domingo, 8 de fevereiro de 2015

Da Piazza Venezia ao Vaticano
Roteiro para um passeio a pé por Roma


Os anjos da Ponte Sant'Angelo
Quando uma cidade se acostuma a ser capital do mundo (ou, pelo menos, do Ocidente) por cerca de um milênio, ela não consegue evitar de ser espetacular. Roma não recorre a relevos dramáticos, curvas de beira-mar nem a verdes luxuriantes, mas arrasa. Como uma Brigitte Bardot entre as cidades, ela assume suas marcas do tempo, não se enfeita nem se pinta. E derrete corações de pedra com seus encantos. Que me desculpem Paris, Rio de Janeiro, Praga e outras beldades, mas ser bonita como Roma não é pra qualquer uma.

Agora, imaginem o meu drama, tendo apenas 36 horas para rever a cidade, depois de sete anos — ainda mais com a rebordosa de um ataque de asma que resolveu me aparecer no último dia que passei em Palermo. A vantagem de estar em Roma, porém, é que não importa pra que lado a gente caminhe (e como é bom caminhar em Roma!!), vai ver encantos até dizer chega. Como eu estava hospedada em Monti, numa rua paralela à Via Nazionale, resolvi começar o reencontro com uma breve passada pelo Fórum Romano e seguir para onde meu coração mandasse.

Primeiro, uma passadinha no Fórum
O passeio acabou resultando em um roteirinho bem pessoal, misturando cartões postais incontestáveis com lugares que eu aprendi a gostar em outras visitas à cidade. Da Piazza Venezia ao Vaticano, fora lanchinhos e cafés, não gastei um eurinho sequer com ingressos e não enfrentei nenhuma fila

Neste post, compartilho com vocês o percurso de ida. A volta, do Vaticano à Fontana de Trevi, eu conto na próxima postagem. Para facilitar, dê uma olhada no mapinha abaixo. Com tanta coisa bacana para ver, no caminho, use como indicação, mas não se acanhe em fazer todos os desvios que derem na telha. Bora passear?



Piazza Venezia e Altare della Patria
Ao lado do Fórum de Trajano fica a Piazza Venezia (Praça Veneza), uma espécie de "marco zero" do turismo em Roma, cruzamento das diversas rotas de exploração das belezas da cidade. Eu tenho uma certa implicância com a área, fortemente marcada pelas memórias do  governo fascista de Benito Mussolini, que costumava proferir discursos quilométricos das janelas do Palazzo Venezia. O pobre do edifício, uma construção renascentista, antiga sede da embaixada da República de Veneza, não tem culpa de nada e hoje abriga um museu.

Talvez o que explique a minha implicância com a área seja mesmo a famosa "Máquina de Escrever", apelido cáustico dado pelos romanos ao Altar da Pátria, que fica em frente ao palácio. A monumental construção em mármore homenageia Vittorio Emanuele, primeiro rei da Itália verdadeiramente unificada e faz questão de se fazer notar.

Piazza Venezia. Ao fundo o Palazzo Venezia, famoso como palanque de Mussolini. A águia (à esquerda) era o símbolo do Senado romano
Para dar lugar ao "Bolo de Noiva" (outro apelido do monumento), foi demolido um quarteirão inteiro, com muitos edifícios medievais, e o Monte Capitilono, uma das sete colinas de Roma, ficou escondido atrás da coisa.  Mas, enfim, a vista lá de cima é bem bacana (até porque é o único lugar do centro antigo de Roma onde a gente tem certeza que não vai ver a coisa). Como a idade está me tornando menos ranzinza, fiz as primeiras fotos do monumento de toda a minha vida (ah, o que eu não faço por esta Fragata?).

Demorou, mas eu acabei
fotografando o Altar da Pátria
Colada à Piazza Venezzia está a Piazza San Marco, onde um ponto de ônibus muito movimentado quase impede a gente prestar atenção na Basílica do Século 4, dedicada a São Marcos Evangelista. Do outro lado da rua, não deixe passar batida a Ínsula Romana, que fica aos pés do Altar da Pátria, na lateral direita do monumento (para quem olha de frente para ele), já na Via del Teatro di Marcelllo. Fique de olho, porque é fácil passar direto por ela.

Os restos de uma ínsula romana. 
Ao fundo, a "máquina de escrever"
Conhecida como Insula dell'Ara Coeli, a construção do Século 2 dá uma boa ideia de como eram as habitações populares do Império Romano, equivalentes da época aos prédios de apartamento (se você lia Asterix, sabe do que estou falando). Apenas grupos agendados podem visitar a ínsula por dentro, mas do lado de fora a gente já tem uma ideia bem legal.

Aracoeli e Campidoglio
A Praça do Campidoglio, em foto de 2007
Logo depois da Ínsula Romana fica a escadaria que leva à Igreja de Santa Maria in Aracoeli, do Século 12, maravilhosa. Se você ainda não conhece, recomendo que encare os 124 degraus para ver o teto entalhado, que retrata a batalha naval de Lepanto, e o piso em mosaicos, de cair o queixo. Desta vez, fiquei só na vontade, poupando o fôlego combalido pelo tal ataque de asma, mas não perca a visita, até porque a vista de Roma, lá de cima, é deslumbrante.

A escadaria de Aracoeli e a Cordonata, acesso ao Camplidoglio
Ao lado da escadaria Aracoeli está a elegante Cordonata, a rampa que dá acesso à Praça do Campidoglio, um encanto renascentista saído da prancheta de Michelangelo. O Monte Campidoglio foi o centro espiritual da Roma Antiga, sede dos templos dedicados a Júpiter, Juno (onde hoje está Aracoeli) e Minerva.

Na Idade Média, abrigou cortes de Justiça e outras instituições do poder secular. É uma visita obrigatória em Roma, mas venha com tempo para explorar os fantásticos Museus Capitolinos, instalados nos palácios erguidos aqui no Século 16.

Oceano, no átrio do Palazzo Nuovo (esq), e Pólux, o gêmeo imortal de Castor na lenda grega
Museus Capitolinos 
De terça a domingo, das 9h às 20 (entre 24/12 e 31/12, fecham às 14h). A entrada custa € 15 e o audioguia, € 5. Embora a peça mais famosa do acervo seja a escultura em bronze da Loba Romana, a coleção toda merece ser vista com atenção, especialmente as esculturas da Antiguidade.

Logo na entrada do Palazzo Nuovo, repare que primor é a estátua do deus Oceano, em mármore. E não perca o afresco retratando o combate entre os Horácios (representantes de Roma), contra os Curiácios (representantes de Alba Longa), uma narrativa meio mitológica, meio histórica, sobre as origens do poderio da cidade.

Teatro di Marcello e o Ghetto
Templo de Apolo Sosiano
Seguindo pela Via del Teatro di Marcello, logo adiante da Cordonata, à sua direita, está a área do antigo Circo Flamínio, que não chegou aos nossos dias, substituído pelo Teatro di Marcello, obra do imperador Augusto (Século 1 a.C.). Contemporâneo do Circo é o Templo de Apolo Sosiano, erguido no Século 5 a.C., durante uma epidemia (uma das "faces" de Apolo é ser deus da cura). Restam três colunas do templo e um pedaço do friso.

A área a Leste do Teatro di Marcello é o antigo Ghetto romano, instituído como área de residência obrigatória dos judeus da cidade durante a Idade Média. É o lugar perfeito para provar uma das maiores maravilhas de Roma, os carcioffi alla giudia (alcachofras à moda judaica), fritinhas e delicadíssimas. Há diversos restaurantes na área que servem a iguaria, como os tradicionalíssimos Sora Margherita e Da Gigetto. A referência é a vizinhança do Pórtico de Ottavia, dedicado à irmã do imperador Augusto (e mãe do Marcello do teatro).

Teatro di Marcello- Diariamente, das 9h às 18h, entrada gratuita.

Teatro di Marcello
A Boca da Verdade
Piazza della Bocca della Verità, à esquerda, a torre da Igreja de Snata Maria in Cosmedin. À direita, o Templo de Ércole Vincitore
No meu passeio, porém, estava muito cedo para almoçar no Ghetto (programa que na minha temporada de 2007 em Roma foi quase que diário) e eu preferi seguir adiante pela Via del Teatro di Marcelllo para mais uma das minhas igrejas queridinhas em Roma, Santa Maria in Cosmedin (que ganhou um post só pra ela). Ela fica na área do antigo Fórum Boário, uma baixada entre as colinas do Campidoglio e do Aventino, diante do Tibre. Na Antiguidade, era uma região dedicada ao comércio de alimentos e de gado.

O piso em mosaicos
 de Cosmedin
Hoje o local abriga um pequeno jardim onde estão duas construções romanas muito bem preservadas, os templos de Ercole Vincitore (Hércules Vencedor), do Século 2 a.C., e o de Portuno, divindade protetora dos portos (não esqueça que esse pedaço do Tibre também era uma área de pescadores), do Século 1 a.C.

O jardim foi batizado de Piazza della Bocca della Verità (Praça da Boca da Verdade) em alusão à famosa máscara de mármore que, diz a lenda, come a mão dos mentirosos. Ela adorna o adro de Santa Maria in Cosmedin e atrai uma fila permanente de visitantes que posam para fotos com a mão enfiada na boca da máscara  cena celebrizada por Gregory Peck no filme Roman Holiday, de 1953. (chamado de A Princesa e o Plebeu, no Brasil, e de Férias Romanas, em Portugal)

Quando você for, depois que colocar sua sinceridade à prova desafiando a goela do mascherone, não deixe de entrar na igreja, do Século 6, para ver seus afrescos e mosaicos belíssimos e o requintado piso em mármore.

Santa Maria in Cosmedin - Piazza della Bocca della Verità nº 18Diariamente, das 10h às 17 horas.

Ilha Tiberina
Tibre e Via Giulia
Saindo de Santa Maria in Cosmedin, eu segui na direção do Tibre (Tevere), onde adoro caminhar e tirar milhares de fotos da fofa Ilha Tiberina e da Ponte Sisto, a mais antiga, do Século 15.

O rio hoje talvez não tenha em Roma a mesma presença cênica que têm o Sena, em Paris, ou o Tâmisa, em Londres. Mas não se engane, esse curso d’água que vem lá da Emília-Romanha é o berço da cidade, em cujas proximidades etruscos e latinos estabeleceram seus assentamentos primitivos. Foi também um importante canal de comunicação, como saída para o mar.

Um passeio à beira do Tibre pode não oferecer visões para as principais maravilhas de Roma, mas será uma caminhada sossegada, emoldurada pelas árvores, sem multidões. Dependendo do horário, nem o trânsito no Lungotevere (as avenidas que acompanham o curso do rio) vai incomodar com seus rugidos.
 
O Vicolo del Polverone e a Arcada Farnese
Eu até pensei em atravessar o rio e ir passear em Trastevere, onde passei uma inesquecível semana romana, em 2007. Mas a cúpula da Basílica de São Pedro, que começava a despontar no horizonte, me fez apontar a bússola em sua direção.

Quase em frente à Ponte Sisto, atravessei a pequena arcada do Vicolo del Polverone, dobrei à direita e lá fui eu caminhar pela Renascença, pela adorável Via Giulia, que considero a mais bonita de Roma. Já escrevi um post detalhado sobre esta rua, projeto urbanístico encomendado pelo Papa Júlio II (o Cardeal della Rovere, que os viciados na série de TV Os Bórgias conhecem bem como o grande inimigo da família de Lucrécia).

Encantos da Via Giulia
O projeto da Via Gulia, no Século 16, era revolucionário: uma artéria cortada em linha reta, que logo se encheu de palácios aristocráticos. Ao longo de um quilômetro, entre a Ponte Sisto e a igreja de San Giovanni dei Fiorentini, a rua é uma sucessão de belezas, como a Fontana del Mascherone, a Arcada Farnese, portadas elaboradas que deixam à mostra pátios encantadores. Passeio pra fazer com calma, sem deixar de explorar as ruazinhas transversais.

Ponte Vittorio Emanuelle II
Sant'Angelo e Praça de São Pedro
No final da Via Giulia, uma curva à direita acompanha o curso do Tibre e deixa a gente de cara para cúpula da Basílica de São Pedro. Mas ainda não é hora de cortar caminho e seguir direto para os domínios do Papa Francisco. Um pequeno desvio nos leva ao caminho mais bonito até o Vaticano, pela monumental Ponte Sant'Angelo, idealizada por Bernini e adornada pelas mui fotogênicas estátuas de anjos, um dos maiores cartões postais de Roma.

Antes, você vai passar pela Ponte Vittorio Emauelle II, obra da virada do Século 20, com suas vitórias aladas em bronze e esculturas celebrando a grandeza da Itália Unificada. Logo adiante está a Ponte Sant'Angelo, da qual gosto de me aproximar bem devagar, enquadrando cada ângulo na câmera fotográfica. Esse ponto do Tibre é usado para a travessia entre as duas margens desde o Século 6, mas as feições atuais da ponte são um milênio mais jovens.

A Ponte e o Castelo de Sant'Angelo. Dá para acreditar que essas fotos foram tiradas em um intervalo de menos de duas horas. Depois que passei pela praça dele, São Pedro mandou ligar o sol :)
O Castelo de Sant'Angelo também tem origens muito antigas. O local abrigou a tumba do imperador Adriano, no Século 2. Convertido em fortaleza, pela posição estratégica que ocupa. No Século 14, começou a ganhar as feições que tem hoje e  e tornou-se fundamental no sistema de defesa dos domínios papais. hoje abriga um museu bem bacana. A vista do Bastião de San Marco, no alto do castelo, também é maravilhosa.

Castel Sant'Angelo -  Lungotevere Castello nº 50. De terça a domingo, das 9h às 19h30h. A entrada custa €7.

Via della Concilliazione,
porta de entrada para a Praça de São Pedro

A Basílica de São Pedro
À esquerda do castelo, a Via della Concilliazione é a porta de entrada do Vaticano, fervilhando de lojinhas de suvenir, restaurantes pega-turistas e ônibus de excursão. Os antigos palácios que ladeiam suas três pistas também abrigam uma série de embaixadas e representações diplomáticas junto à Santa Sé. A Embaixada do Brasil, por exemplo, fica em um belo edifício pintado no mais romano dos tons de ocre.

Na entrada da Praça de São Pedro, diante da gigantesca Basílica, é hora de encontrar um batente na colunata que circunda a praça, dar  um descanso para os pés, antes de pegar a fila do detetor de metais para entrar na igreja. Por enquanto eu fico por aqui, sentadinha, olhando a maravilha de praça imaginada por Michelangelo, No próximo post eu falo sobre o caminho de volta, que me levou até a Fontana de Trevi.

Curtiu o passeio?

Detalhes da colunata que contorna a Praça de São Pedro, desenhada por Bernini
Sede da Embaixada
do Brasil no Vaticano
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2 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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