quinta-feira, 30 de junho de 2005

Praga: dicas práticas e passeios

A vista de Praga é um dos encantos do Bairro do Castelo (Hradčany)
Música deste post: She's a Rainbow, The Rolling Stones

Einstein tinha razão: o tempo é mesmo relativo. Cinco dias inteiros parecem uma fração de segundo quando a gente está em Praga, forte concorrente ao título de cidade mais linda que já vi na vida. Sem dúvida, a maior atração da capital tcheca é seu espetacular conjunto arquitetônico barroco, com generosas pinceladas góticas e art-nouveau. Um arco-íris apaixonante.

Essa beleza que se esparrama principalmente por Hradčany (o bairro do Castelo, cheio de palácios), Mala Strána ("pequeno quarteirão", coração do Centro Histórico), Josefov (o bairro judeu) e Staré Mesto (a Cidade Velha). Portanto, o melhor programa em Praga é caminhar muito, saboreando a harmonia e as cores das fachadas, descobrindo cantinhos lindos que não aparecem nos guias de viagem, que nos esperam no final de uma ruazinha medieval.

A beleza das fachadas da Praça da Cidade Velha 
Neste post eu listei algumas das atrações que mais me seduziram em Praga. Algumas delas já estavam na minha lista prévia, outras eu encontrei por acaso, batendo pernas sem roteiro definido. Espero que a lista ajude a organizar seu roteiro por lá, mas não esqueça de guardar o mapa e fazer seu próprio caminho nessa cidade cheia de surpresas.
O que ver em Praga

O Castelo...
O Castelo de Praga (á esquerda)
Individualmente, a grande atração é o Castelo de Praga, o berço da cidade. As primeiras construções na área do castelo foram iniciadas no Século 9 e hoje o impressionante conjunto de edifícios ocupa uma área de 72 mil metros quadrados, pairando sobre Praga, quase onipresente no horizonte.

Programe pelo menos um dia inteiro para visitar essa maravilha. Para saber mais, veja este post:
Um dia no Castelo de Praga
 ... e o outro castelo
Praga e seu famoso castelo vistos do Vysehrad. À direita,
as torres da Igreja de São Pedro e São Paulo, no "outro" castelo
Em frente ao Castelo de Praga, do outro lado do Rio Moldava (Vltava, pronuncie Llavá, esticando o L), fica o outro castelo da cidade, o Vysehrad (que significa "castelo alto" ou "castelo nas alturas"), uma cidadela iniciada no Século 10 e que até o Século 14 foi morada dos reis da Boêmia.

Quase anônimo, comparado a seu irmão mais famoso, o Vysehrad (pronuncia-se "vishirad") rende um ótimo passeio especialmente pela vista maravilhosa que o se tem lá de cima e pela agradável área verde que cresce entre as construções e vestígios das fortificações medievais. No parque funcionam alguns cafés e seus banquinhos sob as árvores são ótimos para uma pausa. Também tem áreas para piquenique.

O gostoso parque do Vysehrad
Morri de pena porque choveu o tempo inteiro na manhã de minha visita ao Visehrad, pois acho que teria feito fotos incríveis lá do alto. Como ele fica na margem Leste do Moldava, o melhor horário para ir até lá é mesmo antes do meio-dia, para pegar o sol no ângulo certo.

O Vysehrad ainda conserva um trecho de muralhas do Século 14, portões antigos — o Portão Tabor, do Século 17, e o Portão Spicka, do Século 14, e o Portão de Leopoldo — e a Rotunda de São Martinho, uma espécie de torre do Século 11. A construção mais conhecida da área é a Basílica de São Pedro e São Paulo, erguida no Século 19.

Lembranças de Praga: bilhete do metrô e ingresso da Basílica de São Pedro e são Paulo, no Vysehrad
Também é famoso o Cemitério de Vysehrad, onde estão os túmulos de grandes artistas tchecos (os compositores Smetana e Dvořák, por exemplo). Eu sou totalmente avessa a visitar cemitérios (nunca entrei no Père-Lachaise, em Paris, nem pra prestar os meus respeitos a Jim Morrison), mas o do Vysehrad eu curti, principalmente porque o primeiro túmulo em que esbarrei, meio atrapalhada no meio da chuva, foi o de Alphonse Mucha, o grande pintor da art-nouveau tcheca. Achei comovente...

A Ponte Carlos
(Karluv Most)
O cartão postal mais conhecido de Praga
Dona dos 500 metros mais conhecidos de Praga, a velha ponte do Século 14 foi por muito tempo a única comunicação entre as duas margens do Moldava, ligando a Cidade Velha a Mala Strána. Mas ela é muito mais que mera passagem, é um ponto de encontro onde, principalmente no verão, os turistas se acotovelam com músicos de rua, vendedores de artesanato e artistas com seus cavaletes de pintura. 

A adição das estátuas foi inspirada em Bernini. À direita, Carlos IV, que ordenou a construção da Ponte
Com dez metros de largura, a Ponte Carlos dá conta do vai e vem com a maior elegância, enquanto suas célebres estátuas, uma adição barroca à obra medieval, olham os passantes com aquela cara de que já viu de tudo. A decoração da ponte com estátuas foi inspirada no trabalho de Bernini para a Ponte Sant'Angelo, em Roma.

A Praça Venceslau
(Václavské náměstí)
Arte contemporânea e fachadas neoclássicas na Praça Venceslau
Em 21 de agosto de 1968, tropas soviéticas invadiram a então Tchecoslováquia, colocando um fim a pouco mais de sete meses da abertura democrática que vinha sendo construída sob o governo de Alexander Dubček e que entrou para a história como a Primavera de Praga. A cena dos tanques tomando a Praça Venceslau é uma das imagens-ícones do Século 20, a pá de cal no movimento que pretendeu flexibilizar a linha dura do socialismo real.

A Praça Venceslau, porém, já fazia história muito antes desse momento. Plantada na fronteira entre a Cidade Velha (Staré Mesto) e a Cidade Nova (Nové Mesto) ainda no Século 14, a praça era originalmente um mercado de cavalos e, por cerca de 500 anos, viveu no quase anonimato.


Detalhes das fachadas em Jugendstil da Praça Venceslau
Somente a partir do Século 19, com a expansão da cidade e reformas urbanas é que o vasto espaço da Praça Venceslau (45 mil metros quadrados) começaria a ganhar importância na vida de Praga, ao ponto de se tornar a testemunha privilegiada dos principais acontecimentos sociais e políticos do país — a proclamação da independência da Tchecoslováquia, em 1918, o suicídio do estudante Jan Palach em repúdio à ocupação soviética, em 1969, e os os grandes protestos da Revolução de Veludo, que depôs o regime pró-soviético, em 1989.

A escultura feita com carcaças de carros da era soviética emoldura os edifícios da Praça Venceslau. A obra à direita chama-se "Até os super-heróis pisam na bola", em tradução livre
Com um currículo histórico desses, é claro que a Praça Venceslau foi um dos primeiros pontos que fiz questão de visitar em Praga. E a melhor parte é que nem mesmo toda carga histórica consegue fazer da praça um lugar sombrio ou opressivo. Aquele imenso retângulo ajardinado pulsa animado a qualquer hora e sempre tem atrações para o olhar do visitante.

A começar pelos belos edifícios que cercam a praça, um mosaico que transita do neoclássico ao art-nouveau — alguns dos exemplares mais significativos da arquitetura Jugendstil (o ramo da Art Nouveau nos antigos países do Império Austro-Húngaro) de Praga estão na Praça Venceslau, como o Grand Hotel Europa, o Palácio Koruna (Palač Koruna) e o Hotel Ambassador.



A Praça da Cidade Velha
(Staromestske namesti)
A Praça da Cidade Velha:
um conjunto arquitetônico de rara beleza


Depois do Castelo, acho que não há lugar em Praga mais fotografado e visitado do que a Praça da Cidade Velha, especialmente seu famoso Relógio Astronômico (Pražský orloj ), do Século 15, que a cada hora promove uma parada de bonequinhos representando os 12 apóstolos e a morte —era tanta gente na frente do relógio que minhas fotos ficaram um horror.
A igreja de São Nicolau e o monumento a Jan Hus

O edifício amarelo é sede do Ministério do Desenvolvimento Regional da República Tcheca. À direita, a igreja de Nossa Senhora em Týn
E a verdade é que a Praça da Cidade Velha mais do que merece a fama e as multidões. Passei cinco dias em Praga e bati o ponto na praça todos os dias, rodando de um lado para o outro, extasiada com a permanente descoberta de novos detalhes. A praça é um paradoxo: nunca vi um contraste tão marcado (das asperezas do gótico com o rechonchudo do barroco) resultar em tanta harmonia. O resultado é um conjunto arquitetônico dos mais lindos que já vi na vida.

O melhor da praça é mesmo admirar esse conjunto, mas alguns edifícios se destacam pela importância histórica, como a igreja medieval de Nossa Senhora em Týn (Século 14), a igreja barroca de São Nicolau e o Palácio Kinský, com sua fachada rococó do Século 18. No centro da praça, um monumento homenageia Jan Hus, líder protestante queimado na fogueira naquele local.

A fachada rococó do Palácio Kinský abraçadinha com a torre medieval

Detalhes das fachadas da Praça da Cidade Velha

Dicas práticas
O Grand Café Orient, instalado em um edifício-ícone da arquitetura cubista em Praga, movimento que floresceu no começo do Século 20
Como chegar a Praga
Aeroporto Vaclav Havel fica em Ruzine, a 20 km do centro de Praga e recebe voos das principais cidades europeias. Diversas companhias low cost voam para lá. O jeito mais comum de se chegar à capital tcheca, porém, é por via férrea. Foi assim que eu fui até lá, partindo de Dresden, uma viagem de pouco mais de duas horas.

A arquitetura de Praga é toooooda linda
Memórias de Praga: a placa na fachada de um casarão relembra que ali, numa noite de 1912, Einstein encontrou Kafka e tocou violino. À direita, o Teatro Estatal, onde Mozart regeu a estreia de seu Don Giovanni

Detalhes da fachada da Casa da Virgem Negra, sede do Café Orient e do Museu do Cubismo em Praga
De Dresden a Praga de trem
O percurso entre Dresden e Praga é lindo. O trem corre pelo Vale do Elba, margeando o rio e um relevo que começa suave, mas que vai crescendo até ganhar montanhas altíssimas, com escarpas dramáticas, onde se equilibram vilas, florestas e palácios. É a Sächsische Schweiz ("Suíça Saxônica"), um conjunto deslumbrante de torres de arenito, vales e platôs. Um lugar onde pretendo voltar, para ver de perto.

Em Pirna, ainda território alemão, a Fortaleza de Sonnenstein chama a atenção, no alto de um penhasco, belíssima. A construção do Século XV, porém, tem uma história muito menos bonita. Sede de hospício, no Século de XIX, acabou sediando um processo de extermínio determinado por Hitler, durante o nazismo. Calcula-se que 15 mil pessoas, especialmente portadores de transtornos mentais, tenham sido assassinadas aqui, em nome da "eugenia da raça".

A partir de Decin, logo depois da fronteira tcheca, as montanhas vão ganhando formas menos ásperas, vão se arredondando, o relevo se “acalma”, sem, contudo, se aplainar. É a Boêmia chegando. Depois, a periferia e, por fim, Praga. 

A chegada

Encontrei a Estação Ferroviária de Holesovice no maior tumulto: tapumes por todos os lados, o lugar estava em obras. Ainda na plataforma, diversos “agentes” ofereciam pensões e albergues aos mochileiros, com um bônus tentador: transporte até o local da hospedagem. Eu, dois americanos e um garoto alemão resolvemos experimentar a Pension Albert, perto do Botanická Zahrada (Jardim Botânico) e da Universidade.

Geralmente não gosto de definir hospedagem assim, no escuro. Mas simplesmente tinha esquecido de reservar qualquer coisa pela internet antes de chegar a Praga. Como estava sem um centavo em moeda local, fiquei com preguiça de sair atrás de câmbio, com a mochila pesando nas costas e resolvi experimentar a tal pensão. Embarcamos em uma mini-van dirigida por uma moça muito falante — num inglês meio trôpego — que nos levou até o local, na parte histórica de Nové Mesto (Cidade Nova).

Fachadas em Mala Strána (esq), na Praça Venceslau (centro) e na Praça da Cidade Velha (à direita): a beleza está por toda parte no Centro Histórico de Praga
Foi no trajeto até a pensão que tive a primeira visão do Centro Histórico de Praga. O coração chegou a dar uma paradinha: eram milhares de cores, numa harmonia única -- até esse dia, eu não tinha a menor ideia de houvesse tantas possibilidades de tons de amarelo como os que se distribuíam pelas fachadas, ao lado dos verdes, lilases, azuis, rosas, laranjas, vermelhos...

Como foi minha experiência na hospedagem
Esculturas na Praça Venceslau
A boa notícia sobre a Pension Albert (Na Slupi 70) é que ela fica exatamente em frente a parada Albertov das linhas 18 e 24 do tram (bonde). A má notícia é a mesma: ela fica exatamente em frente à parada do tram e o clanc-clanc do bonde nos trilhos pode ser bem chato à noite. Os preços são razoáveis, paguei 35 euros no single, em pleno verão.

Os apartamentos da Pension Albert têm uma pequena cozinha, com fogão e frigobar – meu quarto acomodaria facilmente cinco pessoas, com uma cama de casal na área principal, uma cama de solteiro numa espécie de alcova e um sofá cama no corredor largo, em frente à área da cozinha.

A Porta da Cidade Velha, torre do Século 14
Mas a manutenção da Pension Albert não é lá essas coisas: o chuveiro elétrico nem sempre funciona e, a cada banho, o quarto corre o risco de virar um afluente do Vltava, porque o ralo do boxe não dá vazão suficiente à água.  Reclamar pode ter um efeito devastador na sua popularidade com o administrador do local, um tremendo mala sem alça. Praga tem muitas opções, escolha outro lugar.

Teatro Estatal de Praga (Stavovské divadlo)
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A Europa na Fragata Surprise

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