30 de junho de 2005

Comer em Praga: muito prazer (mesmo!!!), "seu" Knedliky

A Ponte Carlos e o bairro de Novotného Lávka vistos da Ilha de  Kampa
A Ponte Carlos e o bairro de Novotného Lávka vistos da Ilha de  Kampa
Logo no meu primeiro dia em Praga, fui apresentada a uma das maiores maravilhas locais.

E não estou falando da arquitetura da cidade, que é mesmo deslumbrante, mas do knedliky, uma iguaria tcheca que vale a viagem — e que me perdoem os edifícios barrocos, medievais e art-nouveau que quase me fazem perder a cabeça, mas por um bom tempo, eu só tinha olhos (e paladar e olfato...) para essa preciosidade culinária.

O knedliky é a maior iguaria que você vai comer em Praga. São o exemplo perfeito de que a simplicidade pode ter um requinte inimitável. Descubra essa maravilha tcheca neste post:


O que é knedliky
Não vou cometer a injúria de chamar knedliky de "bolinho" — certa vez, ouvi uma paulista chamar acarajé de bolinho" e quase saí no braço.

Os knedliky são feitos de farinha de trigo com fermento (ficam mais "fofinhos" que nhoque) e, sozinhos, têm um sabor discreto. E essa é a graça: eles absorvem o molho e ficam irresistíveis.

Pra mim, knedliky é o arroz dos tchecos, na medida em que acompanha os pratos e os impede de desperdiçar o molho (e como tem molho na comida deles!). Mas arroz não tem gosto de nada, ao passo que knedliky...

Praga, República Tcheca, Ilha de Kampa
A Ilha de Kampa fica ao lado de Mala Strána (o "pequeno quarteirão). Além de comer knedliky com frutas vermelhas :) dá pra fazer passeios de barquinho por lá
Enfim, só indo lá para provar. Ainda que Praga fosse um imenso conjunto habitacional soviético, acredite, valeria a pena a viagem só pra experimentar os bichinhos. E eu já estava convencida disso só de provar knedliky salgado.

Knedliky doce
 Até que, numa bela tarde, resolvi sentar num restaurante da Ilha de Kampa, um parque muito agradável do lado Oeste da Ponte Carlos.

Só queria olhar o sol caindo sobre as fachadas de Novotného Lávka, do outro lado do Rio Vltava.

Mas resolvi pedir uma sobremesa — o bom de viajar sozinha é que, se der na telha, eu almoço duas vezes, como a sobremesa em três restaurantes diferentes ou janto às quatro da tarde, sem ninguém pra dizer que estou ficando maluca.

Enfim... fui pedir a sobremesa e lá estava ele: knedliky doce. E de frutas vermelhas!!

Praga, República Tcheca, Teatro Nacional
A vista do restaurante até que era legal, mas eu só tinha olhos para o knedliky. O edifício da esquerda é o Teatro Nacional (Národní divadlo)
Pepe Legal e Babalu tinham um cachorro chamado Snuffles que ia às nuvens, toda vez que ganhava um biscoito canino — na verdade, ele se atirava no chão, se debatia e depois saía flutuando (veja o vídeo abaixo).

Na primeira garfada nos knedliky, recheados com geleia e pedacinhos de framboesas e amoras, só não repeti Snuffles porque tive medo de ser deportada.


Comer em Praga - além do knedlikyA epifania dos knedliky doces foi vivida no  Restaurace Rybársky Klub (Clube dos Pescadores, U Sovovych Mlynu 1, Kampa).

O lugar é meio classudo, especializado em peixes — certamente, não estaria preparado para o chilique que eu quase dei por conta da espetacular sobremesa. Fingi estar extasiada com a vista (que bate um bolão) e acho que meus suspiros passaram como normais para as mesas próximas.

Praga, República Tcheca, bairro do Castelo
Terraço do restaurante eslovaco: 
não anotei o nome, mas guardei o visual
Ao knedliki salgado eu fui apresentada logo na minha primeira refeição em Praga, o almoço  no Restaurace Pod Slavínem (Svobodova 4/144. Bem pertinho da parada Albertov do tram).

Esse restaurante fica a três quadras da universidade, o que contribui para o ambiente muito simples e simpático, cheio de estudantes apressados devorando suas porções gigantescas antes de voltar para as aulas.

Almocei muitíssimo bem por inacreditáveis 6 euros e ainda levei a metade do prato para a pensão, onde ficou guardadinha na geladeira no quarto até ser devastada num ataque de fome noturna.

Para que ninguém imagine que as minhas refeições em Praga ficaram imitadas a knedliky doces e salgados, vou lembrar aqui de um almoço inesquecível, num restaurante de Nerudova  vou ficar devendo o nome, porque anotei num papelzinho qualquer e perdi.

Ficava numa linda casa do século 14 ou 15, com pequenos ambientes, poucas mesas em cada pavimento.

Escolhi, claro, o terraço do restaurante: quatro lances de uma escadinha em caracol, beeeem medieval. Lá no topo, uma vista inacreditável para o Castelo de Praga e um monte de turistas quase microscópicos, à distância, me dando tchauzinho, enquanto eu traçava uma vitela.

Praga, República Tcheca, Ponte Carlos
Ponte Carlos
 A comida era eslovaca e o dono, muito jovem, era extremamente atencioso, explicando direitinho, num inglês meio titubeante, tudo sobre os pratos.

Mas o final da refeição conseguiu ser ainda melhor, quando ele me serviu uma aguardente feita de ameixas brancas, chamada Slivovize. "É meu pai quem faz", explicou, muito orgulhoso, quando dei o primeiro gole e fiz cara de entusiasmada aprovação.

Só por isso, ganhei mais uma dose e o direito de aproveitar um fim de tarde no alto de um terraço debruçado sobre Praga, vendo o sol cair sobre os telhados, completamente encantada por essa cidade linda.

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