terça-feira, 24 de março de 2015

Sicília:
O Vale dos Templos, em Agrigento

O Templo da Concórdia, o mais preservado do vale, emoldurado por uma oliveira centenária
O Vale dos Templos de Agrigento é um dos sítios arqueológicos mais importantes do Mediterrâneo. O conjunto de templos apresenta diferentes graus de conservação — o da Concórdia é o mais inteiro do grupo — mas é impressionante ver como a cidade guardou uma distância respeitosa desse espaço mágico, preservando a paisagem histórica de 2.500 anos.

Felizes de nós, visitantes do Século 21, que ainda podemos contemplar o mar, ao longe, como os moradores da antiga Akragas, trilhar os caminhos percorridos em seus rituais sagrados e descansar à sombra de oliveiras que podem ser apenas netas das que eles cultivaram lá — algumas dessas árvores ainda de pé no Vale podem ter até 800 anos.

O Templo de Juno era o local onde os moradores
de Akragas realizavam os casamentos
Imagine um extenso "degrau" de terra dourada, aos pés de uma cidade e debruçado sobre um mar muito azul. Além disso, esse pedaço especial de mundo é adornado por amendoeiras, oliveiras centenárias, pistaches, limoeiros e uma profusão de florezinhas amarelas, parecidas com margaridas. Você vai concordar comigo que um lugar assim não precisa de mais nada pra ser lindo, né?

Mas esse é só o começo, pois foi lá que, há 25 séculos, o povo da colônia grega de Akragas começou a erguer um maravilhoso conjunto de templos dedicados aos deuses que trouxeram de sua terra ancestral.

Do templo dedicado a Castor e Pólux, gêmeos protetores dos navegantes, restam quatro colunas e parte do friso. A estrutura redonda que você vê na imagem pertencia ao Santuário das Divindades Ctônicas (Perséfone e Deméter)
Historiadores apontam que Akragas teria sido fundada por colonos oriundos da Ilha de Rodes, no Dodecaneso, no Século 6 a.C. O local escolhido (parte de uma rota comercial mediterrânea já usada pela Civilização Micênica desde séculos anteriores) foi uma encosta em três degraus, a lado da foz do Rio Akragas. Na parte mais baixa, diante do mar, ficava o porto. No platô intermediário, a área de culto (o Vale dos Templos). Lá no alto, a cidade.

Essa distribuição territorial permanece mais ou menos a mesma, com a cidade de Porto Emepdocle à beira mar, o Vale dos Templos no "segundo andar" e os edifícios da pacata Agrigento, com seus 60 mil habitantes, encarapitados na parte mais alta da encosta.

O mar lá embaixo...
... e a cidade lá no alto
Mas quem nasceu na antiguidade do Mediterrâneo pode se queixar de tudo, menos de monotonia. A cidade que hoje conhecemos como terra natal do grande Luigi Pirandello tem uma biografia que renderia enredo para a Sessão da Tarde até o fim dos tempos.

A Akragas dos gregos viveu cercos, saques, tiranias e invasões cartaginesas. Depois vieram os romanos com sua pax, sucedidos por bizantinos, godos, sarracenos e normandos. Akragas, Agrigentum (dos romanos), Gergent (dos árabes e normandos) ou Girgenti, como foi chamada até o alvorecer do Século 20, é uma cidade com muita história pra contar e o Vale dos Templos não ficou imune a toda essa agitação — o que torna ainda mais impressionante a conservação da área.


Para aproveitar melhor a visita ao Vale dos Templos, é importante trazer um mapa. Eu comprei o meu por €2, no trailer que vende lembrancinhas e badulaques em frente à Porta Quinta, o acesso mais próximo ao Templo de Juno. O sítio arqueológico tem 1.300 hectares, sinalização razoável e placas explicativas diante das principais construções, mas muita coisa interessante pode passar batida, se a gente não souber o que está procurando.

As principais atrações do vale são o Templo de Juno (a Hera dos gregos), construído sobre uma elevação e visível desde longe (na minha primeira noite em Agrigento, tive a experiência inesquecível de ver a tarde caindo sobre as colunas do templo. Foi lindo!), o Templo da Concórdia, surpreendentemente bem preservado, o Templo de Hércules, do qual restam oito colunas de pé, e o Templo de Castor e Pólux que, a despeito de ter apenas quatro colunas e uma parte do friso ainda visíveis, compõe uma imagem poderosa no centro do vale.

O Templo de Juno, cercado pelas amendoeiras
Do templo de Zeus, que supõe-se ter sido a maior das construções da área, restam apenas escombros, mas a magnitude daqueles blocos de pedra desabados conseguem impactar e dar uma ideia do colosso que deve ter sido a construção.

O Templo de Hércules
Outra atração interessante do Vale dos Templos é o Jardim da Kolymbethra, localizado em uma baixada nas proximidades do Templo de Castor e Pólux. Na antiguidade, acredita-se que a área foi uma espécie de represa, parte de um sistema de irrigação dos pomares e áreas de cultivo de Akragas.

Na última década de 90, o terreno abandonado foi entregue ao Fondo Ambientale Italiano que montou um projeto paisagístico recriando antigas áreas de cultura (como limões, tangerinas e laranjas) e preservando salgueiros e outras árvores nativas. O processo de irrigação do jardim segue a técnica introduzida pelos árabes na região.

As amendoeiras em flor. Em fevereiro, Agrigento
 realiza um festival em homenagem a elas
A vegetação, aliás, é uma dos grandes encantos de todo o vale. Além das majestosas oliveiras, que já citei, é impossível ficar imune às amendoeiras que insistem em florir mesmo no frio cortante de janeiro.

As flores silvestres também contribuem com o encanto


Informações práticas

Para ver como chegar a Agrigento, clique aqui

Quando você for ao Vale dos Templos, reserve o dia inteiro para a visita. Caminhe com calma e aproveite a beleza do lugar para fazer quantas pausas quiser (eu morri de pena de não ter uma boa seleção musical no meu smartphone). É uma viagem mágica que deve ser saboreada bem devagar.

O Jardim da Kolymbethra recria
uma área de cultivo da antiga colônia grega
Para isso, recomendo que você use calçados bem confortáveis, por que também vai andar um bocado. Levar um lanchinho pode ser ótima ideia e o suprimento de água é essencial, ainda mais nos meses mais quentes, quando também não podem faltar os óculos escuros, um chapéu e protetor solar. Há uma única lanchonete para atender aos visitantes, que fica na estrada que corta o vale (veja abaixo).

A capelinha montada na gruta para agradecer pela colheita farta
Horários e preços



O sítio arqueológico dos templos de Agrigento é cortado por uma estrada (a SP4) que o divide ao meio. No lado Leste, as principais atrações são os templos de Juno, Corcordia e Hercules. Essa parte abre diariamente, a partir das 8:30h e as visitas seguem até às 19 horas. Do lado Oeste estão os templos de Zeus e dos Dióscuros (Castor e Pólux) e o Santuário das Divindades Ctônicas. As visitas ao lado Oeste também são diárias, das 9h às 19h.

As entradas para o Vale dos Templos custam €10. Você pode entrar e sair quantas vezes quiser e circular entre os dois lados do sítio arqueológico. Há um bilhete combinado que dá acesso ao Vale e ao Museu Arqueológico e custa €13,50.

Os famosos limões sicilianos
na exuberância do
 Jardim da Kolymbethra 
Visitas noturnas
No verão (de julho a setembro), o Vale dos Templos (o lado Leste) abre para vistas noturnas, das 20h às 23 horas (aos sábados e domingos até meia noite). Os bilhetes custam €10. Não tive a sorte de estar em Agrigento no verão e fazer a visita à noite, mas por tudo que vi aposto que deve ser um sonho caminhar por lá à luz da lua. Se tiver chance, não perca!!!


Como chegar
Há três bilheterias/entradas para o sítio arqueológico, uma em Porta Quinta, na Contrada Sant' Anna, outra na Via Panoramica dei Templi, perto do Templo de Juno (Tempio de Giunone), e outra na SP4, a Porta Áurea, perto do Templo de Hércules (Tempio di Ercole), onde também ficam uma lanchonete ("Posto di Ristoro ).

Quem chega de carro deve preferir as duas primeiras entradas, onde há estacionamentos pagos (€3).

É bem fácil chegar aos templos de transporte público. Os ônibus das linhas 1 e 2 ligam o centro de Agrigento à área e têm paradas perto do Templo de Juno e do Templo de Hércules. O ponto final, no centro da cidade, é a Piazza Fratelli Rosselli, perto dos Correios e achei mais prático ir pegar o transporte lá. A passagem para uma única viagem custa €1,20 (se for pagar o bilhete já no ônibus, custará €1,70). Se quiser o bilhete válido por todo o dia (biglietto giornaliero) o preço é €3,40. 

As antigas muralhas da área dos templos
foram usadas como catacumbas pelos romanos
Visita ao Museu
O Museu Arqueológico (Museo Archeologico Regionale Pietro Griffo) funciona de segunda a sábado, das 9h às 19:30h. Aos domingso e feriados, pode ser visto das 9h às 13:30. Fica na Piazetta San Nicola, perto do Vale dos Templos. Para ver só o museu, o ingresso custa €8 (já viu que vale a pena comprar o bilhete combinado, né?).

Jardim da Kolimbethra
A entrada fica na altura do Templo de Castor e Pólux. Pode ser visto diariamente, entre fevereiro e novembro, a partir das 10 horas. O horário de encerramento das visitas varia de acordo com a estação (às 14h, no inverno, e às 19h, no verão. Confira direitinho no site). A entrada custa €4. Tem uma área para piquenique e pode ser uma boa alternativa para uma pausa durante a visita ao vale. 


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4 comentários:

  1. Que post delicioso e que vontade de correr para lá!
    Vamos para a Itália em Junho, mas não conseguimos encaixar a Sicília no roteiro :(
    Vou aproveitar para devorar seus outros posts (Roma e Toscana)!

    Beijos!
    Aline

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    Respostas
    1. Obrigada, Aline! Olha, não sofra muito por não conseguir ver tudo da Itália agora. Aquele país é tão generoso que rende viagens para a vida inteira. Tenho certeza que você vai conseguir ver a maravilhosa Sicília numa próxima e vai aproveitar muito Roma e a Toscana, maravilhosíssimas. E depois me conta como foi :) Bjo

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  2. Cyntia, que post inspirador!
    Fotos mágicas! A Itália é realmente surpreendente!

    Bjs,
    Karla

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    Respostas
    1. Obrigada, Karla :) A Itália é um mundo. Queria umas oito encarnações só pra explorar essa lindeza de país...

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