21 de março de 2015

Delícias sem frescura: o que comer na Sicília

Antica Focacceria San Francesco, uma lenda viva em Palermo
A culinária da Sicília é a cara da ilha: bonita, gostosa e direto ao ponto. De uma tremenda simplicidade e, ao mesmo tempo, uma conversa bem ao pé do ouvido com o sublime.

Os ingredientes e os preparos usados na cozinha da Sicília mudam, mas a alma da culinária local lembra a dos gregos (antigos povoadores dessa ilha mágica): os sabores chegam inteiros ao prato, sem disfarces, véus ou maquiagem.

O forte da gastronomia da Sicília são os ingredientes frescos, molhos discretos e aquele capricho de comida da casa da gente.

Também convém não esquecer que a Sicília viu praticamente todas as grandes civilizações que disputaram o Mediterrâneo aportando em suas praias, na sucessão de conquistas que ajudou a forjar a personalidade única do lugar. Fenícios, romanos, cartagineses, bizantinos, árabes, normandos e aragoneses trouxeram suas frotas e exércitos e, de quebra, deixaram seu temperinho na culinária local.

Mas os famosos limões (e cítricos, em geral), as exuberantes berinjelas, os tomates suculentos e o dourado do açafrão são herança do clima e brotam daquele solo cor de areia na maior generosidade. E tem, claro, os peixes e frutos do mar, os cordeiros...

Comer na Sicília é sentar à mesa com os deuses —  mas daqueles deuses bem gregos, sem cerimônias. E o melhor é que os preços estão ao alcance de qualquer mortal. Confira alguns pratos e restaurantes que eu experimentei por lá:
Bancas de frutos do mar em Taormina
☑️ Comidas e benidas sicilianas que você não pode deixar de provar

Arancino
("laranjinha") - bolinho de arroz frito, tradicionalmente recheado com carne moída, molho de tomate e mussarela (via algumas variações, com outros recheios, mas sou a chata ortodoxa que implica com borda de catupiri na pizza e caruru no acarajé).

Redondo e com a casquinha dourada (é empanado na farinha de rosca), o bolinho lembra uma laranja. Esse formato de coxinha que você vê em alguns exemplares na foto é só para diferenciar os recheios. 

Os arancini são o equivalente siciliano do acarajé ou do pastel: um petisco para aquela fominha que bate entre as refeições. Só que são tão gostosos que a gente nunca se contenta com um só...

Arancini em uma vitrine em Catânia. À direita a tentação das frutas cristalizadas
Cannoli
Este doce talvez seja o mais famoso exemplar da cozinha siciliana, com direito a vários momentos marcantes na trilogia The Godfather, de Coppola (quem esquece de "Leave the gun, take the cannoli", no primeiro filme? E dos cannoli batizados do Chefão 3?). Ainda não consegui decidir se eles são a epítome da simplicidade ou a essência da sofisticação: massinha frita, crocante, enrolada e recheada com ricota e pistache. Um bom cannolo faz a gente levitar...

Frutta candite
Se você precisar de um único motivo para ir à Sicília, acho que bastam as frutas cristalizadas que eles preparam por lá, fervidas inteiras, geralmente com casca (que fica um escândalo), em calda de açúcar (preferencialmente de beterraba).

É o jeito tradicional de preservar as frutas para a mesa natalina e dar um toque de verão quase tropical à celebração. Visitei a ilha na virada do ano e as vitrines das confeitarias de Taormina, decoradas para o Ano Novo, estavam hipnóticas com a beleza dos figos, limões, laranjas e tangerinas preparados dessa forma. Acho que a foto aí no alto já diz tudo, né?

Amaretti, uns biscoitinhos de amêndoa danados de gostosos (esq), e as tangerinas e figos cristalizados que adoçaram meu Ano Novo
Amaretti
Esse é outro doce tradicionalíssimo da Sicília, com origens no Século 12, exemplo da doçaria conventual da ilha. Dizem que o pioneiro em seu preparo foi o Convento della Martorana, em Palermo.

É feito a partir da pasta de amêndoas, com um toque discreto de açúcar (daí o nome: amaretto quer dizer "amarguinho"). Esses da foto eu comprei para a noite de Ano Novo, em Taormina, em uma confeitaria maravilhosa chamada Mangia e Vinci (Corso Umberto I nº 57), que também tinha umas frutas cristalizadas de morrer.

Hora de relaxar: uma pausa siciliana tem que ter cornetto
Cornetto
Cada viagem que eu faço acrescenta uma mania nova à minha longa lista de rituais. Na Sicília, a alegria de final de tarde era parar em algum café para revisar as anotações do dia, olhar o movimento da rua e suspirar de prazer com uma xícara de chocolate e um cornetto, esse abençoado primo do croissant que é característico da pastelaria local.

A variação era o recheio: o da foto (degustado após a visita ao Vale dos Templos, em Agrigento) era com creme de pistache (hummmmm....), mas também dá para delirar com creme de ricota, mascarpone... Só de lembrar, quero voltar correndo :).

⭐ Vinho Marsala 
Que me perdoem o Xerez e o Vinho do Porto (adoro os dois!!), mas quando se trata de vinho para aperitivo, sempre fui doida pelo Marsala, filho dileto do solo siciliano. É perfeito para acompanhar um queijo forte, mas eu gosto mesmo é de combiná-lo com sobremesas.

Combinação inesperada e espetacular: marsala com tiramisù. À direita, o vinho acompanha o sorbet de limão siciliano - mais de casa, impossível
A maior surpresa foi ver como ele casa bem com um belo tiramisù (que tem origem no Vêneto, nada a ver com a Sicília). Experimentei a parceria, em um almoço em Taormina, e fiquei viciada...

O vinho é produzido nos arredores da cidade de Marsala e tem uma história parecida com o Porto e o Xerez, já que também foi desenvolvido a partir da produção local por produtores ingleses (ao que parece, os britânicos não resistem a um vinho fortificado). 

O Marsala começou a ser produzido no Século 18 e além de ser famoso como aperitivo, é a base do zabaione, creme de gemas que é uma das minhas sobremesas favoritas.

Pasta alla Norma da Antica Foccaceria San Francesco
Pasta alla Norma
Este é outro clássico da cozinha siciliana, massa (geralmente rigatoni, mas também espaguete) com molho feito de tomates e berinjelas e toques de manjericão. Com esses três ingredientes, o que pode dar errado?

Diz a "lenda" que o molho alla Norma é inspirado na ópera Norma, de Belinni. Não sei se é verdade, mas o prato é tão maravilhoso que todas as vezes que eu provo eu ouço Maria Callas entoando Casta Diva, famosa (e arrebatadora) ária dessa ópera, que ela cantou como ninguém.

☑️ Onde comer em Taormina


La Grotta Azzurra: estão vendo essa carinha inocente de pasta feita em casa? Pois esse é um divino prato de linguine com molho de ouriço do mar. À direita, a panna cotta 
⭐ La Grotta Azzurra 
Via Bagnoli Croce nº 2

É uma casa tradicional, com uma banca de peixes e frutos do mar na porta e salão à meia luz, perto do Corso Umberto, a rua principal do Centro Histórico de Taormina. 

O restaurante funciona no térreo de um edifício antigo e a ruazinha pode não ser muito fácil de achar. O salão é pequeno, o atendimento é simpático eu gostei da trilha sonora - boa música italiana, Ella Fitzgerald e coisas assim. 

Pedi linguine com molho de ouriços e amei de paixão. A sobremesa foi uma panna cotta simplíssima (só com uma calda de chocolate) que estava muito gostosa. A sobremesa, aliás, apesar de típica do Piemonte, parece ser bem popular nos restaurantes sicilianos. E não sou eu que vou reclamar, né? Afinal, eu adoro... O jantar, com vinho, custou €25.


Aperol spritze pra abrir o apetite e o meu risotinho
⭐ La Buca 
Corso Umberto n º40

Escolhi esse restaurante porque ele promete (e cumpre) uma vista panorâmica para o mar, de seu salão envidraçado da parte dos fundos. 

Pedi o risoto marinara (de frutos do mar), que estava bem correto e delirei com a sobremesa, o já decantado tiramisù acompanhado por vinho Marsala. Com o vinho que acompanhou o prato principal, a conta foi de €27.

☑️ Onde Comer em Agrigento


Trattoria Concordia: jantar memorável em Agrigento
⭐ Trattoria Corcordia 
Via Porcello nº 8, Centro

O pessoal do Hotel Concordia, onde acabei ficando, me indicou essa trattoria xará (nada a ver com eles,  mas é que você vai encontrar um monte de lugares chamados "Concordia" em Agrigento, por causa do templo grego mais famosos da cidade).

Foi um jantar memorável. Pedi linguine com pesto, tomates cerejas e amêndoas, prato simplesmente divino, que tratei de saborear bem devagarzinho, degustando uma taça de tinto siciliano bem forte e encorpado.

Depois dessa carícia de soul food, eu estava pronta para arrematar com panna cotta (não disse que a sobremesa é popular na ilha?) de frutas vermelhas e, finalmente, uma flûte bem altinha de limoncello, mas só porque eles não tinham Marsala 😋. Fui dormir feliz da vida. 

A casa é tocada por um jovem casal que se revesa na cozinha e no pequeno salão. No verão, há serviço em um pátio interno, à luz das estrelas. Meu jantar delicioso e reconfortante custou €20.


Esses mexilhões (esq) estavam bons demais
⭐ Perbacco Vineria 
Vicolo lo Presti nº 2
O restaurante funciona em um casarão muito antigo, em vicolo (beco) que é mais uma escadaria que outra coisa, transversal à Via Atenea, coração do Centro Histórico de Agrigento. Escolhi pelas boas referências que vi na internet.

Adorei o teto do salão, com belas vigas de madeira que parecem ser da construção original. Pedi mexilhões (cozze) de entrada e não me arrependi. Posso ser suspeita, porque sou devota desses mariscos, mas o molho, com um toque de tomate, estava perfeito. A pasta alla carbonara que veio a seguir estava apenas correta. Com o Marsala para arrematar a refeição a conta ficou em €20.

☑️ Onde comer em Palermo


Outra refeição memorável, no La Cambusa, em Palermo
La Cambusa 
Piazza Marina nº 6

A Piazza Marina é uma área bem movimentada com bares e restaurantes, na Via Vittorio Emanuele (a principal artéria do Centro Histórico). Lá tem de tudo, desde casas pega-turistas até preciosidades como o La Cambusa, restaurante elegante, com decoração moderna e sóbria e atendimento eficiente e simpático.

Jantei divinamente lá, a começar pela caponata de peixe espada, que estava maravilhosa. Caponata é um preparo tipicamente siciliano, a base de berinjelas e tomates em um molho agridoce. Caiu como uma luva com o sabor forte do peixe espada. Perfeita!

Na sequência, os ravioles com abobrinha, passas e lascas de amêndoas estavam de chorar, de tão bons. Arrematei tudo com sorbet de limão e, claro, uma taça de Marsala. Uma refeição inesquecível, por €28.

O balcão da Antica Focacceria San Francesco é uma eterna muvuca
Antica Focacceria San Francesco 
Via Alessandro Paternostro nº 58

Essa casa tradicionalíssima de Palermo fica em frente à Igreja de São Francisco, vive lotada e à beira do pandemônio, ainda mais que eu resolvi almoçar lá em pleno feriado do Dia de Reis, que, na Sicília, é quase tão celebrado quanto na Espanha.

Eram hordas de famílias de braços dados, saindo da missa e se acotovelando no venerando balcão, de pé desde 1834.

Salão da Antica Focacceria: exílio para turistas
Depois de me deliciar com panelle (massa de grão de bico frita, com toques de limão siciliano) no meio da adorável balbúrdia, fugi para o salão do terceiro andar, onde o serviço é a la carte e o clima é bem  mais sossegado.

Pedi pasta alla Norma com uma taça de vinho. Ganhei  em conforto, mas perdi o clima gostoso do salão térreo. Fiquei com a sensação de que só os turistas usam essa parte mais reservada da casa. A vista para a praça e para a igreja, porém, compensam o exílio. Almoço, com vinho, por €25.

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A Europa na Fragata Surprise

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2 comentários:

  1. Para tudo Cyntia! O que é esse post? Preciso ir à Sicília urgente. To amando seus post sobre essa linda Ilha Italiana.
    E parabéns pelo blog
    Bjs
    Dani Bispo

    Www.comerecocaresocomecar.com.br

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    Respostas
    1. Dani, a Sicília é toda maravilhosa: culinária, paisagens, história, astral. Vá sim, que vc vai amar.
      Bjo e obrigada

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