domingo, 16 de novembro de 2014

Pelos mercados de Londres

Grafite em Brick Lane
Curte feirinhas descoladas e mercados de rua? Então, Londres é o seu lugar. A tradição das feiras e mercados se perde lá nas origens da cidade e segue viva e vibrante. Aos sábados e domingos, essas reuniões animadíssimas são programas deliciosos para quem está de passagem pela cidade e quer garimpar objetos divertidos, roupas e acessórios estilosos e provar sabores de todas as partes do mundo.

Alguns mercados de Londres se tornaram lugares míticos, onde o encontro de tribos contribuiu para forjar códigos e culturas que marcaram o Século 20. Portobello Road, por exemplo, é indissociável da memória da Swinging London dos Anos 60, época em que a capital britânica foi a Meca dos alternativos e descolados de todo o planeta. Pouco depois, foi a vez de Camden Town acolher e nutrir o movimento punk. Hoje, a bola da vez parece ser Brick Lane, a velha feira do Século 17 catapultada a ponto de encontro de uma moçada muito jovem e animada.

Camden Town, berço do movimento punk...
... e Notting Hill
Essas "feiras mitológicas" têm em comum o fato de pertencerem a bairros menos "elegantes", para onde os aluguéis baratos atraíram estudantes, artistas e boêmios que viam nos mercados tradicionais, mantidos pelas comunidade originais da área, um bom lugar para vender seus quadros, seus discos usados ou artesanato e, ao mesmo tempo, onde se podia comprar a moda que essa galera estava ajudando a forjar. Daí a virar point de uma tribo era um pulo.

Nesta passagem por Londres, batemos o ponto em Portobello, Camden e Brick Lane e nos divertimos um bocado. Veja como foi:

Portobello Road
O cinema cantado por Caetano também
 continua "alive, vivo, muito vivo"
A primeira vez que ouvi falar de Portobello Road foi ouvindo um fantástico disco que Caetano Veloso gravou no exílio, em Londres. Os acordes de Transa pareciam um vendaval arejando os horizontes limitados e tacanhas do Brasil sob a ditadura, naquele distante ano de 1972. O LP atravessou o Atlântico trazendo notícias de um lugar onde se podia experimentar, inventar e rejeitar os padrões herdados das gerações anteriores. Ouvir aquele disco era uma das poucas transgressões ao meu alcance, naquela época. .

"Walk down Portobello Road to the sound of Reggae, I'm alive", cantava Caetano na espetacular canção Nine out of Ten. Lembro da família inteira reunida na varanda para ouvir aquele baixo de Moacir Albuquerque pulsando, cheio de vida — cada um tinha uma teoria para o que poderia ser o significado da palavra Reggae (ainda ia levar uma meia década pra o Brasil descobrir o som da Jamaica)

Com ditadura e tudo, aquele foi um grande verão. Eu ia fazer 11 anos e não via a hora de me mudar para a Swinging London (a "capital" da juventude que parecia estar mudando o mundo) e  provar a minha fatia daquela vida diferente, desafiadora e que me parecia tão mais feliz.

A muvuca de Portobello Road: 
ainda bem que eu fui treinada na Praça Castro Alves

Essas memórias sempre me fizeram resistir a uma visita ao Mercado de Portobello Road (aliás, Londres foi uma cidade que eu "evitei", nas minhas primeiras viagens à Europa). Afinal, o tempo passou, a Contracultura foi devidamente absorvida pela indústria cultural e muitos de seus ícones abraçaram sem pudor as formas de vida mais convencional.

Eu não via muita graça em procurar os fantasmas de uma época que eu quis tanto viver (e não pude),  no meio da muvuca de turistas que andam por lá muito mais interessados nas referências de um filme que eu nem curto tanto (Um lugar chamado Notting Hill, de 1999).

Mas, enfim, eu me rendi. Caminhando da estação de metrô até o Mercado, em uma manhã de agosto, meu primeiro contato com o lugar foi o grito decepcionado da adolescente italiana, que foi procurar Hugh Grant e encontrou um aperto digno da velha Praça Castro Alves numa Terça-Feira de Carnaval: "É isso que é Notting Hill?", lamentava a menina, agarrando a mão da mãe para não ser levada no torvelinho.

Nem conto pra vocês como essa batatinha em espiral 
e esse crepe de Nutella com morango estavam gostosos
A muvuca, realmente, impressiona. É difícil caminhar pela rua (que já não é das mais largas) sitiada por barracas permanentemente acossadas por turistas. Garimpar alguma peça interessante é tarefa para as mentes mais zen. Eu estava mais interessada em reconhecer velhas referências, como o Electric Cinema no número 191 de Portobello Road, citado na canção de Caetano. Inaugurado em 1910 (um dos mais antigos da Inglaterra), ele está "alive, vivo, muito vivo" depois de enfrentar um período de decadência que levou a seu fechamento, nos Anos 90.

Bom também é beliscar as comidinhas oferecidas por toda parte. As batatas fritas cortadas em espiral, sequinhas e crocantes,  o crepe de morango com Nutella... Depois de perambular entre as barracas, é uma delícia fugir para as ruas laterais e namorar as charmosas fachadas de Notting Hill, com suas portas e janelas coloridas, e aproveitar os muitos cafés simpáticos dos arredores, como o Biscuiteers, com seus bolos, biscoitos e cupcakes tão lindos que a gente quase perde a coragem de mordê-los.


Informações práticas
Portobello Road Market 
Horário
O mercado de rua rola aos sábados, a partir das 8h. As lojas e antiquários abrem ao longo da semana.

Onde/como chegar
Portobello Road fica no bairro de Notting Hill e o melhor jeito de chegar é de metrô. As estações mais próximas são Notting Hill Gate (linhas Central-vermelha, Circle-amarela ou District-verde) ou Ladbroke Grove (linhas Circle ou Hammersmith & City- rosa).

O que tem para ver/fazer
A parte mais famosa do mercado é dedicada a antiguidades, mas também há setores dedicados à comida e às roupas. O melhor é caminhar à toa, pois acho que só alguém muito zen consegue garimpar alguma coisa no meio daquela muvuca. Relaxe e divirta-se com a fauna que circula por lá. E não esqueça de fugir para as ruas laterais e paralelas para ver as famosas fachadas do bairro de Notting Hill.


Namorar as fachadas de Notting Hill também é parte da festa

Camden Town
Cada pedacinho de Camden Town tem seu próprio mercado
Taí outro lugar cheio de referências, especialmente pra quem teve o topete de jurar que a música tinha acabado e que ninguém jamais faria nada à altura de Never Mind the Bollocks, avassalador LP lançado em 1975 pela banda Sex Pistols — eu era uma pirralha muito abusada e cheia de opinião.

Na segunda metade dos Anos 70, Camden era o lugar, o lar da cultura punk, onde se forjavam o visual, a atitude e a sonoridade de uma tribo que avisava ao capitalismo que aquela prosperidade do pós-guerra já não estava chegando para todos.

A muvuca de sábado em Camden Lock
Hoje Camden Town é quase uma Babel de mercados. Cada pedaço do bairro tem o seu (o de Inverness Street reivindica o posto de "o original") e aos sábados o bairro flerta com o pandemônio. São turistas ávidos por suvenires, moradores da área curtindo o movimento e variadas tribos de gente muito jovem, apenas a fim de uma cerveja e umas risadas. Rola todo tipo de comércio: tattoo, camisetas, acessórios com taxinhas e correntes (qualquer um pode sair de lá fantasiado de punk), roupas de couro, coturnos...

Camden Lock é uma espécie de ONU das barraquinhas
 de comida, só que com mais países representados :)
E comida. Muita comida, de todos os cantos do mundo. A feirinha em torno de Camden Lock (a eclusa do Regent's Canal onde os barcos que vêm de Little Venice fazem o ponto final) é uma espécie de ONU da comida de rua. Eu não contei, mas aposto que lá tem mais países representados que a veneranda instituição. Daqueles lugares onde a gente engorda só de respirar os vapores carregados de condimentos latinos, asiáticos, africanos e não identificáveis.

Camden: fachadas extravagantes e o chá do Chapeleiro Maluco

Informações práticas

Horário
Diariamente, das 10h às 18 horas. Mas o grande dia é sábado, quando as ruas do bairro fervem de gente, as barracas tomam as calçadas e a beira da eclusa vira uma festa.

Onde/como chegar
Vai a Camden? o metrô de deixa na cara do gol
Nesta última passagem por lá, fiquei pasma com a fila (!!) para entrar na estação de metrô de Camden Town, na hora de ir embora. Funcionários do Tube, auxiliados por um policial, tentavam organizar a bagunça e impedir que a multidão se esmagasse a caminho da plataforma. 

Estou falando isso para dizer que que, embora o metrô, em tese, seja sempre o melhor jeito de se deslocar em uma cidade grande, no caso de Camdem em um sábado de verão ele exigirá nervos de aço do visitante. Neste site aqui tem uma lista de ônibus que passam pelo bairro :)

A fila na estação de metrô de Camden
Se você quer chegar lá de um jeito gostoso e relaxado, pegue o metrô para Little Venice e, de lá, pegue o barco que desce o Regent's Canal até Camden Lock. Vai custar mais caro que o ônibus, mas é uma delícia de passeio. 

O que tem para ver/fazer
Se seu barato não é fazer piercing nem tatuagem, compre uma camiseta (eu achei uma do Grande Lebowski que é o máximo), experimente comidinhas do mundo inteiro e pare para tomar uma cerveja à beira da eclusa. Com paciência, dá para encontrar bons casacos de couro de segunda mão. Mas, se eu fosse você, esqueceria as compras e cairia de cabeça na farra :)

Camden Lock: uma cervejinha à beira d'água vai bem
Brick Lane
Placas bilíngues no coração da comunidade bengali
O mercado de rua e a presença de imigrantes são duas tradições muito antigas em Brick Lane. Foi a comunidade judaica quem começou com a venda de produtos na rua, aos domingos, ainda no Século 18. Na mesma época, a emergente indústria têxtil instalada nas redondezas passou a abastecer as barracas do mercado, ajudando a consolidar o costume. 

Hoje, Brick Lane é o coração da comunidade bengali em Londres, como atestam as placas bilíngues por toda a área e a profusão de restaurantes típicos.

Pena de pavão de Krishna, maravilha...
A velha "alameda dos tijolos" ganhou seu nome não das fachadas que exibe, mas da produção de tijolos que ajudou a sustentar a economia local, no início da ocupação da área. Essas feições fabris hoje parecem sitiadas por uma arquitetura arrojada que cada vez mais se espalha pela área de Spitalfields.

O contraste tem tudo a ver: em Brick Lane, as tribos mais descoladas circulam totalmente à vontade e de braços dados com senhores barbudos que vestem os tradicionais lunghi e punjabi de origem bengali


Brick Lane também tem sua Babel culinária
Se sua ideia é ver onde as tribos mais contemporâneas de Londres se encontram no domingo, Brick Lane é o lugar. É uma tremenda muvuca, mas é bem divertido. O mercado tem a clássica oferta de comida do mundo inteiro, muitos brechós e gente muito jovem circulando. Aproveite e dê um pulo no vizinho Mercado de Spitalfields, que tem um astral bem semelhante.

Brick Lane

Não é "Alameda dos Tijolos" à toa...
Informações práticas
Mercados de Brick Lane e Spitalfields

Horário
O Mercado de Brick Lane funciona aos domingos, das 9h às 17h. Para ver só as galerias de arte, lojas e restaurantes, vá durante a semana, em horário comercial.


Onde/Como chegar
Brick Lane é uma rua na região de Shoreditch. A estação de metrô mais próxima do mercado é Aldgate East (Linhas Circle - amarela, District - verde e Hammersmith & City - rosa). Nós chegamos pela Estação de Liverpool Street, o que exigiu uma caminhada de uns 20 minutos por Spitalfields e Saint Giles. 

Estação de Liverpool Street
Essa região tem uma história interessante. No Século 18, transformou-se em uma região de cortiços (The Roockery), onde vivam os deserdados do início da Revolução Industrial. Hoje, uma arquitetura ousada convida a muitos cliques da câmera fotográfica. 

Engolfada pelos gigantes de vidro e alumínio, 
a arquitetura original da região ainda resiste

O que tem para ver/fazer
Além de desafiar as papilas gustativas nas "Casas de Curry", como se autointitulam os restaurantes da área, dá para provar sabores do mundo inteiro nas barraquinhas do Mercado. Bom lugar para garimpar peças de roupa descoladas nos muitos brechós e banquinhas de jovens designers.

As fachadas de St Giles sempre têm um toque de ousadia
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2 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Boia – Natalie

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