segunda-feira, 13 de maio de 2013

Quito: três tesouros coloniais

Altar da Catedral de Quito
Tem três coisas que você não pode deixar de fazer em Quito, sob pena de cometer um pecado mortal contra a beleza. A Catedral, a Igreja de San Francisco e La Compañia (como a gente rapidinho aprende a chamar a igreja dos jesuítas, na vã esperança de ficar íntima daquele portento) são razões suficientes para você atravessar os Andes e aterrissar nessa cidade que, felizmente, os brasileiros estão começando a descobrir.

Não importa o seu jeito de viajar, é de lei visitar esses três tesouros abrigados no Centro Histórico da capital equatoriana — que, já contei aqui, é considerado o maior conjunto arquitetônico colonial das Américas.
Fachada de La Compañia, talhada em pedra vulcânica
Cerca de 300 metros separam essas três preciosidades, plantadas bem no coração do Centro Histórico de Quito. Para vir de La Mariscal, pegue o trólebus (US$ 0,25) e desça na Plaza Grande (Plaza Independencia), onde também estão o Palácio do Governo e o Centro de Atendimento ao Turista, da Prefeitura.

San Francisco, na antiga praça cerimonial da cidade inca
A Igreja de San Francisco é a mais antiga, se considerarmos a data de início da construção (1550). Foi erguida sobre os restos do palácio de Atahualpa, o último imperador inca, e segue a tradição da maioria dos templos franciscanos coloniais, ricamente decorados, apesar de pertencerem a uma ordem mendicante. Linda por dentro, a igreja tem uma imponência rara, dominado completamente a antiga praça cerimonial da cidade inca.

A decoração do forro de San Francisco...
... e o interior da igreja
La Compañia, com o perdão da expressão pouco canônica, é simplesmente um escândalo. A primeira visão do interior da igreja me fez simplesmente levitar diante de um espaço totalmente recoberto por entalhes e douramentos, com destaque para os desenhos mudéjares das colunas.

Detalhe da fachada de La Compañia e a mampara da entrada, espécie de "biombo" que veda a visão do interior do templo para quem está na rua. Acredite: lá dentro é muito mais espetacular
Foram necessários 160 anos, a partir de 1605, para que a Igreja da Companhia de Jesus ganhasse todo seu esplendor. Considerada uma das maiores expressões mundiais do barroco, o templo já sofreu com terremotos e o tempo.

Um desses tremores danificou gravemente seu campanário, que acabou demolido, no começo do Século XX. O abalo de 1987 também foi grave: determinou o fechamento da igreja por 18 anos, até que ela fosse reaberta, lindamente restaurada, em 2005.

É proibido fotografar o interior de La Compañia,
mas, antes de entrar, ainda consegui fazer esses registros. Repare nos desenhos geométricos da decoração, de inspiração mudéjar
O interior de La Compañia parece dançar diante dos nossos olhos, nos volteios das colunas báquicas que sustentam os suntuosos altares laterais, no movimento espiralado de cada entalhe, na curvatura suave do teto em cañon (curvo), um dos primeiros a ser projetados nas Américas. Tudo é detalhe, minúcia, requinte. Um deslumbramento obsessivamente simétrico e intrincado que, longe de atordoar, explica a beleza de maneira clara, simples e definitiva.

Como se não bastasse, a igreja dos jesuítas é uma senhora pinacoteca, dona de um respeitável acervo da chamada Escola Quiteña exposto nos altares e na sacristia. Visitei o templo duas vezes nos quatro dias e meio que passei na cidade acho que foi pouco. Queria mesmo era ter ficado morando lá...

Um terremoto danificou severamente o campanário de La Compañia, que teve que ser demolido. Os sinos ficam expostos em uma sala no interior da igreja
A Catedral de Quito, a mais antiga da América do Sul
Minha visita à Catedral foi bem especial. Apenas eu, um casal de russos e um guia percorremos cada pedacinho da igreja no mais absoluto silêncio. Quando não há missas, a entrada da igreja é feita por uma rua lateral, onde um pátio espanhol encantador espera o visitante.

Uma escada de pedra leva primeiro aos “bastidores” — uma singela biblioteca e a Sala Capitular, adornada pelos retratos dos arcebispos de Quito. Um deles D. José Ignacio Checa y Barba, morreu envenenado pelo vinho em plena celebração da missa, numa das conspirações mais bizarras que já ouvi contar.

O órgão da Catedral de Quito e o túmulo de Sucre, velado pelas bandeiras dos países que ele ajudou a tornar independentes
Construída entre 1562 y 1567, é considerada a Catedral mais antiga da América do Sul. A igreja foi uma espécie de centro da vida quiteña, e não só no aspecto religioso. Suas pedras seculares já viram de tudo. Não bastasse o envenenamento do arcebispo, foi nas escadarias da Catedral que o presidente do Equador García Moreno caiu agonizante, atingido por tiros e punhaladas, em 1875.

A riqueza dos altares laterais da Catedral
O passeio pelos cantos mais escondidos da igreja é o prólogo perfeito para preparar o impacto: atravessamos uma porta estreita e a grandiosidade da nave principal nos atingiu em cheio, num arranjo arquitetônico e decorativo em que cada um dos altares das capelas laterais já bastaria para fazer uma catedral. 

Numa dessas capelas laterais está sepultado Antonio José de Sucre, parceiro de Bolívar e um dos heróis da independência latino-americana. As bandeiras da Bolívia, do Peru (países que ele presidiu), da Venezuela e do Equador (que ajudou a tornar independentes) velam o ataúde de pedra onde estão depositados os restos do general.

A Sala dos Bispos e as lápides de de religiosos, na Catedral

Endereços e horários
Adro da Igreja de San Francisco
Igreja de San Francisco
Plaza San Francisco, esquina das calles Cuenca e Sucre. De segunda a sábado, das 9h às 17:30h. Domingos, das 9h às 13h.

Catedral Metropolitana
Plaza Independencia ou Plaza Grande, entrada pela Calle Venezuela N3-117. Visitas de segunda a sexta, das 9:30h às 16 horas. Sábados, das 10h às 16h. Ingresso: US$ 1,50

"Bastidores" da Catedral: uma entrada lateral e o pátio interno
La Compañia
Esquina das calles García Moreno e Sucre. De segunda a sexta, das 9:30 às 17:30h. Sábados e feriados, das 9:30h às 16:30h e domingos das 13:30h às 16:30h. Entrada: US$ 3 (gratuita no primeiro domingo de cada mês). É proibido fotografar o interior da Igreja, exceto a Sala dos Sinos.

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2 comentários:

  1. Sempre que vejo o luxo destas igrejas coloniais, além de embevecer-me com a beleza delas, penso em quantas crianças morreram pelo desvio dos recursos sociais carreados a sua construção.
    Mas a ressaca concomitante não atrapalha o prazer da embriagues de admirar a beleza, principalmente registrada pela sensibilidade da câmera de Cyntia Campos.
    Além do mais, no caso, senti-me vingado com o destino de Checa y Barba (mistura inspiradora para mim que não escanhoou o queixo).

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    Respostas
    1. Helder, eu tb fico dividida entre o completo deslumbramento com essas obras de arte coloniais e a repulsa à violência contra as culturas tradicionais das Américas praticada pelo colonizador. Mas aí eu lembro do Qoricancha, em Cusco, que ressurgiu sob os escombros da Igreja dos Dominicanos, após um terremoto, e relaxo.

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