14 de novembro de 2010

Um dia no Vale Sagrado dos Incas

Ollantaytambo, antiga fortaleza inca
Atualizado em julho de 2018
Passar um dia no Vale Sagrado dos Incas é um programa clássico para quem visita Cusco. O Vale do Rio Urubamba tinha grande importância política, econômica e religiosa para o Império Inca, como atestam uma série de construções impressionantes, hoje convertidas em atrações turísticas. Lá estão a fortaleza de Ollantaytambo, o antigo centro agrícola de Písac e a vila inca de Chinchero, onde persistem a cultura, as técnicas têxteis e a língua quéchua.

O Vale do Urubamba — rio também chamado de Willcamayu, sagrado para os incas e uma das origens do Amazonas — merece ser explorado com calma, em um roteiro de dois ou três dias. Mas se você não dispõe de tanto tempo, pode ter uma boa ideia sobre a região fazendo um tour de um dia inteiro. Já fiz esse passeio três vezes e acho bem legal.

A maioria das agências de turismo de Cusco oferecem esse passeio a preços bem acessíveis, passando por mercados de artesanato, Písac, Ollantaytambo e pela fofa vila de Chinchero, a mais de 4 mil metros de altitude.

Feira de artesanato no Vale do Urubamba
☑️ Como é o passeio ao Vale Sagrado dos Incas
Em Cusco, quanto mais distante da Plaza de Armas você comprar o roteiro, mais barato ele vai custar. No bairro de San Blas, por exemplo, as agências cobram 30 soles por pessoa, contra os US$ 30 cobrados no Centro da cidade.

As programações são similares: ônibus com guia e um almoço (sempre muito sofrível. É bom levar uma fruta ou um lanchinho leve), geralmente nas cidades de Urubamba ou Yucay.

Os ônibus recolhem os passageiros nos hotéis de manhã cedinho. O passeio dura o dia todo.

O ingresso para entrar nas atrações do roteiro é o Boleto Turístico de Cusco – um passe que também dá acesso a uma série de museus e igrejas na cidade e arredores.

O funcionamento desse passe está explicadinho neste post:
Cusco: desvendando o boleto turístico

Logo na saída de Cusco, subindo as montanhas, o ônibus vai passar — sem parar — pelos sítios arqueológicos de Saqsaywamán, Quenko, Purapukará e Tambomachay. São visitas obrigatórias, portanto não se contente em vê-las da janelinha, a caminho do Vale Sagrado.

A melhor maneira de ver esses sítios arqueológicos é reservar pelo menos uma tarde, com um guia. Na minha primeira visita a Cusco, em 2002, fiz esse roteiro a cavalo e recomendo fortemente esta opção, que também leva o visitante ao pouco conhecido Templo da Lua.

Confira o post sobre esse passeio aqui:
Passeio a cavalo pelas montanhas de Cusco e o Templo da Lua

Terraços de cultivo nas ruínas de Písac
Roteiro pelo Vale Sagrado dos Incas
Na rota para o Vale Sagrado, a primeira parada é sempre num mercado de artesanato. Às terças, quintas e, especialmente, aos domingos, funciona um imenso mercado na cidade de Písac, onde os viajantes simplesmente enlouquecem diante das centenas de barracas abarrotadas e preços inacreditáveis.

É um típico mercado andino, com gente que vem das vilas e povoados dos arredores vender seus produtos. Um passeio por entre os tabuleiros e tendas é uma experiência deliciosa. Aproveite para experimentar choclo con queso, uma espiga do milho típico da região — branco e com grãos enormes — acompanhada de uma fatia de queijo fresco (será que é de leite de lhama?), que derrete em contato com o milho quentinho.

Sítio arqueológico de Písac
☆ Sítio Arqueológico e Mercado de Písac
Em Písac, além do imenso mercado de artesanato, a atração é o sítio arqueológico que fica no alto de uma montanha. Dominando o Vale do Urubamba, a cidadela de Pisac protegia uma importante estrada inca que levava às fronteiras do Império, na Selva Amazônica, servia de depósito e centro de distribuição de alimentos e pouso para tropas e viajantes.

A cidadela fortificada de Písac era cercada de terraços de cultivo e dispunha de um eficiente sistema de irrigação. As ruínas do Templo do Sol são quase tão espetaculares quanto as de Machu Picchu. Na montanha em frente às ruínas, uma série de cavernas na rocha funcionaram como cemitério para os poderosos da cidade.

Quem optar por uma visita independente a Písac — e com mais tempo para desfrutar das ruínas e do mercado de artesanato — pode chegar à cidade em ônibus regulares, desde Cusco. São só 33 quilômetros de distância, mas a viagem pelas tortuosas estradas da Cordilheira leva cerca de uma hora. Para ir da cidade até o sítio arqueológico, será preciso contratar um táxi (a subida é simplesmente mortal, por conta da altitude. Nem pense em ir a pé!).

Ollantaytambo: não se deixe intimidar pelos degraus
☆ Visita a Ollantaytambo
A 60 quilômetros de Cusco está a cidade de Ollantaytambo e suas espetaculares ruínas do tambo do imperador Pachacútec. Não se deixe intimidar pelos infinitos degraus, que parecem levar até as nuvens. A subida ao topo da construção é obrigatória (pelo menos, na primeira visita).

Os tambos incas eram locais de abrigo e armazenagem de produtos às margens das estradas do império. Ollantaytambo, porém, parece uma fortaleza e acabou cumprindo essa vocação. Primeiro, como local de refúgio do rebelde Ollanta, o plebeu que ascendeu a general e apaixonou-se pela filha do imperador. Depois, como bastião da resistência andina aos conquistadores espanhóis, liderada por Manco Inca Yupanqui.

Ollantaytambo é a povoação inca mais antiga ainda habitada
Todo o conjunto arqueológico de Ollantaytambo é impressionante. É um ótimo lugar para se apreciar a elegância e a precisão da engenharia inca, o encaixe perfeito das pedras gigantescas que dão forma aos muros, templos e aos silos de grãos, no alto das montanhas. A misteriosa “cara do inca”, esculpida pelos ventos na rocha nua, na montanha em frente ao tambo, desafia a imaginação.

Ollantaytambo, hoje, é mais conhecida como ponto de partida para a Trilha Inca até Machu Picchu. A maioria dos que fazem a pé o caminho até a cidade sagrada dos incas começa a caminhada lá.

A antiga vila inca —  uma dos núcleos urbanos mais antigos do Peru com ocupação contínua — cresceu muito desde a minha primeira visita, em 2002. Ollantaytambo ganhou uma série de pousadas, restaurantes, lojas de artesanato e cyber-cafés. Mas não perdeu seu charme de pueblo cordillerano, com casas de adobe construídas sobre paredes incas e habitada por gente simpática.

Lojinha de artesanato em Ollantaytambo
Um dos motivos desse crescimento foi a mudança na rota do legendário Backpaker, o trem baratinho que levava os mochileiros a Águas Calientes (ou "Machu Picchu Pueblo", como se chama atualmente) que fez da Estação Ferroviária de Ollantaytambo seu ponto exclusivo de partidas e chegadas. O trem mochileiro não existe mais, mas essa jogada turística botou a vila no mapa dos turistas, definitivamente.

Hoje, Ollantaytambo é uma excelente opção de pernoite, na ida ou na volta, para quem visita Machu Picchu. Eu comprovei isso nesta minha quarta viagem à região, agora em 2018.

Veja minhas impressões: Cusco, Ollantaytambo ou Águas Calientes: onde pernoitar para visitar Machu Picchu

Leia também: Ollantaytambo – mais que uma escala para Machu Picchu

O mercadinho de artesanato de Ollantaytambo também cresceu e já ocupa toda a praça na entrada do sítio arqueológico.

A oferta de transporte regular entre Cusco e Ollantaytambo é generosa e cada vez mais os visitantes têm optado por pernoitar na cidade, para ver as ruínas com mais calma e seguir viagem de trem até a Estação de Águas Calientes. A oferta de hospedagem, antes restrita a pequenas hospedarias e a quartos nas casas dos moradores, começa a se sofisticar, com a proliferação de pousadinhas charmosas.

A Vila de Chinchero, a mais de 4 mil metros de altitude
☆ Visita a Chinchero
O percurso de Ollantaytambo a Chinchero, última parada no Vale Sagrado, dura cerca de uma hora e meia. A paisagem do caminho até a cidadezinha é espetacular, uma sucessão de curvas entre as montanhas, com vista para os picos nevados, banhados pelo sol quase poente. Só mesmo os Apus (as montanhas nevadas, sagradas para os povos da Cordilheira) para protegerem os viajantes que sacolejam no ônibus, sempre à beira de um precipício.

Se não fosse a infâmia do trocadilho, daria para dizer que Chinchero é o ponto alto da viagem. A cidade, a mais de 4 mil metros de altitude, é simplesmente apaixonante.

"Sistina das Américas": 
a igreja de Chinchero também reivindica o título
As construções ainda lembram as missões dos tempos coloniais: casinhas brancas, arcadas e ruas estreitas, de calçamento irregular, organizam-se em torno do grande descampado onde está a igreja, outra reivindicante ao título de “Sistina das Américas” (a outra é a de Andauaylillas).

Como o da sua rival mais ao sul, o interior da pequena igreja colonial de Chinchero é simplesmente arrebatador: as paredes e são cobertas de afrescos que sincretizam um “cristianismo andino” e o teto também é recoberto de pinturas. Uma das mais belas igrejas que já vi nas Américas.

O mercado de Chinchero
O Peru na Fragata Surprise
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Peru e Bolívia – roteiro de La Paz a Machu Picchu

Cusco
Lima
Machu Picchu
Puno
Andahuaylillas, Pukará e Raqchi



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2 comentários:

  1. Cyntia, recomendo ir a Pisac em um domingo e assistir a missa em quechua em uma pequena igreja nos arredores da cidade. Não sei o nome mas no mercado informam. Os campesinos vão vestidos a caráter. E o mercado é uma orgia de cores e cheiros.

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    1. Eu estive no mercado de Pisac na primeira vez que fui ao Peru, Graça. Realmente, é uma doideira, muita cor, muita oferta... Essa missa em quechua eu não vi, mas vi uma bem comovente, em Cusco mesmo, num bairro meio de periferia. Igrejinha simples, pobrinha, mas os canticos eram lindos. A Cordilheira é apaixonante 😊

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