quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Mesquita de Córdoba

Parece jogo de espelhos
Eu já estava no meu terceiro dia em Córdoba quando, finalmente, fui visitar a atração mais famosa da cidade. Tinha passado por ela um monte de vezes, dei voltas e voltas inteiras ao redor de seus muros, namorando cada detalhe de suas paredes e portais.

Perdi a conta de quantas pausas fiz, sentada em alguma de suas soleiras ou em seu Patio de Naranjos, para descansar em silêncio. Fiz toda essa corte antes de entrar na Mesquita de Córdoba -- e quando entrei, tive uma visão do céu.

Celestial...
O interior da mesquita parece um jogo de espelhos. Uma certeza da visão do infinito. A floresta de colunas que se repetem, em perfeita harmonia (embora elas não sejam todas iguais, já que foram retiradas de construções romanas e visigodas).

A primeira coisa que vem à cabeça é como um espaço tão densamente preenchido de elementos decorativos, paredes e colunas consegue parecer tão amplo e tão leve. Realmente, tem algo de profundamente celestial nessa que foi a construção-símbolo da fé e do poder do reino de Al Andalus.

A Mesquita fica dentro de um recinto murado, 
com diversas portas. Muitas conservam as características mouriscas, outras ganharam adornos cristãos (à esquerda)
O Patio de los Naranjos, dentro do recinto murado. Ao fundo,
a Torre del Alminar (
minarete), que substituiu o Minarete da Mesquita, após as reformas cristãs
A história da mesquita é bem mais antiga que os 13 séculos de existência do edifício que hoje disputa com a Alhambra de Granada o título de maior espetáculo arquitetônico legado pelos mouros ao Ocidente. Antes de sua construção, muçulmanos e cristãos compartilhavam as dependências de uma antiga igreja visigoda que havia no mesmo local (a Basílica de San Vicente Mártir, do Século 6) para suas orações.

É a afirmação de Al Andalus como reino independente, não mais um satélite das dinastias do Norte da África, que vai inspirar a edificação da mesquita. Mais que um templo religioso, ela é uma inquestionável expressão de poder, com mais de 14 mil metros quadrados em seu recinto interior — o suficiente para congregar 20 mil pessoas, sem aperto.

Elementos mouriscos e cristãos no interior da Mesquita Catedral
As feições atuais da mesquita, porém, expressam muito mais que a opulência planejada pelo emir Abd al-Rahmán I (o primeiro governante de Al Andalus como reino independente) e seus sucessores da dinastia Omíada.

Após a Reconquista cristã de Córdoba, no Século 13, uma série de elementos católicos foram sendo introduzidos no edifício, até que uma ampla reforma, no Século 16, demoliu parte do templo muçulmano para a construção de uma basílica no coração da Mesquita, convertida em catedral.

O Mihrab, do Século 10

A cúpula sobre o Mihrab
Para nossa sorte, porém, muito da arquitetura original foi preservado, mesmo elementos extremamente marcantes da presença muçulmana, como o Mihab, que é o nicho de orações que aponta a direção de Meca e diante do qual se posta o pregador, o equivalente ao altar mor em um templo cristão.

É curioso (e muito bom) que em uma Espanha de paixões religiosas tão inflamadas, como a da Reconquista, a mais emblemática das mesquitas mouras tenha sido poupada da descaracterização que foi imposta a praticamente todas as suas congêneres (em Granada, por exemplo, todas as mesquitas foram destruídas, após a derrocada da Dinastia Násrida, e só em 2009 a cidade voltaria a ter um templo muçulmano).

Os elementos cristãos foram adicionados no Século 16,
com a destruição de parte da Mesquita

Uma explicação objetiva para a preservação das características mouriscas da Mesquita Catedral talvez seja a mentalidade do período da reconquista de Córdoba, o Século 13, muito menos feroz no antagonismo entre mouros e cristãos.

Basta lembrar que quando o Pedro, o Cruel, mandou construir seu palácio no Alcázar de Sevilha, na mesma época, fez questão de preservar a estética mourisca, ele que, sendo um rei cristão, se apresentava aos súditos majoritariamente muçulmanos como "sultão".


Já no final do Século 15, quando os Reis Católicos reeditaram a tarefa de expulsar os mouros da Península Ibérica, a pressão para consolidar seu poder sobre o novo Reino da Espanha os levou a ser bem mais radicais, sucumbindo, inclusive, aos ditames da Inquisição.

Eu, porém, sou muito mais romântica e gosto de pensar que o grande motivo para a preservação da Mesquita de Córdoba tenha sua beleza absolutamente arrebatadora :)

O rebuscamento decorativo do interior da Mesquita tem algumas "tréguas visuais" que ajudam a retomar o fôlego e renovar o encantamento
Informações práticas
Mesquita CatedralDe segunda a sábado das 10h às 19h. Aos domingos, das 08:30h às 11:30h e das 15h às 19h. No inverno (novembro a fevereiro), fecha uma hora antes, às 18h. Entrada € 8. De segunda a sábado, das 8:30h às 9:30h, a visita é gratuita, mas não é permitida a entrada de grupos.

Visitação noturna – limitada a apenas 100 pessoas por vez, essa visita de cerca de uma hora é combinada com exibições audiovisuais que narram a história da mesquita, sua importância artística e arquitetônica. Toda a narração é acompanhada por audioguias e está disponível também em português. Cheque as datas e horários no site oficial da Mesquita. Os ingressos custam €18.

Patio de los Naranjos - Boa notícia: ao contrário de seu "primo" da Catedral de Sevilha, acessível apenas aos visitantes da igreja, o pátio da mesquita tem ingresso livre. É um ótimo lugar para uma pausa, durante as visitas ao Centro Histórico de Córdoba.

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