cara aprontou — num tempo em que rei cruel era pleonasmo, imaginem o que ele precisou fazer para se destacar nesse quesito... E, mesmo assim, demonstrou uma tolerância maior que a maioria dos monarcas que vieram antes e depois dele).

O Pátio de Gesso, principal remanescente do Palácio Mouro
Como organizar a visita ao Alcázar
O Real Alcázar é uma das atrações mais concorridas de Sevilha. Além disso, há um limite de visitantes: apenas 750 pessoas podem estar no interior do monumento ao mesmo tempo. O mais prudente, portanto, é comprar seu ingresso com antecedência, logo ao chegar à cidade ou pela internet.

O ingresso para o Alcázar, com direito a percorrer todas as dependências e os jardins, custa € 9,50. Para incluir o Quarto Real Alto, paga-se mais € 4,50 e essa visita precisa de agendamento. Há também a possibilidade de fazer uma “visita noturna teatralizada”, que custa € 13.

Porta do Leão, a entrada de visitantes do Alcázar, era um dos acessos na muralha árabe do Século 12
A entrada do Alcázar é pela Porta do Leão, em frente à Praça do Triunfo. Esse portão do tempo do reinado dos almóadas (dinastia moura) era uma das passagens da antiga muralha do Século 12 e leva direto ao Pátio da Montaria, em frente ao palácio mudéjar.

Na entrada do palácio, preste atenção ao Pátio de Gesso, o principal elemento mouro ainda de pé no Alcázar. O nome vem do delicadíssimo trabalho em gesso que decora as paredes do pátio.

Os dois grandes momentos do Palácio Mudéjar: a cúpula dourada do Salão dos Embaixadores e o Pátio das Donzelas

O vestíbulo de acesso ao pátio também tem sua fontezinha

No Palácio Mudéjar, prepare-se para ficar tonta com a profusão de detalhes preciosos. Pisos, tetos, paredes, nada está aqui por acaso.

Uma sucessão de salas e galerias leva até o coração da construção, o majestoso Pátio das Donzelas, que você já deve ter visto como cenário de Game of Thrones (“no papel” de Palácio Real de Dorne) e no filme Cruzada (Kingdon of Heaven, 2005), estrelado por Orlando Bloom.

Se você pensa que já viu tudo, espere até entrar no Salão dos Embaixadores, como sua arrebatadora cúpula dourada à qual os sevilhanos deram o singelo apelido de “A metade da laranja”.

No Século 16, Carlos V determinou a construção de adições em estilo renascentista no Alcázar, como fez na Alhambra. Um dos destaques dos aposentos do imperador são as tapeçarias flamengas (à direita)
Eu visitei o Alcázar em pleno inverno (andaluz, é verdade), mas mesmo nessa época o verde era luxuriante. É nessa época, aliás, que as laranjeiras estão carregadas de frutos, dando um toque a mais de cor a um cenário quase tropical.
Legados pelos árabes, que iniciaram a construção do Alcázar, esses jardins foram sendo modificados e ampliados, ao longo dos séculos e oferecem um percurso por diversas fases da História, com elementos mouros, renascentistas e modernos. Reserve um tempo pra passear bastante por eles  — imagino como devem ser deliciosos no verão. 


Real Alcázar 
Plaza del Triunfo, diariamente, das 9:30h às 17h, no inverno (outubro a março). No verão (abril a setembro), as vistas se estendem até às 19 horas. A entrada custa €9,50, mas quem entrar uma hora antes do encerramento não paga (duro é ficar só 60 minutinhos lá dentro).


A Catedral de la Giralda
A Casa de Pilatos, um autêntico palácio andaluz
Cádiz
Fortes e bastiões, um lindo passeio pela história da cidade
Mais de três mil anos de história na cidade que acredita ter sido fundada por Hércules
Ronda
Famosa por seu Desfiladeiro do Tajo, a cidade tem muito mais atrações
5 razões para se apaixonar perdidamente por Ronda
Granada

A Espanha na Fragata Surprise

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