24 de março de 2015

Sicília: o Vale dos Templos, em Agrigento

O Templo da Concórdia, o mais preservado do vale, emoldurado por uma oliveira centenária
Atualizado em junho de 2018

O Vale dos Templos de Agrigento é um dos sítios arqueológicos mais importantes do Mediterrâneo. O conjunto de templos apresenta diferentes graus de conservação — o da Concórdia é o mais inteiro do grupo — mas é impressionante ver como a cidade guardou uma distância respeitosa desse espaço mágico, preservando a paisagem histórica de 2.500 anos.

Felizes de nós, visitantes do Século 21, que ainda podemos contemplar o mar, ao longe, como os moradores da antiga Akragas (a colônia grega que deu origem à cidade), trilhar os caminhos percorridos em seus rituais sagrados e descansar à sombra de oliveiras centenárias.

Veja as dicas de como chegar, o que ver e como organizar a visita ao Vale dos Templos de Agrigento, um dos lugares mais lindos que já vi na Itália.

O Templo de Juno era o local onde os moradores
de Akragas realizavam os casamentos
☑️O que ver no Vale dos Templos de Agrigento
O Vale dos Templos de Agrigento é um dos sítios arqueológicos mais importantes do Mediterrâneo. Fica praticamente dentro da cidade — o que torna ainda mais impressionante a conservação da paisagem histórica, com mais de 2.500 anos.

Alguns edifícios, como o Templo de Concórdia, estão bastante inteiros e dão uma excelente ideia de como seria o lugar na época em que Agrigento era a colônia grega de Akragas e o vale era seu centro religioso.

Templo de Castor e Pólux
⭐ O verde do vale
Os templos e outras construções do vale estão cercados de verde: amendoeiras, oliveiras centenárias, pistaches, limoeiros e uma profusão de florezinhas amarelas, parecidas com margaridas.

Algumas oliveiras que você verá no vale podem ser apenas netas das cultivadas pelos gregos há 25 séculos: algumas dessas árvores ainda de pé podem ter até 800 anos.

Templo de Concórdia
⭐ Templo de Concórdia
Construído na primeira metade do Século 5º a.C., este templo é a construção mais preservada do Vale dos Templos de Agrigento. Seus 30 metros de altura se destacam de longe, assim como a elegância de suas colunas. 

Visão lateral do Templo de Concórdia
Concórdia não é uma divindade grega, portanto, a designação do templo não é a original, do tempo de Akragas, mas já herdada dos romanos, que cultuavam a deusa protetora da união conjugal - uma espécie de "auxiliar" de Juno.

No Século 6º d.C. o Templo de Concórdia foi convertido em igreja católica e sofreu algumas modificações — mas essa utilização contribuiu para que não fosse pilhado e mantivesse praticamente íntegros os seus elementos. No Século 18, passou por uma reforma que devolveu suas características originais.

O Templo de Juno, cercado pelas amendoeiras
⭐ Templo de Juno 
Dedicado pelos gregos a Hera, este templo foi construído na segunda metade do Século 5º a.C., em estilo dórico. 

Os romanos mantiveram sua dedicação à esposa de Zeus, soberana do Olimpo, a quem chamavam Juno (Giunone), protetora do casamento e das famílias. Está menos preservado que seu “gêmeo”, o Templo de Concórdia, mas ainda é possível perceber, pelo traçado de sua base, que tinha dimensões semelhantes.

Vestígios do Templo de Hércules
⭐ Templo de Hércules
Acredita-se que esse templo, construído no Século 4º a.C. seja o mais antigo do vale, possivelmente a origem da ágora grega de Agrigento. Alguns historiadores sustentam que o edifício, na verdade, teria sido inicialmente dedicado a Atena e que teriam sido os romanos a transformá-lo em local de culto a Hércules, semideus filho de Zeus (Júpiter).

Apenas nove de suas colunas ainda estão de pé, graças a obras de restauro realizadas no Século 20.


Templo de Castor e Pólux, protetores dos navegantes. A estrutura redonda que você vê na imagem pertencia ao Santuário das Divindades Ctônicas (Perséfone e Deméter)
⭐ Templo de Castor e Pólux 
Restam apenas quatro colunas e uma parte do friso do templo dedicado no Século 5º a.C. a Castor e Pólux, protetores dos navegantes, filhos de Leda e irmãos de Helena de Troia, protagonistas de um dos mitos mais encantadores dos gregos sobre a fraternidade.

Chamados pelos gregos de Dióscuros ("filhos de Zeus"), os gêmeos seriam, na verdade, irmãos apenas por parte de mãe, já que Pólux era filho do deus e imortal, enquanto Castor era filho de Tíndaro, rei de Esparta. Com a morte de Castor, Pólux não quis viver sua imortalidade sozinho e apelou a Zeus, que transformou a ambos na Constelação de Gêmeos.

O Templo de Castor e Pólux estava completamente destruído. No Século 19, foram reunidos elementos encontrados por todo o vale para realizar a reconstrução parcial do edifício.

Vestígios do Templo de Zeus
Templo de Zeus
Do templo de Zeus, que supõe-se ter sido a maior das construções da área, restam apenas escombros, mas a magnitude daqueles blocos de pedra desabados conseguem impactar e dar uma ideia do colosso que deve ter sido a construção.

⭐ Jardim da Kolymbethra
Entrada na altura do Templo de Castor e Pólux. 
Aberto ao público diariamente. O horário de visitas depende da estação do ano: 10h às 18h (de abril a junho), 10h às 19h (julho a setembro). Em março e outubro, abre das 10h às 17h. No inverno, das 11h às 15h.
A entrada custa €4.

O Jardim da Kolymbethra recria uma área de cultivo da antiga colônia grega
O Jardim da Kolymbethra está localizado em uma baixada nas proximidades do Templo de Castor e Pólux. Na antiguidade, acredita-se que a área foi uma espécie de represa, parte de um sistema de irrigação dos pomares e áreas de cultivo de Akragas.

As amendoeiras em flor. Em fevereiro, Agrigento
 realiza um festival em homenagem a elas
Na última década de 90, o terreno abandonado foi entregue ao Fondo Ambientale Italiano que montou um projeto paisagístico recriando antigas áreas de cultura (como limões, tangerinas e laranjas) e preservando salgueiros e outras árvores nativas. O processo de irrigação do jardim segue a técnica introduzida pelos árabes na região.

O jardim tem uma área para piquenique e pode ser uma boa alternativa para uma pausa durante a visita ao vale. É permitido e incentivado colher as frutas. Aproveite.

O Templo de Juno visto dos arredores de Agrigento 
☑️ Como chegar a Agrigento
A cidade de Agrigento está 159 km de Catania (Aeroporto de Fontanarossa) e a 155 km de Palermo (Aeroporto Falcone Borsellino), as duas portas de entrada mais cômodas para quem visita a Sicília.

Para quem chega a Sicília de carro, são 256 km de estrada, a partir do Estreito de Messina, onde chegam as balsas do Continente.

Para ir de Catania a Agrigento há trens e ônibus.

O entorno do Vale dos Templos: a cidade guardou uma distância respeitosa da antiga ágora grega
Eu achei a segunda opção mais prática, por não ter baldeações. A empresa de ônibus que faz o trajeto Catania-Agrigento é a Sais Trasporti. A viagem dura cerca de 3 horas e o bilhete custa €13,40.

De Palermo a Agrigento, o trem é o meio mais cômodo. São 2 horas de viagem, e a passagem custa €9.

Eu expliquei esses deslocamentos com todos os detalhes neste post: Como chegar e como circular na Sicília

Porto Empedocle, o antigo porto grego, vista do Vale dos Templos
☑️Como organizar a visita ao Vale dos Templos de Agrigento

Ter um bom mapa do Vale dos Templos é indispensável. Ao lado das portarias do parque arqueológico você vai encontrar trailers e barraquinhas que vendem mapas. O meu custou € 2 e foi uma aquisição fundamental.

Reserve o dia inteiro para a visita, para ver tudo com calma e aproveitar a beleza do lugar. Faça quantas pausas quiser (eu morri de pena de não ter uma boa seleção musical no meu smartphone). É uma viagem mágica que deve ser saboreada bem devagar.

A capelinha montada em uma gruta do Jardim da Kolymbethra, para agradecer pela colheita farta 
Use calçados bem confortáveis, por que você vai andar um bocado.

Levar um lanchinho pode ser ótima ideia e o suprimento de água é essencial. Há uma única lanchonete para atender aos visitantes, que fica na estrada que corta o vale (veja abaixo).

Nos meses mais quentes, não podem faltar os óculos escuros, um chapéu e protetor solar.

Para isso, recomendo que você use calçados bem confortáveis, por que também vai andar um bocado.



☑️ Horários e ingressos para o Vale dos Templos
O sítio arqueológico dos templos de Agrigento é cortado por uma estrada (a SP4) que o divide ao meio.

No lado Leste, as principais atrações são os templos de Juno, Corcordia e Hercules. Essa parte abre diariamente, a partir das 8:30h e as visitas seguem até às 19 horas.

Do lado Oeste estão os templos de Zeus e dos Dióscuros (Castor e Pólux) e o Santuário das Divindades Ctônicas. As visitas ao lado Oeste também são diárias, das 9h às 19h.

As entradas para o Vale dos Templos custam €10. Você pode entrar e sair quantas vezes quiser e circular entre os dois lados do sítio arqueológico. Há um bilhete combinado que dá acesso ao Vale e ao Museu Arqueológico e custa €13,50.

Os famosos limões sicilianos
na exuberância do
 Jardim da Kolymbethra 
☑️ Visitas noturnas ao Vale dos Templos de Agrigento
No verão (de julho a setembro), o Vale dos Templos (o lado Leste) abre para vistas noturnas, das 20h às 23 horas (aos sábados e domingos até meia noite). Os bilhetes custam €10.

Não tive a sorte de estar em Agrigento no verão e fazer a visita à noite, mas por tudo que vi aposto que deve ser um sonho caminhar por lá à luz da lua. Se tiver chance, não perca!!!


☑️Como chegar ao Vale dos Templos de Agrigento
Há três bilheterias/entradas para o sítio arqueológico, uma em Porta Quinta, na Contrada Sant' Anna, outra na Via Panoramica dei Templi, perto do Templo de Juno (Tempio de Giunone), e outra na SP4, a Porta Áurea, perto do Templo de Hércules (Tempio di Ercole), onde também ficam uma lanchonete ("Posto di Ristoro ).

Quem chega de carro deve preferir as duas primeiras entradas, onde há estacionamentos pagos (€3).


É bem fácil chegar aos templos de transporte público. Os ônibus das linhas 1 e 2 ligam o centro de Agrigento à área e têm paradas perto do Templo de Juno e do Templo de Hércules.

O ponto final, no centro da cidade, é a Piazza Fratelli Rosselli, perto dos Correios e achei mais prático ir pegar o transporte lá. A passagem para uma única viagem custa €1,20 (se for pagar o bilhete já no ônibus, custará €1,70). Se quiser o bilhete válido por todo o dia (biglietto giornaliero) o preço é €3,40. 

As antigas muralhas da área dos templos
foram usadas como catacumbas pelos romanos
☑️Visita ao Museu Arqueológico
O Museu Arqueológico (Museo Archeologico Regionale Pietro Griffo) funciona de segunda a sábado, das 9h às 19:30h. Aos domingso e feriados, pode ser visto das 9h às 13:30. Fica na Piazetta San Nicola, perto do Vale dos Templos. Para ver só o museu, o ingresso custa €8 (já viu que vale a pena comprar o bilhete combinado, né?).

☑️ Um pouquinho da história do Vale dos Templos de Agrigento
Se você olhar para Agrigento da beira do mar, verá que a cidade se distribui sobre três degraus na encosta de terra dourada que sobe da praia. O vale dos tempos é o “degrau do meio”, com a cidade moderna encarapitada acima dele. 

O mar lá embaixo...
Essa disposição repete o desenho traçado pelos gregos há 25 séculos: na parte mais baixa, diante do mar, ficava o porto (hoje, a cidade de Porto Empedocle, terra do escritor Andrea Camilleri). No platô intermediário, a área de culto (o Vale dos Templos). Lá no alto, a cidade — agora, a pacata Agrigento, com seus 60 mil habitantes e o orgulho de ser o berço de Luigi Pirandello.

Historiadores apontam que Akragas teria sido fundada por colonos oriundos da Ilha de Rodes, no Dodecaneso, no Século 6 a.C. O local escolhido (parte de uma rota comercial mediterrânea já usada pela Civilização Micênica desde séculos anteriores).

... e a cidade lá no alto

Quem nasceu no Mediterrâneo da Antiguidade pode se queixar de tudo, menos de monotonia. A biografia de Agrigento renderia enredo para a Sessão da Tarde até o fim dos tempos.

Ainda como a Akragas dos gregos, ela viveu cercos, saques, tiranias e invasões cartaginesas. Depois vieram os romanos para impor sua pax à colônia, batizada de Agrigentum. Depois deles, a cidade foi dos bizantinos, dos godos, dos sarracenos (que a chamaram Gergent) e os normandos.

O nome árabe, adotado pelos normandos, pegou: até o alvorecer do Século 20, a cidade foi chamada de Girgenti.


Com tanta agitação, é impressionante que o Vale dos Templos tenha sobrevivido quase intacto —aparentemente, só o tempo afetou seus monumentos — e o crescimento urbano tenha mantido uma distância respeitosa do antigo espaço sagrado dos gregos.



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A Europa na Fragata Surprise

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4 comentários:

  1. Que post delicioso e que vontade de correr para lá!
    Vamos para a Itália em Junho, mas não conseguimos encaixar a Sicília no roteiro :(
    Vou aproveitar para devorar seus outros posts (Roma e Toscana)!

    Beijos!
    Aline

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    Respostas
    1. Obrigada, Aline! Olha, não sofra muito por não conseguir ver tudo da Itália agora. Aquele país é tão generoso que rende viagens para a vida inteira. Tenho certeza que você vai conseguir ver a maravilhosa Sicília numa próxima e vai aproveitar muito Roma e a Toscana, maravilhosíssimas. E depois me conta como foi :) Bjo

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  2. Cyntia, que post inspirador!
    Fotos mágicas! A Itália é realmente surpreendente!

    Bjs,
    Karla

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    Respostas
    1. Obrigada, Karla :) A Itália é um mundo. Queria umas oito encarnações só pra explorar essa lindeza de país...

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