20 de novembro de 2007

Amalfi, a República do Mar

O Duomo di Sant'Andrea, na praça principal da cidade
Eu seria uma hipócrita se dissesse que não fui à Costa Amalfitana pela beleza do lugar. Mas meu amor pelo mar não se encerra na praia, nem na contemplação da paisagem. É o amor por um mar cheio de aventuras.

E isso a história de Amalfi teve de sobra. A cidade é muito mais que um balneário. É um encanto à beira-mar, cercada de montanhas e com um patrimônio histórico de primeira - o que a torna um ótimo destino turístico, mesmo fora da temporada de verão.

Visitei Amalfi em um mês de novembro e fiquei apaixonada pela cidadezinha que já foi uma potência marítima do Mediterrâneo, uma autêntica "república do mar".

Veja as dicas e prepare-se para de apaixonar - com ou sem banho de mar.

A enseada de Amalfi
☑️ O que ver em Amalfi
Com praia ou sem praia, tem muito pra ver em Amalfi, graças, principalmente, à memória das aventuras navais e comerciais da outrora poderosa Repubblica Marinara di Amalfi.

Hoje é difícil imaginar a pequena cidade da Costa Amalfitana, com com seus cinco mil habitantes, na condição de potência marítima, capaz de rivalizar com Gênova e Pisa, muito antes do esplendor de Veneza.

Mas entre os séculos 7 e 11, porém, Amalfi era tão importante que emplacou suas Tábuas Amalfitanas como o código de direito marítimo universalmente aceito, no Mediterrâneo e além, ao longo de toda a Idade Média.

A cidade chegou a abrigar 70 mil habitantes (onde será que eles se espremiam?) na estreita faixa de terra aconchegada em torno da enseada que fervilhava de embarcações de guerra e de comércio.

O sotaque evidentemente mourisco
das arcadas da Catedral de Amalfi
As frotas das antigas sagene — as embarcações da Repubblica Marinara que chegavam a ter 120 remos — já não entram e saem do porto, trazendo guerreiros e mercadorias de todas as partes do mundo então conhecido. No frio de novembro, nem mesmo o vai e vem dos barcos modernos perturbava o espelho perfeito e muito azul daquelas águas.

Fora da temporada de verão, o encanto de Amalfi é descoberto quando a gente se embrenha por suas ruazinhas estreitas que bem poderiam ter inspirado os Irmãos Grimm a escrever A Bela Adormecida: um dia, num passe de mágica, aquele reino poderoso.

O fuso envenenado que estancou o esplendor econômico de Amalfi foi um tsunami que destruiu seu porto, no Século 14. Antes, a República Amalfitana já havia perdido importância política, dominada primeiro pelos normandos, no Século 12, e depois caindo sob o domínio de Pisa.
Mosaicos da Basílica da Crucificação,  do Século 9.
A Catedral de Santo André foi construída sobre esse velho templo
O “reino adormecido de Amalfi” não está coberto pela hera, como no conto dos Irmãos Grimm, mas quem caminha por seu emaranhado de ruas, passagens cobertas e pracinhas quase secretas bem que poderia usar o truque do miolo de pão de Joãozinho e Maria, se quiser ter certeza de achar o caminho de volta para o hotel.

Sem as multidões do verão, andar pela cidade é como atravessar um portal mágico para a Idade Média, só desmentida quando a gente dá de cara com instalações prosaicas como um mercadinho ou encontra uma senhora, muito compenetrada, varrendo a calçada com os fones de um Ipod nas orelhas.

800 metros de estrada separam Amalfi da pequenina Atrani (foto), caminhada gostosa para ver uma cidade fofa
Foi numa dessas explorações que eu acabei fazendo uma das melhores refeições da minha vida. Estava completamente perdida no labirinto amalfitano quando dei de cara com uma mercearia bem simplesinha, com uma vitrine nababesca: polvos, lulas e lagostins eram oferecidos numa tentadora salada - supresas amalfitanas que confirmam minha tese de que esta é uma cidade encantada 😊.


A beira mar de Amalfi: visite os Arsenais da Marinha da outrora poderosa Repubblica Marinara, garimpe peças de faiança e arremate com uma dose de limocello 
☑️Passeios em Amalfi

⭐ Os Antichi Arsenali (antigos estaleiros)
Largo Cesareo Console nº 3. De terça a domingo, das 11h às 18:30h. Entrada: € 2

Taí um programa imperdível: o antigo estaleiro de Amalfi é o único de seu tempo que mantém as mesmas características do Século 11, data de sua construção, em toda a área do Mediterrâneo.

Quando eu o visitei, estava sendo restaurado, mas fiquei louquinha de paixão por ele, mesmo assim.

É um vão abobadado, suportado por muitas colunas, onde as atrações principais são duas galeras cerimoniais cobertas de entalhes e pinturas delicadas.

Em 2010, o local ganhou um senhor upgrade em acervo, passando a abrigar o Museo della Bussola e del Ducato Marinaro, dedicado a contar o glorioso passado naval da cidade. 

Atrani, a "morada do dragão"
⭐ Atrani
800 metros a Leste da Piazza Duomo, em Amalfi, fica uma das coisas mais fofas da Costa Amalfitana: a pequena Atrani, com menos de mil habitantes, recebe os visitantes com um "Bem vindos à menor cidade do mundo", numa placa na beira da estrada.

Se é a menor, não sei. Só sei que ela é muito lindinha. Suas ruas estreitas fazem os becos medievais de Amalfi parecerem avenidas.

Atrani fica espremida na fenda entre duas montanhas, debruçada sobre o mar e Costiera Amalfitana - no trecho que passa em frente à cidadezinha, a estrada é sustentada por arcos de pedra (iluminados, à noite, eles contribuem um bocado para a beleza estonteante da cidade).

Diz a lenda que Atrani foi construída sobre o habitat de um imenso dragão (por causa do ser mitológico, o rio que corta a cidade se chama Dragone). Nada, porém, lembra feras flamejantes da cidade: os edifícios medievais que parecem subir um no ombro do outro, encarapitando-se montanha acima, só sugerem sossego. Experimente tomar um limoncello admirando essa beleza e depois a gente conversa...

O interior da Catedral tem uma rica decoração em mármores
⭐Duomo di Sant'Andrea (Catedral)
Piazza Municipio. Aberto diariamente. De março a junho e em outubro, das 9h às 18:45h. De julho a setembro, das 9h às 19:45h. No inverno (novembro a fevereiro, das 10h às 13h e das 14:30h às 16:30h.
A entrada na igreja é gratuita. Para ver o claustro, a cripta e os vestígios da basílica, o ingresso custa € 3.

A imponência da Catedral de Amalfi, encarapitada no alto de uma escadaria de 64 degraus, domina toda a cidade, com o inconfundível sotaque árabe de seus arcos e colunas.

O Duomo de Amalfi foi construído no auge do poderio naval da República Amalfitana, para abrigar os restos de Santo André, padroeiro da cidade, trazidos de Constantinopla por Cruzados, no Século 11.

A igreja tem um claustro apaixonante (sim, eu adoooro!!), o Chiostro Del Paradiso ("Claustro do Paraíso").

No subsolo do Duomo, não deixe de ver a cripta e os vestígios da Basílica da Crucificação, do Século IX, sobre a qual foi erguida a catedral. Um pequeno museu funciona no claustro, com restos de mosaicos da velha basílica.

Restos de um afresco da antiga Basílica da Crucificação
 e o "Claustro do Paraíso"

⭐ Artesanato em faiança e da célebre papelaria amalfitana
 A Oeste do Píer de Amalfi, corre o Lungomare dei Cavalieri, um caminho à beira mar com várias lojinhas de artesanato em faiança, onde também é possível comprar uma (ou muitas) garrafas de limoncello, bebida típica da Costiera.

A cidade tem uma longa tradição na produção de peças de faiança de boa qualidade; Geralmente, a cerâmica é decorada em tons de azul e amarelo, são bem resistentes e, se bem embaladas, sobrevivem na mala até o final da viagem.

Já o papel de Amalfi é bem famoso, desde os primórdios da cidade, que aprendeu com os árabes a produzi-lo e tornou-se pioneira na Europa a usar as técnicas do Oriente. Há vários ateliês de papel artesanal em Amalfi e é possível, inclusive, participar de oficinas e aprender um pouco da técnica.

Mais:
Costa Amalfitana: dicas praticas

Ravello: O precipício mais lindo do mundo
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