29 de setembro de 2013

Arquitetura georgiana em Bath, Inglaterra

No meio do caminho (e por toda parte) tem uma pedra
(A Abadia de Bath e o arco de York Street)
Um passeio pelas ruas históricas de Bath, no Sul da Inglaterra, tem sempre pitadinhas de reencontro. A cuidadosa conservação da arquitetura da cidade a tornou uma das preferidas como locação de filmes e mini-séries de época e é inevitável que a gente reconheça algum cenário, geralmente muito romântico.

A Arquitetura georgiana em Bath está por toda parte e é o grande tesouro dessa adorável cidade de Somerset, Sul da Inglaterra, uma região famosa também por suas tradições muito antigas de druidas e guerreiros.

Acostume-se: quase todas as ruas de Bath são lindas assim
Mesmo sem cenas de cinema, os cenários de Bath oferecem imagens cheias de luz, muito graças à magia do material usado na maior parte das construções da cidade, a famosa Pedra de Bath, responsável pela completa redefinição do meu conceito de pedra preciosa.

É essa pedra cor de mel que dá um charme todo especial à célebre arquitetura georgiana de Bath, principal atração turística da cidade.

O estilo —  uma derivação tipicamente inglesa da arquitetura palladiana — se caracteriza por conjuntos de edifícios obsessivamente harmônicos, em linhas discretas e sem grandes rebuscamentos que marcaram as construções britânicas a partir do Século 18, até o começo do Século 19.

O Parade Green, às margens do Rio Avon. Ao fundo,
a Pulteney Bridge
A Pedra de Bath já era queridinha dos romanos, que chegaram por la no primeiro século da nossa era. É verdade que os impérios não são muito chegados à contemplação, e a produção das pedreiras dos atuais condados de Somerset e Whiltshire foi inicialmente utilizada para fortificar o assentamento militar, antes de ser aplicada às delicadezas arquitetônicas.

Mas lá estão as Termas Romanas, atração mais famosa da cidade, para provar que até mesmo os mais empedernidos conquistadores podem perceber  beleza de algo aparentemente tão banal  quanto um bloco de arenito.

A arquitetura georgiana e suas portas multicores
Com todo respeito ao talento dos arquitetos John Wood, pai e filho, responsáveis por traçar as feições da cidade, no Século 18, ouso dizer que são as pedras de Bath as grandes responsáveis pelo permanente encantamento que a gente sente por lá, desde que pisa na plataforma da Estação Ferroviária.

Os blocos cor de mel conspiram para dar à atmosfera da cidade uma temperatura de aconchego, uma luz quase tropical que contagia o nosso humor, desacelera o coração e transforma o simples prazer de deitar na grama numa experiência inesquecível.

As Termas Romanas, atração mais famosa de Bath. A maior parte das edificações data do Século 18, quando as construções do tempo dos romanos foram redescobertas e ganharam um charmoso pavilhão em estilo georgiano
Minha tese é que a suntuosa arquitetura georgiana de Bath, marcadas pelo rigor da uniformidade, corria o sério risco de se tornar um conjunto quase opressivo, de tão disciplinado.

É a luz das pedras — cor de mel, castanhas ou escandalosamente douradas, quando banhadas pelo sol do amanhecer e do cair da tarde — que rege essa harmonia para torná-la tão alegre e reconfortante.

O Holburne Museum
➡️ Onde ver a arquitetura georgiana em Bath
A rigor, Bath inteirinha é um espetáculo e a melhor maneira de namorar sua arquitetura é caminhar (e, de preferência se perder), para descobrir cantinhos anônimos e encantadores.

Alguns conjuntos arquitetônicos, porém, são obrigatórios, como o Royal CrescentThe Circus e Great Pulteney Street.  Aqui segue um roteirinho por áreas e outras não tão famosas, mas não menos interessantes. Siga o mapa e apaixone-se por Bath:



⭐The Royal Crescent
Desde sua construção, em 1774, The Royal Crescent é o endereço mais caro e exclusivo de Bath. São 30 casas (melhor dizer mansões) geminadas, formando uma meia lua de 150 metros de arco que se derrama sobre uma vasta área verde.

Uma dessas casas está aberta à visitação, o nº 1 do Royal Crescent, que funciona como museu (diariamente, das 10h às 17, entrada £10.30). Se puder gastar mais (muuuuito mais), hospede-se no nº 16 do conjunto, The Royal Crescent Hotel & Spa 😀.

Royal Crescent, o endereço mais elegante de Bath, desde o Século 18. O conjunto de casas dispostas em meia lua,  diante de um gramado impecável, ainda é um dos encantos da cidade
Um detalhe interessante do Royal Crescent é que apenas as fachadas, feitas da mais castiça pedra de Bath e com elegantes colunas jônicas, são idênticas. John Wood projetou e acompanhou a construção apenas dessa parte exterior das 30 casa. A partir daí, cada proprietário pode erguer sua morada com a planta que lhe deu na telha.

Tem graminha para deitar e rolar no Victoria Park, em frente ao Royal Crescent
Arqueólogos acreditam que o Royal Crescent tenha sido construído sobre um cemitério romano. Na parte de trás do conjunto ainda são encontrados vestígios da muralha de Aquae Sulis, como Bath era chamada no tempo em que foi uma povoação romana. Na área também há vestígios de povoações das idades do Ferro e do Bronze.

Se as imagens do Royal Crescent parecerem familiares, é porque o conjunto arquitetônico já foi cenário de vários filmes e mini séries de época, como a versão para a TV de Persuasão de 2007 e o filme A Duquesa, de 2008. 

Em frente ao Royal Crescent fica o Victoria Park, área verde perfeita para um piquenique. No domingo que passei em Bath, me esbaldei no verão do Sul Inglês naquele gramado.

The Circus: um círculo perfeito de fachadas absolutamente harmônicas, em torno de um frondoso jardim
⭐ The Circus
As mansões de The Circus se agrupam em um circulo perfeito em torno de um gramado sombreado por plátanos frondosos. Há apenas três entradas para esse recanto elegantíssimo de Bath, inaugurado em 1768.

O projeto é do arquiteto John Wood, o pai e a obra foi completada pelo filho,o artífice do Royal Crescent. A disposição circular desse conjunto é uma referência a Stonehenge e uma homenagem à fortíssima tradição druídica da região onde se encontra Bath.

Logo na sua inauguração, o nº 17 de The Circus abrigou a residência e o ateliê do pintor Gainsborough, o mais célebre retratista inglês do Século 18, responsável por imortalizar as feições dos ricos e poderosos da época.

As fachadas de The Circus
⭐ Abbey Green Da praça em frente à Abadia e às Termas Romanas, tome a Abbey Street e procure essa pracinha minúscula e quase secreta, que fica ainda mais encantadora se você chegar a ela pelo arco de Abbeygate Street.


⭐ Bennett Street
É a rua que sai de The Circus, na direção Sudeste, e que abriga mais um dos perfeitamente harmônicos conjuntos georgianos de Bath.

Embora não tenham a fama das obras mais suntuosas, asa fachadas da Rua Bennett deixam a gente com a impressão de que a qualquer momento vai tropeçar numa das heroínas de Jane Austen.

Great Pulteney Street vista do Holburne Museum
⭐Holburne Museum
No final da Pulteney Street fica esse palacete da virada do Século 18 para o 19, onde funcionou o elegante Sidney Hotel.

O acervo do museu é interessante (em agosto deste ano, havia uma exposição temporária sobre Rembrandt e seus contemporâneos, com telas pertencentes à instituição), mas o que mais me encantou aqui foi a vista espetacular para Pulteney Street que se tem da entrada do edifício e das janelas do primeiro andar.

A cafeteria do Holburne Museum e a entrada do Sidney Park

O Holburne Museum também é a porta de entrada para o Sidney Park, um delicioso jardim que ainda conserva o paisagismo original do Século 18, com direito a recantos "gregos", bem ao gosto da época.

Num pavilhão moderno, todo envidraçado, nos fundos do palacete que abriga o museu, funciona um café muito agradável, perfeito para descansar os pés, cercado pelo verde do parque.

Sidney Place: Jane Austen morou aqui 
⭐Sidney Place
Em frente ao Holburne Museum, uma transversal de Great Pulteney Street abriga um conjunto de casas aristocráticas, mas não muito luxuosas (na época).

Em uma delas, o nº 4, morou Jane Austen, quando a família mudou-se para Bath. A escritora não era uma grande entusiasta da cidade, que considerava frívola, mas adorava passear pelos Sidney Gardens.

⭐Great Pulteney Street
Great Pulteney Street é o canto do cisne dos grandes conjuntos georgianos de Bath. Inaugurada em 1789 — o ano da Revulução Francesa — a rua fazia parte de um ambicioso projeto de expansão urbana na direção de Bathwick, o distrito do outro lado do Rio Avon.

A inspiração modernizante de seu financiador (o político William Pulteney) e de seu arquiteto, Thomas Baldwin, pode ser percebida nas dimensões da rua, até hoje a mais larga (30 metros) do núcleo histórico de Bath. 


A harmonia da suntuosa Great Pulteney Street fica muito mais aconchegante com o tom dourado das pedras de Bath
O problema é que a Europa da época da inauguração de Great Pulteney Street não estava com humor para aventuras urbanísticas voltadas para a aristocracia. Do outro lado do Canal da Mancha, as multidões de Paris estavam depondo reis e os sans culotes estavam pondo abaixo a porta de mansões bem parecidas com as projetadas naquela rua.

A crise econômica decorrente da instabilidade política no continente — e, na sequência, a guerra contra Napoleão — colocaram um fim à era dos grandes empreendimentos arquitetônicos em Bath.

As mansões de Great Pulteney Street são de uma elegância impressionante — e qualquer imóvel na rua custa na casa do milhão de libras — mas um bom observador percebe pequenas discrepâncias nas fachadas. Nada disso, porém, afeta a sensação harmônica e de obsessiva simetria que se tem aos percorrer os 300 metros da via.
Pulteney Bridge, a imagem mais conhecida de Bath
⭐Pulteney Bridge
Concluída em 1774, mesmo ano da inauguração do Royal Crescent, a Ponte Pulteney sobre o Rio Avon é a imagem mais conhecida de Bath. Levou 20 anos para ficar pronta, como parte de um projeto de modernização da cidade.

Apesar de sua castiça arquitetura georgiana (seguindo cânones estritos do palladiano), repete uma tradição medieval, que é a presença de instalações destinadas ao comércio dos dois lados de seu leito.


➡️ Cenários de filmes famosos em Bath
Uma maneira muito divertida de descobrir a arquitetura de Bath é seguindo o mapa organizado pelo escritório de turismo local listando as áreas da cidade usadas em locações de filmes famosos, como Persuasion, A Duquesa e Vanity Fair.

Aliás, você sabia que o obsessivo Inspetor Javert, vivido por Russel Crowe em Os Miseráveis, saltou para a morte do Grand Parade para as águas do Rio Avon? A cena se passa em Paris, mas foi gravada em Bath, uma queridinha dos filmes de época, graças à rigorosa preservação de seu patrimônio.

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6 comentários:

  1. Oi, Cynthia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem. Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

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  2. Ai, Bath é mesmo linda! E seus posts cada vez + me deixam com vontade de voltar!! (pq fui só num bate-volta de Londres, então não vale! rs) Mas não tinha tantas expectativas, acho que por isso que gostei mais rs A expectativa alta do dia era Stonehenge, visitar Bath já era lucro rs.

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    1. Fernanda, fiquei muito feliz por ter podido esticar minha estada em Bath (como eu já contei aqui no blog, tinha planejado só uma noite). Super recomendo a todo mundo: em vez de pegar uma excursão bate e volta em Londres para ver Bath e Stonehenge em um dia, vá para Bath, curta a cidade com bastante calma e faça o bate e volta a Stonehenge de lá, que é superfácil e barato. As dicas estão no link no pezinho deste post.

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  3. Não conhecia Bath, mas parece ser uma cidade tão bonita, especialmente pelo património arquitectónico!!

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    1. Uma cidade lindíssima que, infelizmente, fica fora de muitos roteiros pela Inglaterra ou é visitada apenas por algumas horas. Fiquei dois dias inteiros, acho que rendia mais :)

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