17 de agosto de 2012

Chile: um bate e volta a Valparaíso

As casinhas coloridas penduradas nos cerros são o grande encanto de Valaparaíso
Na minha primeira visita ao Chile, em 2002, torci o nariz pra Santiago, mas caí de amores por Valparaíso, cidade portuária de quebradas napolitanas e fachadas recobertas por chapas de ferro coloridas, à moda do Caminito de Buenos Aires

Profundamente ligada ao mar e às navegações, Valparaíso nem precisou declamar o currículo pra me conquistar. Bastou que eu me perdesse por aquele labirinto de abismos que fazem as vezes de ladeiras e, de repente, deparasse com a placidez de minúsculos pátios floridos, meio despencado sobre o mar.

Nesse retorno ao Chile, é claro que fiz um bate e volta a Valparaíso para rever suas cores, ladeiras e precipícios. 


Localizada a apenas 120 km ao Noroeste de Santiago e conectada à capital por farta oferta de transporte público, Valaparaiso rende um bate e volta redondinho — que a maioria dos visitantes combina com a visita a sua vizinha, Viña del Mar.

Passei um dia delicioso, ouvindo o pio das aves marinhas e explorando os encantos boêmios do lugar que permanece como o meu favorito em terras chilenas.

Veja as dicas para organizar um bate e volta a Valparaíso:
É um prazer garimpar os detalhes das fachadas
➡️Um pouquinho da história de Valparaíso
O movimento dos barcos é a essência de Valparaíso desde o bercinho. Os primeiros habitantes daquelas paragens foram os índios Changos, nômades que se deslocavam em canoas, o que lhes valeu a descrição de "ciganos do mar", dada pelo historiador chileno Vicuña MacKeena.

Para o povo Chango, aquela terra era Alimapu, "o país queimado" — talvez uma trágica antevisão da razia que os espanhóis fariam em toda a região de Valparaíso, no Século 16, dizimando a população nativa.


Ocupada pelos colonizadores espanhóis, a alma de Valparaíso começou a ser moldada pelos ataques de piratas, pelo vai e vem das embarcações que ligavam o Velho Mundo às minas de prata de Potosi (nos Andes, hoje no território da Bolívia) e pelo febril movimento de imigrantes, chegando de todas as partes do mundo.

Foi a forte presença britânica, que começou a crescer a partir do Século 18, que moldou as feições de Valparaíso.

A colônia inglesa ocupou os penhascos de Valparaíso com vilas floridas, penduradas nos cerros Alegre e Concepción.

Mary Graham, viajante e escritora, grande amiga da Princesa Leopoldina, viveu lá (e preferia a companhia dos locais à de seus compatriotas) e registrou o dia a dia da cidade em um livro de memórias.


➡️ O que fazer em Valparaíso

⭐ Paseo Yugoslavo
O lindo Paseo Yugoslavo é uma pracinha do Cerro Alegre pendurada no abismo e cercada de casarões famosos, como o Palácio Baburizza, construção de 1916 que hoje abriga o Museu Municipal de Belas Artes de Valparaíso .

No meu retorno a Valparaíso, em julho de 2012, o Paseo Yugoslavo ainda mostrava as marcas deixadas pelo forte terremoto que sacudiu a Costa Chilena em 2010. A Praça ainda estava sendo rasgada por tratores nos consertos das redes subterrâneas de água e esgoto. Morri de pena, mas agora o lugar já está tinindo, outra vez.

Palácio Baburizza, no Paseo Yugoslavo. O terremoto de 2010 fez estragos na praça, mas as obras de recuperação estavam a pleno vapor
⭐ Paseo Gervasoni
 Suba o funicular para o Cerro Concepción e um dos primeiros encantos que você vai encontrar é o Paseo Gervasoni, em frente ao famoso hotel com o mesmo nome.

Com névoa de inverno e tudo, o lugar é puro verão, graças às cores de suas fachadas, às flores em vasinhos espalhados por toda parte e ao saxofonista entreouvido através de alguma janela.

Paseo Gervasoni: que tal parar para um drinque no terraço do hotel?
O Hotel Gervasoni tem um terraço panorâmico de responsa, pendurado no penhasco e com uma vista encantadora para o mar e os morros da cidade. Bom lugar para a primeira pausa neste bate e volta a Valparaiso.

No Paseo Gervasoni, Valparaíso se parece demais com aquele pedacinho de Nápoles onde o Vomero começa a se derramar ladeira abaixo, pelos Quartieri Spagnioli — o nome do lugar, pelo menos, foi “importado” da Itália, uma homenagem a um antigo cônsul que viveu nesta área. 

Valparaíso tem um certo sotaque napolitano
De um lado, o Paseo Gervasoni tem lindos casarões do Século 19, alinhados em frente ao penhasco. Do outro, oferece uma bonita vista da Baía de Valparaíso.

Mesmo com toda a névoa de inverno, dá para ficar horas debruçada na gradinha de ferro, adivinhando o burburinho das aves marinhas, lá em baixo.

⭐As casinhas coloridas de Valparaíso
Explorar o Cerro Concepción e seu vizinho, o Cerro Alegre, significa descer e subir ladeiras e escadarias quase verticais. Mas vale a pena. 

Prepare o fôlego para o sobe e desce
As fachadas multicoloridas de Valparaíso, revestidas pelas peculiares chapas de ferro ondulado, são de um esmero encantador, sempre arrematadas por flores, cortinas e arranjos.

Muitas dessas casas foram convertidas em pousadas, cafés e lojinhas de artesanato e vale dedicar pelo menos um par de horas para descobrir lugares bem interessantes.



A nostalgia do lambe-lambe no Paseo Yugoslavo e uma das muitas escadarias do Cerro Alegre

⭐Casa Museu Lord Cochrane
Calle Merlet nº 195. Acesso pelo funicular Cordillera, na calle Serrano. De terça a domingo, das 10h às 18 horas. Entrada gratuita.

Valaparíso dedica um museu ao controvertido Almirante Cochrane, patrono das marinhas chilena e brasileira.

O museu funciona num dos casarões mais antigos de Valparaíso, no Cerro Cordillera. Embora tivesse sido construída para ser residência do velho lobo do mar, Cochrane jamais morou na propriedade, que acabou abrigando o primeiro observatório astronômico do Chile, fundado em 1843.

Só a vista espetacular sobre o Pacífico que se tem do casarão está à altura da biografia cinematográfica do legendário homem do mar: o acervo do museu é pobrinho, com peças de modelismo naval — cá para nós, uma cidade que deve tanto de sua personalidade ao mar deveria ter um espaço mais robusto dedicado à memória naval.


➡️ Como chegar a Valparaíso
É muito fácil ir de Santiago a Valparaíso. Várias empresas de ônibus fazem a rota, a partir do Terminal de Buses, integrado à estação de Metrô Uiversidad de Santiago, na linha vermelha (cuidado para não confundir com as estações Universidad Católica ou Universidad de Chile). 


Os ônibus de Santiago a Valparaíso saem a cada 15 minutos.

A passagem do ônibus custa cerca de 4.300 pesos (US$ 7). Ao comprar o bilhete ida e volta, é possível deixar o horário de retorno em aberto e regressar a Santiago sem pressa.

 último ônibus de Valaparaíso para Santiago sai às 22 horas.

Viajei de Santiago a Valparaíso com a Tur Bus. Para minha grata surpresa, consegui um assento na janelinha, no segundo andar (nem todos os carros têm dois andares e eu não planejei nada. Foi sorte, mesmo...). A paisagem na estrada é bacana e a viagem passou que eu nem percebi.

O tempo de viagem da capital a Valparaíso é de quase duas horas, com direito a ver montanhas e a bela mata da Reserva Florestal Peñuelas


➡️ Transporte em Valparaíso
Não se assuste com a cara caída da rodoviária de Valaparaíso, bem feinha e bagunçada. Ela fica na Avenida Manuel Montt, uma área de comércio popular meio decadente.

Da rodoviária para as atrações da cidade, não precisa pegar táxi. A parada dos micro-ônibus (600 pesos a passagem) está a 50 metros à direita da estação. 

Avise ao motorista que quer descer em Reloj Turri, a poucos passos do funicular (diga “ascensor”) para o Cerro Concepción

A bordo do Ascensor Concepción
➡️ Como subir os morros de Valparaíso
Valparaíso é uma espécie de Salvador que exagerou: a cidade também tem parte alta e parte baixa, só que a altura de seus morros é muito mais vertiginosa que a da minha terra.

Para socorrer quem precisa se deslocar pra baixo e para cima, há 22 elevadores (funiculares), servindo aos diversos cerros (morros) da cidade.

Os mais famosos são Ascensor El Peral (de 1902), que para do ladinho do Paseo Yugoslavo, o Ascensor Concepción (de 1883), que dá acessos aos cerros Alegre e Concepción, e o Ascensor Artillería (de 1893), que conecta a parte baixa da cidade com o Paseo 21 de Mayo, talvez o mirante mais bonito de Valparaíso.

A passagem nos funiculares custa 300 pesos (R$ 1,50).

Alguém aqui falou em Nápoles?
➡️ Onde comer em Valparaíso
⭐Kiseki Sushi Bar
Calle Urriola 464, Cerro Alegre

Depois de visitar o Paseo Iugoslavo, descendo a pirambeira da Calle Urriola, dei de cara com o simpático Kiseki Sushi Bar. Aí eu pensei: "Tem lugar melhor para experimentar um japinha que numa cidade portuária?". 


E acertei em cheio: os frutos do mar fresquinhos estavam de rasgar a roupa.

Pedi temakis com salmão, jaiba (caranguejo) e camarão, que combinaram às mil maravilhas com o pico sour.

Os korokés (bolinhos de purê de batata com recheio de carne) com molho teriaki estava crocantes e muito saborosos — além de quentinhos, necessidade básica, depois de enfrentar a ventania nas ladeiras de Valparaíso.


O Kiseki Sushi Bar é despretensioso, mas muito confortável, com atendimento muito simpático e trilha sonora de primeira (não é que a gravação de Dream a Little Dream of Me de John Pizzarelli é páreo para a de Mamma Cass?).

O WiFi gratuito do restaurante é uma mão na roda para botar as redes sociais em dia, enquanto se descansa do sobe e desce pelos cerros da cidade.

Almocei muito bem por 7.700 pesos (R$ 30), com bebidas incluídas.

➡️Valparaíso e a Fragata Surprise
Para quem tem um blog chamado A Fragata Surprise, voltar a Valparaíso é um pouquinho como voltar para casa.

Foi nessa cidade portuária do Chile, há mais de uma década, que comecei a descobrir a existência da HMS Surprise, a embarcação/personagem que transportou a dupla Abrey&Maturin pelos oceanos, nos livros de aventura escritos pelo irlandês Patrick O’Brian. 


Ao longo dos 20 livros da série, o capitão Jack Aubrey — o lobo do mar astuto e competente que beira o simplório, quando fora d’água — foi assíduo frequentador dos mares do Chile e do porto de Valparaíso, estratégico para os navios que faziam a travessia do Atlântico ao Pacífico, pelo Cabo Horn ou pelo Estreito de Magalhães. 

Quem me apresentou a Jack Aubrey foi um marujo que existiu de verdade. O Almirante Thomas Cochrane é um velho conhecido dos livros de História, por conta de sua participação na Guerra de Independência da Bahia (1822-1823). 


Cochrnane foi um dos fundadores e sempre conservou profundos laços com a Marinha Chilena, sediada em Valparaíso. Comprei um livro sobre ele, na minha primeira passagem por lá, em 2002. Da biografia do almirante de carne e osso, cheguei ao capitão da literatura (e ao amor por uma embarcação que virou nome de blog).

É que o personagem de Aubrey foi inspirado em Cochrane. Ambos foram expulsos da Marinha Britânica, acusados de usar informações privilegiadas para ganhar dinheiro na bolsa de valores, quando eram membros da Câmara dos Lordes.

Amargaram o ostracismo dando uma mãozinha mercenária às guerras de independência da América do Sul. Foi isso que os trouxe às águas de Valparaíso.

Cochrane colocou Valparaíso no meu mapa e a Fragata na minha vida.


O Chile na Fragata Surprise
Ilha de Páscoa/ Rapa Nui
Peulla – Lagos Andinos
Santiago


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