segunda-feira, 4 de abril de 2016

Villa de Leyva: dicas práticas
de um encanto da Colômbia colonial

A fonte no centro da monumental Plaza Mayor da Villa de Leyva abastecia todo o povoado, na época da colônia
Das muitas atrações da Colômbia, fazia tempo que eu queria conhecer a região de Boyacá, importante centro agrícola na época da colônia e palco das principais batalhas pela independência do país. Adoro cidades coloniais e Villa de Leyva entrou na minha lista no momento em que vi uma foto de sua famosa Plaza Mayor, considerada uma das mais bonitas e preservadas da América Espanhola.

Essa cidadezinha de apenas 10 mil habitantes, encravada em um vale do Altiplano da Cordilheira Oriental, tem muita história para contar e tem tudo para cair no gosto dos brasileiros que curtem a a uruguaia Colônia del Sacramento ou a nossa Tiradentes. Para os colombianos, já não há segredo: faz tempo que Villa de Leyva é um dos principais destinos turísticos de um país que tem nada menos que a espetacular Cartagena no currículo.

Essa beleza está a 160 km de Bogotá
A favor da Villa de Leyva estão a distância de Bogotá (160 km), que dispensa o avião, e a variedade de atrações desse pedacinho de mundo tão interessante. Os amantes da História, como eu, vão se fartar com o casario colonial, as memórias da conquista espanhola e das lutas pela independência.

A região foi um importante centro político da cultura Muísca, como atestam os sítios arqueológicos (o observatório astronômico de El Infiernito e muitas pinturas rupestres) e é riquíssima em achados paleontológicos.


Claro que estou preparando vários posts sobre as atrações de Villa de Leyva. Mas, antes, fique com as minhas dicas de transporte e hospedagem nesta cidadezinha fofa, que, tenho certeza, vai conquistar seu coração.

Como chegar
A Estação Rodoviária de Bogotá é enorme. Sempre que for viajar, informe-se antes de que setor sai o seu ônibus
Villa de Leyva fica no departamento (equivalente a um estado, no Brasil) de Boyacá, a 160 km de Bogotá. Parece pertinho, mas leve em conta que uma parte do trajeto será feito por uma estradinha estreita que serpenteia pelas montanhas. Calcule três horas de viagem, mais ou menos menos — pode ser bem mais, dependendo do transporte escolhido.

Quem vai de carro deve optar pela Rodovia Bogotá-Tunja (capital do departamento de Boyacá), cuja abreviatura é T-55. Há dois pedágios nessa rota, um na altura de Guachancipá, 50 km depois da capital, outro no final da rodovia, próximo a Puente de Boyacá, quando você deverá tomar a T-60 — a tal estradinha cheia de curvas pelas montanhas. Pela janelinha do ônibus, pude apurar que o valor do pedágio é de 7.200 COP (R$ 8,60). Sinceramente, não sei se eu gostaria de dirigir nesse trecho tortuoso da estrada, não...

Os ônibus para Villa de Leyva partem do setor 3 (Vermelho)
Eu fui de ônibus para a Villa de Leyva e essa é uma opção descomplicada, se você não estiver com o tempo muito apertado. Várias companhias fazem o trajeto Bogotá-Leyva (Rápido El Carmen, Trans Reina, Libertadores e Expresso Gaviota foram as que eu anotei), em diversos horários.

Da Rodoviária de Bogotá, os ônibus para Villa de Leyva partem do Setor 3 (Vermelho, ou rojo, em espanhol). A estação é bem grande, com quatro setores distintos, portanto anote essa informação, para não ficar rodando à toa. Os portões de embarque ficam logo atrás dos guichês das companhias. É só comprar a passagem, atravessar um corredor curtinho aguardar na sala de espera, que tem umas lanchonetes bem populares.

Se quiser viajar mais leve, tem depósito de bagagens logo na entrada do Setor 3 da Rodoviária de Bogotá
Na entrada do Setor 3 da Rodoviária tem um depósito de bagagens, caso você queira viajar mais leve. Eles cobram 3.000 COP por uma mala de tamanho médio, a cada 24 horas.

Não é possível comprar passagens de ônibus pela internet ou fazer reservas — pelo que apurei, essa é uma regra para todos os destinos colombianos, não só para Leyva. Se você for viajar perto de um feriado, leve isso em consideração. Eu viajei para Leyva na terça-feira da Semana Santa (um feriadão gigante na Colômbia) e não tive problemas para achar bilhete para o ônibus que sairia daí a uma hora. Mas aviso que o bichinho viajou lotado.

Também há a possibilidade de pegar o ônibus no Portal Norte, ponto final de uma das linhas do Transmilenio (serviço de transporte que circula em vias exclusivas e se livra do trânsito infernal de Bogotá). Essa alternativa teria me poupado uma hora de viagem, pois foi esse o tempo que meu ônibus levou da Rodoviária até lá. Só que achei o esquema meio confuso: você precisa identificar a parada dos coletivos à beira da avenida. Com bagagem, desconfio que ia ser uma operação bem atrapalhada... 

Como viajei
Lanchonete na área de embarque da Rodoviária de Bogotá. À direita, o cercadinho envidraçado para quem embarca no Expresso Gaviota,  pomposamente identificado como "sala VIP"
Minha viagem de ida não poderia ter sido mais pitoresca: viajei com o Expresso Gaviota, que faz a linha com ônibus menores (parecidos com as busetas que circulam na cidade), acanhados e desconfortáveis. Além disso, a Gaviota faz a rota mais comprida para Villa de Leyva, por Zipaquirá (onde está a Catedral de Sal) e Chiquinquirá. A viagem é o maior pinga-pinga, com paradas em praticamente todas as localidades do caminho. Foram quase cinco horas de Bogotá a Leyva. O bilhete custou 25.000 COP (R$ 30).

A volta prometia ser bem mais cômoda, já que consegui passagem em um horário bem conveniente na Libertadores, que opera ônibus moderníssimos, daqueles grandalhões, com bom espaço entre as fileiras, poltronas fofinhas e reclinação decente dos encostos. Além disso, essa empresa faz a rota mais curta, por Puente de Boyacá e pela T-55, ligando Leyva a Bogotá em menos de três horas.

Estação Rodoviária de Villa de Leyva
Só que o Imponderável de Oliveira (primo do Sobrenatural de Almeida de Nélson Rodrigues) resolveu dar as caras. Estávamos quase saindo do trecho infernal de curvas na estradinha de montanha (e o busão enorme parecia um paquiderme tentando bambolear com alguma agilidade por elas), quando um apressadinho resolveu sair ultrapassando toda uma fila de carros que se arrastavam na subida tortuosa, meio engarrafados no impressionante movimento de viajantes da Quinta-Feira Santa.

O apressadinho deu de cara com nosso ônibus, desviou, nos acertou na lateral e foi bater de frente em uma árvore à beira do caminho. Felizmente, ninguém se machucou (o carro estava até à tampa de gente, com várias crianças entre os passageiros), mas perdemos cerca de uma hora e meia esperando a polícia e outro ônibus para nos levar a Bogotá, já que os veículos acidentados ficaram retidos para perícia. Com toda essa aventura, a vigem com a Libertadores conseguiu ser 30 minutos mais curta que com a Gaviota...

Os bilhetes de retorno de Leyva a Bogotá custam 21.000 COP (R$ 25), porque a taxa de embarque da rodoviária local é mais módica.

Como é o clima
O comércio mais charmoso da Villa de Leyva fica na Calle Caliente ("Rua Quente", em espanhol), o nome antigo desse trecho da Carrera 9, a Leste da Plaza Mayor
A Villa de Leyva fica na Cordilheira Oriental (braço dos Andes), em um vale a 2.100 metros acima do nível do mar. Você vai ler em vários sites da internet que a temperatura média em Villa de Leyva é de 18 graus Centígrados o ano inteiro. Bom, eu não sei que horas nevou, nos dias que passei lá, para chegar a essa média, porque o calor era inclemente.

Os locais, aliás, riam muito quando eu — já lilás de tanto sol e desmanchando de tanto suar—perguntava pelos tais 18 graus. Segundo eles, Leyva é quente o ano inteiro, mesmo na estação das chuvas (o inverno, na mesma época do nosso).

Na hora de fazer a mala, leve um casaco (vai que, né?), mas abuse das camisetas fresquinhas, vestidos e bermudas. Chapéu é item de primeira necessidade, assim como o protetor solar e os óculos escuros.

Plaza Mayor, o coração da vila
Dinheiro
Os cartões de crédito são bem aceitos em Villa de Leyva, mas você vai precisar de pesos colombianos para pagar pequenas refeições, entradas de museus, táxis para as atrações fora da cidade e outras despesas. Pagar em dólar não é comum e, com certeza, o câmbio não será atraente.

Há duas agências bancárias na cidade, onde é possível usar os caixas eletrônicos para fazer saques em moeda local. O Banco Popular fica na Plaza Mayor. O Bancolombia (na Carrera 9ª, entre a praça e a Calle 11) é o único que faz câmbio. O procedimento é simples, é só apresentar o passaporte, o caixa preenche um breve formulário e pronto.

Onde ficar
Villa de Leyva está claramente dividida em duas partes. Uma delas, que vai da entrada da cidade (onde está a rodoviária) até as imediações da Plaza Mayor, é bem muvucada, com o trânsito de automóveis. Nessa área o comércio e os restaurantes são mais populares e se você for se hospedar nesse trecho em época de férias ou feriados certifique-se de não pegar um quarto debruçado para a rua.

A partir da Plaza Mayor, onde o trânsito de automóveis é interrompido, a cidade fica mais tranquila, bucólica e os hotéis e restaurantes ficam mais charmosos, as lojinhas mais interessantes e as ruas mais silenciosas. Os preços da hospedagem é mais alto desse lado, claro.

A porção Oeste da vila (da Rodoviária à Plaza Mayor) é bem mais movimentada

Depois da praça, com a restrição aos automóveis,
Leyva é puro sossego
Essas indicações valem para os períodos com muitos turistas. Villa de Leyva tem apenas 10 mil habitantes (pouco mais da metade deles na zona urbana) e costuma ser muito sossegada, fora de temporada, segundo todos os moradores com quem conversei. Anote, também, que para atravessar a cidade inteira, de uma ponta a outra, é preciso caminhar cerca de 900 metros. Portanto, se pintar um hotel mais barato e interessante do lado da muvuca, você nunca estará longe da área mais charmosa da vila.

Onde me hospedei
Hotel Antonio Nariño
Carrera 9, nº 10-34
O Hotel Antonio Nariño está instalado em um casarão colonial na rua mais movimentada da cidade
Eu não sabia dessas características antes de ir até Leyva e acabei escolhendo pelo Booking um hotel do lado mais agitado da cidade — muitas das opções mais charmosas de pousadas da vila não aparecem nos grandes sites de hospedagem — mas não me arrependi nem um pouquinho: o Hotel Antonio Nariño, apesar de simples, é muito simpático e bastante confortável.

O Narinho fica bem na rua principal da cidade, a cerca de 400 metros da rodoviária. Funciona em um casarão colonial reformado e ampliado pela família que administra o hotel, há 11 anos. São dois pátios com fontes e muitas plantas (o pátio do fundo é original e centenário. O da frente é uma adição recente) para os quais estão voltados os quartos. O hotel tem estacionamento próprio, gratuito.

Marlene, a dona do hotel, faz a gente se sentir mais do que em casa, sempre oferecendo um tinto (cafezinho) e cheia de dicas sobre a cidade. Quando resolvi antecipar meu retorno a Bogotá (a maioria das empresas de ônibus não iam fazer a viagem na Sexta-Feira Santa), ela fez questão de cancelar a última noite, sem custos pra mim.

Todos os quartos do hotel dão para um dos pátios coloniais do casarão. À direita, meu quarto simplezinho, com o lençol mais  impecavelmente esticado que encontrei nos últimos tempos
Os quartos do Hotel Antonio Nariño são bem básicos, com cama, TV, mesinhas e luzes de cabeceira, outra mesinha para apoiar a bolsa ou outros volumes e uma TV. Não têm armários, só três prateleiras embutidas e alguns cabides para pendurar as roupas.

Também não têm ar condicionado nem ventilador, mas a inteligência construtiva da época colonial, com suas grossas paredes e todos os cômodos voltados para um pátio interno, mantém o interior da casa sempre fresquinho. Sou a chata calorenta, mas não senti falta do ar condicionado nas duas noites que dormi no hotel, mesmo com a canícula do lado de fora.

Outro ângulo do quarto e o banheiro
Além de manter os quartos muito limpos, administração do hotel está de parabéns pela arrumação da cama: fazia muito tempo que eu não encontrava um lençol (de algodão de boa qualidade, por sinal) tão bem esticado. Fiquei surpresa quando descobri que tanto a faxina quanto a forração da cama eram tarefas executadas por dois adolescentes (rapazes) que trabalham no hotel. Esses meninos podiam dar aulas em muitos cinco estrelas que cobram os olhos da cara, mas insistem em largar o lençol solto sobre a cama, sem maiores caprichos.

O banheiro do meu quarto era acanhado (senti falta de uma bancada para a necessaire), mas o boxe era amplo e a ducha bem forte, como eu gosto. Dos produtos de higiene, o hotel oferece apenas o sabonete, portanto, quando você for, não esqueça de levar seu xampu e seu condicionador.

Mais sobre Villa de Leyva
O museu do mosteiro colonial de Ecce Homo
A história da Colômbia em três museus de Villa de Leyva

A Colômbia na Fragata Surprise

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