terça-feira, 26 de julho de 2005

Caminho de Santiago:
Pontesampaio, uma vila heróica

Ponte sobre o Rio Verdugo, em Pontesampaio, palco de uma célebre batalha na guerra contra Napoleão
Caminho de Santiago - percurso de hoje: de Redondela a Pontevedra, 18 km

Entre Redondela e Pontevedra, o Caminho de Santiago passa por Pontesampaio (Puente Sampayo, em espanhol), uma pacata vila de cerca de 1.200 habitantes e com um passado heroico.

A povoação foi palco de uma batalha decisiva nas Guerras Napoleônicas, em 1809, quando o exército espanhol e guerrilheiros galegos, numa obstinada resistência, conseguiram impedir que as tropas francesas, comandadas pelo implacável Marechal Ney, atravessassem a velha ponte de pedra sobre o Rio Verdugo, barrando o avanço do exército invasor. 

A feroz resistência dos voluntários galegos durou dois dias — além de Pontesapaio, eles também defenderam a ponte de Caldelas, duas léguas, rio acima — cortando a possibilidade de uma  marcha organizada do exército francês, que acabaria se retirando da Galícia depois desse insucessos.

A Ría de Pontevedra, em Pontesampaio
Caminhar pelo acostamento da rodovia não é legal
O meu caminho de Redondela até Pontesampaio não teve batalhas, mas foi árduo. Iniciamos a caminhada um pouco antes das 8h, para um longo trecho de subida moderada. O complicado é que maior parte desse trajeto é feito pelo acostamento da Rodovia N-550. Numa curva, um carro passou tirando tinta do meu joelho. 

(Estou digitando esse meu diário em setembro de 2010, cinco anos depois da viagem, e vejo na internet que vários trechos do Caminho Português estão sendo alterados para livrar os peregrinos de caminhar à beira da rodovia. Sábia providência. O perigo e a sem-gracice de andar pelo acostamento de uma estrada contribuíam muito para a menor popularidade do trajeto português em relação às demais rotas para Santiago de Compostela).

Piornos (em galego) ou hórreos (em espanhol): não são capelinhas, são silos para armazenamento da colheita
Antes de sair de Redondela, tive o prazer de descobrir, afinal, para que servem as "casinhas" suspensas que vi ao longo de todo o caminho. Tinha imaginado que fossem capelinhas domésticas, mas os hórreos (piornos, em galego) são silos para armazenar grãos. Sobre os pilotis, apoios em forma de discos impedem os ratos subam até o depósito.

Isso tudo quem me explicou foi Juan Durán, dono e garçom do bar onde passei o começo da noite, em Redondela, tomando conhaque e botando as anotações do diário em ordem. Juan tem parentes em Salvador e sonha em mudar-se para a Bahia — por aqui é raro encontrar alguém que não tenha ao menos um conhecido morando em Salvador.

Um grande piorno (centro) às margens da Ría de Pontevedra, em Pontesampaio
O trecho que leva a Pontesampaio oferece belas vistas da Ría de Vigo, especialmente da chamada Enseada de San Simón ou Ensenada de Rande, onde o Nautilus de Julio Verne andou se aventurando, no romance "20.000 Léguas Submarinas", que eu amo desde criancinha. Tempos depois, descobri que em 1702, as águas calmas lá em baixo foram cenário de uma célebre batalha da Guerra de Sucessão Espanhola — dessa vez, espanhóis e franceses eram aliados.

O guia divulgado pela Associação dos Amigos do Caminho Português prometia vieiras estupendas na vila de Arcade, antes de Pontesampaio. Confesso que a ideia de um belo prato do marisco foi o que conseguiu me embalar N-550 acima. Mas nada de vieiras, nem em Arcade, nem em Pontesampaio, onde tive que me contentar com um picado de jamón e uma taça de vinho para seguir adiante.

Ao contrário do Marechal Ney em 1809, atravessamos a famosa ponte, em Pontesampaio, sem maiores traumas. O percurso até Pontevedra é muito agradável, atravessando vales e vinhedos, boa parte do tempo sobre um trecho original do caminho, em meio a um bosque.

Ria de Pontevedra
Só que, antes de chegar a esse trecho, corri o risco de ir parar em Madri: uma sinalização pouco clara (a única que registrei em todo o caminho) me mandou na direção errada, na entrada de um vinhedo. De longe, muito longe, ouvi Dulce gritar meu nome. Ela andava à minha frente e, certamente, desconfiou que a placa confusa poderia me atrapalhar.

Como tudo que é bom dura pouco, o belo trecho de caminho acabou na periferia de Pontevedra — é sempre chato caminhar nas proximidades das cidades maiores — quando passamos a enfrentar trânsito, calor e a absoluta falta de um lugar para descansar. Chegamos ao albergue por volta das 15 horas.


A Espanha na Fragata Surprise
Madri
Andaluzia: CádisCórdobaGranadaRonda e Sevilha
Castela e La Mancha: Toledo
Catalunha: BarcelonaGirona Tarragona
Galícia: Santiago de CompostelaCaminho de Santiago e cidades da rota


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