segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O que fazer em Florença

Uma tarde de novembro diante do Rio Arno
Poucos lugares no mundo exercem tanto fascínio sobre os viajantes quanto Florença. Ela está nos filmes, nos livros e na fantasia de quase todo mundo, inspirando sonhos, planos e expectativas. E a cidade corresponde, generosamente, a tudo que se antecipa dela: há tesouros por toda parte, belezas indescritíveis, referências que nos acompanharam a vida toda e que, de repente, estão ali, de cara lavada, diante de nós. Isso é ótimo, mas também pode transformar a visita numa angústia permanente de querer “ver tudo”.

Minha primeira passagem por aqui foi uma experiência contraditória. Amei tudo o que vi, mas fui embora com a certeza de que dois dias são muito pouco tempo para Florença. A frustração pelo que não vi empanava um pouco as minhas memórias. Pra isso não acontecer com você, listei aqui alguns programinhas básicos de Florença e já vou avisando: essa não é uma cidade pra dar "só uma passadinha".


O cenário é lindo mesmo na chuva
Na segunda vez que estive em Florença, dediquei cinco dias inteirinhos para um lento e desestressado tête-à-tête com a cidade. Revi as grandes atrações, mas também pude andar à toa, descobrindo ruas anônimas, fachadas e pátios encantadores, ainda que sem pedigree — se é que alguma coisa nessa cidade cheia de história pode ser enquadrada nessa categoria.

Num lugar tão cheio de maravilhas, é essencial alternar os momentos mais tcharaaaaan com programinhas despretensiosos, para impedir que o excesso de beleza e informação sature o olhar e a sensibilidade.

O Batistério, em primeiro plano, e o Duomo:
nunca uma cacofonia de linhas e detalhes foi tão harmônica
Acho que cada visitante merece descobrir Florença ao seu modo. Mas como algumas dicas sempre são importantes, fiz uma listinha de coisas que curti por lá. Use como inspiração, mas não deixe de criar suas próprias trilhas pela cidade.

Bem pertinho das principais atrações, a Piazza San Marco é sempre um lugar sossegado para uma pausa

Passeios
Que tal uma bike?
Pedalar
Um dos meus melhores momentos em Florença foi um passeio de bicicleta, saindo das imediações de San Lorenzo, passando pela Piazza della Signoria, atravessando para Oltrarno pela Ponte delle Grazie e percorrendo a beira do Arno, para voltar ao centro de Florença por Santa Croce. Pedalando e pensando na vida, sem a obrigação de "absorver", "decorar", sem consciência de estar contemplando tanta beleza, descobri um encanto ainda maior.

Explorar Otrarno
"O outro lado" do Rio Arno, acessível por diversas pontes, entre elas a famosa Ponte Vecchio, rende ótimas caminhadas. Além do Palazzo Pitti e dos Jardins de Boboli, essa parte da cidade tem inúmeras ladeirinhas e becos cheios de fachadas lindas.

Ensaio para a Festa degli Omaggi em Santa Croce
Procurar a "vida normal" em Santa Croce
Essa foi uma descoberta que fiz na minha visita anterior à cidade: pertinho da área da Galleria degli Uffizi, que está sempre lotada, a região em torno da Basílica de Santa Croce tem um astral muito menos turístico, apesar da magnífica igreja, que abriga nada menos que os túmulos de Michelangelo, Galileo Galilei, Maquiavel e Rossini. A marca dessa área, porém, são seus mercados, feiras.


Numa das minhas visitas à praça, dei de cara com um grupo ensaiando para a Festa degli Omaggi ("Festa da Homenagem"), realizada na época do Natal, um cortejo que celebra a República Florentina. Em trajes medievais, o grupo fazia malabarismos com bandeiras, ao ritmo dos tambores, numa cena que a gente associa ao Pálio de Siena.

Mesmo em novembro, a oferta de frutas frescas nas bancas dos mercadinhos lembra um cenário tropical. E sempre haverá uma ou muitas mammas abastecendo a despensa por lá, como as que me socorreram, aflitas, quando o retrovisor de uma van tirou tinta da minha orelha esquerda — o astral era tão relaxado que eu esqueci de prestar atenção aos carros.

Só não deixe de entrar na Basílica de Santa Croce para render homenagem aos ilustres italianos sepultados lá e para ver o interior gótico — impossível não se comover com a Anunciação, de Donatello, principal atração da igreja.

Saiba mais sobre esta basílica e a igualmente linda Santa Maria Novella neste post:
A igrejas de Santa Croce e Santa Maria Novella

A Basílica de Santissima Annunciata
Piazza Santissima Annunciata
Atrás da Accademia (casa do Davi de Michelangelo), essa praça tem uma bela basílica do Século 13, projetada por Michelozzo, que tem forte papel na vida espiritual da cidade. A entrada é gratuita e juro que você não vai se arrepender da visita. Ao lado da igreja fica o interessante Ospedali degli Innocenti, um orfanato do Século XV projetado por Bruneleschi. Na fachada, relevos de terracota, em fundo azul, mostram umas criancinhas que eu sempre achei meio macabras, enroladas em cueiros, à moda da época.

Mais detalhes: O que ver em Florença: 3 igrejas lindas com entrada grátis

Ospedali degli Innocenti
Ver o pôr do sol
Essa é a hora mágica de Florença, quando a cidade fica toda dourada e parece uma miragem. Um dos melhores camarotes da cidade para ver esse espetáculo é a cabeceira da Ponte Santa Trinitá. Ela é a primeira a Leste de Ponte Vecchio e oferece uma vista privilegiada para a sua colega mais famosa. De Oltrano, o olhar fica mais alinhado com a caída do sol, que vai fazendo Ponte Vecchio mudar de cor. Acredite, é pura sedução.

Florença ao pôr do sol, vista da Piazzale Michelangelo
Outro pôr do sol matador é o visto da Piazzale Michelangelo. A praça fica no alto da colina que domina Oltrarno. Tem uma réplica do Davi, centenas de vendedores de bugigangas e um estacionamento apinhado de ônibus de turismo. Não ligue.

Escolha um cantinho na balaustrada e delicie-se com a vista lá em baixo: a cidade inteirinha, o Arno, as pontes, os campanários e as cúpulas. GoogleEarth ao vivo. Pode ter sido coincidência, mas nas duas vezes que fui a Florença havia uma bruma insistente que subia do rio e, no cair da tarde, dava um tom ainda mais mágico à paisagem vista lá de cima.

O céu de Florença visto do terraço da Uffizi, ao cair do dia...
Há três maneiras de chegar a Piazzale Michelangelo. A chata é ir com ônibus de excursão. A penosa é subir a pé. Escolha a prática: em Oltrarno, pegue um dos muitos ônibus que passam pela beira do rio e sobem até lá. Há também as linhas de ônibus 12 e 13, que Partem da Estação de trens Santa Maria Novella. Os horários e itinerários também podem ser consultados no site da ATAF.

Por fim, uma senhora mesa de pista para ver a tarde cair é o terraço da Galleria degli Uffizi. Mais perto das maravilhas, misturado a elas, o olhar da gente fica mais íntimo e mais cúmplice da luz que vai tingindo a cidade. Lindo de fazer o coração dar uma paradinha...

... a última luz da tarde caindo sobre o Duomo e e a torre do Palazzo Vecchio dourada pelo crepúsculo

Museus


Machiavel recebe os visitantes na entrada da Uffizzi


Galleria degli Uffizi 
Nem sei se esse é o maior, mas, com certeza é o mais icônico dos acervos de telas renascentistas do planeta. É daqueles lugares que a gente tem que ir ao menos uma vez na vida. Por isso mesmo, não é um lugar fácil de visitar.

Em pleno mês de novembro, baixa temporada, a fila na entrada era programa para pelo menos duas horas de espera. Lá dentro, sempre haverá hordas de visitantes — nem todos comovidos com a beleza sublime das obras expostas.

Tenha um pouquinho de paciência com as turmas barulhentas, com os guias de excursão que "monopolizam" algumas salas com longas explicações para seu grupo (não sei você, mas o barulho afeta terrivelmente o meu prazer da contemplação).

Mas não se desanime. Monte uma estratégia de sobrevivência:

Compre o ingresso com hora marcada e escolha os primeiros horários, para entrar logo na abertura do museu. A entrada com hora marcada pode representar a economia de umas duas horas de fila, pelo menos.

Mais detalhes: Museus de Florença - Uffizi e Accademia

O reflexo da cidade invade a Galeria degli Uffizi
Se você também se incomoda com o burburinho dos grupos, um Ipod poderá ser o seu oásis auditivo (embora não sejam contemporâneos das obras em exposição, Vivaldi e Mozart combinam maravilhosamente. E Chet Baker e John Coltrane não têm contraindicações nunca).

Divida a visita com paradas estratégicas no terraço de Uffizi, para "limpar" o olhar e evitar aquela saturação tão característica de visitas mais longas a museus. Tenho certeza que ninguém fica imune à sensação de ter visto a essência da beleza, após uma visita à Galleria degli Uffizi.

Accademia
Aqui, muita atenção: nada de pular essa visita porque já viu a réplica do Davi de Michelangelo na Piazza della Signoria. Eu gosto muito das estátuas expostas na Loggia dei Lanzi, na famosa praça (sou louca pelo Rapto das Sabinas, de Giambologna), mas confesso que acho o lugar um pouco saturado — eu ia dizer "poluído", mas ia levar tomatadas.

O Davi de verdade, exposto na Accademia, paira enorme, soberbo, acachapante, no salão principal do museu. É uma visão celestial, uma emoção inesquecível.

O Rapto das Sabinas, na Loggia dei Lanzi
Mais atenção ainda: embora espetacular, o Davi não é a única maravilha da Accademia. Lá também estão expostos os Quattro Prigioni, também de Michelangelo e igualmente arrebatadores. E o segundo andar do museu, sem as multidões suspirando pelo Davi, é um pequeno paraíso florentino: tem uma coleção de pinturas do Século XIV, além da coleção de ícones russos... Uma festa quase privê, pois pouca gente se dá ao trabalho de subir as escadas.

Igrejas

Santa Maria Novella
Tem afrescos apaixonantes e zero de fila. Preste atenção à Santíssima Trindade, de Masaccio, uma Vida de João Batista, de Ghirlandaio e, na Capela Strozzi, ilustrações inspiradas na Divina Comédia, de Dante.

Igreja de San Lorenzo

San Lorenzo
Nada mais emocionante que uma visita às Cappelle Medicee (com fila bem camarada). São três capelas construídas pela poderosa família Medici. A mais linda é a Capela do Príncipe, com as paredes em mosaico de pietre dure — mármores nas cores mais impressionantes. Na cripta, as esculturas em mármore branquinho buscam luz não sei aonde para iluminarem tudo ao redor.

Museo delle Cappelle Medicee - Chiesa di San Lorenzo, Piazza Madonna degli Aldobrandini, 6, de segunda a domingo, das 8h15 às 13h50. Entrada € 6.

Detalhe da fachada do Duomo
Duomo
Sempre sitiado por multidões, esse cartão postal maior de Florença é realmente um espetáculo, e precisa ser visto muitas vezes, nas várias horas do dia (o movimento do sol altera a percepção que se tem de sua intrincada decoração exterior). Oficialmente, é a Basílica de Santa Maria del Fiore, talvez uma das igrejas mais de grife do planeta (cúpula de Bruneleschi, Campanário de Giotto, afrescos de Vazzari, coro de Donatello...).

Saiba mais neste post: O Duomo (Catedral) e o Batistério

Mais sobre Florença 



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Um comentário:

  1. Excelente artigo sobre essa cidade maravilhosa - Florença! Excelentes fotos também - Parabéns :)

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