domingo, 28 de abril de 2013

Caminho de Santiago - dicas práticas

Ao longo do Caminho, procure os marcos
com as vieiras, símbolo dos peregrinos.
Eles indicam a direção a seguir e informam
a distância até a Catedral de Santiago
Estou a caminho de Quito, no Equador, mas as postagens sobre Santiago de Compostela continuam bombando. Pelo Google+, recebi várias mensagens de leitoras que querem fazer o Caminho sem depender de companhia. São perguntas tão pertinentes e objetivas que funcionaram como um roteiro para esse post (parabéns, meninas! 10 em Reportagem pra todas, rsss). Respondi, claro, diretamente a cada uma, mas resolvi organizar as respostas aqui.

Começando do começo: como preparar a  peregrinação
A primeira coisa a fazer é entrar em contato com as associações de Amigos do Caminho de Santiago habilitadas para emitir a Credencial de Peregrin@. A minha foi emitida em Lisboa, mas dá para fazer o documento aqui no Brasil. Essa credencial identifica o caminhante que vai a Compostela e é obrigatória para quem pretende pernoitar nos albergues.

A credencial deve ser carimbada nos albergues de peregrinos (eu também pedia para carimbar a minha nos restaurantes, tabernas e igrejas que visitava, mas era mais pela lembrança). São esses carimbos que vão atestar que você realmente passou por cada um daqueles lugares e serão conferidos no escritório da Arquidiocese de Santiago de Compostela, na hora da emissão da Carta Compostelana, (seu "diploma" da peregrinação). Para os católicos, a peregrinação reverte na remissão de pecados.

Como iniciar a caminhada
A rigor, basta chegar a qualquer trecho do caminho e começar a caminhar (pedalar e cavalgar também vale). Eu desci do trem em Valença do Minho e já comecei a andar. Quem faz o roteiro a pé, precisa percorrer pelo menos 100 quilômetros para receber a Compostelana. De bicicleta ou a cavalo, são necessários 200 km. Respeitada essa regra, é você quem decide o trecho que quer percorrer e qual a distância que vai vencer a cada dia. 

O mais comum é definir o percurso de cada dia entre duas cidades que tenham albergues de peregrinos, mas nada impede que você fique num hotel ou até acampe (mas quem é que vai querer carregar barraca na caminhada?). 

Doutora Jekill e Senhora Hide: de manhãzinha, no começo da caminhada (à esquerda), ainda arrumadinha. Alguns quilômetros depois, olha a descabelada :). Prepare-se, porque isso também vai acontecer com você
O que levar para o Caminho de Santiago
O mínimo de bagagem, por favor! Afinal, é você que vai carregar o peso. Os albergues têm lavanderias (alguns têm máquinas de lavar e secar, outros, apenas tanques), portanto, não é necessário levar muitas mudas de roupa (mas pode exagerar um pouquinho nas meias, que devem ser trocadas várias vezes ao dia, para os pés ficarem sempre sequinhos e livres das bolhas). Imprescindível é a capa de chuva, de preferência combinada com aqueles ponchos de plástico, muito populares em Machu Picchu e arredores, para cobrir a mochila. Eu nunca vi chover tanto num lugar como na Galícia! Boné, óculos escuros, protetor solar e repelente também são fundamentais. 

Se você for como eu, leve um bloco de notas e caneta que escreve mesmo "de cabeça para baixo", para tomar notas da aventura. E, claro, a câmera fotográfica. Nas cidades em que pernoitar, providencie um lanchinho para comer na estrada, pois nem sempre a fome coincide de bater quando estamos próximas a algum vilarejo. 

Quando fiz o Caminho, havia alguns grupos que eram seguidos por carros de apoio, onde viajavam as bagagens, comida e outros apetrechos. As rotas dos peregrinos nem sempre passam perto da estrada, mas essas pessoas combinavam pontos de encontro. Só não vale trapacear e pegar uma carona. Tem que andar, mesmo!

Como funciona a hospedagem nos albergues
Os albergues de peregrinos são sempre muito simples, com quartos coletivos (chegam a ter até 40 beliches, lado a lado). São cuidados por voluntários (é outra forma de servir à devoção a Santiago) e pelos próprios caminhantes. Essa é a senha para lembrar que você deve limpar tudo que sujar e arrumar tudo que bagunçar.

Quando fiz a caminhada, os albergues eram gratuitos e aceitavam contribuições, que eram opcionais. Hoje, é comum cobrarem entre de 3 e 5 euros pela hospedagem. Não aceitam reservas, o alojamento é por ordem de chegada e só é permitido ficar uma noite em cada um deles. Quase todos têm cozinha e refeitórios amplos. Não é obrigatório, mas é simpático partilhar seu farnel (ou, pelo menos, oferecer) com os demais companheiros de jornada.

Hospedagem comentada – índice reúne todos os posts sobre o tema publicados no blog

Como é o astral durante a caminhada
A pergunta mais frequente das leitoras: "Mas você não sentiu nadinha de medo quando andava sozinha pela estrada?". Minha resposta: "Nadinha, mesmo". Como falei nos posts anteriores, eu estava com uma amiga, mas, em geral, saíamos juntas do albergue e rapidamente nos desgarrávamos. Em nenhum momento me senti ameaçada -- e olha que os cachorros da Galícia parecem não ter mais o que fazer, além de emboscar com seus latidos os caminhantes que passam em frente a seus portões. Ô bichos estressados! Mas, como diz o ditado, cachorro que late não morde. Quando eu vinha muito absorta, pensando na vida, os súbitos latidos me faziam dar pinotes, mas nunca passou disso.

Como escolher o seu caminho
A rota mais famosa é o Caminho Francês, com cerca de 900 quilômetros, a partir de Saint-Jean-Pied-de-Port. (mas, lembre, nada lhe obriga a cumprir todo o percurso). Há ainda o Caminho Aragonês, que é uma variante dele. Do Sul, vêm o Caminho da Prata, que sai de Sevilha e o Português, que sai do Porto (mas eu peguei em Valença, bem mais adiante). O Caminho do Norte, ou Cantábrico, vem de San Sebatián, no País Basco, e há o chamado Caminho Primitivo, partindo de Oviedo, além da rota que vai de Santiago a Finisterra. 

Escolhi o Caminho Português porque estava em Lisboa, mas morro de vontade de fazer o Caminho Cantábrico. Creio que a melhor maneira de escolher de onde partir é olhar o mapa e pensar: "Eu gostaria de passar por este lugar". Como vivo dizendo, a melhor companhia numa viagem são as referências que levamos conosco em cada jornada. Ler sobre o Caminho, sua história e sua tradição é uma maneira maravilhosa de descobrir mais e traçar sua rota.

Por fim, recomendo dois sites podem ajudar todas as etapas de preparação de sua viagem:

Para ler mais sobre a minha viagem e outras dicas, comece pelo post que deu origem a todo esse revival compostelano, aqui na Fragata, seguindo o link abaixo. E, quando você for, leve meus votos em galego: Boa Viaxe, Pelegrin!

O meu Caminho de Santiago

A Espanha na Fragata Surprise

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2 comentários:

  1. Lindas Fotos.Quem sabe um dia eu realize um sonho.

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  2. Esse é um sonho bem possível, Rai. Com disposição para caminhar, desprendimento para dispensar o conforto e uma passagem aérea até Lisboa, por exemplo, vc pode fazer o Caminho gastando pouquíssimos Euros por dia. Vá realizar seu sonho e Boa viaxe, como dizem os galegos. Abs.

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